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CARDEAL D. EUSÉBIO OSCAR SCHEID
Arcebispo da Arquidiocese do Rio de Janeiro
Talvez nunca, como nos dias de hoje, se tenha acentuado e defendido tanto a vida como dom supremo, como valor do mais alto preço e estima.
Infelizmente, os tempos que correm nos envolvem na pseudo-cultura de morte, acometendo-nos com a violência, com a crueldade, o crime e a guerra. Cadeias, prisões, algemas, penitenciárias são um grito, um lamento contra a falta de verdadeira vida, de liberdade e de espaço vital. Por outro lado, diversas correntes do pensamento e dos relacionamentos humanos levantam bem alto a voz em favor da vida e de sua ímpar dignidade. Basta citar a defesa dos Direitos Humanos, o pavor e aversão à pena de morte, os anseios pela paz, pela igualdade de todos, pela solidariedade e fraternidade no mundo.
Espontaneamente surge em nós o questionamento sobre o sentido da vida e sobre a experiência que fazemos dela. Efetivamente, a vida se manifesta, antes que tudo, como uma experiência em harmonia com o nosso ser – amoroso, livre e social - como experiência agradável, multidimensional e com anseios de perenidade. Neste contexto, a morte aparece como uma interrogação, uma incógnita, um enigma. Como entender e afrontar a morte diante de uma sede insaciável de vida, que nos caracteriza e dignifica? A mais originária tendência da vida humana é a busca de aperfeiçoamento no contato com a realidade circunstante, no relacionamento com nosso semelhante, no aprofundamento do próprio “eu”. Desta forma, o caminho da vida se desdobra como a procura e...saudade, entendida como esperança: o que realmente ainda deverá acontecer. A esperança se externa na busca constante e incontida de ideais, objetivos, sonhos e expectativas. Parece até que o homem caminha ao ritmo da esperança. Quanto maior a esperança, maior a manifestação de vida! A nossa vida brota da fonte eterna e inesgotável de vida – Deus – à “cuja imagem e semelhança fomos criados” (Gn 1,26-27).
Esse brilho da parecença com Deus é reflexo da sua glória e beleza em nós. Daí surge a atração por tudo o que há de bom, de belo e verdadeiro no mundo. A posse desses bens transcendentais causa indescritível alegria e prazer. Poder-se-ia dizer, que essa é a maior fonte de alegria para a criatura humana. Jamais, nesta vida, saciaremos a sede, cuja origem e termo nos transcendem. A própria harmonia, a beleza, a estética, a verdade... quanto mais a temos, mais a buscamos. São os paradoxos de uma existência que começa e termina no Infinito. É, talvez por isso, que Martin Heidegger fala da morte como de uma realização, de um acabamento (“Tod als Vollendung”).
A verdade é como que a saúde e quietude da nossa inteligência. A posse do bem lhe preenche os anelos da vontade. A harmonia com tudo o que é proporcional e condizente com o todo lhe sacia a fome de estética e beleza. A convivência pacífica e prazerosa com os outros nos realiza como pessoa, ser social e comunicativo. Mas, infelizmente, neste campo encontramos tantas frustrações e aberrações pela corrupção dos homens. A vida do ser humano – não podemos esquecer esse fato – se desenrola no âmbito das emoções, dos sentimentos, das “paixões”. São formas de vitalidade de nossa existência ou amortecimentos da mesma: alegria, tristeza, paz, desânimo, inveja, medo, ira, otimismo e tantos mais. Avançamos ou regredimos ao embate dessas emoções. A pessoa de vida regrada e feliz é a que se deixa conduzir pelos sentimentos positivos e conformes ao supremo ideal da Vida: viver em plena abertura para e com Deus, para os irmãos e irmãs! É aqui que se abre o vasto horizonte da caridade e da empatia.
Jesus, nosso Mestre, numa célebre passagem do Evangelho de São João, respondendo ao apóstolo Tomé, afirma com toda a sua autoridade: “EU SOU A VIDA” (Jo 14,6). Muitas vezes me pergunto sobre o profundo sentido dessa afirmativa. Em outro tópico Ele parece completar o que ali está dito: “Eu vim para que todos tenham vida, e vida em plenitude” (Jo 10,10). Outra afirmação categórica de Jesus a Maria, irmã de Lázaro, é esta: “Eu sou A RESSURREIÇÃO e A VIDA” (Jo 11,25). Isto vale a dizer: “Sou o princípio, o autor também da nova vida, após a morte”.
“A plenitude da vida” que Jesus nos veio trazer não se restringe aos horizontes fechados da vida presente, como pensavam muitos humanistas e utopistas. A vida humana, acima de tudo, é dom de DEUS: vem de Deus e se realiza na posse terrena e eterna de Deus. Foi essa a vida que Deus concedeu a nossos primeiros pais e Jesus nos veio reconquistar pela Encarnação, pelo mistério de sua vida, morte e Ressurreição. Por isso Santo Agostinho afirma, com tanta propriedade: “O nosso coração está inquieto até que descanse em Vós”.
Uma das tarefas mais dignificantes do ser humano é o trabalho, o empenho em prol da vida: médicos, enfermeiras, agentes da caridade social, cientistas e tantos outros que executam tarefas em prol do bem comum. O maior crime e desastre – sob qualquer prisma – é o exercício oposto: assassinatos, abortos, a eutanásia, as guerras, fábricas e comércio de armas mortíferas. São as sombras, espectros do humanismo, do amor, do bem-querer. Atrevo-me a chamar essa ilogicidade da inteligência e do agir humano como aberração existencial, loucura, pseudo-cultura de anti-humanismo: terror, morte, desrespeito, desacato ao plano criador.
Peço ao Autor e Consumador da vida que nos instile sempre a nobreza de olhar e tratar a vida com o máximo de respeito, de acatamento, de delicadeza. Lida-se com valores de alcance e conseqüência imortal. Quem age em favor da vida se imortaliza diante da História e no próprio Deus.
Disponibilizado no Amai-vos nov/2003
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