|
De
24 a 30 de setembro o Regional Nordeste 3 da CNBB realizou a sua visita ¨ad
Limina¨, cujo programa abrangeu as audiências particulares do Santo Padre a cada
Bispo e as visitas aos diversos Dicastérios da Cúria Romana. Este Regional
compreende os Estados de Sergipe e da Bahia, e é constituído de duas Províncias
Eclesiásticas. A primeira, da Bahia, com l Arquidiocese e 18 Dioceses
sufragâneas: Ilhéus, Livramento de Nossa Senhora, Feira de Santana, Bonfim,
Juazeiro, Vitória da Conquista, Jequié, Barreiras, Teixeira de
Freitas-Caravelas, ltabuna, Caetité, Alagoinhas, Barra, Amargosa, Paulo Afonso,
Bom Jesus da Lapa, Ruy Barbosa e lrecê. A Província Eclesiástica de Aracaju
(Sergipe), por sua vez, abrange l Arquidiocese e 2 Dioceses sufragâneas:
Estância e Propriá. No dia 29 de setembro os Bispos participaram na
concelebração eucarística com o Santo Padre, e em seguida foram recebidos em
audiência coletiva. Durante este encontro, João Paulo II foi saudado pelo
Presidente do Regional, D. Paulo Lopes de Faria, Administrador Apostólico de
ltabuna e Arcebispo Coadjutor de Diamantina. Apresentamos a seguir o texto
do discurso do Papa: Prezados Irmãos Bispos l. É com imensa alegria
que vos dou as boas-vindas, Bispos provenientes das Províncias Eclesiásticas da
Bahia e de Aracaju: ¨Graça e paz vos sejam dadas da parte d´Aquele que é, que
era e que há de vir¨ (Ap 1, 4). A vossa presença testemunha a comunhão na graça
que vos une, na Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica, ao Bispo de Roma,
centro visível da unidade em todos os tempos. Ao realizardes a vossa
peregrinação aos túmulos dos Apóstolos, renovais a vossa convicção de que a
realidade histórica concreta, que é a Igreja, tem a sua origem nos Doze e no
nosso Senhor Jesus Cristo, que estabeleceu este Corpo vivo como sacramento da
salvação (cf. Cons. dog. Lumen gentium, 1), que Ele mesmo nos obteve mediante a Sua morte e ressurreição. Agradeço as palavras do Senhor Bispo D. Paulo Lopes de Faria, elas representam o espírito que acompanha vossos irmãos no episcopado, e refletem a sintonia que norteia a vossa comum missão de Pastores das Igrejas particulares que representais. A Igreja como sinal efetivo da salvação 2. Esta certeza acerca da
Igreja como sinal efetivo da salvação é a fonte dos vossos incansáveis esforços
para transmitir o Evangelho a todos os que foram confiados ao vosso cuidado
pastoral. Ela é a base do dever urgente, de todos os Pastores da Igreja, de
inspirarem e orientarem a plantatio Ecclesiae e o ulterior desenvolvimento da
Esposa de Cristo em todos os lugares e em todas as culturas. No limiar do
terceiro milênio, a missão apostólica que vos foi confiada encontra-se diante
dos formidáveis desafios da Nova Evangelização, em que a cultura reveste uma
importância primordial. Precisamente na linha destas considerações, ao
participar das comemorações do V Centenário da Evangelização da América Latina,
fiz questão de dar particular ênfase à ¨cultura cristã¨, onde o Evangelho de
Cristo levado aos homens atingisse cada qual na sua cultura, na esperança de
que, por sua vez, a fé dos cristãos fecundasse as culturas emergentes. A América
Latina representa quase a metade dos católicos do mundo. O sucesso da Nova
Evangelização dependerá de como a Igreja, e particularmente vós, que levais
sobre os ombros a pesada carga de iluminar os caminhos do rebanho que vos foi
confiado, sabereis manter esse diálogo entre a cultura e a fé. Para
confirmar vossos esforços e infundir-vos coragem diante de vossos deveres, como
já o fiz por ocasião das visitas ¨ad limina¨ de vossos coirmãos de outros
Regionais, permito-me sugerir algumas reflexões sobre temas que muitos de vós
compartilhastes comigo e que estão entre os objetivos prioritários do vosso
ministério episcopal. E, particularmente convosco, do Regional Nordeste III,
desejo hoje entreter-me sobre o estado da renovação litúrgica no vosso imenso
paz I s e a tarefa de chegar a uma Liturgia romana corretamente inculturada no
povo brasileiro. A promoção da vida litúrgica 3. A promoção da vida
litúrgica, no contexto acima acenado, apresenta mais de um desafio. Tenho
conhecimento que, nesse setor da vossa responsabilidade, muito foi feito e por
isso é necessário dar graças a Deus. A mesa da Palavra de Deus foi
abundantemente aberta a todos com traduções adaptadas ao uso litúrgico, e a
recente publicação do Missal e da Liturgia das Horas na língua do Brasil
oferecem agora à oração da Igreja no Brasil pontos de referência
definitivos. Esta oração, que funda suas raízes no tesouro da tradição da
Igreja e tende a santificar o dia e as obras, deve acompanhar a missão de
sacerdotes, diáconos, religiosos e religiosas, e estar sempre mais aberta também
aos leigos. A missão da Igreja e a sua atividade apostólica exigem de fato estar
unidas à oração incessante, segundo o convite e o exemplo de Cristo, para elevar
a Deus o mundo que evangelizamos (cf. Mt 26, 41; Mc 6, 46). Neste sentido,
uma palavra faz-se necessária, por ocasião da recente publicação, em vosso País,
da edição definitiva da liturgia das Horas, agora completada. Muitos dos vossos
Relatórios qüinqüenais indicavam a necessidade de se ajudar os presbíteros a
redescobrirem a importância do Breviário para a vida espiritual e ministério. É,
pois, chegado o momento de empreender todos os esforços possíveis para
corresponder a esta exigência, ajudando os vossos sacerdotes a viverem com
renovado ardor e entusiasmo, e em espírito de amoroso obséquio ao Senhor, aquela
¨ação¨ litúrgica que, como Sacerdotes, são chamados a oferecer em nome e com
toda a Igreja. O dever da recitação integral e cotidiana do Ofício Divino (cân.
276 § 2, 3) deve ser percebido não como fria e mecânica norma, mas como urna
impiedosa necessidade do próprio ser sacerdotal, feito ¨intérprete e veícido da
voz universal que canta a glória de Deus e pede a salvação do homem¨ (Audiência
Geral, 2-VI-1993, 5; cf. Diretório para o Ministério e a Vida dos
Presbíteros,50). A sua celebração seja diligentemente preparada, instruindo-se
os seminaristas acerca da história e do significado do Breviário; e aos jovens
sacerdotes proporcione-se um adequado acompanhamento, no quadro da formação
permanente, também quanto a este sacrossanto dever (ib. 82). Valor pastoral da Liturgia 4. As ações litúrgicas
enquanto ¨celebrações da Igreja, que é ´sacramento da unidade´¨ (Cons.
Sacrosanctum Concilium, 26) devem ser disciplinadas unicamente pela autoridade
competente e, uma vez que isso foi determinado, exigem da parte de todos grande
e respeitosa fidelidade aos ritos e aos textos autênticos (cf. ib. 22).
Visto que a liturgia, como a experiência pos-conciliar nos ensinou, tem um
grande valor pastoral, em vários livros litúrgicos foi previsto, com indicações
precisas nos Praenotanda, uma margem de adaptações à assembléia e às pessoas, e
uma possibilidade de abertura ao gênio e à cultura dos diversos povos. Para vós
é chegado o momento de avaliar quanto foi feito até agora nesse campo e a
oportunidade de estudar em que formas e em que modo responder ao prescrito por
aquelas normas. Toda esta obra deve obter nos ritos aquela nobre simplicidade
que ponha em equilíbrio a possibilidade de sinais facilmente compreensíveis, sem
que isso degenere no empobrecimento dos mesmos sinais, tornando-os, ao
contrário, mais expressivos das realidades sagradas a que devem servir, e
contribuindo, no seu contexto, para a dignidade e a beleza da celebração.
Cabe a cada Bispo, como regulador, promotor e guarda de toda a vida litúrgica na
comunidade eclesial que lhe foi confiada, fazer frutificar a graça de Deus (cf.
Decr. Christus Dominus, 15), e por isso é dever de cada um de vós vigiar a fim
de que se observem com cuidado e diligência as normas e diretrizes que dizem
respeito às celebrações, sejam essas comuns a todo o território da Conferência
Episcopal ou particulares a uma Diocese. Uma errada aplicação do valor da
criatividade e da espontaneidade nas celebrações, mesmo se típica de tantas
manifestações da vida do vosso povo, não deve levar a alterar nem os ritos, nem
os textos, nem sobretudo o sentido do mistério que se celebra na Liturgia. A
recente Instrução da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos
Sacramentos Varietates legitimae vos oferece tudo quanto é necessário para poder estruturar, dirigir, examinar e corrigir a revisão dos vossos livros litúrgicos e poder assim apresentá-los à definitiva aprovação. A cultura afro-brasilelra 5. Não me é desconhecido,
todavia, que a vossa ação de pastoral litúrgica a serviço da nova evangelização
deve tomar em consideração as exigências de uma sociedade, como a vossa, que é
multicultural. Graças à presença de vários grupos culturais se opera um
enriquecimento para a catolicidade da Igreja. Mas o cuidado espiritual para os
católicos que são, como tive ocasião de dizer: ¨Uma mescla racial e cultural¨
que ¨marcou profundamente e continuará a marcar o modo de ser e de exprimir-se
do povo brasileiro¨ (Discurso, 20-X-1991), exige participar solicitude pastoral.
Muitos vivem nas áreas urbanas, um ao lado do outro, transformando a sua
cultura; para outros, o grau de integração continua a ser limitado, outros enfim
continuam a manter a sua cultura original. Este articulado fenômeno implica uma
particularmente sensível e partícipe resposta pastoral, confiada à vossa
discrição e à vossa prudência apostólica. Por diversas ocasiões pude
testemunhar este amálgama de raças que convive harmoniosamente em cada Estado da
Federação. Esta pacífica convivência deve ser incentivada, evitando-se tudo
aquilo que pode contrapor as raças e culturas, em atitudes estéreis de
antagonismo ou de conflitos. A índole do vosso povo, e, mais especialmente, a fé
legada pelos primeiros missionários que foram ao Brasil, consolidou a convicção
de que se criou as bases de um recíproco entendimento, que deve continuar
servindo de exemplo para muitas nações afora. ¨Rezo - como já vos disse - para
que a um mundo freqüentemente dominado pelas contendas entre povos e raças, o
Brasil possa dar (...) uma lição essencial, a da verdadeira integração¨
(Discurso, l-VII-1980). Como compreenderão, o respeito pelas diversas
culturas e a correspondente inculturação evangélica aborda questões que merecem
um destaque à parte. Não é possível, contudo, descurar aqui a consideração da
cultura afro-brasileira no quadro mais amplo da evangelização ¨ad gentes¨, e que
hoje é bem presente na reflexão teológica e pastoral de vossas Igrejas
particulares em terras do Brasil. Trata-se da delicada questão da aculturação,
de modo especial dos ritos litúrgicos, ao vocabulário, às expressões musicais e
corporais típicas da cultura afro-brasileira. Sobre este tema tão complexo
gostaria de tecer algumas considerações. Primeiramente, convém
perguntar-se acerca da conveniência de dar ao culto litúrgico uma feição
afrobrasileira, como tenho constatado em algumas circunstâncias, onde o elemento
negro é bastante acentuado. Todos sabemos que a interação dos costumes e
tradições dos brancos, com a maneira de ser dos escravos negros vindos da
África, trouxe ao vocabulário, à sintaxe e à prosódia da língua portuguesa
falada no Brasil uma feição própria. A presença de elementos negros na arte
sacra barroca do período colonial, que deixou tão belos monumentos da
arquitetura e escultura religiosa, na música sacra e profana e nos festejos da
religiosidade popular, marcou de modo inconfundível as expressões culturais mais
autênticas desta sociedade multirracial que é o Brasil. Nesta mesma história já
se mostram presentes formas válidas de inculturação, que, sem trair a verdade da
fé e da revelação cristãs, souberam incorporar a estes legítimos valores e
expressões da cultura popular que, dessa forma, eram evangelizados. Salta,
porém, à vista de que se estaria distanciando da finalidade específica da
evangelização, acentuar um destes elementos formadores da cultura brasileira,
isolá-lo deste processo interativo tão enriquecedor, de modo quase a se tornar
necessária a criação de uma nova liturgia própria para as pessoas de raça negra.
Mais ainda, quando se pretende dar a um tal rito litúrgico uma apresentação
externa e uma estruturação -tanto nas vestes, como na linguagem, no canto, nas
cerimônias e objetos litúrgicos - que acabam por assumir elementos provindos dos
assim chamados cultos afro-brasileiros, sem a rigorosa aplicação de um
discernimento sério e profundo acerca da sua compatibilidade com a Verdade
revelada por Jesus Cristo. Assim, por exemplo, é preciso manter uma adequada e
prudente vigilância em certos ritos que inspiram a aproximação do augusto
Mistério Trinitário ao panteão dos espíritos e divindades dos cultos africanos,
chegando-se mesmo, em certos casos, a modificar as fórmulas sacramentais em sua
referência trinitária; mais ainda, deve-se assinalar, corrigindo oportunamente,
a introdução no rito sacramental católico - a Santa Missa, mas também em outros
sacramentos - de ritos, cantos e objetos pertencentes explicitamente ao universo
dos cultos afro-brasileiros. Faz-se necessária e urgente uma corajosa vigilância
dos Bispos, para a solerte e imediata correção de tais excessos, sempre que eles
se manifestem. A Igreja Católica tributa um sincero respeito em relação aos
cultos afro-brasileiros, mas considera nocivo o relativismo concreto de uma
prática entre ambos ou de uma mistura entre eles, como se tivessem o mesmo
valor, pondo em perigo a identidade da fé cristã católica. Ela sente-se no dever
de afirmar que o sincretismo é danoso ali onde a verdade do rito cristão e a
expressão da fé podem facilmente ser comprometidas aos olhos do fiéis, em
detrimento de uma autêntica evangelização. A vós Bispos, em diálogo constante e
confiante com a Sé Apostólica, foi entregue a responsabilidade de saber escolher
os tempos e os modos de promover a inculturação da fé, através das celebrações
litúrgicas que a exprimem e sustentam, conscientes que os tempos e os modos
requerem uma reflexão paciente e rigorosa, baseada sobre uma autêntica teologia
destinada a uma renovação espiritual, que se inspire em princípios católicos
sobre a inculturação. Não podemos, porém, falar da renovação espiritual
das vossas Dioceses, sem examinarmos com atenção também o estado da fé e da
participação na Eucaristia, demonstrado pelos vossos fiéis; a Eucaristia é a
fonte, o centro e o ápice da vida da Igreja (cf. LG,11; Catecismo da Igreja
Católica, nn. 1324-1327). O ¨dom sincero¨ de Si mesmo, feito por Jesus e
oferecido na Cruz, é tornado presente e aplicado na Eucaristia, e os presbíteros
¨unem as preces dos fiéis ao sacrifício da Cabeça e, no sacrifício da Missa,
representam e aplicam o único sacrifício do Novo Testamento¨ (LG, 28). Portanto,
administrar este grande mistério é um dos maiores privilégios e
responsabilidades do vosso múnus episcopal. Infelizmente, às vezes pode
acontecer que a Liturgia seja alterada, de maneira séria, por omissões ou
acréscimos ilícitos aos textos aprovados. Nestas circunstâncias, ¨compete aos
Bispos extirpar estes abusos, pois a regulamentação da Liturgia depende do
Bispo, dentro dos limites traçados pelo direito¨ (Cart. ap. Vicesimus quintus
annus, [l988] 13). A relação verdadeira entre as celebrações do Mistério Pascal
e uma determinada cultura se concretiza no momento em que ela permite ao
Evangelho penetrar na própria vida da cultura, ¨superando os elementos culturais
incompatíveis com a fé e com a vida cristã e elevando os valores ao mistério da
salvação que provém de Cisto¨ (Exor. ap. Pastores dabo vobis, 55). A tarefa de
adaptação e de inculturação é importante para o futuro do renovamento da vida
litúrgica. A Constituição litúrgica anunciou o princípio (cf. SC.,37-40) e deu
as primeiras indicações de procedimento. A Instrução sobre a ¨Liturgia Romana e
a inculturação¨ aprofundou o tema, precisou os procedimentos que devem ser
seguidos por parte das Conferências Episcopais, à luz do Direito Canônico e da
experiência do primeiro quarto de século depois da reforma litúrgica (cf. Ins.
Varietates legitimae, 62 e 65-68). Verdadeiro e autêntico espírito da Liturgia 6. Continuando o esforço
necessário para enraizar a liturgia romana nas várias culturas, os bispos,
assistidos por pessoas competentes e fiéis às orientações do Magistério que
dizem respeito à disciplina da Igreja universal, devem cuidar em conservar
sempre o ¨verdadeiro e autêntico espírito da Liturgia, no respeito à unidade
substancial do Rito romano, expressa nos livros litúrgicos¨ (Cart. ap. Vicesimus
quintus annus, 16). Seja-me permitido propor-vos alguns elementos de reflexão
antes de tudo acerca do ¨verdadeiro e autêntico espírito da Liturgia¨, e depois
acerca do sentido da frase: ¨no respeito à unidade substancial do Rito romano¨,
expressa nos livros litúrgicos (SC, 37 e 38). Com referência ao ¨espírito da
Liturgia¨ não podemos duvidar que o Concílio Vaticano II entendia referir-se a
uma realidade sempre presente na Igreja, mesmo se nem sempre vivida com igual
acentuação. Uma coisa são as acentuações vitais que ao interno de um mesmo
¨espírito¨ a Igreja Ocidental e a Igreja Oriental, nas várias épocas culturais,
sublinharam e favoreceram no Povo de Deus, e outra é o ¨espírito da Liturgia¨ no
seu núcleo fundante e original. Este ¨espírito¨ não deriva das formas
exteriores, que, na maior parte, são provenientes das culturas nas quais o
Cristianismo se difundia, mas é subjacente a elas como aquilo que lhes confere o
ser, como instrumento e manifestação exterior de convergência da ação de Cristo
e de sua Igreja a nível de graça invisível. É preciso recordar, além disso, que
os Padres Conciliares, quando se referiam ao ¨verdadeiro e autêntico espírito da
liturgia¨ (SC, 37), tinham presente quanto a Constituição sobre a Sagrada
liturgia enuncia no seu proêmio (1-4) e na primeira parte do primeiro capítulo
(5-13). Se a Reforma litúrgica criou as condições e os meios para fomentar no
povo de Deus o restabelecimento de um mais profundo sentido da ¨Igreja em
oração¨ e da ¨oração da Igreja¨, muito ainda resta por fazer para alcançar
aquele objetivo, que sensibilize todos os fiéis de qualquer cultura. Muitos,
talvez, se lançaram com ardor no novo, esquecendo-se do antigo. Outros
permaneceram ligados às formas exteriores colocando em dúvida a necessidade de
renovação, que era bem mais evidente e não podia se confundir com as desvios
reprovados não somente pela autoridade competente, mas também pela maioria dos
fiéis. Se a Liturgia não levasse os fiéis a manifestarem com a vida o
mistério salvífico de Cristo, Deus e Homem, e a genuína natureza da verdadeira
Igreja, onde aquilo que é ¨humano se ordene ao divino e a ele se subordine, o
visível ao invisível, a ação à contemplação e o presente à cidade futura que
buscamos¨ (ib., 2), não se poderia falar de atuação do ¨verdadeiro e autêntico
espírito da Liturgia¨. Devemos firmemente compreender que se é nossa importante
tarefa investigar as formas em que é possível e obrigatório inculturar a
liturgia, mais importante ainda e igualmente obrigatório é que a obra redentora
de Cristo que está presente na sua Igreja, especialmente nas ações litúrgicas,
seja percebida, ,atuada e vivida em cada povo e língua, para a glória de Deus e
a santificação dos homens (cf. ib., 7). É vosso dever guiar o povo que vos foi confiado que, como todos os povos do Continente Latino-Americano, tem necessidade de sinais expressivos de canto, de sentimento e devoção externa, para conjugar o verdadeiro espírito litúrgico com a sua verdadeira religiosidade, com a sua alma mais profunda. Não se devem opor as duas realidades, mas convém assumi-las e fazer que se realizem uma a serviço da outra. Atenção à substancial unidade do Rito romano 7. O Concílio Vaticano II,
usando a expressão ¨servata substantiali unitate Ritus romani¨ (SC, 38), queria
sublinhar que a inculturação, que está em causa, reentra, quanto à parte
normativa, naquilo que se refere só ao Rito romano, e que dele deveria continuar
a fazer parte cada nova forma adaptada e inculturada segundo o direito e com a
aprovação da Sé Apostólica. Em conformidade com o Concílio, na Carta Apostólica
¨Vicesimus quintus annus¨ (n.16) retomei aquele texto agregando a referência aos
livros litúrgicos. Em seguida, a Instrução sobre ¨A Liturgia romana e a
inculturação¨ retomou o tema e oportunamente indicou como a atenção à
substancial unidade do Rito romano entra, com pleno direito, entre os ¨Principia
generalia¨ que devem guiar cada investigação e cada ação de inculturar o Rito
romano, junto com a finalidade mesma da inculturação e da relação com a
autoridade competente (cf. Ins. Varietates legitimae, 34-36 e 70). Como no
âmbito de uma Igreja local, além das diferenças existentes no povo de Deus,
entre membros da Hierarquia e leigos, entre grupos e culturas, é sempre a
Liturgia que deve manifestar e unir uma Igreja local (cf. SC, 41), assim, e com
maior razão, as Igrejas nascidas da transmissão apostólica da tradição romana,
não obstante a variedade de línguas e de culturas, é na Liturgia que devem
sentir-se e encontrar-se unidas. A necessidade e a exigência de unidade, que é
uma das notas da Igreja, deve continuar a ser ainda mais presente hoje, no
âmbito do Rito romano, para sustentar a interna vida da Igreja e sua relação com
o mundo a evangelizar. Na obra da inculturação de certas formas consideradas
necessárias e úteis, não se trata de inspirar-se em formas e que já existiram ou
existentes em outros Ritos, que a Igreja toda respeita e venera, como parte do
próprio patrimônio. É na experiência religiosa e como parte da cultura de um
povo que devem ser buscadas as formas expressivas a harmonizar com o Rito romano
e no âmbito do seu gênio peculiar. O resultado desta fusão deveria ser não uma
simples e externa justaposição de elementos, mas uma síntese nova, sempre
reconhecível como parte do Rito que foi levado com a evangelização. O Rito
romano depois da reforma desejada pelo Concílio, tem nas suas expressões
litúrgicas uma vitalidade capaz de levar em consideração a sensibilidade e a
expressividade das várias culturas, mesmo aquelas mais distantes da área em que
originariamente nasceu e se desenvolveu. Se não se pode aceitar tudo de cada
cultura é porque nas expressões culturais se associa, freqüentemente, uma forma
de sincretismo incompatível com a mensagem cristã e com o verdadeiro e autêntico
espírito da Liturgia. Isto quer dizer que, respeitada a finalidade e a estrutura
interna de cada celebração litúrgica, útil para canalizar as formas e as
expressões no âmbito dos divinos mistérios, deve-se descartar ou não assumir
aquelas formas e aqueles modos rituais que não correspondam à natureza do
mistério que se celebra, mormente quando relacionados à Encarnação, Paixão e
Morte de Jesus Cristo, para não citar outros Mistérios da Redenção. Se de um
lado não seria respeitoso para uma determinada cultura manter nos ritos
litúrgicos expressões que sejam abertamente contrastantes com as tradições
culturais dos fiéis, poderia igualmente acontecer não ser respeitoso para a
substancial unidade do Rito romano imprimir na sua inculturação uma dinâmica
diversa capaz, inclusive, de ferir a sensibilidade religiosa do povo cristão. Os
votos que vos faço, Bispos do Brasil, é que encontreis em vossos fiéis a
colaboração construtiva para serdes sustentados no cumprimento da
responsabilidade que vos foi confiada. Abrir gradativamente as portas a uma
inculturação do Rito romano no Brasil é servir à plenitude, à vitalidade, à
comunitariedade da participação dos fiéis às celebrações litúrgicas (cf. SC, 23) de maneira que sempre mais sejam edificados como templo santo do Senhor, morada do Espírito Santo até a maturidade em Cristo. A Sé Apostólica cônscia de dever assistir-vos e confirmar-vos na vossa ação pastoral está disposta a colaborar com espírito confiante, partilhando convosco a responsabilidade. Um novo ardor de santidade 8. Prezados Irmãos no
Episcopado, estamos, aos poucos, chegando ao fim do Segundo Milênio da Era
Cristã. O clima de preparativos para o grande Jubileu da Encarnação redentora de
nosso Senhor faz-se sempre mais intenso. Neste sentido, conta acima de tudo, nos
diversificados momentos da vida pastoral, fortificar e suscitar um novo ardor de
santidade (cf. Cart. Enc. Redemptoris missio, 90) nos sacerdotes, nos
religiosos, nas religiosas e nos leigos. Como Pastores segundo o coração de Deus
(cf. Jer 3, 15), conduzi os fiéis católicos até as fontes da vida: ¨E a vida
eterna consiste nisto: que Te conheçam a Ti, por único Deus verdadeiro, e a
Jesus Cristo, a Quem enviaste¨ (Jo 17, 3). Ao invocar a intercessão de Nossa Senhora da Conceição Aparecida para que guie e ilumine, com a sua proteção materna, todas as pessoas que estão sob o vosso cuidado pastoral, vos concedo do íntimo do coração a minha Bênção Apostólica.
|