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Bispo de Jales (SP)
Nesta semana celebramos o Dia Mundial do Enfermo. A data, 11 de fevereiro, se explica por ser o dia que lembra a manifestação de Nossa Senhora em Lourdes, na França, em 1858.
O local se tornou um centro de peregrinação que se distingue, exatamente, por acolher com muita fé e bondade as pessoas que carregam o peso do sofrimento humano, e para lá se dirigem com a esperança de encontrar alívio para sua dor, e sentido para sua vida. Daí o motivo para a Igreja fazer desta data o Dia Mundial do Enfermo.
A compreensão exata do sofrimento sempre intrigou a mente humana. Um dos equívocos mais freqüentes é vincular sofrimento com culpabilidade. Ou entendê-lo como castigo necessário para expiação de pecados cometidos. No Evangelho Cristo se incumbiu de desfazer este equívoco, não só pela maneira como ele aceitou o sofrimento, mas por suas palavras incisivas de esclarecimento.
Ao ser perguntando pelos atrapalhados fariseus, a respeito do cego de nascença, sobre quem teria pecado, o cego ou os seus pais, Jesus foi muito enfático ao dizer: “nem ele pecou, nem seus pais pecaram”. Assim, ele cortou de vez o elo de causalidade entre culpabilidade e sofrimento, entre pecado e doença, entre castigo e dor.
E’, portanto, em outro âmbito, com outras referências, que precisamos encontrar o sentido do sofrimento humano, que foi assumido com toda a sua intensidade por Cristo, no seu mistério pascal, com repercussão direta no coração de Maria.
Neste sentido, o episódio de Lourdes projeta uma luz inesperada, que ajuda a compreender a dinâmica transformadora da fé cristã em relação ao sofrimento.
Lourdes nos apresenta uma dupla referência. A proclamação da Imaculada Conceição de Maria, e a acolhida aos sofredores.
Parece não haver relação alguma entre um fato e outro. Na verdade, existe, sim, um elo muito profundo entre a santidade de Maria e o sofrimento humano. Como existe um vínculo muito estreito entre o sofrimento de Cristo e a redenção da humanidade.
Neste contexto podemos perceber a mão da providência, vinculando a fé na Imaculada Conceição de Maria com a realidade profunda e misteriosa do sofrimento humano, como ainda hoje é possível constatar em Lourdes.
Em 1858, Maria se manifestou a Bernardette Soubirous, dizendo: “eu sou a Imaculada Conceição”. As palavras tinham sido usadas pela Igreja, quatro anos antes, em 1854, para manifestar a convicção de que Deus tinha preservado Maria de toda culpa original.
Não deixa de ser muito significativo que ao confirmar a fé da Igreja em sua Imaculada Conceição, Maria se apressa em revelar sua presença junto ao sofrimento humano.
Ela foi preservada de todo pecado, mas não foi preservada de nenhum sofrimento. Ao contrário, mais que ninguém, foi associada intensamente ao sofrimento redentor do seu Filho. Aos pés da Cruz, lá estava ela, a “mãe dolorosa”, acolhendo em profundidade o sofrimento do seu Filho, participando junto com ele do gesto redentor da humanidade.
Entre Imaculada Conceição e Redenção há uma profunda e misteriosa relação.
Continua fecunda a vinculação que Lourdes explicitou. O sofrimento não atesta culpabilidade de ninguém. Muitas vezes causado por injustiças humanas que continuam fazendo vítimas inocentes, o sofrimento é caminho de misteriosa realização, como Deus revelou pela ressurreição do Cristo, morto na Cruz.
O sofrimento pede respeito. Engana-se quem o enclausura em limites meramente humanos. E está muito longe do Evangelho quem o explora, sobretudo para fins de proselitismo religioso. Disponibilizado ela CNBB em 11/2/04
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