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Atualmente uma gigantesca onda de
´mensagens inspiradas´ tem invadido o mundo católico, como reflexo de um
fenômeno mais amplo: a grande explosão de misticismo que vem substituindo um já
desgastado e rançoso racionalismo. Acrescentem´se aí as angústias de um fim de
milênio ´´ e de uma civilização espiritualmente agonizante ´´ e teremos o mais
propício ambiente para a subcultura do ´aparicionismo´, que infesta hoje muitos
ambientes católicos. As ´aparições´ de Nossa Senhora se multiplicam por todo o
mundo, às centenas, sendo a de Medjugorje, na Croácia, a mais difundida. Além
dessas ´aparições´, não são poucas as pessoas que se dizem divinamente
´inspiradas´, recebendo ´mensagens´ espirituais de Jesus e Maria. Entre essas
poderíamos citar o Pe. Stefano Gobbi ´´ que diz receber locuções interiores de
Nossa Senhora ´´ e a ortodoxa Vassula Ryden, cuja obra em seis volumes
(supostamente escrita sob o ditado de Jesus) tem sido amplamente difundida no
Brasil, mesmo depois de condenada pelo Vaticano. Tais manifestações, por serem
tão abundantes, tendem a provocar no católico uma polarização: ou ceticamente
recusam todos os fenômenos (e pretensos fenômenos) ou os aceitam integralmente,
sem nenhum discernimento. Diante do silêncio da maioria das autoridades
eclesiásticas, que parecem ter abdicado da função de ensinar, é conveniente
recordarmos aqui o perene ensinamento da Igreja em matéria tão delicada, e não
obstante tão importante, cuja omissão tem levado os fiéis a aderir
indiscriminadamente a doutrinas ´inspiradas´ que nada têm de inspiradas nem de
católicas. As revelações são manifestações sobrenaturais de verdades ocultas ou
de fatos incomuns. Para que haja verdadeiramente revelação é necessário que o
seu conhecimento se opere por via sobrenatural. Quanto à destinação, as
revelações podem ser públicas ou privadas. As revelações públicas (ou
universais) estão contidas na Bíblia e no depósito da tradição apostólica,
transmitidas e mantidas pela Igreja. Essas revelações universais terminaram com
a pregação dos apóstolos e são de crença obrigatória para todos os fiéis. As
revelações privadas (ou particulares) são feitas usualmente aos santos, e a
Igreja não obriga acreditá´las, mesmo quando as aprova.
Quando a Igreja
aprova uma revelação privada, essa aprovação é simplesmente uma declaração de
que ela não encontrou nada nessas revelações que fosse contrário à fé e aos bons
costumes, e que os fiéis podem lê´las sem nenhum perigo para as almas. Ouçamos o
que diz o papa Bento XIV: ´O que se deve pensar das revelações privadas
aprovadas pela Santa Sé, as de Santa Hildegarda, Santa Brígida, Santa Catarina
de Sienna? Dissemos que não é nem obrigatório nem possível dar´lhes um
assentimento de fé católica, mas somente de fé humana, conforme as regras da
prudência, que no´las apresenta como prováveis e piedosamente críveis.´ (De
canon.,1 III,c. Liii,n° 15). Repetimos a afirmação básica: não é obrigatório nem
possível dar às revelações privadas um assentimento de fé católica, mesmo que
tais revelações tenham sido aprovadas pela Igreja. É importante que o leitor
tenha isso bem presente, para que não se pense que é pecado colocar´se contra
uma revelação privada. Ouçamos o cardeal Pitra: ´Sabemos que somos plenamente
livres de crer ou não nas revelações privadas, mesmo nas mais dignas de fé.
Mesmo quando a Igreja as aprova, elas são recebidas como prováveis e não como
indubitáveis (...) É totalmente permitido afastar´se dessas revelações, mesmo
aprovadas, quando alguém se apoia sobre razões sólidas, sobretudo quando a
doutrina contrária é estabelecida por documentos inatacáveis e uma experiência
certa.´ (Livro sobre Santa Hildegarda, p. XVI) E não se admire o leitor de que
mesmo em revelações aprovadas de pessoas canonizadas existam erros dos mais
variados tipos. Vale a pena conhecer algumas causas de erros que podem ocorrer
numa revelação verdadeira, ou tida como tal em determinada época.
1)
Interpretações incorretas. Não é incomum que o próprio vidente possa interpretar
mal a revelação que recebe. Isso se deve, em primeiro lugar, à obscuridade da
revelação, sobre a qual o vidente possui uma inteligência apenas parcial. Há
também outras causas, como por exemplo o apego do vidente a certos preconceitos
que interferem na correta compreensão da mensagem recebida. O exemplo clássico é
o de São Pedro, que teve a visão de uma toalha contendo diversos animais,
enquanto uma voz por três vezes lhe dizia: ´Levanta´te Pedro, mata e come.´ Ele
acreditou que se tratasse de sua alimentação, tanto mais que teve a visão quando
estava com fome e lhe preparavam o almoço. (Atos, X, 10). Inicialmente ele não
compreendeu o sentido simbólico da visão, que tinha por objetivo convencê´lo de
que devia batizar os pagãos sem lhes impor primeiro as práticas da lei mosaica.
Santa Joana d’Arc também interpretou erroneamente as mensagens que ouvia
interiormente: acreditou que seria libertada. Foi martirizada.
2)
Imprópria consideração dos elementos históricos. Engana´se frequentemente aquele
que atribui aos detalhes históricos de uma revelação ou visão uma exatidão
absoluta. Detalhes como a paisagem, o tipo de roupa, a língua falada, os
costumes locais, quase sempre estão em desacordo com os conhecimentos históricos
ou senão, diferem consideravelmente mesmo em santos que tiveram visões sobre o
mesmo tema. Quando Deus dá uma visão a uma alma, é para a sua santificação
pessoal e não para satisfazer a curiosidade histórica. Há inúmeros exemplos
desse engano em visões sobre a paixão e morte de Nosso Senhor.
3)
Intromissão da atividade humana na ação sobrenatural. Engana´se aquele que pensa
que uma revelação não diabólica ou é inteiramente divina ou inteiramente humana;
o espírito humano pode imiscuir´se, em certa medida, na ação sobrenatural,
alterando partes da revelação. Catarina Labouré, por exemplo, fez predições
verdadeiras com até quarenta anos de antecedência, e fez também predições
falsas. Santa Hildegarda é outro exemplo: analfabeta, ela compunha e ditava
textos em latim. Suas numerosas obras inspiradas, entretanto, contém os erros
científicos de sua época. Embora nos repugne encontrar erros em revelações
recebidas por santos e santas, a lição que daí se tira não é a de que se deve
desprezá´las por completo, mas sim que se deve abandonar a idéia tão popular e
romântica de que tudo que vem da parte de um santo é infalível. (O leitor
interessado em conhecer mais profundamente os exemplos de erros em revelações
aprovadas deve consultar a obra clássica de A. Poulain, ´Des Grâces d’Oraison´,
na qual nos baseamos para este artigo). Se a situação é assim complicada em
relação aos santos, o que pensar das revelações privadas recebidas (como é hoje
tão freqüente) por pessoas comuns ´ donas de casa, estudantes , empresários ´? E
se existem erros mesmo em revelações privadas aprovadas, qual a diferença entre
esses erros e os que aparecem numa revelação condenada? Como julgar aquelas
pessoas que se apresentam como portadoras de uma mensagem ´inspirada´? A igreja
nos propõe um procedimento de extremo bom senso, baseado na sua experiência
bimilenar com a matéria.
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