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Acordei sozinho. Pela janela dava para perceber que a manhã já tinha sido perdida. O calor era forte. A vontade de levantar, muito fraca. Mas era preciso. O dia, ou o que restava dele, estava ali, me esperando, louco para ser consumido em grandes doses de vida. E eu até já me sentia melhor. Mais animado. Época de férias é um tormento. A gente nunca sabe o que fazer. E o pior é que o motivo da dúvida não é o excesso, mas sim a ausência de opções. Tudo bem. Vamos pular para a próxima cena. Mas nada de fusões ou fades. Corte seco. Câmera frontal. Super close e imagem se abrindo. Já estou quase me reconhecendo. Sim, sou eu, não resta dúvida. Estou sentado no sofá. A câmera roda em trilho. Cento e oitenta graus são o suficiente para mostrar o que faço. Vejo televisão. A primeira, a mais fácil, a mais simples, a mais atraente das opções que nos restam quando estamos de férias. Não estou muito bem na tela. Pareço ainda dormir. Mas de olhos bem abertos. Não é impressionante o poder de fascínio da telinha? Basta apertar um botão e pronto. Ficamos lá, absortos. Totalmente envolvidos em um mundo novo. Maravilhoso. Um lugar onde os felizes nos alegram, os realizados nos saciam, os heróis nos vingam, os amantes nos inspiram. Uma caixa que distancia a miséria, faz a violência parecer ficção e a política ser assunto dos outros. Mas peraí. Pára tudo. Vamos mudar o foco. Troca a cena. Câmera sai da minha subjetiva e vai para a subjetiva da tela. Será que é a televisão que aliena ou sou eu que me alieno em frente à televisão? Outro dia ouvi alguém dizer que as crianças de hoje são educadas pela TV e pelo Vídeo Game. Mas a culpa é da TV e do vídeo game ou dos pais que deixam seus filhos tempo demais junto a essas maravilhas do tempo moderno? Até quando vamos ficar nos enganando? Até quando viveremos neste mundo fantasioso onde a vida não passa de um filme? A vida não tem pausa, nem dá pra acelerar, retroceder ou colocar em slow motion. Você não é o Brad Pitt ou a Julia Roberts, seu pai não é o Sean Conery, sua mãe não é a Vera ficher e o seu carro não tem nada a ver com aquele que o Pierce Brosnam usou na última aventura do 007. Você é o ator principal da sua vida. E você sente dor, sente saudades, sangra, fica doente e chora. De verdade. Só você pode desempenhar o papel da sua vida. Não existem dublês na vida real. Outro dia participei de uma palestra onde o tema era "A influência dos meios de comunicação na juventude". Fiz questão de sair de lá deixando claro que a proposição estava invertida. Temos que discutir sobre a influência do jovem nos meios de comunicação. Sim, porque influenciáveis, todos nós somos. Mas será que estamos influenciando alguém? Ser influenciado é fácil. Basta acordar, ligar a televisão, ver a verdade que eles querem mostrar e balançar a cabeça como sinal de apoio ou de repúdio. Influenciar é que são elas. Congela a imagem. Dê cá essa câmera que agora quem vai filmar sou eu. Não pode existir um diretor melhor para escolher as cenas da minha vida. Para influenciar, não basta ficar olhando, lendo ou ouvindo. Para influenciar, é necessário construir dentro de si um forte espírito crítico. Tem que questionar. Não pode receber tudo mastigado. Quem te oferece soluções prontas, ou está te chamando de burro, ou quer te dominar. E não tem terceira alternativa. Não precisa desligar a TV ou o rádio. Não precisa fechar o jornal ou a revista. Temos que mudar o canal. Temos que virar a página. Enxergar de outro jeito. Entender como é que se faz e por que é que se faz daquele jeito. Se a gente ficar sempre na platéia do filme em que vivemos, jamais teremos vontade própria. E sem vontade própria, jamais encontraremos Deus. E sem Deus, não conseguiremos fazer nenhum grande filme. Ele já arrumou o cenário e apontou um caminho para um roteiro maravilhoso. Só nos resta assumir a posição de ator e viver. Agora me permitam; câmera no teto, estilo Alfred Hitchicock. Pego um dos sete controles que povoam a mesinha de centro, aperto um botão e saio de cena. Tenho muito o que fazer. Tenho muito o que viver. Até a próxima.
Mzinho!
Publicado pela Arquidiocese de Salvador
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