Outubro é o mês em que mais nos devotamos à missionariedade da Igreja e mais pensamos em nossos bons e santos missionários e missionárias. Contudo, pensar em Missão, em sentido concreto, não nos coloca num anacronismo ou sob a falsa acusação de proselitismo?
Missão: não é algo do passado? Poderia, fazer esta interrogação. Não obstante, a Missão é presente e futuro... A Igreja é de per si missionária: esta é a sua identidade. Por isso, a Missão, no impulso do Espírito Santo, é sonho e realidade...
Sonho, porque é Ele que motiva, inspira, lança à realidade. O sonho dá sentido à vida. Qualquer adolescente ou jovem, ao descobrir-se amado por Deus e escolhido para anunciar e viver Jesus, como missionário, inevitavelmente, mergulha no mundo da esperança, torna-se criança, planeja e arquiteta como mestre, sonha, sonha, sonha... Um sonho-realidade, sonho-entusiasmo, sonho-compromisso, um sonho que passa a ser ideal.
Vê-se, como São Francisco de Assis, a sustentar as colunas da Igreja em perigo de ruir, ouve a voz de Cristo: “Salva a minha Igreja”. Contempla paisagens fantásticas em que desfilam índios, africanos, asiáticos, grandes rios, pirogas, bichos selvagens ou deuses estranhos. Por vezes, até, parece-lhe estar no centro do areópago do mundo a anunciar o “Deus desconhecido”, tal como aconteceu com São Paulo, em Atenas. Sonha, com coragem e despojamento. Sonha, quem sabe, com a aura do martírio, com a graça de testemunhar, sem medo e sempre, o Cristo vivo e ressuscitado, Senhor e Salvador, que veio ao mundo para que todos tivessem vida em plenitude. Seguir os passos do Cordeiro imolado.
Não é um sonho ingênuo, desprovido de realidade. Não é uma quimera. É o desejo de construir, de modo diferente, ousado, convicto, um novo modo de ser, de viver, de relacionar-se, de mudar as sombras da história em luz. Ao defrontar-se, contudo, bem mais tarde, com o realismo da missão, já inserido no trabalho apostólico, descobre que a realidade exige renúncia, sacrifício, discernimento, fé. A encarnação, em determinada cultura, situação, povo, território, traz, inerente a si, muitas dificuldades, renúncia de si mesmo.
Dificuldades concretas de inculturação (elementos estranhos quase inassimiláveis). Desconfiança ou, até, rejeição dos destinatários da missão: nacionalismos locais exacerbados, espírito tribal acirrado, guerras civis. O missionário encontra-se deslocado como equilibrista, acrobata em meio a tudo isto. Surgem os problemas de adaptação local: clima, alimentação, doenças típicas dos territórios de missão. Dificuldades de língua e linguagem. Saudade da “pátria distante”, dos colegas, familiares e amigos. Sente a falta de preparo.
Distante, parece que o sonho torna-se pesadelo. Mas, não é verdade. Diante de tudo isso, o verdadeiro caráter missionário firma-se na fé, na esperança de superar quaisquer obstáculos para chegar a efetivar a caridade pastoral. O sonho – enquanto graça, inspiração divina, força do amor – torna-se elemento fulcral no ser e no agir do missionário, imagem de Deus no mundo. O sonho torna-se realidade a ser perseguida, construída, edificada a cada passo. É ponto referencial.
O mandato de Cristo soa claro: “Ide, anunciai o Evangelho a toda a criatura”; “Eu vos envio como o Pai me enviou”; “Estarei convosco”. O missionário sabe que é instrumento da graça. É o Espírito Santo a força vivificadora da Igreja e do Mundo. Somente no Espírito Santo, tornamo-nos missionários. Por isso, o apostolado missionário nasce do Batismo, da identificação com Cristo, da missão profética da Igreja, do próprio amor a Cristo e à Igreja. O modelo dos grandes missionários – poderíamos citar muitos -, seus sonhos, seu testemunho, sua missão, ainda hoje, nos inspiram, fascinam e encorajam. Sabemos que o próprio Cristo fez de sua vida pública uma grande e sublime missão. Sua Palavra divina e humana ecoava pelas colinas, nas praias de Genezaré, nas Sinagogas, nas caminhadas intermináveis, nas praças das cidades... Ele foi e é o espelho perfeito do missionário.
Assistido por Maria, a Estrela da Evangelização, temos a certeza de que levaremos a todos a Boa-Nova da Salvação, a libertação, a vida.
Sonhe com as missões! Seja missionário, missionária! Deixe a graça do Batismo e o chamado de Jesus ecoar forte no seu coração! A Igreja e o Mundo precisam de você.
Nós precisamos de seu sonho, entusiasmo e amor!
“Avance, sem medo, para as águas mais profundas”!
Muitos outros o seguirão...
Dom Eusébio OscarScheid
Arcebispo da Arquidiocese do Rio de Janeiro