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Quaresma, 40 dias de renovação PDF Imprimir E-mail
08-Mar-2003

Por volta do ano 200 d.C, as comunidades cristãs passaram a preparar a festa da Páscoa com três dias de oração, meditação e jejum, donde advém o Tríduo Pascal. Por volta do ano 350 d.C., a Igreja decidiu aumentar o tempo de preparação para a Páscoa de três para quarenta dias. Essa medida visava oferecer um tempo de preparação adequado à importância e propósito renovador da Páscoa. Surgia, assim, a Quaresma.

 

O número quarenta é bastante significativo dentro das Sagradas Escrituras. O dilúvio teve a duração de quarenta dias e quarenta noites e foi a preparação para uma nova humanidade. Durante quarenta anos o povo hebreu caminhou pelo deserto rumo à terra prometida. Antes de receber o perdão de Deus, os habitantes da cidade de Nínive fizeram penitência por quarenta dias. O profeta Elias caminhou quarenta dias e quarenta noites para chegar à montanha de Deus. Preparando-se para cumprir sua missão entre os homens, Jesus jejuou durante quarenta dias e quarenta noites. Moisés fez o mesmo.

 

A palavra Quaresma vem do Latim “quadragésima” e é o período de 46 dias que começa na Quarta-feira de Cinzas e antecede à Páscoa. Para os cristãos, representa um momento de reavaliação de sua conduta, recordando os 40 dias que Jesus jejuou no deserto.

 

Todos os anos, em geral nesta época, a Igreja chama os seus filhos, em todo o mundo, a uma mudança de vida, e para isso os convida à penitência.

 

Sim, penitência não é, primeiramente, cortar na comida, na bebida e nos folguedos. É mudança de idéias, de mentalidade, de maneira de pensar e de julgar, é justamente isso que significa a  palavra grega “metanóia”, donde derivou o equivalente à palavra penitência.

 

É esta a mudança mais importante da vida de cada um. A primeira batalha a vencer é mudar para melhor a nossa maneira de pensar pouco esclarecida, as nossas convicções erradas, os nossos critérios distantes da justiça e da verdade. É natural que assim aconteça. Se não se mudam as raízes, o tronco e os ramos, ou seja, o que é fundamental na árvore, como se mudarão as folhas, as flores e os frutos?

 

A Igreja, na Quaresma, pede a cada cristão que tenha a coragem de fazer esta mudança, por dentro, pela consciência e pelo coração. Claro que, para esta mudança se concretizar e manifestar, é preciso eliminar  algumas coisas que, tantas vezes se opõe a essa mudança. Daí o pedido da Igreja para que cada cristão se abstenha daquilo que mais o prejudique. A uns, pede que limite-se nos prazeres da comida; a outros na bebida; a estes que não cedam à sensualidade; àqueles que evitem a ganância e a sedução pelo dinheiro, a todo o custo; ainda a uns, que não consintam na mentira e na hipocrisia; a outros que não dêem lugar à preguiça e ao comodismo; e a todos que sejam justos e amem a Deus sobre todas as coisas e aos seus semelhantes como a si mesmo.

 

A Igreja pede a cada um  que liberte o homem novo que, porventura, definhe ou durma no seu íntimo.

 

Estas reflexões dirigem-se primeiramente aos meus irmãos na fé, os cristãos, mas têm presentes também todos os homens e mulheres de boa vontade, igualmente dotados de uma incalculável dignidade, que hão de prezar e cultivar.

 

Tempo de Quaresma é especialmente, para todos os cristãos, tempo em que se deve renovar as energias admiráveis que Deus comunicou a cada um no dia do seu Batismo. Fazer renascer esse homem novo, vigoroso, liberto e feliz é tarefa premente da Quaresma e da penitência, que há de prosseguir pelo resto da vida. Que nenhum cristão e homem de boa vontade, no seu próprio interesse, deixe de atender este apelo da Igreja.

 

Ela faz este pedido consciente de que é "Mãe e Mestra" de todos os cristãos e, de algum modo, de todo o homem e mulher deste mundo.

 

Em tempo como o nosso, tão seduzido pelo acidental, pela mediocridade, pelo passageiro, pelo prazer e por tudo aquilo que o faz fugir de si, do seu íntimo, da sua consciência, este tempo se propõe a auxiliar na mudança de atitudes. A penitência que a Igreja propõe, garante, pelo contrário, a felicidade, a alegria e a paz, apesar de exigir sacrifício e renúncia.

 

Que as comunidades cristãs, paroquiais e outras, tomem deste modo a sua Quaresma, para que todos os seus membros se sintam estimulados e amparados na sua luta interior.

 

O fato é que uma boa Quaresma necessita da colaboração de todos os que formam a comunidade dos discípulos de Cristo, não é apenas interesse deste ou daquele. É tarefa de todos e começa logo pelos responsáveis das comunidades eclesiais.  Trata-se, portanto, de trabalho muito exigente e humanamente quase impossível. Não o será, porém, porque contamos com a ação do Espírito Renovador de Deus - o Espírito Santo - e com a riqueza dos Seus dons. Dessa forma, a meta é fazer da Quaresma, o caminho da Grande Festa da Ressurreição, a Festa da Páscoa, caminhada que tem, forçosamente, que ser centrada no essencial, na conversão pessoal e comunitária.

 

 
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