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Mensagem do Cardeal D. Eugenio de Araújo Sales Arcebispo Emérito da Arquidiocese do Rio de Janeiro
Com uma dolorosa freqüência, a Imprensa divulga desvios de verbas e aproveitamento ilícito de somas, aliás, vultosas, por parte de quem deveria zelar por sua honesta aplicação. Essa é uma benéfica missão da Imprensa, quando o faz na defesa do bem público e não apenas por mera divulgação de escândalo. Sem a atuação dos meios de comunicação social, dificilmente viriam ao conhecimento da coletividade esses crimes contra a mesma. O “Catecismo da Igreja Católica” (nº 2493 e ss) ensina: “Na sociedade moderna, os meios de comunicação social exercem um papel primordial na informação, na promoção cultural e na formação. (...) A informação dada pelos meios de comunicação social está a serviço do bem comum”. Sem dúvida, cabe à Imprensa papel importante na descoberta de criminosos, entre eles, os corruptos. A corrupção é o elemento propulsor do aproveitamento pessoal e ilícito dos bens que pertencem à comunidade. Merece reparos o fato de toda a luta contra o pagamento da dívida externa do Brasil se orientar contra os credores e pouco se ouvir falar do criminoso desvio por parte dos devedores, que em vários países se apossam de somas vultosas e não as utilizam nos objetivos do empréstimo. Na realidade, em algumas nações há suspeitas de malversação dessas verbas. Esse procedimento está incluído na proibição do Deuteronômio (5,19): ”Não roubarás”. São Paulo (1Cor 6,10) é explícito ao incluir na lista dos excluídos do Reino de Deus os que se apropriam do que não lhes pertence: “Não vos enganeis: nem imorais, nem idólatras, nem adúlteros, nem efeminados, nem sodomitas, nem ladrões, nem avarentos, nem maldizentes, nem os que se dão à embriaguez, nem salteadores possuirão o Reino de Deus”. Devemos ir às raízes dessa degenerescência para melhor e mais facilmente vencer este clima que nos entristece e tanto prejudica a Nação. Refiro-me à corrupção administrativa que induz e facilita o roubo no exercício dos cargos públicos. O Episcopado Latino-americano, reunido em Puebla, de 27 de janeiro a 13 de fevereiro de 1979, com a presença do Papa João Paulo II, em sua primeira viagem após a elevação ao Pontificado, repetidas vezes aludiu ao problema da corrupção em vários países do Continente: “Os cruéis contrastes de luxo e extrema pobreza (...) agravados pela corrupção que freqüentemente invade a vida pública e profissional” (nº 494). (...) “No quadro político social se verifica o peso da crise institucional e econômica, claros sintomas de corrupção e violência” (nº 508). (...) “Exortamos a todos que lutem contra a corrupção econômica nos distintos níveis, tanto da administração pública como dos negócios particulares, pois ela causa graves prejuízos“. Estas citações colhidas, quase a esmo, já revelavam a grande preocupação do Episcopado com o problema e, para resolvê-lo, os leigos são chamados a lutar. Na III Assembléia do Episcopado reunido em outubro de 1992, em Santo Domingo, manifestou de modo incisivo a preocupação com a corrupção. Infelizmente, nos últimos tempos, pelo que aparece na Imprensa - e parece ser apenas a ponta de um “iceberg” – o mal é ameaça à nossa Pátria. A solução não está apenas nas mãos da Justiça e da Polícia, mas pede a regeneração do tecido da vida pública. Os sinais apontados a seguir indicam, com clareza, o grau de decomposição moral reinante, que se transforma em graves obstáculos ao combate à corrupção. Eles são ora efeito ora causa, dificultando um real saneamento por uma legislação adequada. Aparentemente são assuntos diferentes, mas na realidade, bastante interligados. Assim, já aparece mais de uma vez o eterno problema da legalização do jogo de azar, sob a falácia de ser solução e não fator de problemas sociais. Também a imoralidade e a crescente pornografia, à medida que desaparece o pudor pelo livre uso de palavrões, até em artigos de pessoas aparentemente respeitáveis e em matéria publicitária. Tentam justificar apelando falsamente para a preservação da liberdade de imprensa. Homens provectos abrem a porta para o assassinato de um feto, condenando-o à morte por razões eugênicas. Na igreja doméstica, que deveria ser a família, como demonstra o Concílio, cada vez mais a autoridade paterna se dilui na pessoa de um bom amigo, compreensivo, ou melhor, cúmplice da permissividade no lar. Pelas novelas, o pai de família, às vezes, é simplesmente o oposto do que deveria ser. Apresentam como modelo uma família em decomposição. Os valores religiosos se enfraquecem, enquanto se fortalece o pretenso direito a ser feliz neste mundo, mesmo às custas da integridade do lar e do sofrimento da prole. Para apoiar essa atitude, há uma opinião pública que desconhece os elementos fundamentais de uma vida religiosa e cívica. Há uma relação entre a família e o bem-estar da coletividade. O indivíduo vive em sociedade e não é escolha sua observar ou não normas morais. Estas nascem de princípios eternos, queiram ou não os que arrogam a si o direito de determinar seu procedimento. Igualmente, as pesquisas ou experiências no ser humano, não podem ser feitas em detrimento da dignidade da pessoa e à margem dos ensinamentos divinos. O falso conceito de liberdade é altamente prejudicial. Por exemplo, reservar áreas de praia para nudistas é uma afronta ao bom senso. Ninguém é livre para permitir uma conduta que contrarie uma lei moral. O que ocorre com a utilização da internet para fomentar a imoralidade é como injetar na sociedade fatores degenerativos. Grave é a responsabilidade dos legisladores. Todo esse raciocínio vai além da crença católica e se aplica a tudo o que destrói ou enfraquece o tecido social. Assim, na atitude diante do aborto, jogatina, nudismo e má utilização do dinheiro público, o comportamento do cidadão não deve ser algo independente, mas julgado à luz da lei natural gravada por Deus nas criaturas humanas. O bem-estar da sociedade, a paz entre os povos e o progresso dos cidadãos muito dependem do reto uso da liberdade. Disponibilizado na CNBB em 12/12/2003
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