|
Dom Dadeus Grings Arcebispo de Porto Alegre
\n Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email
/"">
Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email
No grande mutirão para a superação da miséria e da fome aparecem muitas iniciativas louváveis. Neste campo não se há de tornar qualquer concorrência. Tudo o que se fizer, no intuito de combater a fome, é bem-vindo.
Mas também se manifestam muitas vozes com sugestões para levar a questão da fome às causas e projetar soluções estáveis. Quer-se um grande debate de idéias, no qual todos devem participar, refletindo e dando sua opinião. Isto é regime democrático! Não se quer que todos pensem a mesma coisa, ou na mesma linha, o que significaria que, na verdade, não pensam nada. Discordar é sinal de esforço intelectual e pode construir algo melhor.
No projeto de superação da fome entra uma acirrada proposta de controle da natalidade. Lá diversas manifestações neste sentido, declarando praticamente inócuas as medidas alimentares, enquanto não se promover uma radical redução da natalidade. É a famosa teoria de que a solução do problema da fome está na redução de comensais. Trata-se de uma opção: em vez de aumentar os alimentos, ou na impossibilidade de proporcionar comida, a uma multidão, diminuir os comensais.
Aqui há algumas observações a fazer. A questão não é tão simples como parece.
Em primeiro lugar, quando falamos de explosão demográfica - palavra cunhada no fim do século XIX - as pessoas se assustam. A população do mundo parece atingir cifras humanas insuportáveis. Cresce em ordem geométrica. Duplica num período cada vez menor.
Diante disto não há dúvida nenhuma que é preciso planejar a família. Duas gerações atrás ainda se encontravam, em nosso meio, famílias com mais de 10 filhos. Algumas até com 20. Hoje isto se tornou impossível, não por um fator biológico, mas social e econômico. Antigamente, no estilo da família patriarcal, o filho era um investimento econômico. Hoje é apenas despesa. Nem há espaço nos apartamentos - verdadeiros apertamentos - para uma família numerosa.
Portanto, hoje é indiscutível, por uma série de fatores, o controle da natalidade. Mas o que preocupa é que as pessoas, que percebem o problema normalmente e poderiam ter mais filhos, reduzem drasticamente a natalidade, para prejuízo da própria sociedade; ao passo que as pessoas que não entendem e não sentem a responsabilidade social, põem irresponsavelmente filhos no mundo.
Por isso é preciso advertir, com vigor, que não são as famílias as responsáveis tanto pela explosão demográfica como pela marginalização de grande parte da população. A liberalização dos costumes, que permite gerar filhos, sem responsabilidade e sem compromisso, está na raiz também de nossos problemas demográficos. Antigamente, para um casal ocupar um quarto de hotel, precisava de um atestado de casamento. Hoje para gerar filhos não se exige nada. Temos então mulheres com uma prole numerosa, gerada por pais diferentes, que multiplicam irresponsável e impunemente sua ação.
No momento em que se estabelecer que o matrimônio, legitimamente contraído, constitui condição indispensável para a geração e educação humana, como a Igreja sempre ensinou, e no momento em que se coibirem eficazmente as proliferações irresponsáveis, o problema demográfico estará, em grande parte, resolvido. Então poderemos discutir sobre métodos de controle da natalidade, porque estaremos falando com pessoas responsáveis. A grande tarefa de planejar a família é pois imperiosa. Deve ser executada em mutirão, envolvendo toda a sociedade: Estado, Igreja, Escola, médicos, pastorais, assistentes sociais... A pastoral da criança pode dar uma contributo valioso nesta orientação às mães.
De outro lado, mantendo o princípio da responsabilidade paterna e materna na geração dos filhos, é preciso precaver-se contra o perigo da deflação e consequente envelhecimento da população. Se não nascerem crianças, em número suficiente para garantir a continuidade das instituições humanas, corremos o risco de falência. Se tivermos mais aposentados que ativos - como já acontece na Europa - corremos riscos de atrofiar. Não há de se fazer, pois, uma campanha indiscriminada de controle da natalidade. É preciso garantir a reposição do contingente humano, na altura do desenvolvimento em que nos encontramos.
Disponibilizado pla CNBB em 12/11/2003
|