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Escrita no ano 367 dC, por ocasião da Festa da Páscoa, esta epístola
relaciona os livros aceitos como canônicos pelos cristãos. De suma importância é
o parágrafo 7, onde Atanásio lista os livros que hoje conhecemos como
"deuterocanônicos do Antigo Testamento" (normalmente rejeitados pelos
protestantes), deixando de lado apenas os livros dos Macabeus; porém, até então,
a Igreja cristã ainda não havia estabelecido o cânon bíblico, tarefa que seria
realizada um pouco mais tarde em 393 e 397, pelos concílios regionais de Hipona
e Cartago, e pelo papa Inocêncio I, em 405, ao dirigir-se ao bispo de Tolosa.
1. [Alguns hereges gnósticos] escreveram livros que chamam livros
de mesa, que marcaram com estrelas, às quais deram os nomes dos Santos. Esses
que escreveram tais livros em meio à verdade, atraíram sobre si uma reprovação
dupla, porque se esmeraram numa ciência mentirosa e desprezível e desviaram, com
ídéias maldosas, os ignorantes e os simples, da fé correta e estabelecida na
verdade íntegra, sob a presença de Deus.
2. Já
que os citamos como heréticos e assassinos, sendo nós os possuidores das Divinas
Escrituras para a salvação, e já que temos, como Paulo escreveu aos Coríntios,
que algumas poucas pessoas simples podem ser desviadas da simplicidade e pureza,
pela astúcia de certas pessoas, e podem, no futuro, ler outros livros que são
chamados apócrifos, iludidos pela semelhança de seus nomes com os dos livros
verdadeiros, venho pedir-lhes que tenham paciência se eu também vos escrevo com
intuito de lembrar-lhes assuntos com os quais estais familiarizados, levado pela
necessidade e para o bem da Igreja.
3.
Fazendo menção desse assunto, adoto para fundamentar meu propósito, a norma de
Lucas Evangelista, dizendo por mim mesmo: Doravante como alguns têm o propósito
de assumirem entre eles os livros chamados apócrifos, e misturá-los com a
Escritura divinamente inspirada, sobre a qual fomos convictamente instruídos,
como aqueles que "desde o início foram testemunhas oculares e ministros da
Palavra, transmitida a nossos Pais, pareceu-me oportuno a mim também",
impelido por irmãos verdadeiros e tendo a orientação dos primórdios, firmar para
vós os livros incluídos no Cânon, transmitidos e confirmados como divinos, com o
propósito de que, se alguém cair em erro possa acusar aqueles que o desviaram, e
para que aqueles que continuam firmes na verdade possam de novo se alegrarem ao
lhes serem tais fundamentos relembrados.
4. Há,
portanto, 22 Livros do Antigo Testamento, número que, pelo que ouvi, nos foram
transmitidos, sendo este o número citado nas cartas entre os Hebreus, sendo sua
ordem e nomes respectivamente, como se segue: Primeiro, o Gênesis. Depois, o
Êxodo. Depois, o Levítico. Em seguida, Números e, por fim, o Deuteronômio. Após
esses, Josué, o filho de Nun. Depois, os Juízes e Rute. Em seguida, os quatro
Livros dos Reis, sendo o primeiro e o segundo listados como um livro, o terceiro
e o quarto também, como um só livro. Em seguida, o primeiro e o segundo Livros
das Crônicas, listados como um só livro. Depois, Esdras, sendo o primeiro e o
segundo igualmente listados num só livro. Depois desses, há o Livro dos Salmos,
os Provérbios, o Eclesiastes e o Cântico dos Cânticos. O Livro de Jó. Os doze
Profetas são listados como um livro. Depois Isaías, um livro. Depois, Jeremias
com Baruc, Lamentações e a Carta [de Jeremias], num só livro. Ezequiel e Daniel,
um livro cada. Assim se constitui o Antigo Testamento.
5. Não é
tedioso repetir os [livros] do Novo Testamento. São os quatro Evangelhos,
segundo Mateus, Marcos, Lucas e João. Em seguida, o Atos dos Apóstolos e as sete
Epístolas [chamadas "católicas"], ou seja: de Tiago, uma; de Pedro, duas; de
João, três; de Judas, uma. Em adição, vêm as 14 Cartas de Paulo, escritas nessa
ordem: a primeira, aos Romanos, as duas aos Coríntios, uma aos Gálatas, uma aos
Efésios, uma aos Filipenses, uma aos Colossenses, duas aos Tessalonicenses, uma
aos Hebreus, duas a Timóteo, uma a Tito e, por último, uma a Filemon. Além
disso, o Livro da Revelação de João.
6. Há
fontes da salvação em que aqueles que têm sede podem saciar-se com as palavras
vivas que contêm. Somente nelas está proclamada a doutrina divina. Que nenhum
homem acrescente nada a elas, nem delas se apossem. Com respeito a isso, o
Senhor envergonhou os Saduceus, dizendo: "Eles erram porque não conhecem a
Escritura". Também reprovou os Judeus, dizendo: "Vejam as Escrituras
porque elas são que dão testemunho de Mim".
7. Mas,
para uma maior exatidão, acrescento também, escrevendo para não me omitir, que
há outros livros, além desses, de fato incluídos no Cânon, indicados pelos
Padres para leitura por aqueles recém-admitidos entre nós e que desejam receber
instrução sobre a Palavra de Deus: a Sabedoria de Salomão, a Sabedoria de Sirac,
Ester e Judite, Tobias, bem como aqueles chamados Ensinamento dos Apóstolos e o
Pastor. Quanto aos primeiros, meus irmãos, foram incluídos no Cânon; mas os
últimos são [apenas] para leitura, não havendo em lugar nenhum menção a eles
como sendo escritos apócrifos. Mas aqueles que são criação de heréticos, que os
escreveram quando quiseram, aprovando-os eles próprios, datando-os de modo a
usarem-nos como escrituras antigas, aqueles sim, se encontram em condições de
desviarem as pessoas simples.
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