|
Mensagem do Cardeal D. Eugenio de Araújo Sales
Arcebispo Emérito da Arquidiocese do Rio de Janeiro
Um órgão da Imprensa publicou, nos últimos dias do ano passado, um comentário intitulado “Moralização do mundo real na TV”. Destaca, como síntese “A campanha pedindo moralização à TV ganhou força em 2003”. Refere-se a uma iniciativa da Comissão dos Direitos Humanos na Câmara dos Deputados assim sintetizada: “Quem financia a baixaria é contra a cidadania”. O objetivo de “apontar os programas apelativos tomou força e amedrontou apresentadores”.
Não disponho de dados para um julgamento exaustivo por não assistir pessoalmente aos referidos programas televisivos. Entretanto, o fato de uma matéria ser trazida a público, possibilita-me fazer alguns comentários sobre esse assunto, que atinge profundamente a sociedade e que tem sido alvo de muitas reclamações, aliás justas. Há mais de três décadas, sem interrupção, compareço semanalmente aos meios de comunicação social: TV, emissoras de rádio e jornais de circulação nacional. Por diversas vezes, tenho pedido a atenção para a gravidade desse problema e que para enfrentá-lo depende não somente dos proprietários dos órgãos de divulgação, mas também dos destinatários dessas mensagens degenerativas da moral. Os integrantes da comunidade são altamente responsáveis por essa situação. Há um momento em que a parcela sadia da sociedade – e ela existe – por iniciativa própria, como cidadãos responsáveis pelo bem público, deve fazer restrições aos produtos anunciados às custas da pornografia, reagir contra uma concepção de vida contrária aos conceitos de sua crença religiosa e, de maneira muito particular, protestarem diretamente contra essa situação. Se isto acontecer, haverá uma mudança de rota.
Para que isso ocorra, faz-se mister uma profunda alteração na mentalidade da população e, em particular, dos dirigentes. Vivemos num clima oriundo do enfraquecimento dos laços da instituição familiar, em uma atmosfera erótica que penetra tantos ambientes, seculariza sistematicamente os valores morais e os ensinamentos religiosos. Sem uma mudança, não se pode esperar resultados positivos. O caráter firme e reto cede lugar à ditadura do índice de audiência de um programa de rádio e televisão. Lamenta-se o nível dos comentários em jornais, propugnadores da imoralidade e da pornografia, que usam dos recursos técnicos para incitar o poderoso instinto sexual, criado por Deus para a nobre missão de propagar a espécie humana e fortalecer os laços familiares.
O artigo a que fiz referência constatou que, embora em grau modesto, a campanha em prol da moralização na TV “ganhou força em 2003”. Para crescer, impõe-se acreditar nos valores morais, indispensáveis ao bem-estar público e pessoal. O cidadão não pode se envergonhar por ser fiel a princípios nobres. Ele deve reagir aos propugnadores da decomposição dos costumes. São Paulo tem palavras admiráveis, que nos ajudam. Na Carta aos Gálatas: “Vós fostes chamados à liberdade (...) entretanto, que a liberdade não sirva de pretexto para a carne (...). Conduzi-vos pelo espírito e não satisfareis os desejos da carne (...). As obras da carne são manifestas: fornicação, impureza, libertinagem, orgias (...). Os que tais coisas praticam, não herdarão o reino de Deus” (5,13-22).
Embora vivamos em uma comunidade, com elementos que não aceitam um programa de vida cristã, também é certo que, em uma democracia, temos o direito de sermos respeitados. Assim, toda uma estrutura social possui seus valores próprios e devem ser tomados em consideração. O “Catecismo da Igreja Católica”, ao tratar dos Mandamentos, nos apresenta um quadro que, sem dúvida, interessa a cristãos ou participantes de outras crenças. Trago, como exemplo, algumas passagens em torno do 9º Mandamento: “Todo aquele que olha para uma mulher com desejo libidinoso, já cometeu adultério” (Mt 5,28). A pureza cristã requer uma purificação do clima social. Exige dos meios de comunicação social uma informação que não ofenda o respeito e a modéstia. A pureza do coração liberta a pessoa do erotismo, tão difuso, e afasta-a desses espetáculos que favorecem a curiosidade mórbida e a ilusão. O que se costuma chamar de “permissividade dos costumes” se apóia numa concepção errônea da liberdade humana. Para se edificar esta última requer-se deixar educar previamente pela lei moral. Os responsáveis pela educação dêem à juventude um ensino respeitoso da verdade, das qualidades do coração e da dignidade moral e espiritual do homem. E como o Vaticano II, em “Gaudium et Spes”, nº 4: “A boa nova de Cristo restaura constantemente a vida e cultura do homem decaído combate e remove os erros dos males decorrentes da sempre ameaçadora sedução do pecado. Purifica e eleva incessantemente os costumes dos povos. Com as riquezas do Alto ela fecunda, como que por dentro, as qualidades do espírito e os dotes de cada povo e de cada idade; fortifica-os, aperfeiçoa-os e restaura-os em Cristo” (2.525 a 2.527).
A 12 de fevereiro de 2002 foi realizada a primeira reunião do Conselho de Acompanhamento da Mídia (CAM). Tratou-se dos resultados da Campanha “Quem financia a baixaria é contra a cidadania”, lançada a 13 de novembro do ano anterior. São palavras do Presidente da Comissão dos Direitos Humanos na Câmara Federal: “Não queremos censura, o que queremos é melhorar a qualidade da programação da televisão brasileira. Só conseguiremos vencer essa batalha se o povo brasileiro mostrar o seu descontentamento através da denúncia”.
A 8 de agosto de 2002, na Comissão dos Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, estavam representantes da sociedade civil e profissionais da área de comunicação social. Os participantes da reunião convergiram no entendimento de que a campanha não se confunde com censura. Trata-se do exercício de um direito de cidadania.
Sem entrar no mérito da conclusão, verifica-se que o artigo publicado a 31 de dezembro último nos mostra que algo poderá ser feito, quando a sociedade reage a uma situação de franca decomposição moral. Voltaremos ao assunto.
Disponibilizado pela Arquidiocese do Rio de Janeiro em Jan/04
|