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Maria Clara Lucchetti Bingemer, teóloga
Minha mãe tem 89 anos feitos a 16 de outubro passado. Até os 79 era uma mulher enérgica e forte, que dava conta da casa, da filha, do genro e dos netos. Como boa família brasileira, temos a mania de morar amontoados e jamais nos passou pela cabeça, sendo eu filha única e minha mãe viúva, enviá-la para a solidão de um apartamento a fim de não nos incomodar com sua presença.
No dia 10 de dezembro de 1993, esta mulher forte e generosa teve um AVC e perdeu a fala. Três anos depois, teve o segundo AVC e perdeu os movimentos. Vive sempre mais restrita ao leito e movê-la para a higiene ou qualquer outra coisa é uma tarefa pesada que uma enfermeira competente e algumas acompanhantes dedicadas praticam há exatos dez anos.
Nos últimos tempos, após ler os jornais matutinos, tenho dado graças a Deus continuamente pelo fato de minha mãe não ter ainda 90 anos. Se assim fosse, teria eu ou um de seus netos que chamar uma ambulância ou um carro adaptado para carregar leitos, e levá-la para recadastrar-se e provar que está viva. A velhinha amada que cobrimos de carinho e cuidado em um quarto só para ela estaria exposta aos olhares, aos germes, ao desconforto, à barbaridade que está sendo praticada diante de nossos olhos com tantos idosos e que temos o desprazer de apreciar todos os dias nas páginas dos jornais e nos noticiários televisivos.
Minha tentação ao ver as fotos dos pobres idosos que tiveram que tomar três conduções e, exaustos e desidratados, chegam enfim ao lugar onde devem mostrar-se vivos é imitar o saudoso e incorruptível Dr. Sobral Pinto. Advogado dos presos políticos que padeciam as maiores atrocidades nos porões das cadeias do Estado Novo, pediu em alto e bom som para os mesmos a Lei de proteção aos animais.
Certamente animais idosos não seriam tratados assim. Seriam deixados em paz com sua velhice, sua idade avançada, suas forças gastas. Não seriam obrigados ao ridículo espetáculo a que os obriga a burocracia brasileira, fazendo-os arrastar-se pelas ruas e transportes públicos, a chegar com suas cadeiras de rodas e muletas e fazerem fila por horas sob o sol inclemente. Não. Qualquer de nós que tivesse um cachorro ou um gato já velho o trataria com carinho, a fim de que pudesse viver esta etapa de sua vida com dignidade.
No ano internacional do idoso, será isso que temos a oferecer aos nossos velhos? Não temos mais nada para dar-lhes em termos de gratidão, respeito, decoro? Nada além de verificar se estão realmente vivos a fim de que recebam a magra aposentadoria a que têm direito? Em nossa sociedade cúpida e consumista os velhos não contam. Não contam porque não produzem mais e, portanto, não são realmente dignos de nenhuma consideração.
No ano internacional do idoso, seria urgente lembrarmo-nos do que a Bíblia tão belamente diz sobre a pessoa que chega à etapa final de seus dias. Tal como os outros povos da antiguidade, também o povo de Deus professa um grande respeito aos anciãos (Cf. Lev 19,32:
"Levanta-te diante dos cabelos brancos e sê cheio de respeito por um velho
"). A razão desse respeito é que o velho é mediação para o temor que se deve ter ao próprio Deus, pois continua o mesmo v. 32 do cap 19 do Levítico:"... assim que terás o temor de teu Deus". Além disso, é consenso em Israel que os velhos possuem a sabedoria e a prudência (Cf,. Jó 15,10; Eclo 6,34s; 25, 4-6). Por isso, não é estranho que sempre hajam desempenhado no meio do povo uma função de direção e aconselhamento.
O velho que sente suas forças declinarem suplica:"Não me rejeites na minha velhice; quando minhas forças declinam, não me abandones"... Apesar de minhas cãs e minha velhice, não me abandones, Deus. (Sl 71,9; 18). E Deus promete, cheio de generosidade: "O justo crescerá como a palmeira e, mesmo velho, ele frutificará ainda, permanece cheio de seiva e de verdor proclamando o direito do Senhor..." (Sl 92,13-16). O Deus de Israel é louvado como Aquele que" reclama tua vida do túmulo e a coroa de fidelidade e ternura. Ele nutre de bens tua velhice e tu rejuvenesces ..." (Sl 103, 3-4). E na fidelidade do Seu amor pelo povo eleito, Deus afirma:"Até vossa velhice serei o mesmo, até vossos cabelos brancos, sou eu que vos sustentarei..." (Is 46, 4).
É consolador para quem, como eu, tem um velho querido ainda vivo em casa saber que se o poder público não tem respeito por ele ou por ela, certamente o amor do Deus da Bíblia continua se derramando generoso, sem limites e sem condições. Até porque para Deus não precisamos fazer longas e penosas peregrinações para provar que estamos vivos. Somos suas criaturas, é Ele o dono de nossa vida, nele somos SEMPREVIVOS.
Disponibilizado pela CNBB em 18/11/2003
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