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CARTA ENCÍCLICA DOMINUM ET VIVIFICANTEM PDF Imprimir E-mail
29-Abr-2002

DO SUMO PONTÍFICE SOBRE O ESPÍRITO SANTO NA VIDA DA IGREJA E DO MUNDO

Veneráveis Irmãos e Amados Filhos e Filhas Saúde e Bênção Apostólica!

INTRODUÇÃO

1. A Igreja professa a sua fé no Espírito Santo, como n*Aquele «que é Senhor e dá a vida». É o que ela proclama no Símbolo da Fé, chamado Niceno-Constantinopolitano, do nome dos dois Concílios - de Niceia (a. 325) e de Constantinopla (a. 381) - nos quais foi formulado ou promulgado. Nele se acrescenta também que o Espírito Santo «falou pelos Profetas». São palavras que a Igreja recebe da própria fonte da sua fé, Jesus Cristo. Com efeito, segundo o Evangelho de São João, o Espírito Santo é-nos dado com a vida nova, como Jesus anuncia e promete no dia solene da festa dos Tabernáculos: «Quem tem sede, venha a mim; e beba quem crê em mim. Como diz a Escritura, do seu seio fluirão rios de água viva»(1). E o Evangelista explica: «Jesus dizia isso referindo-se ao Espírito, que haveriam de receber os que n*Ele acreditassem»(2). É a mesma analogia da água usada por Jesus no diálogo com a Samaritana, quando fala de «uma nascente de água a jorrar para a vida eterna»(3), e no colóquio com Nicodemos, quando anuncia a necessidade de um novo nascimento «pela água e pelo Espírito» para «entrar no Reino de Deus»(4). A Igreja, portanto, instruída pelas palavras de Cristo, indo beber à experiência do Pentecostes e da própria «história apostólica», proclama desde o início a sua fé no Espírito Santo, como n*Aquele que dá a vída, Aquele no qual o imperscrutável Deus uno e trino se comunica aos homens, constituindo neles a nascente da vida eterna.

2. Esta fé, professada ininterruptamente pela Igreja, precisa de ser incessantemente reavivada e aprofundada na consciência do Povo de Deus. Neste último século isso aconteceu por mais de uma vez: desde Leão XIII, que publicou a Carta Encíclica Divinum illud munus (a. 1897), inteiramente dedicada ao Espírito Santo, a Pio XII, que na Encíclica Mystici Corporis (a. 1943) se referiu de novo ao Espírito Santo como sendo princípio vital da Igreja, na qual opera conjuntamente com a Cabeça do Corpo Místico, Cristo(5), até ao Concílio Ecuménico Vaticano II, que fez notar a necessidade de uma renovada atenção à doutrina sobre o Espírito Santo, como acentuava o Papa Paulo VI: «À cristologia e especialmente à eclesiologia do Concílio deve seguir-se um estudo renovado e um culto renovado do Espírito Santo, precisamente como complemento indispensável do ensino conciliar»(6). Na nossa época, portanto, mais uma vez somos chamados pela fé da Igreja, fé antiga e sempre nova, a aproximar-nos do Espírito Santo como Aquele que dá a vida. Neste ponto, podemos contar com a ajuda e serve-nos também de estímulo a herança comum com as Igrejas orientais; estas preservaram cuidadosamente as riquezas extraordinárias do ensino dos Padres sobre o Espírito Santo. Também por isso podemos dizer que um dos mais importantes acontecimentos eclesiais dos últimos anos foi o XVI centenário do I Concílio de Constantinopla, celebrado contemporaneamente em Constantinopla e em Roma na solenidade do Pentecostes de 1981. O Espírito Santo, tendo-se meditado na altura sobre o mistério da Igreja, apareceu então mais nitidamente como Aquele que indica os caminhos que levam à união dos cristãos, ou melhor, como a fonte suprema desta unidade, que provém do próprio Deus e à qual São Paulo deu uma expressão particular, com aquelas palavras que se usam frequentemente para dar início à Liturgia eucarística: «A graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus Pai e a comunhão do Espírito Santo estejam convosco»(7). Nesta exortação tiveram o seu ponto de partida e inspiração, em certo sentido, as precedentes Encíclicas Redemptor hominis e Dives in misericordia, as quais celebram o acontecimento da nossa salvação, que se realizou no Filho, mandado pelo Pai ao mundo, «para que o mundo seja salvo por seu intermédio»(8) e «toda a língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai»(9). Dessa mesma exortação nasce agora a presente Encíclica sobre o Espírito Santo, que procede do Pai e do Filho e com o Pai e o Filho é adorado e glorificado: Pessoa divina, Ele está no coração da fé cristã e é a fonte e a força dinâmica da renovação da Igreja(10). Ela foi haurida, ademais, das profundezas da herança do Concílio. Os textos conciliares, efectivamente, em virtude do seu ensino sobre a Igreja em si mesma e sobre a Igreja no mundo, estimulam-nos a perscrutar cada vez mais o mistério trinitário do próprio Deus, seguindo o itinerário evangélico, patrístico e litúrgico: ao Pai — por Cristo — no Espírito Santo. Deste modo, a Igreja responde também a certos apelos profundos, que julga ler no coração dos homens de hoje: uma nova descoberta de Deus na sua transcendente realidade de Espírito infinito, como foi apresentado por Jesus à Samaritana; a necessidade de adorá-lo «em espírito e verdade»(11); a esperança de encontrar nele o segredo do amor e a força de uma «nova riação»(12): sim, precisamente Aquele que dá a vida. A Igreja sente-se chamada para esta missão de anunciar o Espírito, ao mesmo tempo que, juntamente com toda a família humana se aproxima do final do segundo Milénio depois de Cristo. Tendo como cenário um céu e uma terra que «passarão», ela sabe bem que adquirem uma particular eloquência as «palavras que não hão-de passar»(13), São as palavras de Cristo sobre o Espírito Santo, fonte inexaurível da «água a jorrar para a vida eterna»(14), como verdade e graça salvadoras. A Igreja quer reflectir sobre estas palavras; ela deseja chamar a atenção daqueles que crêem e de todos os homens para essas mesmas palavras, enquanto se vai preparando para celebrar - come se dirá mais adiante - o grande Jubileu, com que se assinalará a passagem do segundo para o terceiro Milénio cristão. As considerações que se seguem, naturalmente, não pretendem perlustrar, de maneira exaustiva, toda a riquíssima doutrina sobre o Espírito Santo, nem favorecer qualquer solução de questões ainda em aberto. Elas têm como finalidade principal desenvolver na Igreja aquela consciência com que ela «é impelida pelo mesmo Espírito Santo a cooperar para que se realize o desígnio de Deus, que constituiu Cristo princípio de salvação para o mundo inteiro»(15).

PRIMEIRA PARTE

O ESPÍRITO DO PAI E DO FILHO, DADO À IGREJA

1. Promessa e revelação de Jesus durante a Ceia pascal

3. Quando já estava iminente para Jesus Cristo o tempo de deixar este mundo, ele anunciou aos Apóstolos «um outro Consolador»(16). O evangelista São João, que estava presente, escreve que, durante a Ceia pascal no dia anterior à sua paixão e morte, Jesus se dirigiu a eles com estas palavras: «Tudo o que pedirdes em meu nome, eu o farei, para que o Pai seja glorificado no Filho ... Eu pedirei ao Pai, e Ele vos dará um outro Consolador, para estar convosco para sempre, o Espírito da verdade»(17). É precisamente a este Espírito da verdade que Jesus chama o Paráclito — e Parákletos quer dizer «consolador», e também «intercessor», ou «advogado». E diz que é «um outro» Consolador, o segundo, porque ele mesmo, Jesus Cristo, é o primeiro Consolador(18), sendo o primeiro portador doador da Boa Nova. O Espírito Santo vem depois dele a graças a ele, para continuar no mundo, mediante a Igreja, a obra da Boa Nova da salvação. Desta continuação da sua obra por parte do Espírito Santo, Jesus fala mais de uma vez durante o mesmo discurso de despedida, preparando os Apóstolos, reunidos no Cenáculo, para a sua partida, isto é, para a sua paixão e morte na Cruz. As palavras, a que faremos aqui referência, encontram-se no Evangelho de São João. Cada uma delas acrescenta um certo conteúdo novo ao anúncio e à promessa acima referidos. E, ao mesmo tempo, elas estão encadeadas intimamente entre si, não só pela perspectiva dos mesmos acontecimentos, mas também pela perspectiva do mistério do Pai, do Filho e do Espírito Santo, o qual talvez em nenhuma outra passagem da Sagrada Escritura tenha uma expressão tão relevante como aqui.

4. Pouco depois do anúncio acima referido, Jesus acrescenta: «Mas o Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, ele vos ensinará todas as coisas e vos recordará tudo o que eu vos disse»(19). O Espírito Santo será o Consolador dos Apóstolos e da Igreja, sempre presente no meio deles — ainda que invisível — como mestre da mesma Boa Nova que Cristo anunciou. Aquele «ensinará» ... e «recordará» significa não só que Ele, da maneira que lhe é própria, continuará a inspirar a divulgação do Evangelho da salvação, mas também que ajudará a compreender o significado exacto do conteúdo da mensagem de Cristo; que Ele assegurará a continuidade e identidade de compreensão dessa mensagem, no meio das condições e circunstâncias mutáveis. Por conseguinte, o Espírito Santo fará com que perdure sempre na Igreja a mesma verdade, que os Apóstolos ouviram do seu Mestre.

5. Para transmitirem a Boa Nova da salvação, os Apóstolos estarão associados de uma maneira particular ao Espírito Santo. Eis como Jesus continua a falar: «Quando vier o Consolador, que eu vos enviarei da parte do Pai, o Espírito da verdade que procede do Pai, ele dará testemunho de mim. E também vós dareis testemunho de mim, porque estais comigo desde o princípio»(20). Os Apóstolos foram as testemunhas directas, oculares. Eles «ouviram» e «viram com os próprios olhos», «contemplaram», e até mesmo «tocaram com as próprias mãos» Cristo, como se exprime numa outra passagem o mesmo evangelista São João(21). Este seu testemunho humano, ocular e «histórico» a respeito de Cristo andará ligado ao testemunho do Espírito Santo: «Ele dará testemunho de mim». É no testemunho do Espírito da verdade que o testemunho humano dos Apóstolos encontrará o seu mais forte sustentáculo. E, em seguida, encontrará nele também o recôndito fundamento interior da sua continuação entre as gerações dos discípulos e dos confessores de Cristo, que se irão sucedendo ao longo dos séculos. Sendo o próprio Jesus Cristo a suprema e mais completa revelação de Deus à humanidade, é o testemunho do Espírito que inspira, garante e convalida a sua fiel transmissão na pregação e nos escritos apostólicos(22), enquanto o testemunho dos Apóstolos lhe proporciona a expressão humana na Igreja e na história da humanidade.

6. Isto é posto em evidência também pela estreita correlação de conteúdo e de intenção com o anúncio e a promessa que acabámos de mencionar, que se encontra nas palavras que vêm a seguir no texto de São João: «Teria ainda muitas coisas para vos dizer, mas por agora não estais em condições de as comprender. Quando, porém, Ele vier, o Espírito da verdade, guiar-vos-á para toda a verdade; porque Ele não falará por si mesmo, mas de tudo o que tiver ouvido e anunciar-vos-á as coisas que estão para vir»(23). Com as palavras precedentes Jesus apresenta o Consolador, o Espírito da verdade, como Aquele que «ensinará e recordará», como Aquele que «dará testemunho» dele; agora diz: «Ele vos guiará para toda a verdade». Este «guiar para toda a verdade», em relação com aquilo que «os Apóstolos por agora não estão em condições de compreender», está necessariamente em ligação com o despojamento de Cristo, por meio da sua paixão e morte de Cruz, que então, quando ele pronunciava estas palavras, já estava iminente. Mas, em seguida, torna-se bem claro que aquele «guiar para a toda a verdade» está em ligação não apenas com o «scandalum crucis» [o escandalo da cruz], mas também com tudo o que Cristo «fez e ensinou»(24). Com efeito, o mysterium Christi na sua globalidade exige a fé, porquanto é ela que introduz o homem oportunamente na realidade do mistério revelado. O «guiar para toda a verdade» realiza-se, pois, na fé e mediante a fé: é obra do Espírito da verdade e é fruto da sua acção no homem. O Espírito Santo deve ser em tudo isso o guia supremo do homem, a luz do espírito humano. Isto é válido para os Apóstolos, as testemunhas oculares que devem levar doravante a todos os homens o anúncio do que Cristo «fez e ensinou» e, especialmente, da sua Cruz e da sua Ressurreição. Numa perspectiva mais ampla e distante no tempo, isto é valido também para todas as gerações dos discípulos e dos confessores do Mestre, uma vez que deverão aceitar com fé e confessar com desassombro o mistério de Deus operante na história do homem, o mistério revelado que explica o sentido dessa mesma história.

7. Na economia da salvação, portanto, entre o Espírito Santo e Cristo subsiste uma ligação íntima, em virtude da qual o Espírito da verdade opera na história do homem como «um outro Consolador», assegurando de modo duradouro a transmissão e a irradiação da Boa Nova revelada por Jesus de Nazaré. Por isso, no Espírito Santo Paráclito, o qual continua incessantemente no mistério e na actividade da Igreja a presença histórica do Redentor sobre a terra e a sua obra salvífica, resplandece a glória de Cristo, como atestam as palavras de São João que vêm a seguir: «Ele (isto é, o Espírito) glorificar-me-á, porque receberá do que é meu para vo-lo anunciar»(25). Com estas palavras é confirmado, mais uma vez, tudo o que disseram os enunciados precedentes: «ensinará ... recordará ..., dará testemunho». A suprema e completa auto-revelação de Deus, que se realizou em Cristo — tendo dado testemunho dela a pregação dos Apóstolos — continuará a ser manifestada na Igreja mediante a missão do Consolador invisível, o Espírito da verdade. Quanto esta missão (do Espírito) esteja intimamente ligada com a missão de Cristo e quanto plenamente ela vá haurir na mesma missão de Cristo — consolidando e desenvolvendo na história os seus frutos salvíficos — é expresso pelo verbo «receber»: «receberá do que é meu para vo-lo anunciar». E Jesus, como que para explicar a palavra «receber», pondo em evidência claramente a unidade divina e trinitária da fonte, acrescenta: «Tudo quanto o Pai tem é meu; por isso eu disse que Ele receberá do que é meu para vo-lo anunciar»(26). Recebendo «do que é meu», Ele vai, por isso mesmo, haurir «daquilo que é do Pai». Assim, à luz daquele «receberá» podem ser explicadas ainda as outras palavras sobre o Espírito Santo, pronunciadas por Jesus no Cenáculo antes da Páscoa, que são palavras significativas: «É melhor para vós que eu vá, porque se eu não fôr, o Consolador não virá a vós; mas, se eu for, ensiar-vo-lo-ei. E quando Ele tiver vindo convencerá o mundo quanto ao pecado, quanto à justica e quanto ao juízo»(27). Será conveniente voltar a estas palavras, com uma reflexão à parte.

2. Pai, Filho e Espírito Santo

8. É característica do texto joanino que o Pai, o Filho e o Espírito Santo sejam nomeados claramente como Pessoas, a primeira distinta da segunda e da terceira e estas também distintas entre si. Jesus fala do Espírito Consolador, usando por mais de uma vez o pronome pessoal «Ele». E, ao mesmo tempo, em todo o discurso de despedida, torna manifestos aqueles vínculos que unem reciprocamente o Pai, o Filho e o Paráclito. Assim, «o Espírito ... procede do Pai»(28) e o Pai «dá» o Espírito(29). O Pai «envia» o Espírito em nome do Filho(30), o Espírito «dá testemunho» do Filho(31). O Filho pede ao Pai que envie o Espírito Consolador(32); mas, além disso, afirma e promete, em relação com a sua «partida» mediante a Cruz: «Quando eu fôr, vo-lo enviarei»(33). Portanto, o Pai envia o Espírito Santo com o poder da sua paternidade, como enviou o Filho(34); mas, ao mesmo tempo, envia-o, com o poder da Redenção realizada por Cristo — e neste sentido o Espírito Santo é enviado também pelo Filho: «enviar-vo-lo-ei».Aqui neste ponto, é preciso notar que, se todas as outras promessas feitas no Cenáculo anunciavam a vinda do Espírito Santo para depois da partida de Cristo, a que é referida por São João no capítulo 16 vv. 7-8 inclui e acentua claramente a relação de interdependência, que se poderia dizer causal, entre as manifestações de um e de outro: «Quando eu fôr, enviar-vo-lo-ei». O Espírito Santo virá na condição de Cristo partir, mediante a Cruz: virá não só em seguida, mas por causa da Redenção realizada por Cristo, por vontade e obra do Pai.

9. Assim no discurso da Ceia pascal de despedida, atinge-se — por assim dizer — o ápice da revelação trinitária. Ao mesmo tempo, encontramo-nos no limiar de eventos definitivos e de palavras supremas, que por fim se traduzirão no grande mandato missionário, dirigido aos Apóstolos e, mediante eles, à Igreja: «ide, portanto, e ensinai todas as gentes», mandato que contém, em certo sentido, a fórmula trinitária do Baptismo: «baptizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo»(35). A fórmula reflecte o mistério íntimo de Deus, da vida divina, que é o Pai, o Filho e o Espírito Santo, divina unidade da Trindade. O discurso de despedida pode ser lido como uma preparação especial para esta fórmula trinitária, na qual se exprime o poder vivificante do Sacramento, que opera a participação na vida de Deus uno e trino, porque confere a graça santificante ao homem, como dom sobrenatural. Por meio dela o homem é chamado e «tornado capaz» de participar na imperscrutável vida de Deus.

10. Na sua vida íntima Deus «é Amor»(36), amor essencial, comum às três Pessoas divinas: amor pessoal é o Espírito Santo, como Espírito do Pai e do Filho. Por isso ele «perscruta as profundezas de Deus»(37), como Amor-Dom incriado. Pode dizer-se que, no Espírito Santo, a vida íntima de Deus uno e trino se torna totalmente dom, permuta de amor recíproco entre as Pessoas divinas; e ainda, que no Espírito Santo Deus «existe» à maneira de Dom. O Espírito Santo é a expressão pessoal desse doar-se, desse ser-amor(38). É Pessoa-Amor. É Pessoa-Dom. Temos aqui uma riqueza insondável da realidade e um aprofundamento inefável do conceito de pessoa em Deus, que só a Revelação divina nos dá a conhecer. Ao mesmo tempo, o Espírito Santo, enquanto consubstancial ao Pai e ao Filho na divindade, é Amor e Dom (incriado) do qual deriva como de uma fonte (fons vívus) toda a dádiva em relação às criaturas (dom criado): a doação da existência a todas as coisas, mediante a criação; e a doação da graça aos homens, mediante toda a economia da salvação. Como escreve o Apóstolo São Paulo: «O amor de Deus foi derramado nos nossos corações por meio do Espírito Santo, que nos foi dado»(39).

3. O dar-se salvífico de Deus no Espírito Santo

11. O discurso de despedida de Cristo, durante a Ceia pascal, está em particular conexão com este «dar» e «dar-se» do Espírito Santo. No Evangelho de São João descobre-se como que a «lógica» mais profunda do mistério salvífico, contido no eterno desígnio de Deus, qual expansão da inefável comunhão do Pai, do Filho e do Espírito Santo. É a «lógica» divina, que leva do mistério da Trindade ao mistério da Redenção do mundo em Jesus Cristo. A Redenção realizada pelo Filho nas dimensões da história terrena do homem — consumada aquando da sua «partida», por meio da Cruz e da Ressurreição — é, ao mesmo tempo, transmitida ao Espírito Santo com todo o seu poder salvífico: transmitida Àquele que «receberá do que é meu»(40). As palavras do texto joanino indicam que, segundo o desígnio divino, a «partida» de Cristo é condição indispensável para o «envio» e para a vinda do Espírito Santo; mas dizem também que começa então a nova autocomunicação salvífica de Deus, no Espírito Santo.

12. É um novo princípio em relação ao primeiro: àquele princípio primigénio do dar-se salvífico de Deus, que se identifica com o próprio mistério da criação. Com efeito, lemos já nas primeiras palavras do Livro do Génesis: «No princípio criou Deus o céu e a terra ..., e o espírito de Deus (ruah Elohim) adejava sobre as águas»(41). Este conceito bíblico de criação comporta não só o chamamento à existência do próprio ser do cosmos, ou seja, o dom da existência, mas comporta também a presença do Espírito de Deus na criação, isto é, o início do comunicar-se salvífico de Deus às coisas que cria. Isto aplica-se, antes de mais, quanto ao homem, o qual foi criado à imagem e semelhança de Deus: «Façamos o homem à nossa imagem, à nossa semelhança»(42). «Façamos»: poderá, acaso, dizer-se que o plural, usado aqui pelo Criador ao referir-se a si mesmo, insinua já, de algum modo, o mistério trinitário, a presença da Santíssima Trindade na obra da criação do homem? O leitor cristão, que já conheça a revelação deste mistério, pode descobrir um seu reflexo também nessas palavras. Em todo o caso, o conteúdo do Livro do Génesis permite-nos ver na criação do homem o primeiro princípio do dom salvífico de Deus, na medida daquela «imagem e semelhança» de si mesmo, por Ele outorgada ao homem.

13. Parece, portanto, que as palavras pronunciadas por Jesus no discurso de despedida devem ser relidas também em conexão com aquele «princípio» tão longínquo, mas fundamental, que conhecemos pelo Livro do Génesis. «Se eu não for, o Consolador não virá a vós; mas, se eu for, enviar-vo-lo-ei». Ao referir-se à sua «partida» como condição da «vinda» do Consolador, Cristo relaciona o novo princípio da comunicação salvífica de Deus no Espírito Santo com o mistério da Redenção. Este é um novo princípio antes de mais nada, porque entre o primeiro princípio e toda a história do homem — a começar da queda original — se interpôs o pecado, que está em contradição com a presença do Espírito de Deus na criação e está, sobretudo, em contradição com a comunicação salvífica de Deus ao homem. São Paulo escreve que, precisamente por causa do pecado, «a criação ... foi submetida à caducidade..., geme e sofre no seu conjunto as dores do parto até ao presente» e «aguarda ansiosamente e revelação dos filhos de Deus»(43).

14. Por isso Jesus Cristo diz no Cenáculo: «É bem para vós que eu vá ...»; «Se eu fôr,enviar-vo-lo-ei»(44). A «partida» de Cristo mediante a Cruz tem a potência da Redenção; e isto significa também uma nova presença do Espírito de Deus na criação: o novo princípio do comunicar-se de Deus ao homem no Espírito Santo. «Porque vós sois seus filhos, Deus enviou aos vossos corações o Espírito do seu Filho que clama: Abbá! Pai!» — escreve o apóstolo São Paulo, na Carta aos Gálatas(45). O Espírito Santo é o Espírito do Pai, como testemunham as palavras do discurso de despedida, no Cenáculo. Ele é, simultaneamente, o Espírito do Filho: é o Espírito de Jesus Cristo, como viriam a testemunhar os Apóstolos e, de modo particular, Paulo de Tarso(46). No facto de enviar este Espírito «aos nossos corações» começa a realizar-se o que «a própria criação aguarda ansiosamente» como lemos na Carta aos Romanos. O Espírito Santo vem «à custa» da «partida» de Cristo. Se essa «partida», anunciada no Cenáculo, causava a tristeza dos Apóstolos(47), — a qual devia atingir o seu ponto culminante na paixão e na morte de Sexta-Feria Santa — contudo, a mesma «tristeza havia de converter-se em alegria»(48). Cristo, efectivamente, inserirá na sua «partida» redentora a glória da ressurreição e da ascensão ao Pai. Portanto, a tristeza através da qual transparece a alegria, é a parte que cabe aos Apóstolos na conjuntura da «partida» do seu Mestre, uma partida «benéfica», porque graças a ela havia de vir um outro «Consolador»(49). À custa da Cruz, operadora da Redenção, vem o Espírito Santo, pelo poder de todo o mistério pascal de Jesus Cristo; e vem para permanecer com os Apóstolos desde o ia de Pentecostes, para permanecer com a Igreja e na Igreja e, mediante ela, no mundo. Deste modo, realiza-se definitivamente aquele novo princípio da comunicação de Deus uno e trino

no Espírito Santo, por obra de Jesus Cristo, Redentor do homem e do mundo.

4. O Messias, «ungido com o Espírito Santo»

15. Realizou-se também cabalmente a missão do Messias, isto é, daquele que recebera a plenitude

do Espírito Santo, em favor do Povo eleito por Deus e de toda a humanidade. «Messias»,

literalmente, significa «Cristo», isto é, «Ungido»; e na história da salvação significa «ungido com o

Espírito Santo». Esta era a tradição profética do Antigo Testamento. Atendo-se a ela, Simão Pedro,

em casa de Cornélio, diria: «Vós conheceis o que aconteceu por toda a Judeia... depois do baptismo

pregado por João: como Deus ungiu com o Espírito Santo e com o poder a Jesus de

Nazaré»(50).

Destas palavras de São Pedro, e de muitas outras semelhantes(51), é preciso remontar, antes de

mais, à profecia de Isaías, algumas vezes chamada «o quinto evangelho», ou então «o evangelho do

Antigo Testamento». Isaías, fazendo alusão à vinda dum personagem misterioso, que a revelação

neotestamentária identificará em Jesus, liga a sua pessoa e a sua missão a uma acção particular do

Espírito de Deus — Espírito do Senhor. São estas as palavras do Profeta:

«Despontará um rebento do tronco de Jessé,

e um renovo brotará da sua raiz.

Sobre ele pousará o espírito do Senhor,

espírito de sabedoria e de entendimento,

espírito de conselho e de fortaleza,

espírito de conhecimento e de temor de Deus,

o no temor do Senhor está a sua inspiração»(52).

Este texto é importante para toda a pneumatologia do Antigo Testamento, porque constitui como

que uma ponte entre o antigo conceito bíblico do «espírito», entendido primeiro que tudo como

«sopro carismático», e o «Espírito» como pessoa e como dom, dom para a pessoa. O Messias da

estirpe de David («do tronco de Jessé») é precisamente essa pessoa, sobre a qual «pousará» o

Espírito do Senhor. É evidente que, neste caso, não se pode falar ainda da revelação do Paráclito;

todavia, com essa alusão velada à figura do futuro Messias, abre-se, por assim dizer, o caminho que,

uma vez demandado, vai preparando a revelação plena do Espírito Santo na unidade do mistério

trinitário, a qual se tornará manifesta, finalmente, na Nova Aliança.

16. Esse caminho é o próprio Messias. Na Antiga Aliança a unção tinha-se tornado o símbolo

externo do dom do Espírito. O Messias, bem mais do que qualquer outro personagem ungido na

Antiga Aliança, é o único grande Ungido pelo próprio Deus. É o ungido no sentido de possuir a

plenitude do Espírito de Deus. Ele mesmo será também o mediador para ser concedido este Espírito

a todo o Povo. Com efeito, são do mesmo Profeta estas outras palavras:

«O espírito do Senhor Deus está sobre mim,

Porque o Senhor consagrou-me com a unção;

enviou-me a anunciar a boa nova aos pobres,

a pensar as feridas dos corações quebrantados,

a proclamar a redenção para os cativos,

a libertação para os prisioneiros,

a promulgar o ano de misericórdia do Senhor»(53).

O Ungido é também enviado «com o Espírito do Senhor»:

«Agora o Senhor Deus

me envia juntamente com o seu espírito»(54).

Segundo o Livro de Isaías, o Ungido e o Enviado juntamente com o Espírito do Senhor é também o

eleito Servo do Senhor, sobre o qual repousa o Espírito de Deus:

«Eis o meu servo que eu amparo

o meu eleito, no qual a minha alma pôs a sua complacência;

fiz repousar sobre ele o meu espírito»(55).

Como é sabido, o Servo do Senhor é revelado no Livro de Isaías como o verdadeiro Homem das

dores: o Messias que sofre pelos pecados do mundo(56). E, simultaneamente, é ele mesmo Aquele

cuja missão produzirá para toda a humanidade verdadeiros frutos de salvação:

«Ele levará o direito às nações ...»(57); e tornar-se-á «a aliança do povo à luz das nações ...»(58);

«para que leve a minha salvação até aos confins da terra»(59).

Porque:

«O meu Espírito, que desceu sobre ti

e as palavras que te pus na boca

não se apartarão dos teus lábios

nem da boca da tua descendência

nem da boca dos descendentes dos teus descendentes,

diz o Senhor, desde agora e para sempre»(60).

Os textos proféticos que acabam de ser apresentados devem ser lidos por nós à luz do Evangelho;

o Novo Testamento, por sua vez, adquire um esclarecimento particular da admirável luz contida

nestes textos vétero-testamentários. O Profeta apresenta o Messias como aquele que vem com o

Espírito Santo, como aquele que possui em si a plenitude deste Espírito; e, ao mesmo tempo, é

portador d*Ele para os outros, para Israel, para todas as nações, para toda a humanidade. A

plenitude do Espírito de Deus é acompanhada por múltiplos dons, os bens da salvação, destinados

de modo particular aos pobres e aos que sofrem - a todos aqueles que abrem os seus corações a

esses dons: isso acontece, algumas vezes mediante as experiências dolorosas da própria existência;

mas, primeiro que tudo, por aquela disponibilidade interior que vem da fé. O velho Simeão, «homem

justo e piedoso», com o qual estava o Espírito Santo, teve a intuição disso, no momento da

apresentação de Jesus no Templo, quando vislumbrou n*Ele a «salvação preparada em favor de

todos os povos» à custa do grande sofrimento — a Cruz — que ele deveria vir a abraçar juntamente

com sua Mãe(61). Disso tinha também e ainda melhor a intuição a Virgem Maria, que havia

concebido do Espírito Santo(62), quando meditava no seu coração os «mistérios» do Messias, ao

qual estava associada(63).

17. É conveniente sublinhar, aqui neste ponto, que o «espírito do Senhor», que «se pousa» sobre o

futuro Messias, é, claramente, antes de mais nada um dom de Deus para a pessoa deste Servo do

Senhor. Mas ele não é uma pessoa isolada e independente, pois opera por vontade do Senhor, com

o poder da sua decisão ou escolha. Se bem que à luz dos textos de Isaías a obra salvífica do

Messias, Servo do Senhor, inclua a acção do Espírito que se desenrola mediante ele próprio,

todavia no seu contexto vétero-testamentário não é sugerida a distinção dos sujeitos ou das Pessoas

divinas, tais como subsistem no mistério trinitário e serão reveladas depois no Novo Testamento.

Quer em Isaías, quer em todo o Antigo Testamento, a personalidade do Espírito Santo acha-se

completamente escondida: escondida na revelação do único Deus, bem como no anúncio profético

do futuro Messias.

18. No início da sua actividade messiânica, Jesus Cristo socorrer-se-á deste anúncio, contido nas

palavras de Isaías. Isso aconteceria na cidade de Nazaré, onde ele tinha transcorrido trinta anos de

vida, na casa de José, o carpinteiro, ao lado de Maria, a Virgem sua Mãe. Quando lhe foi dada a

ocasião de tomar a palavra na Sinagoga, tendo abrido o Livro de Isaías, encontrou a passagem em

que está escrito: «O Espírito do Senhor está sobre mim; por isso me consagrou com a unção»; e

depois de ter lido este texto, disse aos presentes: «Cumpriu-se hoje esta passagem da Escritura

que acabais de ouvir»(64). Deste modo, confessou e proclamou ser Aquele que «foi ungido» pelo

Pai, ser o Messias, isto é, Aquele no qual tem a sua morada o Espírito Santo como dom do próprio

Deus, Aquele que possui a plenitude deste Espírito, Aquele que marca o «novo princípio» do dom

que Deus concede à humanidade no Espírito Santo.

5. Jesus de Nazaré, «elevado» no Espírito Santo

19. Embora Jesus não seja recebido como Messias na sua terra de Nazaré, todavia, ao iniciar a sua

actividade pública, a sua missão messiânica no Espírito Santo foi revelada ao Povo por João

Batista, filho de Zacarias e de Isabel. Ele anuncia, junto do Jordão, a vinda do Messias e administra

o baptismo de penitência. Ele diz: «Eu baptizo-vos com água, mas vai chegar quem é mais forte do

que eu, a quem eu não sou digno nem sequer de desatar as correias das sandálias: ele

baptizar-vos-á com o Espírito Santo e com o fogo»(65).

João Baptista anuncia o Messias — Cristo, não apenas como Aquele que «vem» com o Espírito

Santo, mas como Aquele que também «é portador» do Espírito Santo, como seria melhor revelado

por Jesus no Cenáculo. João torna-se, quanto a isto, o eco fiel das palavras de Isaías; palavras que,

proferidas pelo antigo Profeta, diziam respeito ao futuro, ao passo que no seu ensino, nas margens

do Jordão, constituem a introdução imediata à nova realidade messiânica. João é não só profeta,

mas também mensageiro: é o precursor de Cristo. Aquilo que ele anuncia realiza-se diante dos olhos

de todos. Jesus de Nazaré vem ao Jordão para receber, também ele, o baptismo de penitência. A

vista do recém-chegado, João proclama: «Aí está o Cordeiro de Deus, que vai tirar o pecado do

mundo»(66). E diz isso por inspiração do Espírito Santo(67) dando testemunho do cumprimento

da profecia de Isaías. Ao mesmo tempo confessa a fé na missão redentora de Jesus de Nazaré.

Nos lábios de João Baptista as palavras «Cordeiro de Deus» encerram uma afirmação da verdade

quanto ao Redentor, não menos significativa que as palavras usadas por Isaías: «Servo do Senhor».

Deste modo, com o testemunho de João junto do Jordão, Jesus de Nazaré, rejeitado pelos próprios

conterrâneos, é elevado aos olhos de Israel como Messias, ou seja «Ungido» com o Espírito

Santo. E o testemunho de João Baptista é corroborado por um outro testemunho de ordem superior,

mencionado pelos três Evangelhos Sinópticos. Com efeito, quando todo o povo tinha sido baptizado

e no momento em que Jesus, recebido o baptismo, estava em oração, «abriu-se o céu e o Espírito

Santo desceu sobre ele em forma corporal, como uma pomba»(68); e, simultaneamente, ouviou-se

uma voz vinda do céu que dizia: Este é o meu Filho muito amado, no qual pus as minhas

complacências»(69).

É uma teofania trinitária, que dá testemunho da exaltação de Cristo, por ocasião do baptismo no

Jordão. Ela não só confirma o testemunho de João Baptista, mas revela uma dimensão ainda mais

profunda da verdade acerca de Jesus de Nazaré como Messias. Ou seja: o Messias é o Filho

muito amado do Pai. A sua exaltação solene não se reduz à missão messiânica do «Servo do

Senhor». A luz da teofania do Jordão, esta exaltação alcança o mistério da própria Pessoa do

Messias. Ele é exaltado porque é o Filho da complacência divina. A voz do Alto diz: «o meu Filho».

20. A teofania do Jordão ilumina somente de modo fugaz o mistério de Jesus de Nazaré, cuja

actividade será toda ela desenvolvida com a presença do Espírito Santo(70). Este mistério viria a ser

gradualmente desvendado e confirmado por Jesus, mediante tudo o que «fez e ensinou»(71).

Atendo-nos à linha deste ensino e dos sinais messiânicos realizados pelo mesmo Jesus, antes do

discurso de despedida no Cenáculo, encontramos acontecimentos e palavras que constituem

momentos particularmente importantes dessa revelação progressiva. Assim o evangelista São Lucas,

que já tinha apresentado Jesus «cheio de Espírito Santo» e «conduzido pelo Espírito ao

deserto»(72). faz-nos cientes de que, após o regresso dos setenta e dois discípulos da missão que

lhes fora confiada pelo Mestre(73), enquanto eles cheios de alegria lhe relatavam os frutos do seu

trabalho, nesse mesmo «momento Jesus exultou de alegria sob a acção do Espírito Santo e disse:

«Eu te dou graças, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos

inteligentes e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque isto foi do Teu agrado»(74). Jesus

exulta pela paternidade divina: exulta porque lhe foi dado revelar esta paternidade; exulta, por fim,

por uma como que irradiação e special da me sma paternidade divina sobre os «pequeninos». E o

Evangelista qualifica tudo isto como uma «exultação no Espírito Santo».

Esta «exultação» impele Jesus, em certo sentido, a dizer ainda algo mais. Ouçamos: «Todas as

coisas me foram entregues por meu Pai e ninguém conhece quem é o Filho senão o Pai, nem quem é

o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar»(75).

21. Aquilo que durante a teofania do Jordão veio, por assim dizer, «do exterior», do Alto, aqui

provém «do interior», isto é, do mais íntimo do ser que é Jesus. É uma outra revelação do Pai e do

Filho, unidos no Espírito Santo. Jesus fala só da paternidade de Deus e da própria filiação; não fala

directamente do Espírito que é Amor e, por isso, união do Pai e do Filho. Não obstante, aquilo que

ele diz do Pai e de Si-Filho brota daquela plenitude do Espírito que está nele mesmo e se

derrama no seu coração, impregna o seu próprio «Eu», inspira e vivifica, a partir da profundeza do

que Ele é, a sua acção. Daqui esse seu «exultar no Espírito Santo». A união de Cristo com o Espírito

Santo, da qual Ele tem uma consciência perfeita, exprime-se nessa «exultação», que torna

«perceptível», de certa maneira, a sua fonte recôndita. Dá-se assim uma especial manifestação e

exaltação próprias do Filho do Homem, de Cristo-Messias, cuja humanidade pertence à Pessoa do

Filho de Deus, substancialmente uno com o Espírito Santo na divindade.

Na magnífica confissão da paternidade de Deus, Jesus de Nazaré manifesta-se também a si mesmo,

o seu «Eu» divino: Ele é efectivamente, o Filho «da mesma substância» (consubstancial); e, por

isso, «ninguém conhece quem é o Filho senão o Pai, nem quem é o Pai senão o Filho, aquele Filho

que «por nós, homens, e para nossa salvação» se fez homem, «por obra do Espírito Santo» e

nasceu de uma virgem, cujo nome era Maria.

6. Cristo:Ressuscitado disse: «Recebei o Espírito Santo»

22. É São Lucas que, graças à sua narração, nos leva a aproximar-nos, o máximo que é possível, da

verdade contida no discurso do Cenáculo. Jesus de Nazaré, «elevado» no Espírito Santo, ao longo

desse discurso e colóquio, manifesta-se como Aquele que é «portador» do Espírito, como Aquele

que o deve trazer e «dar» aos Apóstolos e à Igreja à custa da sua «partida» mediante a Cruz.

Com o verbo «trazer», aqui, quere-se dizer, primeiro que tudo, «revelar». No Antigo Testamento,

desde o Livro do Génesis, o Espírito de Deus foi dado a conhecer, de alguma maneira, antes de

mais como «sopro» de Deus que dá a vida, como «um sopro vital» sobrenatural. No Livro de

Isaías é apresentado como um «dom» para a pessoa do Messias, como Aquele que repousa sobre

ele, para ser, de dentro, o guia de toda a sua actividade salvífica. Junto do Jordão, o anúncio de

Isaías revestiu-se de uma forma concreta: Jesus de Nazaré é aquele que vem com o Espírito Santo

e o «traz» como dom peculiar da sua própria Pessoa, para efundi-lo através da sua humanidade:

«Ele vos baptizará no Espírito Santo». (76) No Evangelho de São Lucas é confirmada e enriquecida

esta revelação do Espírito Santo, como fonte íntima da vida e da acção messiânica de Jesus Cristo.

À luz daquilo que o mesmo Jesus diz no discurso do Cenáculo, o Espírito Santo é revelado de um

modo novo e mais amplo. Ele é não só o dom à Pessoa (à Pessoa do Messias), mas é também uma

Pessoa-Dom! Jesus anuncia a sua vinda como a de «um outro Consolador», o qual, sendo o

Espírito da verdade, guiará os Apóstolos e a Igreja «a toda a verdade». (77) Isto realizar-se-á em

virtude da particular comunhão entre o Espírito Santo e Cristo: «há-de receber do que é meu para

vo-lo anunciar». (78) Esta comunhão tem a sua fonte primária no Pai: «Tudo quanto o Pai tem é

meu; por isso eu vos disse que Ele há-de receber do que é meu para vo-lo anunciar». (79) Provindo

do Pai, o Espírito Santo é enviado de junto do Pai. (80) O Espírito Santo foi enviado, primeiro,

como dom para o Filho que se fez homem, para se cumprirem as profecias messiânicas. Depois da

«partida» de Cristo, do Filho, segundo o texto joanino, o Espírito Santo «virá» directamente — é

a sua nova missão — para consumar a obra do Filho. Deste modo, será Ele quem levará à

realização plena a nova era da história da salvação.

23. Encontramo-nos no limiar dos acontecimentos pascais. Vai completar-se a nova e definitiva

revelação do Espírito Santo como Pessoa que é o Dom, precisamente neste momento. Os eventos

pascais — a paixão, a morte e a ressurreição de Cristo — são também o tempo da nova vinda do

Espírito Santo, como Paráclito e Espírito da verdade. Eles constituem o tempo do «novo princípio»

da comunicação de Si mesmo da parte de Deus uno e trino à humanidade, no Espírito Santo por

obra de Cristo Redentor. Este novo princípio é a Redenção do mundo: «Com efeito, Deus amou de

tal modo o mundo que lhe deu o Seu Filho unigénito». (81) Ao «dar» o Filho, no dom do Filho, já

se exprime a essência mais profunda de Deus, o qual, sendo Amor, é a fonte inexaurível da dádiva.

No dom concedido pelo Filho completam-se a revelação e a dádiva do Amor eterno: o Espírito

 

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