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Irmã Lucy Veturse, da Bósnia, foi estuprada por soldados sérvios durante a
guerra entre essas etnias da antiga Iugoslávia, após a queda do comunismo.
Embora violentada e humilhada, ela não admitiu o aborto e preferiu ter que
deixar a vida religiosa para criar seu filho, do que abortá-lo.
Eis, a seguir, a carta emocionante que ela
escreveu à sua Superiora ( publicado na revista Pergunte e Responderemos,
Nº 386, 1994, págs. 318 a 321).
Revda. Madre Geral,
Eu sou Lucy Veturse, uma das Junioristas
que foram violentadas pelos milicianos sérvios ... acontecimento que atingiu a
mim e às duas Irmãs Religiosas: Tatiana e Sendria.
Seja-me permitido não descer a certos
particulares do fato. Há experiências tão tristes na vida que não podem ser
comunicadas para ninguém a não ser àquele Bom Pastor a quem me consagrei no ano
passado com os três votos religiosos.
O meu drama não é a humilhação padecida,
como mulher, nem a ofensa insanável feita à minha escolha existencial e
vocacional, mas é sobretudo a dificuldade de inscrever na minha fé um
acontecimento que certamente faz parte do insondável e misterioso plano dAquele
que eu continuarei a considerar sempre o meu Divino Esposo.
Tinha lido, poucos dias antes, o "Diálogo
das Carmelitas" de Bernanos e me tinha sido espontâneo pedir ao Senhor poder eu
mesmo morrer mártir. Ele me tomou na palavra,...mas de que jeito! Encontro-me
atualmente numa angustiante noite escura do espírito. Ele destruiu o projeto de
vida que eu considerava definitivo para mim. De improviso me inseriu em um novo
desígnio que neste momento é , para mim, ainda a ser descoberto.
No meu caderno de notas tinha escrito, nos
anos de minha adolescência, que nada é meu, eu não pertenço a ninguém, ninguém
me pertence. Alguém, pelo contrário, me apanhou, numa noite que não queria mais
lembrar, me arrancou de mim mesma, pensando tornar-me algo dele.
Era dia quando acordei; o primeiro
pensamento foi mesmo aquele da agonia de Jesus no Horto. Desencadeou-se em mim
uma luta terrível: perguntava-me, de um lado, por que Deus teria permitido que
eu fosse dilacerada e destruída, naquilo mesmo que eu considerava a razão do meu
viver, e, de outro lado, para qual novo chamado queria Ele que eu me
candidatasse.
A custo, levantei-me e, enquanto auxiliada
por irmã Josefina, procurava-me arrumar, escutei do Mosteiro das Agostinianas,
que se situava perto do nosso, o toque do sino de Sexta. Fiz o sinal da cruz e
mentalmente rezei o hino da Liturgia: "Nesta hora foi nos dada gloriosa
salvação, pela morte do Cordeiro, que na Cruz trouxe o perdão..."
O que é, Madre, o meu sofrimento e a ofensa
padecida em comparação a tudo aquilo que sofreu Aquele pelo qual eu tinha mil
vezes prometido dar a vida? Disse então bem devagar: "Seja feita a tua vontade,
sobretudo agora que não tenho outro apoio senão a certeza de que Tu, Senhor,
estás perto de mim".
Escrevo, Madre, não para receber da senhora
conforto, mas para que me auxilie a agradecer a Deus por me ter associado a
milhares de minhas compatrícias ofendidas na honra e forçadas à maternidade
indesejada. Minha humilhação junta-se à delas e, pois que não tenho outra coisa
para oferecer para a expiação dos pecados cometidos pelos anônimos violentadores
e para uma pacificação entre as duas opostas etnias, aceito a desonra padecida e
a entrego à misericórdia de Deus.
Não se surpreenda se eu lhe peço
compartilhar comigo o "obrigado" que poderia parecer-lhe absurdo. Chorei, nestes
meses, todas as minhas lágrimas pelos meus dois irmãos assassinados pelos mesmos
agressores que estão espalhando terror em nossas cidades e pensava que mais do
isso não poderia sofrer. Nem imaginava que a dor pudesse ter bem outras
dimensões...
À porta do nosso convento batiam cada dia
centenas de criaturas famintas, tiritando de frio, com o desespero nos olhos.
Lembro-me que na semana anterior uma moça de dezoito anos me tinha assim falado:
"Felizes vocês que escolheram um lugar onde a maldade não pode entrar". Tinha em
mãos o livro "As alegrias do Profeta" e continuou em voz baixa: "Vocês não vão
mais experimentar o que é desonra".
Refleti demoradamente naquelas palavras e me
convenci de que havia uma parte secreta da dor e do sofrimento de minha gente
que ficava despercebida também a mim, e quase sentia um sentimento de pudor por
ser excluída de sua participação.
Agora eu sou uma entre elas, uma das tantas
anônimas mulheres do meu povo com o corpo destruído e a alma devastada. Nosso
Senhor me admitiu a participar de seu mistério de vergonha; mais ainda a mim,
Religiosa e freira, concedeu o privilégio de compreender até o fundo a força
diabólica do mal.
Sei que, de agora em diante, as palavras de
encorajamento e de consolação que conseguir extrair do meu pobre coração, serão
com certeza aceitas, porque a minha história é a história delas e a minha
resignação, sustentada pela fé, poderá servir, se não de exemplo, pelo menos de
referencial para as suas reações morais e afetivas.
É bastante um sinal, uma pequena voz, um
chamariz fraternal para colocar em movimentação a experança de um exército de
criaturas desconhecidas. Deus escolheu a mim (Deus me perdoe esta presunção)
para guiar as pessoas mais humilhadas da minha gente para um alvorecer de
redenção e de liberdade. Não terão mais dúvidas sobre a sinceridade das minhas
propostas, porque estou chegando da fronteira da abjeção.
Lembro que, quando frequentava em Roma a
Universidade "Auxilium" para a formatura em Letras, uma idosa docente de
Literatura Eslava citava os seguintes versos do poeta Alexei Mislovich: "Tu não
deves morrer, porque tu escolheste ficar do lado da vida". Na noite em que fui
dilacerada pelos sérvios, por horas seguidas continuava a repetir para mim mesma
aquelas palavras que me pareciam como um bálsamo para a alma, mesmo no momento
em que o desespero parecia aflorar para me apanhar. Agora tudo passou e, se me
volto para trás, tenho a impressão de ter tido um terrível sonho feio.
Tudo passou, mas, Madre, tudo está para
começar. No seu telefonema, depois de suas palavras de conforto, de que ficarei
agradecida por toda a minha vida, a senhora me colocou uma clara pergunta: "Que
farás da vida que te foi jogada no seio? ". Percebi que sua voz tremia ao me
colocar esta interrogação, à qual achei pouco oportuno responder logo, não
porque não tivesse já refletido sobre a escolha, a decisão a ser tomada, mas
para não atrapalhar as eventuais propostas e projetos seus a meu
respeito.
Eu já decidi. Se for mãe, o menino será meu
e de ninguém mais. Sei que poderia confiá-lo a outras pessoas, mas ele tem
direito, mesmo não sendo esperado por mim, nem pedido, ao meu amor de
mãe.
Não se pode arrancar uma planta de suas
raízes. O grão caído no chão precisa de crescer lá onde o misterioso semeador,
mesmo sendo iníquo, o jogou. Realizarei minha vocação religiosa, mas de outra
maneira. Não peço nada à minha Congregação, que já me deu tudo. Fico agradecida
pela solidariedade fraternal das coirmãs, que nestes dias me encheram de
atenções e amabilidades, em particular por não me ter incomodado com perguntas
indiscretas. Irei embora com meu filho, se Deus quiser. Não sei ainda aonde, mas
Deus, que interrompeu improvisamente minha maior alegria, me orientará e
indicará o caminho a percorrer para cumprir sua vontade.
Voltarei a ser uma moça pobre, retomarei meu
velho avental, meus tamancos, que as mulheres usam nos dias de semana, e irei
com minha mãe a recolher a resina da casca dos pinheiros dos nossos vastos
bosques.
Deve mesmo haver alguém que comece a quebrar
a corrente de ódio que deturpa, há tanto tempo, os nossos países. Ao filho que
vier (se Deus quer que venha) ensinarei mesmo somente o AMOR. Ele, nascido pela
violência, testemunhará, perto de mim, que a única grandeza que honra a pessoa
humana, é aquela do PERDÃO.
Irmã Lucy
Veturse
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