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Dom Demétrio Valentini Bispos de Jales (SP)
Desta vez, a Campanha da Fraternidade pode se tornar um marco histórico, para assinalar o início de um processo eficaz de mudanças em relação à água.
Já tivemos uma experiência semelhante. Mudou muito a mentalidade ecológica. A Eco92 pode servir de referência para este fato evidente. As crianças já não matam passarinhos, a ingenuidade das pombas já não paga o preço da malícia dos adultos. Já é um começo!
Agora, é a oportunidade para introduzir mudanças muito mais significativas. Existe um amplo leque de iniciativas, que necessitam do respaldo da população para serem implementadas. Bem valorizada, a Campanha da Fraternidade sobre a água pode juntar parcerias, e produzir efeitos surpreendentes.
Ao iniciar sua grande convocação para a “mudança de mentalidade”, que o Evangelho chama de “conversão”, traduzindo a palavra grega “metánoia”, Jesus incentivava as pessoas a mergulharem na água. Era o gesto do “batismo”, do “mergulho”, como a palavra quer dizer. Parece que a água tem mesmo afinidade com o processo de mudanças.
Neste início de Campanha sobre a água, fui procurado por representantes da CATI, órgão técnico ligado à Secretaria da Agricultura do Estado de S. Paulo. Faz tempo que este órgão governamental vem incentivando iniciativas básicas em relação à preservação da água, mas que esbarram na resistência oferecida pelo pouco esclarecimento da população. Percebendo a proposta da Campanha da Fraternidade, logo se deram conta da preciosidade do momento, contanto que se desencadeie um processo amplo de parcerias, envolvendo a cidadania e as instâncias governamentais.
O leque de iniciativas é diverso e concreto. A começar pela preservação das nascentes. Toda vertente de água precisa ser protegida, resguardando ao seu redor a cobertura que a própria natureza oferece.
Outra providência se refere ao percurso dos córregos e rios. Suas margens precisam ser preservadas, permitindo que a mata ciliar se refaça. Para tanto, se requer uma providência que os agricultores se recusam a tomar, e que contraria velhos hábitos de deixar o gado pisotear as margens. Só uma campanha como esta pode mudar convicções arraigadas, contanto que os órgãos governamentais garantam suporte técnico e apoio financeiro, como já estão fazendo alguns Estados e Municípios.
Outra iniciativa mais complexa se refere à implantação das “micro bacias” no sistema do manejo da terra. Onde já foram implantadas, os efeitos positivos são evidentes. Trata-se de garantir condições para que a água da chuva possa ser retida e penetre mais no solo. Para isto se requer uma ação conjunta dos vizinhos, superando a visão estreita de cada um só pensar no seu lote. O embalo de uma campanha da fraternidade, recheada de amplas motivações como esta, pode facilitar a implantação deste processo revolucionário do manejo coletivo do solo.
A iniciativa das micro bacias se junta a outra, do plantio direto. E’ uma técnica que em alguns lugares do Brasil já foi introduzida, há dezenas de anos. Bem conduzida, possibilita a preservação da biodiversidade presente no solo, evita erosão, e barateia os custos de produção. E’ a vez de dar um empurrão para que todos assimilem esta técnica, que não deixou arrependido nenhum agricultor que já a adotou.
Então é possível descobrir outras providências, como a descompactação do solo, através do arado subsolador. Pois a água não pode correr disparada, e provocar as enchentes que tanto prejudicam. Ela precisa entrar mais no solo.
São providências ligadas à agricultura. Com a vantagem de contar com propostas bem definidas. O contexto urbano, mais afastado da natureza, talvez tenha mais dificuldade de perceber as incidências práticas desta campanha. Mas é evidente que ela oferece a todos a oportunidade de rever atitudes, e somar iniciativas importantes que podem ser desencadeadas.
Num país tão afeito ao falatório inócuo, esta campanha nos convoca para mudanças efetivas.
Disponibilizado pela CNBB em 10/03/2004
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