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Após verificar que o Filho de Deus é verdadeiro
Deus com o Pai e o Espírito Santo, a atenção dos teólogos devia voltar-se mais
detidamente para a questão: como Jesus pode ser autêntico Deus e autêntico
homem? Como se relacionam entre si
a Divindade e a humanidade de Jesus? A resposta a estas perguntas exigiu grande
esforço por parte dos estudiosos, que a formularam em quatro etapas: 1) a fase
apolinarista; 2) a fase nestoriana; 3) a fase monofisita; 4) a fase
monotelita.
A seguir, estudaremos as três primeiras destas
etapas.
O
Apolinarismo
Em plena controvérsia ariana, o Bispo Apolinário de
Laodicéia (Síria), 310-390, mostrava-se fervoroso defensor do Credo niceno
contra os arianos, mas afirmava que em Cristo a natureza humana carecia de alma
humana; tomava ao pé da letra as palavras de S. João 1,14: *O Lógos se fez
carne*, entendendo carne no sentido estrito, com exclusão de alma. O Lógos de
Deus faria as vezes de alma humana em Jesus, isto é, seria responsável pelas
funções vitais da natureza humana assumida pelo Lógos. Os argumentos em favor
desta tese eram os seguintes: duas naturezas completas (Divindade e humanidade)
não podem tornar-se um ser único; se Jesus as tivesse, Ele teria duas pessoas ou
dois eu - o que seria monstruoso. Além disto, dizia, onde há um homem completo,
há também o pecado; ora o pecado tem origem na vontade; por conseguinte, Jesus
não podia ter vontade humana nem a alma espiritual, que é a sede da vontade.
Apolinário expôs suas idéias no livro *Encarnação do Verbo de Deus*, que ele
apresentou ao Imperador Joviano e que os seus discípulos difundiram. - Foram
condenadas num sínodo de Alexandria em 362; depois, pelo Papa S. Dâmaso em 377 e
382 e, especialmente, pelo Concílio de Constantinopla I (381). Verificando a
oposição que lhe faziam bons teólogos, Apolinário limitou-se a negar a presença
de mente (nous) humana em Jesus. S. Gregório de Nissa († 394) e outros autores
lhe responderam mediante belo princípio: *O que não foi assumido pelo Verbo, não
foi redimido* - o que quer dizer: Deus quer santificar e salvar a natureza
humana pelo próprio mistério da Encarnação ou pela união da Divindade com a
humanidade; se pois, a humanidade estava mutilada em Jesus, ela não foi
inteiramente salva. Em Antioquia, fundou-se uma comunidade apolinarista, tendo à
frente o Bispo Vital. Por volta de
420 esta foi reabsorvida pela Igreja ortodoxa, mas nem todos os seus membros
abandonaram o erro, que reviveu, de certo modo, na heresia monofisita. O
Nestorianismo. Afirmada a existência da natureza humana completa em Jesus, os
teólogos puderam estudar mais detidamente o modo como humanidade e Divindade se
relacionaram em Cristo. Antes, porém, de entrar em particulares, devemos
mencionar as duas principais escolas teológicas da antigüidade: a alexandrina e
a antioquena, que muito influíram na elaboração da Cristologia. A escola
alexandrina era herdeira de forte tendência mística; procurava exaltar o divino
e o transcendental nos artigos da fé. Interpretava a S. Escritura em sentido
alegórico, tentando desvendar os mistérios divinos contidos nas Sagradas Letras.
Em assuntos cristológicos, portanto, era inclinada a realçar o divino, com
detrimento do humano. Ao contrário, a escola antioquena era mais dada à
filosofia e à razão: voltava-se mais para o humano, sem negar o divino.
Interpretava a S. Escritura em sentido literal e tendia a salientar em Jesus os
predicados humanos mais do que os atributos divinos. Era mais racional, ao passo que a de
Alexandria era mais mística. Dito isto, voltemos à história do dogma
cristológico. A primeira tentativa de solução foi encabeçada por Nestório,
elevado à cátedra episcopal de Constantinopla em 428. Afirmava que o Lógos
habitava na humanidade de Jesus como um homem se acha num templo ou numa veste;
haveria duas pessoas, em Jesus - uma divina e outra humana - unidas entre si por
um vinculo afetivo ou moral. Por
conseguinte, Maria não seria a Mãe de Deus (Theotókos), como diziam os antigos,
mas apenas Mãe de Cristo (Christokós); ela teria gerado o homem Jesus, ao qual
se uniu a segunda pessoa da SS.
Trindade com a sua Divindade. Nestório propunha suas idéias em pregações
ao povo, nas quais substituía o título *Mãe de Deus* por *Mãe de Cristo* As suas
concepções suscitaram reação não só em Constantinopla, mas em outras regiões
também, especialmente em Alexandria, onde S. Cirilo era Bispo ardoroso. Este
escreveu em 429 aos bispos e aos monges do Egito, condenando a doutrina de
Nestório. As duas correntes se dirigiram ao Papa Celestino I, que rejeitou a
doutrina de Nestório num sínodo de 430. Deu ordem a S. Cirilo para que intimasse
Nestório a retirar suas teorias no prazo de dez dias, sob pena de exílio; Cirilo
enviou ao Patriarca de Constantinopla uma lista de doze anatematismos que
condenavam o nestorianismo. Nestório não se quis dobrar, de mais a mais que
podia contar com o apoio do Imperador; além do mais, tinha muitos seguidores na
escola antioquena, entre os quais o próprio Bispo João de Antioquia. Em 431, o
Imperador Teodósio II, instado por Nestório, convocou para Éfeso o terceiro
Concílio Ecumênico a fim de solucionar a questão discutida. S. Cirilo, como
representante do Papa Celestino I, abriu a assembléia diante de 153 Bispos. Logo na primeira sessão, foram
apresentados os argumentos da literatura antiga favoráveis ao título Theotókos,
que acabou sendo solenemente proclamado; daí se seguia que em Jesus havia uma só
pessoa (a Divina); Maria se tornara Mãe de Deus pelo fato de que Deus quisera
assumir a natureza humana no seu seio. Quatro dias após esta sessão, isto é, a
26/06/431 chegou a Éfeso o Patriarca Jogo de Antioquia, com 43 Bispos seus
seguidores, todos favoráveis a Nestório; não quiseram unir-se ao Concílio
presidido por S. Cirilo, representante do Papa; por isto formaram um
conciliábulo, qual depôs Cirilo. O Imperador acompanhava tudo de perto e
sentia-se indeciso. S. Cirilo então
mobilizou todos os seus recursos, para mover Teodósio II em favor da reta
doutrina; nisto foi ajudado por Pulquéria, piedosa e influente irmã mais velha
do Imperador. Este finalmente
apoiou a sentença de Cirilo e exilou Nestório. Todavia os antioquenos não se
renderam de imediato; acusavam Cirilo de arianismo a apolinarismo. Após dois anos de litígio, em 433
puseram-se de acordo sobre uma fórmula de fé que. professava um só Cristo e
Maria como Theotókos. O Nestorianismo, porém, não se extinguiu. Os seus adeptos,
expulsos do Império Bizantino, foram procurar refúgio na Pérsia, onde fundaram a
Igreja Nestoriana. Esta teve
notável expansão até a China e a Índia Meridional; mas do século XIV em diante
foi definhando por causa das incursões dos mongóis; em grande parte, os
nestorianos voltaram à comunhão da Igreja universal (são hoje os cristãos
caldeus e os cristãos de São Tomé). Em nossos dias muitos estudiosos têm
procurado reabilitar a pessoa e a obra de Nestório, que parece ser autor de uma
apologia intitulada *Tratado de Heraclides de Damasco*: pode-se crer que tenha tido reta intenção ; mas
certamente sustentou posições
errôneas por se ter apegado demasiadamente à Escola Antioquena. O
Monofisismo A luta contra o Nestorianismo, que admitia em Jesus duas naturezas e
duas pessoas, deu ocasião ao surto do extremo oposto, que é o monofisismo ou
monofisitismo (*em Jesus há uma só natureza e uma só pessoa: a divina*). O
primeiro arauto desta tese foi Eutiques, arquimandrita de Constantinopla:
reconhecia que Jesus constava originariamente da natureza divina e da humana,
mas afirmava que a natureza divina absorveu a humana, divinizando-a; após a
Encarnação, só se poderia falar de uma natureza em Jesus: a divina. Esta
doutrina tornou-se a heresia mais popular e mais poderosa da antigüidade, pois,
para os orientais, a divinização da humanidade em Cristo era o modelo do que
deve acontecer com cada cristão. Eutiques foi condenado como herege no Sínodo de
Constantinopla em 448, sob o Patriarca Flaviano. Todavia não cedeu e reclamou
contra uma pretensa injustiça, pois tencionava combater o Nestorianismo. Conseguiu assim ganhar os favores da
corte. Solicitado pelo Patriarca Dióscoro de Alexandria, Teodósio II Imperador
convocou em 449 novo Concílio Ecumênico para Éfeso, confiando a presidência do
mesmo a Dióscoro, que era partidário de Estiques. Dióscoro, tendo aberto o Concílio negou
a presidência aos legados papais; não permitiu que fosse lida a Carta do Papa S.
Leão Magno, que propunha a reta doutrina: as duas naturezas em Cristo não se
misturam nem confundem, mas cada qual exerce a sua atividade própria em comunhão
com a outra; assim Cristo teve realmente fome, sede e cansaço, como homem, e
pôde ressuscitar mortos como Deus. - Esse Concílio de Éfeso proclamou a
ortodoxia de Eutiques; depôs Flaviano, Patriarca de Constantinopla, e outros
Bispos contrários à tese monofisita... Todavia os seus decretos foram de curta
duração. Os Bispos de diversas
regiões o repudiaram como ilegítimo ou, segundo a expressão do Papa São Leão
Magno, como *latrocínio de Éfeso*; pediam novo Concílio que de fato foi
convocado após a morte de Teodósio II pela Imperatriz Pulquéria (irmã de
Teodósio) e pelo general Marcião, que em 450 foi feito Imperador e se casou com
Pulquéria. O novo Concílio, desta vez legítimo, reuniu-se em Caledônia, diante
de Constantinopla, em 451; foi o mais concorrido da antigüidade, pois dele
participaram mais de 600 membros, entre os quais três legados papais. A assembléia rejeitou o *latrocínio de
Éfeso*; depôs Dióscoro e aclamou solenemente a Epístola Dogmática do Papa São
Leão a Flaviano; esta serviu de base a uma confissão de fé, que rejeitava os
extremos do Nestorianismo e do Monofisismo, propondo em Cristo uma só pessoa e
duas naturezas: *Ensinamos e professamos um Único e idêntico Cristo... em duas
naturezas, não confusas e não transformadas, não divididas, não separadas, pois
a união das naturezas não suprimiu as diferenças; antes, cada uma das naturezas
conservou as suas propriedades e se uniu com a outra numa Única pessoa e numa
Única hipóstase*. Assim terminou a fase principal das disputas cristológicas: em
Cristo não há duas naturezas e duas pessoas, pois isto destruiria a realidade da
Encarnação e da obra redentora de Cristo; mas também não há uma só natureza e
uma só pessoa, pois Cristo agiu como verdadeiro homem, sujeito à dor e à morte
para transfigurar estas nossas realidades.
Havia, pois, uma só pessoa (um só eu) divina, que, além de dispor da
natureza divina desde toda a eternidade, assumiu a natureza humana no seio de
Maria Virgem e viveu na terra agindo ora como Deus, ora como homem, mas sempre e
somente com o seu eu divino. O encerramento do Concílio de Calcedônia não
significou a extinção do monofisismo. Além da atração que esta doutrina exercia
sobre os fiéis (especialmente os monges), propondo-lhes a humanidade divinizada
de Cristo como modelo, motivos políticos explicam essa persistência da heresia;
com efeito, na Síria e no Egito certos cristãos viam no Monofisismo a expressão
de suas tendências nacionalistas, opostas ao helenismo e à dominação bizantina.
Por isto os monofisitas continuaram a lutar contra o Imperador, que havia
exilado Dióscoro e Eutiques e ameaçado de punição os adeptos destes: ocuparam
sedes episcopais; inclusive a de Jerusalém (ao menos temporariamente). No século VII a situação se agravou,
pois os muçulmanos ocuparam a Palestina, a Síria e o Egito, impedindo a ação de
Bizâncio em prol da ortodoxia nesses países. Em conseqüência, os monofisitas foram
constituindo Igrejas nacionais: a armena, a síria, a mesopotâmica, a egípcia e a
etíope, que subsistem até hoje com cerca de 10 milhões de fiéis. No Egito, os
monofisitas tomaram o nome de coptas, nome que guarda as três consoantes da
palavra grega Aigyptos (g ou k, p, t ); são os antigos egípcios. Os ortodoxos se
chamam melquitas (de melek, Imperador), pois guardam a doutrina ortodoxa
patrocinada pelo Imperador em Calcedônia. Há coptas que se uniram a Roma em
1742, enquanto os outros permanecem monofisitas, mas professam quase o mesmo
Credo que os católicos. Na
Abissínia os monofisitas também são chamados coptas pois receberam forte
influência do Egito. - Dentre os melquitas, grande parte aderiu ao cisma
bizantino, separando-se de Roma em 1054; certos grupos, porém, estão hoje unidos
à Igreja universal; ver capítulo 21. Na Síria e nos países vizinhos, os
monofisitas foram chamados jacobitas, nome derivado de um dos seus primeiros
chefes: Jacó Baradai (= o homem da coberta de cavalo, alusão às suas vestes
maltrapilhas). Jacó, bispo de Edessa (541-578), trabalhou com zelo e êxito para
consolidar as Comunidades monofisitas, As quais deu por cabeça o Patriarca
Sérgio de Antioquia (544). A história das disputas cristológicas prosseguirá no capítulo
seguinte.
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