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Não se deixar levar pela aparente eloquência PDF Imprimir E-mail
Escrito por Dom Eugênio   
03-Dez-2002

1-O parecer de um leigo ilustre em outros campos, mas ignorante em religião, deve ser reduzido aos limites de seu conhecimento real.

"Uma característica da civilização em nossos dias é a fantástica possibilidade de uma rápida comunicação. Um fato ocorrido aqui, ao ser divulgado, torna-se conhecido nos confins da terra. Com a palavra é transmitida a imagem e "a cores".

A Igreja está inserida nesse contexto e deve tomá-lo na devida consideração, para poder cumprir sua missão, confiada pelo Fundador. Não somente obedecer ao "Ide e pregai o Evangelho nos confins do mundo" (Mt 28,19), mas também enfrentar graves problemas decorrentes desse extraordinário progresso. Desejo enumerar alguns dados, para chegar a uma conclusão: faz-se mister aos fiéis um acurado senso de discernimento, aliado a um profundo espírito crítico, que distinga sem delongas a realidade objetiva do que é fruto de uma visão subjetiva ou perspectiva ideológica. Caso contrário, o rebanho fica à mercê de graves perigos para a vida cristã. Qualquer ocorrência que desperte interesse na opinião pública é imediatamente submetida a uma pesquisa, em busca do parecer da população. No dia seguinte, o fato volta à publicidade, com a nota favorável ou condenatória. Ora, verdade jamais pode ser o resultado da soma das respostas dos votantes.

Há inúmeras modalidades de propalar sombras, utilizadas por um sempre presente espírito anti-clerical. Entre outras, difundir o parecer de pessoas eruditas em determinado assunto, com acesso aos meios de comunicação social, ou influentes no ambiente intelectual, por sua cultura, mas de total ignorância no campo religioso ou católico. Ao se manifestarem sobre um tema decorrente da estrutura da Igreja, facilmente promovem, mesmo involuntariamente, repercussões negativas em quem não esteja devidamente preparado. O parecer de um leigo ilustre em outros campos, mas ignorante em religião, deve ser reduzido aos limites de seu conhecimento real. O título dado a uma matéria, nem sempre corresponde ao conteúdo. E na pressa, tão comum, em nossos dias, às vezes somente eles são lidos.


2-Há também os que se afirmam católicos, sem o serem. E induzem a falsas conclusões

Há também os que se afirmam católicos, sem o serem. E induzem a falsas conclusões. Alguém pode se declarar, por exemplo, "teólogo", apesar de não estar de acordo com a doutrina ou procurar destruí-la. Recentemente, um semanário, nos Estados Unidos, "National Catholic Reporter" – ali o nome "Católico" é usado abusivamente – divulgou amplamente, de maneira sensacionalista, dolorosa matéria sexual, de desvios imputados a eclesiásticos. Logo de início, atribui a causa ao celibato, que deveria ser optativo. Ora, a 6 de abril último, recebi de uma outra agência séria, o artigo "Crise de pastores evangélicos confirma: a crise se deve a múltiplos fatores". No ano passado, mil e quinhentos pastores evangélicos em serviço teriam abandonado seu ministério. As estatísticas se referem a uma das dez maiores denominações protestantes, nos Estados Unidos. No entanto, os pastores protestantes podem casar-se e uma grande parte deles contrai matrimônio. A causa, então, não é o celibato. São variados, diversos os fatores da crise.

Poderia multiplicar "ad nauseam" os exemplos, para corroborar a importância do discernimento frente às notícias, verdadeiras ou falsas, tendenciosas ou fruto de posições ideológicas. Incluirei falta de sensibilidade com o próximo, ao utilizar termos grosseiros e hipóteses enlouquecidas ao se referirem a Deus, ao sagrado e a tudo o que é caro aos ouvintes e leitores.


3-Os fiéis devem ser preparados para enfrentar a turbulência nos formadores da opinião pública em matéria religiosa.

Os fiéis devem ser preparados para enfrentar a turbulência nos formadores da opinião pública em matéria religiosa. Assim, devemos ter uma consciência clara da natureza da obra de Cristo. Ele poderia ter confiado aos anjos a propagação de seu Evangelho. Não o fez. Entregou a santidade do seu Corpo Místico a pessoas pecadoras, embora comprometidas com a santidade de vida. Em dois milênios, em todo o longo percurso, sempre tem-se feito presente, pelo pecado, a fraqueza humana. Através de brumas, sem exceção, brilha a luz do Sol, que é Cristo. Isso não justifica as falhas, mas serve para conservar a certeza que nos vem da Palavra do Mestre: "As portas do inferno não prevalecerão" (Mt 16,18).

Ultimamente foram largamente propagados graves delitos de ordem sexual entre sacerdotes e religiosas. O que era contra a Igreja ganhou generosas manchetes no mundo inteiro. A verdade, dentro de sua perspectiva global, permaneceu na penumbra, não resultando, assim, uma visão objetiva.

Aproveito o caso para insistir na necessidade de haver espírito crítico, para não ser joguete nas mãos dos opositores da Igreja. Comparemos as informações que se seguem com as afirmações negativas sobre a Igreja Católica. No dia 9 de abril último, por motivo da apresentação do Anuário da Igreja Católica, ano 2001, foi divulgado existirem no mundo 405.009 sacerdotes, dos quais 265.012 são diocesanos; 26.629 diáconos permanentes; 55.428 religiosos não-sacerdotes; 809.351 religiosas professas; 31.049 membros dos institutos seculares; 80.662 missionários leigos e 2.449.659 catequistas. Diante das cifras de sacerdotes e freiras que prevaricaram, embora sejam uma ínfima minoria, fora de seu contexto, é esta a que aparece. Injusto é lançar indistintamente sobre os sacerdotes e religiosas, a fraqueza e a maldade de uma parcela infiel que, aliás, não permaneceu impune. Esta mesma Igreja que é constantemente alvo de ataques, revela sua vitalidade ao apresentar, somente no último ano, as seguintes cifras: o número de 1.022.000.000 de fiéis cresceu para 1.038.000.000. Para ela foram nomeados 222 novos Bispos em todo o orbe. O total ascende a 4.432.

As considerações que indico nos devem levar a fortalecer o discernimento nas notícias que nos chegam. Recebê-las com espírito crítico. Ter a humildade de reconhecer falhas, apesar da graça que Deus põe à nossa disposição. Lutar sempre pelo crescimento da santidade de vida e confiar ilimitadamente na Providência divina."

Fonte: Arquidiocese do RJ

 
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