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Devemos compreender que a Bíblia é
a Palavra de Deus escrita para os homens e pelos homens; logo, ela apresenta
duas faces: a divina e a humana. Logo, para poder interpretá-la bem é necessário
o reconhecimento da sua face humana, para depois, compreender a sua mensagem
divina. Não se pode interpretar a Sagrada Escritura só em nome da
¨mística¨, pois muitas vezes podemos ser levados por idéias religiosas
pré-concebidas, ou mesmo podemos cair no subjetivismo. Por outro lado, não se
pode querer usar apenas os critérios científicos (lingüística, arqueologia,
história, ...); é necessário, após o exame científico do texto, buscar o sentido
teológico. A Bíblia não é um livro caído do céu, ela não foi ditada
mecanicamente por Deus e escrita pelo autor bíblico (=hagiógrafo), mas é um
Livro que passou pela mente de judeus e gregos, numa faixa de tempo que vai do
séc. XIV aC. ao século I dC. É por causa disto que é necessário usar uma
tradução feita a partir de originais e com seguros critérios científicos.
Os escritos bíblicos foram inspirados a certos homens; isto é, o Espírito
Santo iluminou a mente do hagiógrafo a fim de que ele, com sua cultura religiosa
e profana, pudesse transmitir uma mensagem fiel à vontade de Deus. A Bíblia é
portanto um livro humano-divino, todo de Deus e todo do homem, transmite o
pensamento de Deus, mas de forma humana. É como o Verbo encarnado, Deus e homem
verdadeiro. É importante dizer que
a inspiração bíblica é estritamente religiosa; isto é, não devemos querer buscar
verdades científicas na Bíblia, mas verdades religiosas, que ultrapassam a razão
humana: o plano da salvação do mundo, a sua criação, o sentido do homem, do
trabalho, da vida, da morte, etc. Não há oposição entre a Bíblia e as
ciências naturais; ao contrário, os exegetas (estudiosos da Bíblia) usam das
línguas antigas, da história, da arqueologia e outras ciências para poderem
compreender melhor o que os autores sagrados quiseram nos transmitir.
Mas é preciso ficar claro que a revelação de Deus através da Bíblia não
tem uma garantia científica de tudo o que nela está escrito. É inútil pedir à
Bíblia uma explicação dos seis dias da criação, ou da maneira como podiam falar
os animais, como no caso da jumenta de Balaão. Esses fatos não são revelações, mas tradições que o autor
sagrado usou para se expressar. A própria história contida na Bíblia
não deve ser tomada como científica.O que importa é a ¨verdade religiosa¨ que
Deus quis revelar, e que às vezes é apresentada imbutida em uma parábola, ou
outra figura de linguagem. O mais importante é entender que a
verdadeira leitura bíblica deve sempre ter em vista a finalidade principal de
toda a Sagrada Escritura que é a de anunciar Jesus Cristo e dar testemunho de sua pessoa. Para aqueles
que viviam no Antigo Testamento, se tratava apenas de um Salvador desconhecido,
que viria. Mas para nós, se trata do Salvador que ¨habitou no meio de nós¨, e
que ressuscitado está no meio de nós até o fim dos tempos, quando voltará
visível e glorioso para encerrar a história. Por ser Palavra de Deus,
a Bíblia nunca fica velha, nem caduca; ela fala-nos hoje como para além dos
séculos. Cristo é o centro da Sagrada Escritura. O Antigo Testamento
o anuncia em figuras e na esperança; o Novo Testamento o apresenta como modelo
vivo. O Catecismo nos ensina que ¨Deus, na condescendência de sua
bondade, para revelar-se aos homens, fala-lhes em palavras humanas¨ (§101).
¨Através de todas as palavras da Sagrada Escritura, Deus pronuncia uma só
Palavra, seu Verbo único, no qual se expressa por inteiro¨ (§102).
¨Com efeito, as palavras de Deus, expressas por linguagem humana, tal
como outrora o Verbo do Pai Eterno, havendo assumido a carne da fraqueza humana,
se fez semelhante aos homens¨ (DV,13). Santo Agostinho ensinava
que: ¨É uma mesma Palavra de Deus que se ouve em todas as Escrituras,
é um mesmo Verbo que ressoa na boca de todos os escritores sagrados, ele que,
sendo no início Deus, junto de Deus, não tem necessidade de sílabas, por não
estar submetido ao tempo¨(Salmos 103,4,1). Somente as
palavras originais com as quais a Bíblia foi escrita (hebraico, aramaico e
grego) foram inspiradas; as traduções não gozam do mesmo carisma da inspiração;
é por isso que a Igreja sempre teve muito cuidado com as traduções, pois podem
conter algum sentido que não foi da vontade do autor e de Deus. As traduções
devem ser fiéis aos originais; e isto não é fácil.
A ESCRITA BÍBLICA
Os livros da Bíblia foram escritos
em três línguas muito antigas: o hebraico (todos os livros protocanônicos do
AT), aramaico (Ev. Mateus); grego (livros do NT). O hebraico era
escrito sem vogais até o século VII dC. Somente nos séculos VII a X dC, os
rabinos judeus fizeram a vocalização do texto hebraico introduzindo as vogais
(texto massorético). O leitor colocava mentalmente as vogais entre as
consoantes, o que podia gerar dúvidas. Por exemplo, a palavra ¨ah¨, podia significar irmão,
primo ou parente. O hebraico não tinha superlativo e não separava as palavras.
O aramaico era parecido com o
hebraico, falado pelos arameus, comerciantes na mesopotâmia; adotado pelos
judeus desde o século V aC; foi a língua falada por Jesus. O hebraico aos poucos
ficou apenas sendo usado no culto
divino. O grego era a língua de um
povo culto; era falada em todo o império romano, e foi muito usada por
escritores judeus, uma vez que este povo se espalhou por todo o império.
Os escritores antigos não dividiam o texto sagrado em capítulos e
versículos. Os cristãos é que o fizeram para fazer as citações e para a
Liturgia. Eusébio de Cesaréia (†340) dividiu os Evangelhos em 1162 capítulos. Na
idade média, o arcebispo Estêvão Langton, de Cantuária (†1228), distribuiu o
texto latino do AT e do NT em capítulos; esta divisão foi introduzida no texto
hebraico do AT e no texto grego dos LXX e do NT e está em uso até hoje.
A divisão dos capítulos e versículos como temos hoje é do século XVI.
Santes Pagnino de Lucca (†1554) dividiu o AT e o NT em versículos numerados.
Roberto Estêvão, tipógrafo francês,
refez a distribuição do NT em 1551. Os textos da Bíblia foram
escritos em material frágil (pergaminho ou papiro); por isso, os originais se
perderam ou não se conservaram; mas temos cópias dos originais. Com a
descoberta dos manuscritos de Qumran, em 1947, em Israel, às margens do Mar
Morto, que datam do século I aC e I dC, foi possível recuar mil anos na tradição
manuscrita. Antes de 1947 não possuíamos cópias dos textos hebraicos do AT
anteriores aos séculos IX/X depois de Cristo; tínhamos apenas os manuscritos da
idade média, e viu-se que há identidade com os documentos descobertos em Qumran,
o que quer dizer que os textos se foram transmitindo fielmente através dos
séculos. Isto se deu porque os judeus guardavam ciosamente a sua literatura
religiosa e não permitiam que ela se deteriorasse.
GÊNEROS LITERÁRIOS
Como a Bíblia é a Palavra de Deus,
escrita no linguajar humano, ela utiliza dos gêneros literários que são os
artifícios das linguagens dos homens para se expressar. O gênero literário a ser
usado depende do assunto a ser transmitido. Eis alguns tipos: leis, genealogias,
oráculos proféticos, poemas, poesia, parábolas, epopéias, orações, hino
litúrgico, sermões, conto de amor, salmo, relato histórico (santa Ceia, por
exemplo), crônicas, midraxe, cartas, fábulas, apocalípse, etc; para cada caso
temos um jeito de escrever. Cada gênero literário tem a sua forma de
interpretação própria; ora, não se pode interpretar o texto de uma lei da mesma
forma que uma parábola! É por isso que não se pode interpretar a Bíblia ao pé da letra; daí surgem
muitos erros. É preciso lembrar também que a Bíblia foi escrita num intervalo de
tempo de aproximadamente 14 séculos, 1400 anos, desde o séc XIII aC. até o século I depois de Cristo.
Isto implica em conceitos diferentes dos nossos; portanto, não se
pode ler a Bíblia com a mesma mentalidade e valores do nosso tempo. Algo que era
normal naquele tempo pode hoje nos parecer um absurdo; mas Deus quis usar o
homem para transmitir a sua Palavra. Na Bíblia não há erros; esses
são parte de quem a interpreta. Muitas vezes o que para nós hoje tem um sentido,
para o autor sagrado quer dizer outra; às vezes ele está usando apenas um
artifício de linguagem e nós interpretamos ao pé da letra. Daí a dificuldade de
se interpretar certas partes da Escritura. Por isso Jesus deixou o Sagrado
Magistério da Igreja (Papa e bispos) para que a sua interpretação não tenha
erro.
OS
SENTIDOS DA ESCRITURA
Para se fazer uma boa leitura da
Bíblia, a Igreja nos recomenda ter em mente o que chamamos de cinco
sentidos.
1. A analogia da fé
– A Bíblia é um livro de verdades religiosas reveladas por Deus. Cada texto está
de certa forma relacionado com toda a Bíblia e com a fé da Igreja. Não podemos
tirar um texto ou um versículo que seja deste contexto, sem que possa haver erro
de interpretação. Aqui entra a fundamental importância da Tradição e do Magistério da Igreja. É a Igreja
que deve ter a palavra final, a fim de se evitar o perigoso subjetivismo pessoal
(¨eu acho que...¨).
2. O sentido da
História – Deus é o Senhor da história dos homens e a sua santa vontade se
realiza por meio das vicissitudes humanas. O avançar da história também nos
ajuda a compreender a Sagrada Escritura. Jesus mandou observar os sinais dos
tempos.
3. O sentido do movimento
progressivo da Revelação
É importante notar que Deus na sua paciência diferente da nossa, foi se
revelando lentamente, durante 14 séculos, e continuou a se revelar durante mais
de 20 séculos pelos caminhos da Sua Igreja, através da Sagrada Tradição
(transmissão oral, não escrita) que para nós católicos tem o mesmo valor das
Sagradas Escrituras.
4. O sentido da relatividade das
palavras – as palavras são relativas, nem sempre absolutas. Para compreender o
texto bíblico importa saber o que certas palavras significavam exatamente quando
foram usadas pelo autor sagrado.
5. O bom senso e senso crítico – também é
recomendado; isto é, a nossa inteligência e equilíbrio diante dos fatos. É bom
saber perguntar diante de certas interpretações: isto tem fundamento no texto
original? Ou são apenas o ponto de vista de alguém em desacordo com o autor
sagrado?
A Constituição Dogmática do
Concílio Vaticano II sobre a Revelação divina, Dei Verbum, recomenda três pontos
ao se ler a Palavra de Deus:
1. Conteúdo e
unidade da Escritura inteira. Quer dizer, não interpretar uma parte da Escritura
fora do seu contexto integral. Muitas vezes um versículo só será bem entendido
quando lido juntamente com outros.
2. A Tradição viva
da Igreja. Observar como a Tradição da Igreja interpretou a parte que está sob
estudo; especialmente pesar a palavra dos Papas, Santos Padres da Igreja e seus
doutores.
3. Analogia da fé –
Isto é, verificar a coesão das verdades da fé entre si. Uma não pode ser oposta
a outra, pois o Espírito Santo não se contradiz.
O Concílio Vaticano II
O Concílio indica também três
critérios para uma interpretação da Escritura conforme ao Espírito que a
inspirou:
1. Prestar muita atenção ao
conteúdo e à unidade da Escritura inteira.
Pois, por mais diferentes que
sejam os livros que a compõem, a Escritura é una em razão da unidade do projeto
de Deus, do qual Cristo Jesus é o centro e o coração, aberto depois da sua
Páscoa (§112). São Tomás de Aquino assim explica: ¨O
coração de Cristo designa a Sagrada Escritura que dá a conhecer o coração de
Cristo. O coração estava fechado antes da Paixão, pois a Escritura era obscura.
Mas a Escritura foi aberta após a Paixão, pois os que a partir daí têm a
compreensão dela consideram e discernem de que maneira as profecias devem ser
interpretadas¨. (Sl. 21,11).
2. Ler a Escritura dentro da
Tradição viva da Igreja inteira.
Conforme o ensinamento dos Padres
da Igreja, ¨a Sagrada Escritura está escrita mais no coração da Igreja do que
nos instrumentos materiais¨. Com efeito, a Igreja leva na sua Tradição, a
memória viva da Palavra de Deus, e é o Espírito Santo que lhe dá a interpretação
espirital da Escritura (¨... segundo o sentido espiritual que o Espírito dá à
Igreja¨) (Orígenes, hom. Lv. 5,5), (§113).
3. Estar atento ¨à analogia da
fé¨(Rom 12,6).
Por analogia da fé entendemos a
coesão das verdades da fé entre si e no projeto total da Revelação.
O sentido literal e o
espiritual
O Catecismo da Igreja nos ensina que há dois sentidos nas Escrituras,
segundo uma antiga tradição da Igreja. O sentido literal - é dado
pelo significado das palavras da Escritura e descoberto pela exegese (estudo
profundo do texto bíblico) que segue as regras da correta interpretação.São
Tomás de Aquino dizia que ¨todos os sentidos devem estar fundados no
literal¨ (Suma Theol. 1,1, 10, ad
1).(§116) O sentido espiritual - Graças à unidade do projeto de Deus,
não somente o texto da Escritura, mas também as realidades e os acontecimentos
de que fala, podem ser sinais. O sentido espiritual pode ser subdividido em
alegórico, moral e anagógico. O sentido
alegórico - Podemos adquirir uma comprensão mais profunda dos
acontecimentos reconhecendo a
significação deles em Cristo; assim, a travessia do Mar Vermelho é um sinal da
vitória de Cristo, e também é um sinal do Batismo (cf. 1Cor 10,12).
O sentido moral - Os acontecimentos relatados na Escritura podem
conduzir-nos a um justo agir. São Paulo diz que eles foram escritos para a nossa
instrução (1 Cor 10,11; Hb 3-4,11) O
sentido anagógico - Podemos ver realidades e acontecimentos na sua significação
eterna, conduzindo-nos (em grego: anogoge) para a nossa Pátria. Assim, a Igreja na terra é sinal da
Jerusalém celeste. (cf. Ap 21,1-22, 5) (§117). Um
ensinamento medieval resume a significação dos quatro sentidos: ¨A letra ensina o que
aconteceu; a alegoria, o que deves crer; a moral, o que deves fazer; a anagogia,
para onde deves caminhar¨(§118)
A relação entre o Antigo e o Novo
Testamento
Embora o Novo Testamento seja ¨o coração das Escrituras¨, já que contém
os Evangelhos, o Antigo Testamento continua sendo uma parte inalienável da
Sagrada Escritura. Seus livros são divinamente inspirados e conservam um valor
permanente (cf. DV, 14), uma vez que a Antiga Aliança nunca foi revogada, como
ensina a Igreja.
O nosso Catecismo ensina que: ¨Os
cristãos veneram o Antigo Testamento como verdadeira Palavra de Deus. A Igreja
sempre rechaçou vigorosamente a idéia de rejeitar o Antigo Testamento sob o
pretexto de que o Novo o teria feito caducar (Marcionismo)¨(§123). ¨A Igreja,
já nos tempos apostólicos (1Cor 10,6.11; Hb10,1; 1 Pe 3,21), e depois,
constantemente na sua Tradição, iluminou a unidade do plano divino nos dois
Testamentos graças à tipologia. Esta discerne nas obras de Deus contidas na
Antiga Aliança prefigurações daquilo que Deus realizou na plenitude dos tempos,
na pessoa de seu Filho encarnado.¨(§128) ¨Por isso
os cristãos lêem o Antigo Testamento à luz de Cristo morto e ressuscitado. Esta
leitura tipológica manifesta o conteúdo inesgotável do Antigo Testamento. Ela
não deve levar a esquecer que este conserva o seu valor próprio de Revelação, que o
próprio Nosso Senhor reafirmou (cf. Mc 12, 29-31). De resto, também o Novo
Testamento exige ser lido à luz do Antigo. A catequese cristã primitiva recorre
constantemente a ele (cf. 1Cor 5,6-8; 10, 1-11).(§129)
Hugo de São Vitor também dizia que:
¨Toda a Escritura divina é um único livro, e este livro único é Cristo,
já que toda Escritura divina fala de Cristo, e toda Escritura divina se cumpre
em Cristo¨.(Noe 2,8; CIC §134).
Segundo uma palavra de Santo Agostinho:
¨O Novo Testamento está escondido no Antigo, ao passo que o Antigo é
desvendado no Novo¨ (Hept 2, 73; DV,16; CIC §129).
COMO A BÍBLIA FOI ESCRITA
Os textos da Bíblia começaram a
ser escritos desde os tempos anteriores a Moisés (1200 aC). Escrever era uma
arte rara e cara, pois se escrevia em tábuas de madeira, papiro, pergaminho
(couro de carneiro). Moisés foi o primeiro codificador das leis e tradições
orais e escritas de Israel. Essas tradições foram crescendo aos poucos por
outros escritores no decorrer dos séculos, sem que houvesse uma catalogação
rigorosa das mesmas. Assim foi se formando a literatura sagrada de Israel.
Até o século XVIII dC, admitia-se que Moisés tinha escrito o
Pentateuco (Gen, Ex, Lev, Nm, Dt); mas,
nos últimos séculos, os estudos mais apurados mostraram que não deve ter
sido Moisés o autor de toda esta obra. A teoria que a Igreja Católica aceita é a
seguinte: O povo de Israel, desde que Deus chamou Abrão de Ur na
Caldéia, foi formando a sua tradição histórica e jurídica. Moisés deve ter sido
quem fez a primeira codificação das Leis de Israel, por ordem de Deus, no séc.
XIII aC. Após Moisés, o bloco de tradições foi enriquecido com novas leis devido
às mudanças históricas e sociais de Israel. A partir de Salomão
(972-932), passou a existir na corte dos reis, tanto de Judá quanto da Samaria
(reino cismático desde 930 aC) um grupo de escritores que zelavam pelas
tradições de Israel, eram os escribas e sacerdotes. Do seu trabalho surgiram
quatro coleções de narrativas históricas que deram origem ao Pentateuco:
1. Coleção ou código Javista (J), onde
predomina o nome Javé. Tem estilo simbolista, dramático e vivo; mostra Deus muito perto do homem. Teve
origem no reino de Judá com Salomão (972-932).
2. O código Eloista
(E), predomina o nome Elohim (=Deus). Foi redigido entre 850 e 750 aC, no reino
cismático da Samaria. Não usa tanto o antropomorfismo (representa Deus à
semelhança do homem) do código Javista.
Quando houve a queda do reino da
Samaria, em 722 para os Assírios, o
código E foi levado para o reino de
Judá, onde ouve a fusão com o código J, dando origem a um código JE.
3. O código (D) -
Deuteronômio (= repetição da Lei, em grego). Acredita-se que teve origem nos
santuários do reino cismático da Samaria (Siquém, Betel, Dã,...) repetindo a lei
que se obedecia antes da separação das tribos. Após a queda da Samaria (722)
este código deve ter sido levado para o reino de Judá, e tudo indica que tenha
ficado guardado no Templo até o reinado de Josias (640-609 aC), como se vê em
2Rs 22. O código D sofreu modificações e a sua redação final é do século V aC,
quando, então, na íntegra, foi anexado à Torá. No Deuteronômio se observa cinco
¨deuteronômios¨ (repetição da lei). A característica forte do Deuteronômio é o
estilo forte que lembra as exortações e pregações dos sacerdotes ao povo.
4. O código
Sacerdotal (P) – provavelmente os sacerdotes judeus durante o exílio da
Babilônia (587-537aC) tenham redigido as tradições de Israel para animar o povo
no exílio. Este código contém dados cronológicos e tabelas genealógicas, ligando
o povo do exílio aos Patriarcas, para mostrar-lhes que fora o próprio Deus quem
escolheu Israel para ser uma nação sacerdotal (Ex 19,5s). O código P enfatiza o
Templo, a Arca, o Tabernáculo, o ritual, a Aliança.
Tudo indica que no século V aC, um
sacerdote, talvez Esdras, tenha fundido os códigos JE e P, colocando como apêndice o código D,
formando assim o Pentateuco ou a Torá, como a temos hoje.
A importância da Igreja
Se não fosse a Igreja Católica,
não existiria a Bíblia como a temos hoje, com os 73 livros canônicos, isto é,
inspirados pelo Espírito Santo. Foi num longo processo de discernimento que a
Igreja, desde o tempo dos Apóstolos, foi ¨berçando¨ a Bíblia, e descobrindo os
livros inspirados. Se você acredita no dogma da infalibilidade de Igreja, então
pode acreditar na Bíblia como a Palavra de Deus. Mas se você não acredita, então
a Bíblia perde a sua inerrância,
isto é, ausência de erro. Esta conclusão nos leva a outra também
importantíssima, que é a seguinte: se foi a Igreja, que guiada pelo Espírito
Santo, compôs a Bíblia, logo, é ela também a única autoridade capaz de a
interpretar segundo o que Deus quis nos dizer de fato. Por que a Igreja tem
tanta certeza de que ela não erra naquilo que é essencial para levar os seus
filhos à salvação? Por causa das grandes promessas que o próprio Senhor lhe fez,
garantindo que ela guardaria sem erros o ¨depósito da fé¨ que Jesus nos deixou
através dos Apóstolos. Demorou alguns séculos para que a Igreja
chegasse à forma final da Bíblia. Em vários Concílios, alguns regionais outros
universais, a Igreja estudou o cânon da Bíblia; isto é, o seu índice.
Garante-nos o Catecismo da Igreja
e o Concílio Vaticano II que:
¨Foi a Tradição apostólica que fez
a Igreja discernir que escritos deviam ser enumerados na lista dos Livros
Sagrados¨(DV 8; CIC,120).
Portanto, sem a Tradição da Igreja
não teríamos a Bíblia. Santo Agostinho dizia: ¨Eu não acreditaria no Evangelho,
se a isso não me levasse a autoridade da Igreja Católica¨(CIC,119).
Por que a Bíblia católica é
diferente da protestante? Esta tem apenas 66 livros porque Lutero e,
principalmente os seus seguidores,
rejeitaram os livros de Tobias, Judite, Sabedoria, Baruc, Eclesiástico
(ou Sirácida), 1 e 2 Macabeus, além de Ester 10,4-16; Daniel 3,24-20;
13-14.
A razão disso vem de longe.
No ano 100 da era cristã os
rabinos judeus se reuniram no Sínodo de Jâmnia (ou Jabnes), no sul da Palestina,
a fim de definirem a Bíblia Judaica. Isto porque nesta época começava a surgir o
Novo Testamento com os Evangelhos e as cartas dos Apóstolos, que os Judeus não
aceitaram.
Nesse Sínodo os rabinos definiram
como critérios para aceitar que um livro fizesse parte da Bíblia, o
seguinte:
(1) deveria ter sido
escrito na Terra Santa;
(2) escrito somente em
hebraico, nem aramaico e nem grego;
(3) escrito antes de Esdras
(455-428 a.C.);
(4) sem contradição com a
Torá ou lei de Moisés.
Esses critérios eram
nacionalistas, mais do que religiosos, fruto do retorno do exílio da Babilônia.
Por esses critérios não foram aceitos na Bíblia judaica da Palestina os livros
que hoje não constam na Bíblia protestante, citados antes.
Acontece que em Alexandria no
Egito, cerca de 200 anos antes de Cristo, já havia uma forte colônia de judeus,
vivendo em terra estrangeira e falando o grego. Os judeus de Alexandria, através
de 70 sábios judeus, traduziram os livros sagrados hebraicos para o grego, entre
os anos 250 e 100 a.C, antes do Sínodo de Jâmnia (100 d.C). Surgiu assim a
versão grega chamada Alexandrina ou dos Setenta. E essa versão dos Setenta,
incluiu os livros que os judeus de Jâmnia, por critérios nacionalistas,
rejeitaram.
Havia então no início do
Cristianismo duas Bíblias judaicas: uma da Palestina (restrita) e a Alexandrina
(completa – Versão dos LXX).
Os Apóstolos e Evangelistas
optaram pela Bíblia completa dos Setenta (Alexandrina), considerando canônicos
os livros rejeitados em Jâmnia. Ao escreverem o Novo Testamento usaram o Antigo
Testamento, na forma da tradução grega de Alexandria, mesmo quando esta era
diferente do texto hebraico. O texto grego ¨dos Setenta¨ tornou-se comum entre
os cristãos; e portanto, o cânon completo, incluindo os sete livros e os
fragmentos de Ester e Daniel, passou para o uso dos cristãos.
Das 350 citações do Antigo
Testamento que há no Novo, 300 são tiradas da Versão dos Setenta, o que mostra o
uso da Bíblia completa pelos apóstolos.
Verificamos também que nos livros
do Novo Testamento há citações dos livros que os judeus nacionalistas da
Palestina rejeitaram. Por exemplo: Rom 1,12-32 se refere a Sb 13,1-9; Rom 13,1 a Sb 6,3; Mt 27,43 a Sb 2, 13.18; Tg 1,19 a Eclo
5,11; Mt 11,29s a Eclo
51,23-30; Hb 11,34 a 2 Mac 6,18;
7,42; Ap 8,2 a Tb 12,15.
Nos séculos II a IV houve dúvidas
na Igreja sobre os sete livros por causa da dificuldade do diálogo com os
judeus. Finalmente a Igreja, ficou com a Bíblia completa da Versão dos Setenta,
incluindo os sete livros.
Por outro lado, é importante saber
também que muitos outros livros que todos os cristãos têm como canônicos, não
são citados nem mesmo implicitamente no Novo Testamento. Por exemplo:
Eclesiastes, Ester, Cântico dos Cânticos, Esdras, Neemias, Abdias, Naum,
Rute.
Outro fato importantíssimo é que
nos mais antigos escritos dos santos Padres da Igreja (patrística) os livros
rejeitados pelos protestantes (deutero-canônicos) são citados como Sagrada
Escritura. Assim, São Clemente de Roma, o quarto Papa da Igreja, no ano de 95
escreveu a Carta aos Coríntios, citando Judite, Sabedoria, fragmentos de Daniel,
Tobias e Eclesiástico; livros rejeitados pelos protestantes. Ora, será que o
Papa S. Clemente se enganou, e com ele a Igreja? É claro que não. Da mesma
forma, o conhecido Pastor de Hermas, no ano 140, faz amplo uso de Eclesiástico,
e do 2 Macabeus; Santo Hipólito (†234), comenta o Livro de Daniel com os
fragmentos deuterocanônicos rejeitados pelos protestantes, e cita como Sagrada
Escritura Sabedoria, Baruc, Tobias, 1 e 2 Macabeus.
Fica assim, muito claro, que a
Sagrada Tradição da Igreja e o Sagrado Magistério sempre confirmaram os livros
deuterocanônicos como inspirados pelo Espírito Santo.
Vários Concílios confirmaram isto:
os Concílios regionais de Hipona (ano 393); Cartago II (397), Cartago IV (419),
Trulos (692). Principalmente os Concílios ecumênicos de Florença (1442), Trento
(1546) e Vaticano I (1870) confirmaram a escolha.
No século XVI, Martinho Lutero
(1483-1546) para contestar a Igreja, e para facilitar a defesa das suas teses,
adotou o cânon da Palestina e deixou de lado os sete livros conhecidos, com os
fragmentos de Esdras e Daniel.
Sabemos que é o Espírito Santo
quem guia a Igreja e fez com que na hesitação dos séculos II a IV a Igreja
optasse pela Bíblia completa, a versão dos Setenta de Alexandria, o que vale até
hoje para nós católicos.
Lutero, ao traduzir a Bíblia para
o alemão, traduziu também os sete livros (deuterocanônicos) na sua edição de
1534, e as Sociedades Biblícas protestantes, até o século XIX incluíam os sete
livros nas edições da Bíblia.
Neste fato fundamental para a vida
da Igreja (a Bíblia completa) vemos a importância da Tradição da Igreja, que nos
legou a Bíblia como a temos hoje. Disse o último Concílio:
¨Pela Tradição torna-se conhecido
à Igreja o Cânon completo dos livros sagrados e as próprias Sagradas Escrituras
são nelas cada vez mais profundamente compreendidas e
se fazem sem cessar, atuantes. Assim o Deus que outrora falou, mantém um permanente diálogo com a
Esposa de seu dileto Filho,
e o Espírito Santo, pelo qual a voz viva do Evangelho ressoa na Igreja e através
da Igreja no mundo, leva os fiéis à verdade toda e faz habitar neles
copiosamente a Palavra de Cristo¨ (DV,8).
Por fim, é preciso compreender que
a Bíblia não define, ela mesma, o seu catálogo; isto é, não há um livro da
Bíblia que diga qual é o índice dela. Assim, este só pode ter sido feito pela
Tradição dos apóstolos, pela tradição oral que de geração em geração chegou até
nós.
Se negarmos o valor indispensável
da Tradição, negaremos a autenticidade da própria Bíblia.
É interessante notar que o Papa
São Dâmaso (366-384), no século IV, pediu a S.Jerônimo que fizesse uma revisão
das muitas traduções latinas que havia da Bíblia, o que gerava certas confusões
entre os cristãos. São Jerônimo revisou o texto grego do Novo Testamento e
traduziu do hebraico o Antigo Testamento, dando origem ao texto latino chamado
de Vulgata, usado até hoje.
DO LIVRO ¨ESCOLA DA FÉ II¨ do
Prof. Felipe de Aquino Editora Cléofas - CP 100, CEP 12600-970 - Lorena -
SP
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