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CARDEAL D. EUSÉBIO OSCAR SCHEID - Arcebispo da Arquidiocese do Rio de Janeiro
Com esse título pretendo descrever a situação psicológica dos que, por essa época, visitam os túmulos de seus entes queridos. Uns depositam flores; outros a abundância de lágrimas; todos, por certo, a delicadeza de uma prece, suscitada pela fé e amparada pela esperança. Acreditamos todos na vida do Além.
Conservamos a memória, isto é, a trajetória da vida e os feitos das pessoas que nos antecederam na Eternidade. Caminhávamos juntos, num espírito social de família ou de grupo e... eis que alguém pára, interrompe a caminhada e desfalece. Em vez de deplorarmos a ausência de quem já não caminha conosco, seria consolador considerarmos o privilégio do tempo em que caminhamos juntos. Tínhamos e temos um objetivo final a alcançar; o encontro com o Senhor, autor e consumador de nossas vidas. Caminhamos não às tontas, sem rumo e sem termo. Nosso caminhar se destina ao encontro da Eternidade feliz: posse conjunta de todos os bens. O que nos impulsiona a caminhar é a certeza da chegada, mesmo na dolorosa incerteza de quando será... Tenho a ousadia de afirmar que nossa felicidade terrena é, toda ela, muito transitória. Será tanto maior e duradoura quanto mais se harmonizar com a sonhada felicidade eterna. Não temos medo ou pavor do amanhã, porque a estrada que percorremos tem esse rumo certo e incontidamente almejado.
Alguém, ao nosso lado por muito ou pouco tempo, já atingiu o objetivo ansiado de seu peregrinar. Todos somos peregrinos em demanda do Além. Cristo mesmo, que se definiu como O CAMINHO (Jo 14,6), vai conosco. Imagino-me a alegria do encontro definitivo com o Senhor. Houve tantos encontros com Ele no decorrer da vida, na obscuridade da fé, na vida sacramental, no diálogo da Palavra inspirada, no recolhimento de “sua imagem e semelhança” nos pequeninos e desamparados. Agora é o encontro final e eterno, como que sintetizando todos os encontros anteriores, reconfortados pela palavra do Mestre: “Tu, que foste fiel no pouco, vem gozar da alegria do Teu Senhor” (Mt 25,21).
Temos saudade do tempo partilhado no dia-a-dia, em comum, e do que ainda não temos e que a esperança nos assegura. Saudosa memória! Fomos convidados pelo Senhor da messe a trabalhar em sua vinha, no plantio ou roça, que deverá produzir muitos frutos. Fomos escolhidos para produzir estes frutos, quanto antes: abundantes e de boa qualidade. Assim, nossa vida não se passa no vazio, no ócio, na inutilidade da desocupação nas praças, no sem sentido de quem vive apenas a sonhar “vendo a banda passar”... Semelhante situação, certamente, causaria grandes angústias e incertezas. Ao contrário, trabalhávamos juntos ao latejar do peso do dia e do calor. Não nos importava o tipo de sementeira, da lavoura, da vinha ou da roça. Os frutos eram seguros porque Alguém nos acompanhava e orientava. Amainamos o terreno, semeamos, plantamos e transplantamos, podamos e estaqueamos. Limpamos e regamos.
Esse trabalho na propriedade do Senhor da messe, é outra imagem feliz de nossa vida nesse mundo. Em um determinado momento, mesmo quando não esperamos, seremos colhidos como frutos amadurecidos e sazonados. O próprio Senhor se reserva esse direito e esse prazer da colheita, na hora mais oportuna. Só Ele é que conhece bem o seu plantio e a hora exata da colheita. O fruto é transportado para os armazéns celestes. Fica-nos a saudade de quem trabalhava conosco, bem perto de nós e agora desfruta do merecido descanso. Que descanse em paz! Os esforços, as canseiras, o suor, desembocam na paz eterna e feliz.
Nossa vida terrena se parece, ainda, com uma enorme construção que se destina a compor e a ornar a Jerusalém Celeste. O Construtor nos dá a planta completa, as orientações necessárias, o material de boa qualidade e em plena abundância. A nós se reserva o empenho minucioso e caprichado da construção. Cada detalhe foi cuidadosamente pensado: os fundamentos, a alvenaria, o telhado, as portas, janelas, a pintura e decoração final. Pela fé coloca-se o fundamento único em cima da pedra angular, que é o próprio Cristo. Peça por peça representa o esforço da vida cristã: atos de amor e de altruísmo, a solidariedade, o interesse pelo conjunto, as demais virtudes, a vida sacramental, o anseio pela santidade. O Evangelho de Cristo nos norteia, a cada passo, a aperfeiçoar aqui, corrigir ali, adornar acolá. Finalmente a construção está pronta, e a morte a transporta para a Jerusalém do Alto. Brilhará como obra de arte de quem a ideou e como prova de constância de quem a executou.
A saudosa memória há de suscitar em todos os que têm fé e esperança a alegria de terem sido testemunhas próximas de um caminhante, obreiro ou trabalhador que foi fiel aos convites do Senhor: caminhar, trabalhar na vinha, construir. Não há lugar para lamentos e para lágrimas de desconsolo. Além disso, o amor não tem limites, fronteiras ou barreiras intransponíveis. A saudosa memória nos instilará consolo e a certeza do reencontro na Pátria definitiva, em clima de amor sem sombras e separações.
Muitas vezes sentimos dolorosa saudade dos que nos antecederam junto a Deus. É normal e, até, saudável essa saudade. É uma prova de que amor e amizade são valores que ultrapassam quaisquer barreiras, até mesmo as da morte. Os que nos antecederam, aperfeiçoaram, acrisolaram esse amor e essa amizade pelas “inesgotáveis riquezas” de Deus. Podemos recorrer aos falecidos, certos de que não ficarão indiferentes aos nossos clamores. Pessoalmente, recorro a muitos amigos e amigas, modelos de vida cristã aqui na terra, agora por certo na glória eterna. Sinto com muita nitidez a sua ajuda, o seu amparo, máxime, quando a causa de Deus, da Igreja ou da caridade estão em jogo.
Disponibilizado na Amai-vos out/2003
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