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DO SUMO PONTÍFICE SOBRE O ESPÍRITO
SANTO NA VIDA DA IGREJA E DO MUNDO
Veneráveis Irmãos e Amados Filhos
e Filhas Saúde e Bênção Apostólica!
INTRODUÇÃO
1. A Igreja professa a sua fé no
Espírito Santo, como n*Aquele «que é Senhor e dá a vida». É o que ela proclama
no Símbolo da Fé, chamado Niceno-Constantinopolitano, do nome dos dois Concílios
- de Niceia (a. 325) e de Constantinopla (a. 381) - nos quais foi formulado ou
promulgado. Nele se acrescenta também que o Espírito Santo «falou pelos
Profetas». São palavras que a Igreja recebe da própria fonte da sua fé, Jesus
Cristo. Com efeito, segundo o Evangelho de São João, o Espírito Santo é-nos dado
com a vida nova, como Jesus anuncia e promete no dia solene da festa dos
Tabernáculos: «Quem tem sede, venha a mim; e beba quem crê em mim. Como diz a
Escritura, do seu seio fluirão rios de água viva»(1). E o Evangelista explica:
«Jesus dizia isso referindo-se ao Espírito, que haveriam de receber os que n*Ele
acreditassem»(2). É a mesma analogia da água usada por Jesus no diálogo com a
Samaritana, quando fala de «uma nascente de água a jorrar para a vida
eterna»(3), e no colóquio com Nicodemos, quando anuncia a necessidade de um novo
nascimento «pela água e pelo Espírito» para «entrar no Reino de Deus»(4). A
Igreja, portanto, instruída pelas palavras de Cristo, indo beber à experiência
do Pentecostes e da própria «história apostólica», proclama desde o início a sua
fé no Espírito Santo, como n*Aquele que dá a vída, Aquele no qual o
imperscrutável Deus uno e trino se comunica aos homens, constituindo neles a
nascente da vida eterna.
2. Esta fé, professada
ininterruptamente pela Igreja, precisa de ser incessantemente reavivada e
aprofundada na consciência do Povo de Deus. Neste último século isso aconteceu
por mais de uma vez: desde Leão XIII, que publicou a Carta Encíclica Divinum
illud munus (a. 1897), inteiramente dedicada ao Espírito Santo, a Pio XII, que
na Encíclica Mystici Corporis (a. 1943) se referiu de novo ao Espírito Santo
como sendo princípio vital da Igreja, na qual opera conjuntamente com a Cabeça
do Corpo Místico, Cristo(5), até ao Concílio Ecuménico Vaticano II, que fez
notar a necessidade de uma renovada atenção à doutrina sobre o Espírito Santo,
como acentuava o Papa Paulo VI: «À cristologia e especialmente à eclesiologia do
Concílio deve seguir-se um estudo renovado e um culto renovado do Espírito
Santo, precisamente como complemento indispensável do ensino conciliar»(6). Na
nossa época, portanto, mais uma vez somos chamados pela fé da Igreja, fé antiga
e sempre nova, a aproximar-nos do Espírito Santo como Aquele que dá a vida.
Neste ponto, podemos contar com a ajuda e serve-nos também de estímulo a herança
comum com as Igrejas orientais; estas preservaram cuidadosamente as riquezas
extraordinárias do ensino dos Padres sobre o Espírito Santo. Também por isso
podemos dizer que um dos mais importantes acontecimentos eclesiais dos últimos
anos foi o XVI centenário do I Concílio de Constantinopla, celebrado
contemporaneamente em Constantinopla e em Roma na solenidade do Pentecostes de
1981. O Espírito Santo, tendo-se meditado na altura sobre o mistério da Igreja,
apareceu então mais nitidamente como Aquele que indica os caminhos que levam à
união dos cristãos, ou melhor, como a fonte suprema desta unidade, que provém do
próprio Deus e à qual São Paulo deu uma expressão particular, com aquelas
palavras que se usam frequentemente para dar início à Liturgia eucarística: «A
graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus Pai e a comunhão do Espírito
Santo estejam convosco»(7). Nesta exortação tiveram o seu ponto de partida e
inspiração, em certo sentido, as precedentes Encíclicas Redemptor hominis e
Dives in misericordia, as quais celebram o acontecimento da nossa salvação, que
se realizou no Filho, mandado pelo Pai ao mundo, «para que o mundo seja salvo
por seu intermédio»(8) e «toda a língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor,
para glória de Deus Pai»(9). Dessa mesma exortação nasce agora a presente
Encíclica sobre o Espírito Santo, que procede do Pai e do Filho e com o Pai e o
Filho é adorado e glorificado: Pessoa divina, Ele está no coração da fé cristã e
é a fonte e a força dinâmica da renovação da Igreja(10). Ela foi haurida,
ademais, das profundezas da herança do Concílio. Os textos conciliares,
efectivamente, em virtude do seu ensino sobre a Igreja em si mesma e sobre a
Igreja no mundo, estimulam-nos a perscrutar cada vez mais o mistério trinitário
do próprio Deus, seguindo o itinerário evangélico, patrístico e litúrgico: ao
Pai — por Cristo — no Espírito Santo. Deste modo, a Igreja responde também a
certos apelos profundos, que julga ler no coração dos homens de hoje: uma nova
descoberta de Deus na sua transcendente realidade de Espírito infinito, como foi
apresentado por Jesus à Samaritana; a necessidade de adorá-lo «em espírito e
verdade»(11); a esperança de encontrar nele o segredo do amor e a força de uma
«nova riação»(12): sim, precisamente Aquele que dá a vida. A Igreja sente-se
chamada para esta missão de anunciar o Espírito, ao mesmo tempo que, juntamente
com toda a família humana se aproxima do final do segundo Milénio depois de
Cristo. Tendo como cenário um céu e uma terra que «passarão», ela sabe bem que
adquirem uma particular eloquência as «palavras que não hão-de
passar»(13), São as palavras de Cristo sobre o Espírito Santo, fonte inexaurível
da «água a jorrar para a vida eterna»(14), como verdade e graça salvadoras. A
Igreja quer reflectir sobre estas palavras; ela deseja chamar a atenção daqueles
que crêem e de todos os homens para essas mesmas palavras, enquanto se vai
preparando para celebrar - come se dirá mais adiante - o grande Jubileu, com que
se assinalará a passagem do segundo para o terceiro Milénio cristão. As
considerações que se seguem, naturalmente, não pretendem perlustrar, de maneira
exaustiva, toda a riquíssima doutrina sobre o Espírito Santo, nem favorecer
qualquer solução de questões ainda em aberto. Elas têm como finalidade principal
desenvolver na Igreja aquela consciência com que ela «é impelida pelo mesmo
Espírito Santo a cooperar para que se realize o desígnio de Deus, que constituiu
Cristo princípio de salvação para o mundo inteiro»(15).
PRIMEIRA
PARTE
O ESPÍRITO DO PAI E DO FILHO, DADO
À IGREJA
1. Promessa e revelação de Jesus
durante a Ceia pascal
3. Quando já estava iminente para
Jesus Cristo o tempo de deixar este mundo, ele anunciou aos Apóstolos «um outro
Consolador»(16). O evangelista São João, que estava presente, escreve que,
durante a Ceia pascal no dia anterior à sua paixão e morte, Jesus se dirigiu a
eles com estas palavras: «Tudo o que pedirdes em meu nome, eu o farei, para que
o Pai seja glorificado no Filho ... Eu pedirei ao Pai, e Ele vos dará um outro
Consolador, para estar convosco para sempre, o Espírito da verdade»(17). É
precisamente a este Espírito da verdade que Jesus chama o Paráclito — e
Parákletos quer dizer «consolador», e também «intercessor», ou «advogado». E diz
que é «um outro» Consolador, o segundo, porque ele mesmo, Jesus Cristo, é o
primeiro Consolador(18), sendo o primeiro portador doador da Boa Nova. O
Espírito Santo vem depois dele a graças a ele, para continuar no mundo, mediante
a Igreja, a obra da Boa Nova da salvação. Desta continuação da sua obra por
parte do Espírito Santo, Jesus fala mais de uma vez durante o mesmo discurso de
despedida, preparando os Apóstolos, reunidos no Cenáculo, para a sua partida,
isto é, para a sua paixão e morte na Cruz. As palavras, a que faremos aqui
referência, encontram-se no Evangelho de São João. Cada uma delas acrescenta um
certo conteúdo novo ao anúncio e à promessa acima referidos. E, ao mesmo tempo,
elas estão encadeadas intimamente entre si, não só pela perspectiva dos mesmos
acontecimentos, mas também pela perspectiva do mistério do Pai, do Filho e do
Espírito Santo, o qual talvez em nenhuma outra passagem da Sagrada Escritura
tenha uma expressão tão relevante como aqui.
4. Pouco depois do anúncio acima
referido, Jesus acrescenta: «Mas o Consolador, o Espírito Santo, que o Pai
enviará em meu nome, ele vos ensinará todas as coisas e vos recordará tudo o que
eu vos disse»(19). O Espírito Santo será o Consolador dos Apóstolos e da Igreja,
sempre presente no meio deles — ainda que invisível — como mestre da mesma Boa
Nova que Cristo anunciou. Aquele «ensinará» ... e «recordará» significa não só
que Ele, da maneira que lhe é própria, continuará a inspirar a divulgação do
Evangelho da salvação, mas também que ajudará a compreender o significado exacto
do conteúdo da mensagem de Cristo; que Ele assegurará a continuidade e
identidade de compreensão dessa mensagem, no meio das condições e circunstâncias
mutáveis. Por conseguinte, o Espírito Santo fará com que perdure sempre na
Igreja a mesma verdade, que os Apóstolos ouviram do seu
Mestre.
5. Para transmitirem a Boa Nova da
salvação, os Apóstolos estarão associados de uma maneira particular ao Espírito
Santo. Eis como Jesus continua a falar: «Quando vier o Consolador, que eu vos
enviarei da parte do Pai, o Espírito da verdade que procede do Pai, ele dará
testemunho de mim. E também vós dareis testemunho de mim, porque estais comigo
desde o princípio»(20). Os Apóstolos foram as testemunhas directas, oculares.
Eles «ouviram» e «viram com os próprios olhos», «contemplaram», e até mesmo
«tocaram com as próprias mãos» Cristo, como se exprime numa outra passagem o
mesmo evangelista São João(21). Este seu testemunho humano, ocular e «histórico»
a respeito de Cristo andará ligado ao testemunho do Espírito Santo: «Ele dará
testemunho de mim». É no testemunho do Espírito da verdade que o testemunho
humano dos Apóstolos encontrará o seu mais forte sustentáculo. E, em seguida,
encontrará nele também o recôndito fundamento interior da sua continuação entre
as gerações dos discípulos e dos confessores de Cristo, que se irão sucedendo ao
longo dos séculos. Sendo o próprio Jesus Cristo a suprema e mais completa
revelação de Deus à humanidade, é o testemunho do Espírito que inspira, garante
e convalida a sua fiel transmissão na pregação e nos escritos apostólicos(22),
enquanto o testemunho dos Apóstolos lhe proporciona a expressão humana na Igreja
e na história da humanidade.
6. Isto é posto em evidência
também pela estreita correlação de conteúdo e de intenção com o anúncio e
a promessa que acabámos de mencionar, que se encontra nas palavras que vêm a
seguir no texto de São João: «Teria ainda muitas coisas para vos dizer, mas por
agora não estais em condições de as comprender. Quando, porém, Ele vier, o
Espírito da verdade, guiar-vos-á para toda a verdade; porque Ele não falará por
si mesmo, mas de tudo o que tiver ouvido e anunciar-vos-á as coisas que estão
para vir»(23). Com as palavras precedentes Jesus apresenta o Consolador, o
Espírito da verdade, como Aquele que «ensinará e recordará», como Aquele que
«dará testemunho» dele; agora diz: «Ele vos guiará para toda a verdade». Este
«guiar para toda a verdade», em relação com aquilo que «os Apóstolos por agora
não estão em condições de compreender», está necessariamente em ligação com o
despojamento de Cristo, por meio da sua paixão e morte de Cruz, que então,
quando ele pronunciava estas palavras, já estava iminente. Mas, em seguida,
torna-se bem claro que aquele «guiar para a toda a verdade» está em ligação não
apenas com o «scandalum crucis» [o escandalo da cruz], mas também com tudo o que
Cristo «fez e ensinou»(24). Com efeito, o mysterium Christi na sua globalidade
exige a fé, porquanto é ela que introduz o homem oportunamente na realidade do
mistério revelado. O «guiar para toda a verdade» realiza-se, pois, na fé e
mediante a fé: é obra do Espírito da verdade e é fruto da sua acção no homem. O
Espírito Santo deve ser em tudo isso o guia supremo do homem, a luz do espírito
humano. Isto é válido para os Apóstolos, as testemunhas oculares que devem levar
doravante a todos os homens o anúncio do que Cristo «fez e ensinou» e,
especialmente, da sua Cruz e da sua Ressurreição. Numa perspectiva mais ampla e
distante no tempo, isto é valido também para todas as gerações dos
discípulos e dos confessores do Mestre, uma vez que deverão aceitar com fé e
confessar com desassombro o mistério de Deus operante na história do homem, o
mistério revelado que explica o sentido dessa mesma
história.
7. Na economia da salvação,
portanto, entre o Espírito Santo e Cristo subsiste uma ligação íntima, em
virtude da qual o Espírito da verdade opera na história do homem como «um outro
Consolador», assegurando de modo duradouro a transmissão e a irradiação da Boa
Nova revelada por Jesus de Nazaré. Por isso, no Espírito Santo Paráclito, o qual
continua incessantemente no mistério e na actividade da Igreja a presença
histórica do Redentor sobre a terra e a sua obra salvífica, resplandece a glória
de Cristo, como atestam as palavras de São João que vêm a seguir: «Ele (isto é,
o Espírito) glorificar-me-á, porque receberá do que é meu para vo-lo
anunciar»(25). Com estas palavras é confirmado, mais uma vez, tudo o que
disseram os enunciados precedentes: «ensinará ... recordará ..., dará
testemunho». A suprema e completa auto-revelação de Deus, que se realizou em
Cristo — tendo dado testemunho dela a pregação dos Apóstolos — continuará a ser
manifestada na Igreja mediante a missão do Consolador invisível, o Espírito da
verdade. Quanto esta missão (do Espírito) esteja intimamente ligada com a missão
de Cristo e quanto plenamente ela vá haurir na mesma missão de Cristo —
consolidando e desenvolvendo na história os seus frutos salvíficos — é expresso
pelo verbo «receber»: «receberá do que é meu para vo-lo anunciar». E Jesus, como
que para explicar a palavra «receber», pondo em evidência claramente a unidade
divina e trinitária da fonte, acrescenta: «Tudo quanto o Pai tem é meu; por isso
eu disse que Ele receberá do que é meu para vo-lo anunciar»(26). Recebendo «do
que é meu», Ele vai, por isso mesmo, haurir «daquilo que é do Pai». Assim, à luz
daquele «receberá» podem ser explicadas ainda as outras palavras sobre o
Espírito Santo, pronunciadas por Jesus no Cenáculo antes da Páscoa, que são
palavras significativas: «É melhor para vós que eu vá, porque se eu não fôr, o
Consolador não virá a vós; mas, se eu for, ensiar-vo-lo-ei. E quando Ele tiver
vindo convencerá o mundo quanto ao pecado, quanto à justica e quanto ao
juízo»(27). Será conveniente voltar a estas palavras, com uma reflexão à parte.
2. Pai, Filho e Espírito
Santo
8. É característica do texto
joanino que o Pai, o Filho e o Espírito Santo sejam nomeados claramente como
Pessoas, a primeira distinta da segunda e da terceira e estas também distintas
entre si. Jesus fala do Espírito Consolador, usando por mais de uma vez o
pronome pessoal «Ele». E, ao mesmo tempo, em todo o discurso de despedida, torna
manifestos aqueles vínculos que unem reciprocamente o Pai, o Filho e o
Paráclito. Assim, «o Espírito ... procede do Pai»(28) e o Pai «dá» o
Espírito(29). O Pai «envia» o Espírito em nome do Filho(30), o Espírito «dá
testemunho» do Filho(31). O Filho pede ao Pai que envie o Espírito
Consolador(32); mas, além disso, afirma e promete, em relação com a sua
«partida» mediante a Cruz: «Quando eu fôr, vo-lo enviarei»(33). Portanto, o Pai
envia o Espírito Santo com o poder da sua paternidade, como enviou o Filho(34);
mas, ao mesmo tempo, envia-o, com o poder da Redenção realizada por Cristo — e
neste sentido o Espírito Santo é enviado também pelo Filho:
«enviar-vo-lo-ei».Aqui neste ponto, é preciso notar que, se todas as outras
promessas feitas no Cenáculo anunciavam a vinda do Espírito Santo para depois da
partida de Cristo, a que é referida por São João no capítulo 16 vv. 7-8 inclui e
acentua claramente a relação de interdependência, que se poderia dizer
causal, entre as manifestações de um e de outro: «Quando eu fôr,
enviar-vo-lo-ei». O Espírito Santo virá na condição de Cristo partir, mediante a
Cruz: virá não só em seguida, mas por causa da Redenção realizada por Cristo,
por vontade e obra do Pai.
9. Assim no discurso da Ceia
pascal de despedida, atinge-se — por assim dizer — o ápice da revelação
trinitária. Ao mesmo tempo, encontramo-nos no limiar de eventos definitivos e de
palavras supremas, que por fim se traduzirão no grande mandato missionário,
dirigido aos Apóstolos e, mediante eles, à Igreja: «ide, portanto, e ensinai
todas as gentes», mandato que contém, em certo sentido, a fórmula trinitária do
Baptismo: «baptizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo»(35). A
fórmula reflecte o mistério íntimo de Deus, da vida divina, que é o Pai, o Filho
e o Espírito Santo, divina unidade da Trindade. O discurso de despedida pode ser
lido como uma preparação especial para esta fórmula trinitária, na qual se
exprime o poder vivificante do Sacramento, que opera a participação na vida de
Deus uno e trino, porque confere a graça santificante ao homem, como dom
sobrenatural. Por meio dela o homem é chamado e «tornado capaz» de participar na
imperscrutável vida de Deus.
10. Na sua vida íntima Deus «é
Amor»(36), amor essencial, comum às três Pessoas divinas: amor pessoal é o
Espírito Santo, como Espírito do Pai e do Filho. Por isso ele «perscruta as
profundezas de Deus»(37), como Amor-Dom incriado. Pode dizer-se que, no Espírito
Santo, a vida íntima de Deus uno e trino se torna totalmente dom, permuta de
amor recíproco entre as Pessoas divinas; e ainda, que no Espírito Santo Deus
«existe» à maneira de Dom. O Espírito Santo é a expressão pessoal desse doar-se,
desse ser-amor(38). É Pessoa-Amor. É Pessoa-Dom. Temos aqui uma riqueza
insondável da realidade e um aprofundamento inefável do conceito de pessoa em
Deus, que só a Revelação divina nos dá a conhecer. Ao mesmo tempo, o Espírito
Santo, enquanto consubstancial ao Pai e ao Filho na divindade, é Amor e Dom
(incriado) do qual deriva como de uma fonte (fons vívus) toda a dádiva em
relação às criaturas (dom criado): a doação da existência a todas as coisas,
mediante a criação; e a doação da graça aos homens, mediante toda a economia da
salvação. Como escreve o Apóstolo São Paulo: «O amor de Deus foi derramado nos
nossos corações por meio do Espírito Santo, que nos foi
dado»(39).
3. O dar-se salvífico de Deus no
Espírito Santo
11. O discurso de despedida de
Cristo, durante a Ceia pascal, está em particular conexão com este «dar» e
«dar-se» do Espírito Santo. No Evangelho de São João descobre-se como que a
«lógica» mais profunda do mistério salvífico, contido no eterno desígnio de
Deus, qual expansão da inefável comunhão do Pai, do Filho e do Espírito Santo. É
a «lógica» divina, que leva do mistério da Trindade ao mistério da Redenção do
mundo em Jesus Cristo. A Redenção realizada pelo Filho nas dimensões da história
terrena do homem — consumada aquando da sua «partida», por meio da Cruz e da
Ressurreição — é, ao mesmo tempo, transmitida ao Espírito Santo com todo o seu
poder salvífico: transmitida Àquele que «receberá do que é meu»(40). As palavras
do texto joanino indicam que, segundo o desígnio divino, a «partida» de Cristo é
condição indispensável para o «envio» e para a vinda do Espírito Santo; mas
dizem também que começa então a nova autocomunicação salvífica de Deus, no
Espírito Santo.
12. É um novo princípio em relação
ao primeiro: àquele princípio primigénio do dar-se salvífico de Deus, que se
identifica com o próprio mistério da criação. Com efeito, lemos já nas primeiras
palavras do Livro do Génesis: «No princípio criou Deus o céu e a terra ..., e o
espírito de Deus (ruah Elohim) adejava sobre as águas»(41). Este conceito
bíblico de criação comporta não só o chamamento à existência do próprio ser do
cosmos, ou seja, o dom da existência, mas comporta também a presença do Espírito
de Deus na criação, isto é, o início do comunicar-se salvífico de Deus às coisas
que cria. Isto aplica-se, antes de mais, quanto ao homem, o qual foi criado à
imagem e semelhança de Deus: «Façamos o homem à nossa imagem, à nossa
semelhança»(42). «Façamos»: poderá, acaso, dizer-se que o plural, usado aqui
pelo Criador ao referir-se a si mesmo, insinua já, de algum modo, o mistério
trinitário, a presença da Santíssima Trindade na obra da criação do homem? O
leitor cristão, que já conheça a revelação deste mistério, pode descobrir um seu
reflexo também nessas palavras. Em todo o caso, o conteúdo do Livro do Génesis
permite-nos ver na criação do homem o primeiro princípio do dom salvífico de
Deus, na medida daquela «imagem e semelhança» de si mesmo, por Ele outorgada ao
homem.
13. Parece, portanto, que as
palavras pronunciadas por Jesus no discurso de despedida devem ser relidas
também em conexão com aquele «princípio» tão longínquo, mas fundamental, que
conhecemos pelo Livro do Génesis. «Se eu não for, o Consolador não virá a vós;
mas, se eu for, enviar-vo-lo-ei». Ao referir-se à sua «partida» como condição da
«vinda» do Consolador, Cristo relaciona o novo princípio da comunicação
salvífica de Deus no Espírito Santo com o mistério da Redenção. Este é um novo
princípio antes de mais nada, porque entre o primeiro princípio e toda a
história do homem — a começar da queda original — se interpôs o pecado, que está
em contradição com a presença do Espírito de Deus na criação e está, sobretudo,
em contradição com a comunicação salvífica de Deus ao homem. São Paulo escreve
que, precisamente por causa do pecado, «a criação ... foi submetida à
caducidade..., geme e sofre no seu conjunto as dores do parto até ao presente» e
«aguarda ansiosamente e revelação dos filhos de Deus»(43).
14. Por isso Jesus Cristo diz no
Cenáculo: «É bem para vós que eu vá ...»; «Se eu fôr,enviar-vo-lo-ei»(44). A
«partida» de Cristo mediante a Cruz tem a potência da Redenção; e isto significa
também uma nova presença do Espírito de Deus na criação: o novo princípio do
comunicar-se de Deus ao homem no Espírito Santo. «Porque vós sois seus filhos,
Deus enviou aos vossos corações o Espírito do seu Filho que clama: Abbá! Pai!» —
escreve o apóstolo São Paulo, na Carta aos Gálatas(45). O Espírito Santo é o
Espírito do Pai, como testemunham as palavras do discurso de despedida, no
Cenáculo. Ele é, simultaneamente, o Espírito do Filho: é o Espírito de Jesus
Cristo, como viriam a testemunhar os Apóstolos e, de modo particular, Paulo de
Tarso(46). No facto de enviar este Espírito «aos nossos corações» começa a
realizar-se o que «a própria criação aguarda ansiosamente» como lemos na
Carta aos Romanos. O Espírito Santo vem «à custa» da «partida» de Cristo. Se
essa «partida», anunciada no Cenáculo, causava a tristeza dos Apóstolos(47), — a
qual devia atingir o seu ponto culminante na paixão e na morte de
Sexta-Feria Santa — contudo, a mesma «tristeza havia de converter-se em
alegria»(48). Cristo, efectivamente, inserirá na sua «partida» redentora a
glória da ressurreição e da ascensão ao Pai. Portanto, a tristeza através da
qual transparece a alegria, é a parte que cabe aos Apóstolos na conjuntura da
«partida» do seu Mestre, uma partida «benéfica», porque graças a ela havia de
vir um outro «Consolador»(49). À custa da Cruz, operadora da Redenção, vem o
Espírito Santo, pelo poder de todo o mistério pascal de Jesus Cristo; e vem para
permanecer com os Apóstolos desde o ia de Pentecostes, para permanecer com a
Igreja e na Igreja e, mediante ela, no mundo. Deste modo, realiza-se
definitivamente aquele novo princípio da comunicação de Deus uno e
trino
no Espírito Santo, por obra de
Jesus Cristo, Redentor do homem e do mundo.
4. O Messias, «ungido com o
Espírito Santo»
15. Realizou-se também cabalmente
a missão do Messias, isto é, daquele que recebera a
plenitude
do Espírito Santo, em favor do
Povo eleito por Deus e de toda a humanidade. «Messias»,
literalmente, significa «Cristo»,
isto é, «Ungido»; e na história da salvação significa «ungido com
o
Espírito Santo». Esta era a
tradição profética do Antigo Testamento. Atendo-se a ela, Simão
Pedro,
em casa de Cornélio, diria: «Vós
conheceis o que aconteceu por toda a Judeia... depois do
baptismo
pregado por João: como Deus ungiu
com o Espírito Santo e com o poder a Jesus de
Nazaré»(50).
Destas palavras de São Pedro, e de
muitas outras semelhantes(51), é preciso remontar, antes
de
mais, à profecia de Isaías,
algumas vezes chamada «o quinto evangelho», ou então «o evangelho
do
Antigo Testamento». Isaías,
fazendo alusão à vinda dum personagem misterioso, que a
revelação
neotestamentária identificará em
Jesus, liga a sua pessoa e a sua missão a uma acção particular
do
Espírito de Deus — Espírito do
Senhor. São estas as palavras do Profeta:
«Despontará um rebento do tronco
de Jessé,
e um renovo brotará da sua
raiz.
Sobre ele pousará o espírito do
Senhor,
espírito de sabedoria e de
entendimento,
espírito de conselho e de
fortaleza,
espírito de conhecimento e de
temor de Deus,
o no temor do Senhor está a sua
inspiração»(52).
Este texto é importante para toda
a pneumatologia do Antigo Testamento, porque constitui
como
que uma ponte entre o antigo
conceito bíblico do «espírito», entendido primeiro que tudo
como
«sopro carismático», e o
«Espírito» como pessoa e como dom, dom para a pessoa. O Messias
da
estirpe de David («do tronco de
Jessé») é precisamente essa pessoa, sobre a qual «pousará»
o
Espírito do Senhor. É evidente
que, neste caso, não se pode falar ainda da revelação do
Paráclito;
todavia, com essa alusão velada à
figura do futuro Messias, abre-se, por assim dizer, o caminho
que,
uma vez demandado, vai preparando
a revelação plena do Espírito Santo na unidade do mistério
trinitário, a qual se tornará
manifesta, finalmente, na Nova Aliança.
16. Esse caminho é o próprio
Messias. Na Antiga Aliança a unção tinha-se tornado o
símbolo
externo do dom do Espírito. O
Messias, bem mais do que qualquer outro personagem ungido
na
Antiga Aliança, é o único grande
Ungido pelo próprio Deus. É o ungido no sentido de possuir
a
plenitude do Espírito de Deus. Ele
mesmo será também o mediador para ser concedido este
Espírito
a todo o Povo. Com efeito, são do
mesmo Profeta estas outras palavras:
«O espírito do Senhor Deus está
sobre mim,
Porque o Senhor consagrou-me com a
unção;
enviou-me a anunciar a boa nova
aos pobres,
a pensar as feridas dos corações
quebrantados,
a proclamar a redenção para os
cativos,
a libertação para os
prisioneiros,
a promulgar o ano de misericórdia
do Senhor»(53).
O Ungido é também enviado «com o
Espírito do Senhor»:
«Agora o Senhor
Deus
me envia juntamente com o seu
espírito»(54).
Segundo o Livro de Isaías, o
Ungido e o Enviado juntamente com o Espírito do Senhor é também
o
eleito Servo do Senhor, sobre o
qual repousa o Espírito de Deus:
«Eis o meu servo que eu
amparo
o meu eleito, no qual a minha alma
pôs a sua complacência;
fiz repousar sobre ele o meu
espírito»(55).
Como é sabido, o Servo do Senhor é
revelado no Livro de Isaías como o verdadeiro Homem das
dores: o Messias que sofre pelos
pecados do mundo(56). E, simultaneamente, é ele mesmo
Aquele
cuja missão produzirá para toda a
humanidade verdadeiros frutos de salvação:
«Ele levará o direito às nações
...»(57); e tornar-se-á «a aliança do povo à luz das nações
...»(58);
«para que leve a minha salvação
até aos confins da terra»(59).
Porque:
«O meu Espírito, que desceu sobre
ti
e as palavras que te pus na
boca
não se apartarão dos teus
lábios
nem da boca da tua
descendência
nem da boca dos descendentes dos
teus descendentes,
diz o Senhor, desde agora e para
sempre»(60).
Os textos proféticos que acabam de
ser apresentados devem ser lidos por nós à luz do
Evangelho;
o Novo Testamento, por sua vez,
adquire um esclarecimento particular da admirável luz
contida
nestes textos
vétero-testamentários. O Profeta apresenta o Messias como aquele que vem com
o
Espírito Santo, como aquele que
possui em si a plenitude deste Espírito; e, ao mesmo tempo,
é
portador d*Ele para os outros,
para Israel, para todas as nações, para toda a humanidade.
A
plenitude do Espírito de Deus é
acompanhada por múltiplos dons, os bens da salvação,
destinados
de modo particular aos pobres e
aos que sofrem - a todos aqueles que abrem os seus corações
a
esses dons: isso acontece, algumas
vezes mediante as experiências dolorosas da própria
existência;
mas, primeiro que tudo, por aquela
disponibilidade interior que vem da fé. O velho Simeão,
«homem
justo e piedoso», com o qual
estava o Espírito Santo, teve a intuição disso, no momento
da
apresentação de Jesus no Templo,
quando vislumbrou n*Ele a «salvação preparada em favor de
todos os povos» à custa do grande
sofrimento — a Cruz — que ele deveria vir a abraçar
juntamente
com sua Mãe(61). Disso tinha
também e ainda melhor a intuição a Virgem Maria, que havia
concebido do Espírito Santo(62),
quando meditava no seu coração os «mistérios» do Messias,
ao
qual estava
associada(63).
17. É conveniente sublinhar, aqui
neste ponto, que o «espírito do Senhor», que «se pousa» sobre
o
futuro Messias, é, claramente,
antes de mais nada um dom de Deus para a pessoa deste Servo
do
Senhor. Mas ele não é uma pessoa
isolada e independente, pois opera por vontade do Senhor,
com
o poder da sua decisão ou escolha.
Se bem que à luz dos textos de Isaías a obra salvífica do
Messias, Servo do Senhor, inclua a
acção do Espírito que se desenrola mediante ele próprio,
todavia no seu contexto
vétero-testamentário não é sugerida a distinção dos sujeitos ou das
Pessoas
divinas, tais como subsistem no
mistério trinitário e serão reveladas depois no Novo
Testamento.
Quer em Isaías, quer em todo o
Antigo Testamento, a personalidade do Espírito Santo
acha-se
completamente escondida: escondida
na revelação do único Deus, bem como no anúncio profético
do futuro
Messias.
18. No início da sua actividade
messiânica, Jesus Cristo socorrer-se-á deste anúncio, contido
nas
palavras de Isaías. Isso
aconteceria na cidade de Nazaré, onde ele tinha transcorrido trinta anos
de
vida, na casa de José, o
carpinteiro, ao lado de Maria, a Virgem sua Mãe. Quando lhe foi dada
a
ocasião de tomar a palavra na
Sinagoga, tendo abrido o Livro de Isaías, encontrou a passagem
em
que está escrito: «O Espírito do
Senhor está sobre mim; por isso me consagrou com a unção»;
e
depois de ter lido este texto,
disse aos presentes: «Cumpriu-se hoje esta passagem da
Escritura
que acabais de ouvir»(64). Deste
modo, confessou e proclamou ser Aquele que «foi ungido»
pelo
Pai, ser o Messias, isto é, Aquele
no qual tem a sua morada o Espírito Santo como dom do
próprio
Deus, Aquele que possui a
plenitude deste Espírito, Aquele que marca o «novo princípio» do
dom
que Deus concede à humanidade no
Espírito Santo.
5. Jesus de Nazaré, «elevado» no
Espírito Santo
19. Embora Jesus não seja recebido
como Messias na sua terra de Nazaré, todavia, ao iniciar a
sua
actividade pública, a sua missão
messiânica no Espírito Santo foi revelada ao Povo por João
Batista, filho de Zacarias e de
Isabel. Ele anuncia, junto do Jordão, a vinda do Messias e
administra
o baptismo de penitência. Ele diz:
«Eu baptizo-vos com água, mas vai chegar quem é mais forte
do
que eu, a quem eu não sou digno
nem sequer de desatar as correias das sandálias: ele
baptizar-vos-á com o Espírito
Santo e com o fogo»(65).
João Baptista anuncia o Messias —
Cristo, não apenas como Aquele que «vem» com o Espírito
Santo, mas como Aquele que também
«é portador» do Espírito Santo, como seria melhor revelado
por Jesus no Cenáculo. João
torna-se, quanto a isto, o eco fiel das palavras de Isaías; palavras
que,
proferidas pelo antigo Profeta,
diziam respeito ao futuro, ao passo que no seu ensino, nas
margens
do Jordão, constituem a introdução
imediata à nova realidade messiânica. João é não só
profeta,
mas também mensageiro: é o
precursor de Cristo. Aquilo que ele anuncia realiza-se diante dos
olhos
de todos. Jesus de Nazaré vem ao
Jordão para receber, também ele, o baptismo de penitência.
A
vista do recém-chegado, João
proclama: «Aí está o Cordeiro de Deus, que vai tirar o pecado
do
mundo»(66). E diz isso por
inspiração do Espírito Santo(67) dando testemunho do
cumprimento
da profecia de Isaías. Ao mesmo
tempo confessa a fé na missão redentora de Jesus de
Nazaré.
Nos lábios de João Baptista as
palavras «Cordeiro de Deus» encerram uma afirmação da
verdade
quanto ao Redentor, não menos
significativa que as palavras usadas por Isaías: «Servo do
Senhor».
Deste modo, com o testemunho de
João junto do Jordão, Jesus de Nazaré, rejeitado pelos
próprios
conterrâneos, é elevado aos olhos
de Israel como Messias, ou seja «Ungido» com o Espírito
Santo. E o testemunho de João
Baptista é corroborado por um outro testemunho de ordem
superior,
mencionado pelos três Evangelhos
Sinópticos. Com efeito, quando todo o povo tinha sido
baptizado
e no momento em que Jesus,
recebido o baptismo, estava em oração, «abriu-se o céu e o
Espírito
Santo desceu sobre ele em forma
corporal, como uma pomba»(68); e, simultaneamente,
ouviou-se
uma voz vinda do céu que dizia:
Este é o meu Filho muito amado, no qual pus as minhas
complacências»(69).
É uma teofania trinitária, que dá
testemunho da exaltação de Cristo, por ocasião do baptismo
no
Jordão. Ela não só confirma o
testemunho de João Baptista, mas revela uma dimensão ainda
mais
profunda da verdade acerca de
Jesus de Nazaré como Messias. Ou seja: o Messias é o Filho
muito amado do Pai. A sua
exaltação solene não se reduz à missão messiânica do «Servo
do
Senhor». A luz da teofania do
Jordão, esta exaltação alcança o mistério da própria Pessoa
do
Messias. Ele é exaltado porque é o
Filho da complacência divina. A voz do Alto diz: «o meu
Filho».
20. A teofania do Jordão ilumina
somente de modo fugaz o mistério de Jesus de Nazaré, cuja
actividade será toda ela
desenvolvida com a presença do Espírito Santo(70). Este mistério viria a
ser
gradualmente desvendado e
confirmado por Jesus, mediante tudo o que «fez e
ensinou»(71).
Atendo-nos à linha deste ensino e
dos sinais messiânicos realizados pelo mesmo Jesus, antes
do
discurso de despedida no Cenáculo,
encontramos acontecimentos e palavras que constituem
momentos particularmente
importantes dessa revelação progressiva. Assim o evangelista São
Lucas,
que já tinha apresentado Jesus
«cheio de Espírito Santo» e «conduzido pelo Espírito ao
deserto»(72). faz-nos cientes de
que, após o regresso dos setenta e dois discípulos da missão
que
lhes fora confiada pelo
Mestre(73), enquanto eles cheios de alegria lhe relatavam os frutos do
seu
trabalho, nesse mesmo «momento
Jesus exultou de alegria sob a acção do Espírito Santo e
disse:
«Eu te dou graças, ó Pai, Senhor
do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e
aos
inteligentes e as revelaste aos
pequeninos. Sim, ó Pai, porque isto foi do Teu agrado»(74).
Jesus
exulta pela paternidade divina:
exulta porque lhe foi dado revelar esta paternidade; exulta, por
fim,
por uma como que irradiação e
special da me sma paternidade divina sobre os «pequeninos». E
o
Evangelista qualifica tudo isto
como uma «exultação no Espírito Santo».
Esta «exultação» impele Jesus, em
certo sentido, a dizer ainda algo mais. Ouçamos: «Todas as
coisas me foram entregues por meu
Pai e ninguém conhece quem é o Filho senão o Pai, nem quem
é
o Pai senão o Filho e aquele a
quem o Filho o quiser revelar»(75).
21. Aquilo que durante a teofania
do Jordão veio, por assim dizer, «do exterior», do Alto,
aqui
provém «do interior», isto é, do
mais íntimo do ser que é Jesus. É uma outra revelação do Pai e
do
Filho, unidos no Espírito Santo.
Jesus fala só da paternidade de Deus e da própria filiação; não
fala
directamente do Espírito que é
Amor e, por isso, união do Pai e do Filho. Não obstante, aquilo
que
ele diz do Pai e de Si-Filho brota
daquela plenitude do Espírito que está nele mesmo e se
derrama no seu coração, impregna o
seu próprio «Eu», inspira e vivifica, a partir da profundeza
do
que Ele é, a sua acção. Daqui esse
seu «exultar no Espírito Santo». A união de Cristo com o
Espírito
Santo, da qual Ele tem uma
consciência perfeita, exprime-se nessa «exultação», que
torna
«perceptível», de certa maneira, a
sua fonte recôndita. Dá-se assim uma especial manifestação
e
exaltação próprias do Filho do
Homem, de Cristo-Messias, cuja humanidade pertence à Pessoa
do
Filho de Deus, substancialmente
uno com o Espírito Santo na divindade.
Na magnífica confissão da
paternidade de Deus, Jesus de Nazaré manifesta-se também a si
mesmo,
o seu «Eu» divino: Ele é
efectivamente, o Filho «da mesma substância» (consubstancial); e,
por
isso, «ninguém conhece quem é o
Filho senão o Pai, nem quem é o Pai senão o Filho, aquele
Filho
que «por nós, homens, e para nossa
salvação» se fez homem, «por obra do Espírito Santo» e
nasceu de uma virgem, cujo nome
era Maria.
6. Cristo:Ressuscitado disse:
«Recebei o Espírito Santo»
22. É São Lucas que, graças à sua
narração, nos leva a aproximar-nos, o máximo que é possível,
da
verdade contida no discurso do
Cenáculo. Jesus de Nazaré, «elevado» no Espírito Santo, ao
longo
desse discurso e colóquio,
manifesta-se como Aquele que é «portador» do Espírito, como
Aquele
que o deve trazer e «dar» aos
Apóstolos e à Igreja à custa da sua «partida» mediante a
Cruz.
Com o verbo «trazer», aqui,
quere-se dizer, primeiro que tudo, «revelar». No Antigo
Testamento,
desde o Livro do Génesis, o
Espírito de Deus foi dado a conhecer, de alguma maneira, antes
de
mais como «sopro» de Deus que dá a
vida, como «um sopro vital» sobrenatural. No Livro de
Isaías é apresentado como um «dom»
para a pessoa do Messias, como Aquele que repousa sobre
ele, para ser, de dentro, o guia
de toda a sua actividade salvífica. Junto do Jordão, o anúncio
de
Isaías revestiu-se de uma forma
concreta: Jesus de Nazaré é aquele que vem com o Espírito
Santo
e o «traz» como dom peculiar da
sua própria Pessoa, para efundi-lo através da sua
humanidade:
«Ele vos baptizará no Espírito
Santo». (76) No Evangelho de São Lucas é confirmada e
enriquecida
esta revelação do Espírito Santo,
como fonte íntima da vida e da acção messiânica de Jesus
Cristo.
À luz daquilo que o mesmo Jesus
diz no discurso do Cenáculo, o Espírito Santo é revelado de
um
modo novo e mais amplo. Ele é não
só o dom à Pessoa (à Pessoa do Messias), mas é também uma
Pessoa-Dom! Jesus anuncia a sua
vinda como a de «um outro Consolador», o qual, sendo o
Espírito da verdade, guiará os
Apóstolos e a Igreja «a toda a verdade». (77) Isto realizar-se-á
em
virtude da particular comunhão
entre o Espírito Santo e Cristo: «há-de receber do que é meu
para
vo-lo anunciar». (78) Esta
comunhão tem a sua fonte primária no Pai: «Tudo quanto o Pai tem
é
meu; por isso eu vos disse que Ele
há-de receber do que é meu para vo-lo anunciar». (79)
Provindo
do Pai, o Espírito Santo é enviado
de junto do Pai. (80) O Espírito Santo foi enviado,
primeiro,
como dom para o Filho que se fez
homem, para se cumprirem as profecias messiânicas. Depois
da
«partida» de Cristo, do Filho,
segundo o texto joanino, o Espírito Santo «virá» directamente —
é
a sua nova missão — para consumar
a obra do Filho. Deste modo, será Ele quem levará à
realização plena a nova era da
história da salvação.
23. Encontramo-nos no limiar dos
acontecimentos pascais. Vai completar-se a nova e
definitiva
revelação do Espírito Santo como
Pessoa que é o Dom, precisamente neste momento. Os eventos
pascais — a paixão, a morte e a
ressurreição de Cristo — são também o tempo da nova vinda
do
Espírito Santo, como Paráclito e
Espírito da verdade. Eles constituem o tempo do «novo
princípio»
da comunicação de Si mesmo da
parte de Deus uno e trino à humanidade, no Espírito Santo
por
obra de Cristo Redentor. Este novo
princípio é a Redenção do mundo: «Com efeito, Deus amou de
tal modo o mundo que lhe deu o Seu
Filho unigénito». (81) Ao «dar» o Filho, no dom do Filho,
já
se exprime a essência mais
profunda de Deus, o qual, sendo Amor, é a fonte inexaurível da
dádiva.
No dom concedido pelo Filho
completam-se a revelação e a dádiva do Amor eterno: o
Espírito
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