A Beatificação é a declaração, feita pelo papa, da vida virtuosa ou da morte heróica pelo martírio, de alguma pessoa que pode ser considerada como Bem-aventurada, isto é, já vive a plenitude do céu.
E isto permite que seja venerada, não em toda a Igreja, mas nos lugares em que viveu ou na Ordem religiosa que fundou.
A Beatificação é, formalmente, a fase final de uma causa em que alguém está a caminho da Canonização final.
A declaração do papa é a confirmação de que a causa pode prosseguir, e, desde logo se fixam as datas para a cerimónia em S. Pedro do Vaticano, que consta da leitura do decreto da Beatificação, e é apresentada a pintura ou fotografia do Bem-aventurado, acima da cadeira de S. Pedro e cantado o Te Deum para a celebração do novo Beatificado.
Por qualquer razão que o papa escolhe e determina, a Beatificação pode ser celebrada noutro lugar, como foi a da Jacinta e do Francisco, que foram celebradas na Basílica de Fátima no dia 13 de Maio do Ano 2000.
A Canonização, Literalmente, é a inscrição de mais um santo no Cânon dos santos, na Lista de todos os outros que já foram antes Canonizados.
Desde os primeiros séculos da nossa era cristã, o Povo de Deus mostrou sempre a sua grande devoção e respeito pelos mártires.
Honravam-nos como heróis que tinham voluntariamente sofrido a morte ao invés de negar a sua fé em Cristo.
A coragem dos mártires inspirou os Cristãos a procurarem e guardarem as suas relíquias, a construírem altares nos seus túmulos, sobre os quais era celebrada a Santa Missa.
As orações dirigidas aos mártires, eram no sentido de que os mesmos fossem seus intercessores favoritos junto de Deus e obterem deles os seus favores na terra.
Não houve a ideia de fazer dos mártires, deuses.
Os Cristãos simplesmente lhes atribuíam honras, porque eles já tinham atingido o seu ideal: a união com o Salvador no Seu Reino.
Às vezes chamavam-lhes confessores, de harmonia com as palavras de Jesus:
- Todo aquele que Me Confessar diante dos homens, também Eu o Confessarei diante de Meu Pai. (Lc. 12:8).
Os Cristãos não tinham dúvida de que o Salvador havia de guardar a Sua palavra: Confessando os gloriosos mártires diante de Seu Pai no céu.
Desde o século II os Cristãos começaram a celebrar o aniversário da morte dos mártires como um dia de festa.
S. Policarpo recebeu o martírio pela fé em Smirna, na Ásia Menor, no ano 155.
A Igreja local escreveu uma carta circular às Igrejas vizinhas, para lhes dizer:
"Finalmente já temos as suas relíquias, os ossos, que nos são tão queridos como pedras preciosas e tão valiosos como o oiro ; deixemo-lo descansar aqui onde ele morreu. E se é possível reunirmo-nos de novo, que Deus nos permita celebrar o seu nascimento pelo martírio com alegria, para lembrar a memória daqueles que combateram o bom combate, e ensinar e fortalecer pelo seu exemplo aqueles que hão-de vir depois de nós".
Pelo fim do século III o costume de celebrar a festa do dia aniversário dos mártires, entrou em vigor em toda a Igreja, que cada comunidade celebrava como os seus heróis.
À medida que o tempo foi correndo os mártires mais reconhecidos e mais venerados, ganharam maior fama de santidade e as suas festas tornaram-se universais.
Como exemplos, podemos apontar S. Policarpo, S. Lourenço de Roma e S. Cipriano de Cartago.
Cartas circulares como a de Smirna, espalharam a fama dos mártires.
Estas cartas, às vezes apontavam os actos dos mártires (o seu heroísmo, os seus sofrimentos e os seus milagres).
E em algumas Igrejas estas cartas eram lidas publicamente nos dias da festa.
Tudo isto era uma expressão da fé e do entusiasmo popular.
Por essa razão as autoridades da Igreja tinham em conta estas atitudes para as conduzirem pelo seu reto caminho.
Os bispos não queriam que o culto se desenvolvesse até que não houvesse a certeza de que alguém tivesse sido martirizado, porque nem toda a morte violenta de um Cristão era considerada necessariamente como um martírio.
Pelo século IV começou a desenvolver-se uma nova forma de culto por determinadas pessoas consideradas heróis da fé cristã.
Tinha acabado a perseguição intensa depois da conversão de Constantino e os Cristãos começaram a dar-se conta de que não era essencial o martírio para que alguém confessasse Cristo diante dos homens.
Os eremitas do deserto levavam uma vida que era uma espécie de martírio diário, como testemunho da sua fé, e alguns bispos e monges, e até mesmo leigos, se tornaram bem conhecidos pela sua prática heróica da fé.
Gradualmente o título de "confessores" começou a ser aplicado a pessoas de virtude que confessavam a Cristo, não morrendo por Ele, mas vivendo por Ele.
Os eremitas Paulo e Antão ganharam a admiração e a veneração do povo.
Atanásio, pelo seu sofrimento no exílio, mostrou a coragem de um mártir.
S. Martinho de Tours tornou-se um herói fabuloso.
O aniversário das suas mortes tornou-se um dia festivo.
A partir do século XI, os papas notaram que havia alguns abusos. Pessoas piedosas eram por vezes imprudentes no seu entusiasmo, encontrando virtudes que, na verdade não existiam, e histórias de milagres que se não podia comprovar.
E os bispos eram ocasionalmente negligentes em fazer cuidadosos estudos, antes de permitirem que se desenvolvessem tais piedosas devoções.
Três diferentes papas se empenharam em grandes cuidados e recomendaram que as decisões referentes à santidade de alguma pessoa fossem reservadas aos concílios e, especialmente, aos concílios gerais.
O papa Alexandre III (1159-1181), em 1170, declarou definitivamente que a proclamação da santidade de um servo de Deus era reservada à Santa Sé, e ele mesmo fez uso do seu poder papal para canonizar o rei Eduardo, como confessor, Tomás de Canterbury e Bernardo de Claraval.
Embora esta declaração de Alexandre III fosse reafirmada alguns anos depois por Inocêncio III (1198-1216), todavia a prática de alguns bispos individualmente aprovarem o culto de santos locais, das suas dioceses, não desapareceu facilmente.
E foi só em 1624 e 1634 que o papa Urbano VIII (1623-1644), estabeleceu as regras de beatificação, que ficaram vigentes até ao dia 25 de Janeiro de 1983 em que João Paulo II promulgou a nova legislação sobre o modo de proceder nas causas de canonização dos santos com a Constituição Apostólica «Divinus Perfectionis Magister», em que se fizeram algumas simplificações .
Entrou em vigor no mesmo dia da promulgação.
A regulamentação desta Constituição esteve a cargo da Congregação para a Causa dos Santos.
Este dicastério da Cúria Romana é o Organismo competente para tratar do que diz respeito à Canonização dos Servos de Deus, e ainda auxiliar os Bispos com o seu conselho e as suas indicações na instituição das Causas.
O Processo para uma Beatificação e Canonização tem uma primeira etapa na Diocese em que faleceu o Servo de Deus, onde constata que o candidato tem fama de santidade, praticou as virtudes cristãs e tem já uma devoção popular.
A segunda etapa tem lugar em Roma, onde se examina toda a documentação enviada pelo Bispo diocesano.
Depois da sua morte, o Bispo do lugar faz o pedido, subscrito por outros Bispos da região, que é levado ao Vaticano.
São ouvidas as testemunhas que possam esclarecer as virtudes, as graças alcançadas e a fama de santidade.
Nomeada uma comissão histórica de três pessoas, é avaliada toda a documentação existente, escrita em três cópias, das quais a cópia original fica na Diocese e as outras duas vão para o Vaticano.
No Vaticano, a Congregação para a Causa dos Santos dá o seu parecer, abrindo-se então o Processo, e institui o tribunal, que passa a conduzir o assunto, sendo para isso nomeado um Postulador e um Vice-Postulador.
É necessário confirmar inclusive a real existência do candidato, por conta disso sempre é solicitada a exumação do corpo, de forma a comprovar de forma irrepreensível que o mesmo tenha realmente existido.
Começa então a fase do «Sumarium», (Resumo em que há apenas dois articulados, libelo e contrariedade), a biografia, a prova das virtudes e a fama de santidade.
Cinco consultores históricos estudam e dão o seu parecer por escrito que é enviado aos dez Consultores Teológicos.
Se tudo for aprovado, o candidato passa a ser chamado «Venerável».
Depois disto inicia-se o Processo do Milagre, escolhendo-se o que tenha melhor fundamentação teológica e científica.
Até 25 de Janeiro de 1983 eram precisos dois Milagres para a Beatificação e mais dois para a Canonização, mas presentemente só é exigido um para cada uma. Essa medida visa tão simplesmente diminuir o já burocrático processo de canonização, que pode durar séculos. O processo de beatificação de José de Anchieta demorou exatos 378 anos até que o mesmo recebesse a honra da beatificação.
Para a análise do milagre, é escolhida uma comissão de peritos em medicina. O processo é sigiloso, um perito não sabe do parecer do outro e sequer sabe quem são os demais peritos. Considera-se milagre a graça que seja instantânea, perfeita, duradoura e para a qual não haja explicação científica.
Feitos os respetivos exames e diagnósticos médicos, são apresentados os relatórios aos Cardeais e Bispos para ser elaborado o Decreto do Milagre que deve ser aprovado pelo Papa.
Se o papa concorda, primeiro a beatificação solene é feita normalmente na basílica de S. Pedro, mas o papa pode determinar que seja feita noutro qualquer lugar.
Isso significa que o papa, sob a inspiração do Espírito Santo, encontrou razão para que aquela pessoa seja honrada e venerada como santa.
Todavia a sua veneração pública formal é restrita a certos lugares ou certas ordens religiosas.
Então a Igreja espera por melhores testemunhos de Deus.
A posterior Canonização, considera-se assim como a declaração da Suprema Autoridade da Igreja de que Deus concedeu o Céu ao Seu servo, pela sua vida de virtude heróica na terra, e o honra dignamente como um predileto amigo de Deus e a sua intercessão por nós, nos pode ajudar aqui na terra.
Por outras palavras, está perfeitamente certo que nós podemos imitar os primeiros Cristãos na sua devoção pelos mártires e confessores da fé.
Os processos de Beatificação e de Canonização são conduzido pela Congregação para a Causa dos Santos, mas a declaração da Canonização é feita apenas pelo Sumo Pontífice, que atua e é protegido, sob a sua prerrogativa de Infalibilidade.
O papa pode dispensar algumas formalidades usuais da Canonização, mas só ele a pode declarar.
S. Ulrich de Augsburgo foi o primeiro santo canonizado formalmente pelo papa João XV (985-993), em 996.
A Canonização dá ao novo santo as sete honras que se seguem por esta ordem :
1)- Inscrição oficial do seu nome no cânone ou Lista dos Santos e o direito a receber veneração pública.
2)- Invocação com orações públicas da Igreja.
3)- Dedicação de Igrejas em sua memória.
4)- Celebração da Missa e do ofício dos santos.
5)- Fixação do dia da sua festa no Ano Litúrgico.
6)- Representação da sua pessoa em fotografia, pintura ou estátua de um modo apropriado à sua vida ou morte.
7)- Veneração pública das suas relíquias.