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Talvez poucas épocas na história da humanidade tenham sido tão controvertidas quanto a nossa no que diz respeito à identidade e situação da mulher no mundo e na sociedade. Vivemos por um lado a libertação crescente da mulher, acedendo ao mercado de trabalho, ao espaço público e até mesmo a cargos de chefia e governo. Por outro lado, porém, a violência contra a mulher cresce em números assustadores; as mulheres de hoje se encontram divididas e exigidas além dos seus limites entre a casa e o trabalho; os meios de comunicação oprimem a mulher com exigências impossíveis sobre seu corpo e performance estética, ao mesmo tempo que a amedrontam sobre o que é sua riqueza e mistério mais belo e maior: a maternidade.
Enquanto encontramos nas classes média e alta moças que adiam incessantemente a maternidade, a fim de consolidar primeiramente a carreira, o patrimônio, e manter a liberdade da troca de parceiros e a independência de viajar e fazer o que querem, onde e quando querem; nos meios populares a idade de engravidar recua para mais cedo. Meninas iniciadas pelos próprios parentes (pais, irmãos, etc.) devido à pobreza e promiscuidade onde vivem vão ficar grávidas aos 12,13,14,15 anos.
Se no primeiro caso, o adiamento do filho muitas vezes é uma recusa do mesmo, consumada quase sempre com anticoncepcionais, mas não raramente com o recurso do aborto; do outro o aborto se apresenta muitas vezes como solução cruel, fruto amargo de uma sociedade abortiva, porém ao mesmo tempo única solução ao alcance da mão. O terror do ventre prenhe, do aleitamento, das gravidezes que se sucedem, em todo caso, é uma marca para a mulher do nosso tempo. E é isso que a faz muitas vezes infeliz, frustrada, pois malogra sua vocação e identidade, recusando o dom maior que lhe foi dado pelo Criador e aquilo para que foi feita. O tempo do Advento e do Natal nos apresenta a figura de uma mulher que pode consolar a todas nós, mulheres de hoje, de qualquer idade, cultura, raça ou classe social. A jovem mulher Maria, recebe a visita do anjo do Senhor e aceita ser fecundada pelo Espírito Santo e ser a mãe do Salvador. Todos podemos imaginar o que representava para Maria essa gravidez; a quantidade de perdas que ela estava destinada a sofrer devido ao contexto patriarcal em que vivia.
À perda da honra e da reputação se somaria a perda do homem amado. Homem algum aceitaria casar-se com uma mulher grávida de um filho que não era seu. Nem mesmo o justo José. Foi necessário que ele tam bem recebesse o anúncio do anjo, que lhe dizia: José, não temas receber Maria como tua esposa porque o que nela acontece é do Espírito Santo. Bom, honrado e apaixonado José, que obedeceu e abrigou a mãe e o filho que não era seu.
A tudo isso Maria se arriscou com seu SIM à aparentemente louca proposta do anjo: ter um filho não conhecendo homem. Ter um filho contra todas as regras e normais da sociedade. E Maria acolheu esse Filho. E com seu SIM transformou a história da humanidade. Conhecia a vida embora jovem. Sabia que só se tem filhos coabitando com um homem. No entanto, creu e confiou em seu Deus que sabia criar mundos do nada, transformar o deserto em jardim e fecundar mulheres estéreis como a mãe de Sansão. Para Ele nada era impossível . E Maria acreditou e disse Sim.
Sua prima Isabel é talvez a que, no Novo Testamento, vai compreender mais profundamente e louvar mais alegremente a fé de Maria. Porque era mulher também e experimentava no mesmo momento a miraculosa experiência da gravidez, Isabel entendeu. Não conhecia o futuro, mas conhecia o seu Deus. E é a ele que louva quando sua jovem prima apresenta-se em sua casa grávida de um filho que humanamente não poderia ter. Isabel, que se encontrava na mesma situação, sente a criança saltar em seu ventre. A criança que se agita no ventre de Isabel - e toda mulher que já carregou no ventre um filho teve essa emocionante experiência - dá testemunho de que João filho de Isabel e Zacarias, reconhece a presença do Senhor no menino que Maria tem em seu seio. E a velha Isabel, que já exulta de alegria e louvor ao Deus que finalmente fecundou seu ventre estéril chama a jovem prima de Bendita. “Bendita és tu porque creste!” Bendita porque acreditou e não expulsou o filho que Deus lhe dera para a morte. Bendita porque acolheu, nas mais difíceis circunstâncias, a gravidez que daria à humanidade o Salvador. Bendita porque soube ser mulher, plenamente mulher, e plenamente filha de Deus.
Neste Advento, neste Natal, o Evangelho quer dizer, com carinho e força a todas as mulheres, que se alegrem porque são benditas. Benditas porque têm em seu corpo a marca da vida e são convidadas pelo Criador a carregá-la. Benditas porque Deus deseja dar-lhes a fecundidade que faz crescer seu povo e conta com elas para que não se neguem a isso. Benditas porque o mesmo Deus conhece seus sofrimentos e dificuldades e nunca deixará de ampará-las no corajoso SIM que disserem à vida de outros. Jovens ou velhas, benditas mulheres! Benditas aquelas que crêem que seu jovem corpo não serve apenas para malhar nas academias, mas é destinado a missões bem maiores. Benditas aquelas que crêem e proclamam que, apesar da maternidade biológica não lhes ser mais possível, maior é o Deus que faz brotar a vida mesmo ali onde esta pareceria impossível.
Disponibilizado no Amai-vos em Dez/2003
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