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Há
dois caminhos abertos para um diálogo frutífero entre católicos e os outros
cristãos neste assunto. O primeiro é chamar a atenção para o que já foi
alcançado; o segundo, é mostrar o papel do papado de maneira que levará
ortodoxos e protestantes a reconhecê-lo como uma característica essencial de sua
compreensão de Igreja.
Orthodoxos
Comecemos
com os Ortodoxos. A própria palavra é susceptível de ter vários significados,
cada um dos quais relevantes para nosso tópico. O sentido fundamental de
ortodoxia é "doutrina correta", e nesse sentido todo cristão desejará reclamá-la
como a sua própria.
Em
segundo lugar, ela veio a designar os cristãos na tradição litúrgica, teológica
e espirital conhecida como "a Igreja grega", incluindo sob esse título não
somente gregos mas também sérvios, ucranianos, russos, e assim por diante; em
resumo, a maioria daqueles grupos cristãos que têm suas origens, direta ou
indiretamente, no Mediterrâneo Oriental. Em terceiro lugar, em seu uso mais
específico, "Ortodoxo" designa os cristãos cujo bispo está em união com o Bispo
de Constantinopla (Istanbul), assim como "Católico" identifica os cristãos cujo
bispo está em união com o Bispo de Roma.
O
que nem sempre é referido é que se pode ser Ortodoxo no segundo sentido e ser
simultaneamente católico; isto é, um cristão pode seguir totalmente a fé e
prática da "Igreja grega" e ainda estar sob um bispo que está em comunhão com
Roma, e não Constantinopla (cf. Ut unum sint, No. 60). Os católicos
ucranianos, por exemplo, o maior grupo nessa situação, podem declarar
corretamente que são ortodoxos no sentido de estarem completamente no Oriente,
na tradição "Ortodoxa". Esses cristãos, e há muitos deles, foram jocosamente
chamados de "uniates", mas sua existência é uma demonstração de que o
catolicismo e a ortodoxia não são essencialmente incompatíveis. A Igreja
Católica é de fato a única Igreja que contém dentro de si cristãos do Oriente e
do Ocidente, honrando ambas tradições como complementares, não contraditórias.
Assim,
como católico posso declarar como minha não apenas todas as formas de
cristianismo que estavam unidas na Igreja universal, "Católica", antes da
divisão entre Constantinopla e Roma em 1054, mas também a Tradição Oriental que
continuou desde então. Em outras palavras, o catolicismo é realmente, aqui e
agora, uma instância evidente de sucesso ecumênico. Em resposta àqueles
ortodoxos que negam a compreensão católica do papado, podemos indicar milhões de
seus correligionários que a aceitaram sem abandonar a ortodoxia.
É
claro, tais argumentos não têm efeito na maioria dos cristãos orientais. Há um
desprezo pelo Ocidente entre eles que remonta, entre outras coisas, ao saque e
conquista brutais de Constantinopla pela Quarta Cruzada em 1204 e a subseqüente
ocupação da cidade por latinos (europeus ocidentais). Tais lembranças, rezemos
para que sejam curadas com o tempo. Teologicamente, no entanto, a defesa do
papado pode se desenvolver entre declarações e réplicas: nós, declarando-o como
desenvolvimento legítimo; eles, vendo-o como uma corrupção. O que está
disponível é uma demonstração de que o papado, como exercido hoje, é um elemento
vital e essencial da Igreja primitiva que foi perdido na Ortodoxia mas
preservado no Catolicismo. Essa demonstração está em uma consideração do
magistério ativo; isto é, na solene autoridade do magistério da Igreja.
Um
magistério ativo
Durante
os primeiros sete séculos de sua existência, a Igreja exibiu uma alegre
confiança em sua pregação, culto e sua vida institucional. Especialmente no
Oriente, entre os cristãos de língua grega e síria, e sob a liderança de seus
bispos, a Igreja apresentava o Evangelho para o mundo greco-romano de uma forma
que podia compreender e aceitar. Novas formas de culto se desenvolveram, a
teologia floresceu, e novidades ousadas como a vida monástica foram lançadas.
A
Igreja estava viva. Em sua variedade e número, tais experiências requeriam
controle e definição, e coube aos bispos dirigir a exuberante energia em
evidência por toda parte. Sua tarefa era testar e exortar, suprimindo o que era
inadequado e acolhendo o que era correto. Ainda hoje os próprios nomes destes
Pais da Igreja — Basílio, Gregório, Cirilo, Ambrósio, Agostinho, Atanásio... —
lembram tanto católicos como ortodoxos aqueles tempos exultantes. Como bispos
eles governavam suas dioceses, reunindo-se em sínodos regionais ou concílios
universais quando surgiam questões maiores sobre doutrina ou disciplina. Ainda
celebramos o primeiro destes concílios gerais quando rezamos o Credo de Nicéia.
É então aparente que uma característica essencial da Igreja primitiva era um
magistério ativo por meio do qual a Igreja local e universal falava ao mundo,
preservando intacto o depósito da fé e a Ortodoxia
Oriental
Esta
é uma característica da Igreja primitiva que a Ortodoxia perdeu porque lhe falta
um centro efetivo de unidade. Os bispos ensinam, é claro, mas de maneira
fragmentada. Divididos entre si freqüentemente por amargas rivalidades
nacionais, estão limitados a repetir o que foi dito e feito no passado. A
lirurgia, as regras de jejum, a formulação de doutrinas, ensinamentos morais:
tudo isto está congelado na forma em que assumiram nos dias de Basílio e
Gregório.
Mas
ser verdadeiramente a Igreja dos Pais é ter a confiança de que a Igreja hoje
permanece sob a direção do Espírito Santo e portanto está investida para
continuar o tipo de desenvolvimento que tanto enriqueceu a Igreja primitiva
quando se movia dos confins do judaísmo para o mundo inteiro. Em outras
palavras, o cristianismo precisa de seus bispos para proclamar o Evangelho para
uma nova cultura, a cultura em que vivemos, e que, como aquela dos gregos e
romanos, contém boas coisas a serem celebradas, e males a serem corrigidos. Esta
característica da Igreja, que assegura a seus membros que estão em continuidade
com a Igreja dos Apóstolos e os primeiros séculos cristãos, falta e muito na
ortodoxia.
A
conseqüência é uma paralisia que impede, por exemplo, a adaptação das leis
extremamente rigorosas de jejum às necessidades da vida moderna, ou, em uma
questão não religiosa, a mudança para um calendário mais acertado (os Ortodoxos
ainda usam um calendário impreciso do tempo de Júlio César, rseultando que as
estações do ano gradualmente mudam. O Natal atualmente bem em janeiro, ainda
está avançando. Seus tataranetos deverão acabar celebrando-o em junho).
Hoje
é somente no catolicismo que um magistério ativo continua em plena operação.
Exercido apropriadamente, a função do papado deve atrair a atenção favorável da
Igreja Ortodoxa como veículo pelo qual o Espírito Santo possa trazer a Boa Nova
para o homem moderno, como trouxe para o povo no passado.
Lutero,
Calvino, e outros
Mil
anos de história compartilhada são uma forte base para a unidade entre Oriente e
Ocidente, à medida em que as diferenças do passado são reexaminadas e
resolvidas. Entretanto, não parece haver esperança de se chegar a um acordo
entre o entendimento católico e protestante sobre a Igreja. Os Reformadores,
seguindo o slogan "somente a Bíblia", insistiram que "os concílios gerais podem
errar e erraram"; isto é, que o magistério não é o guardião divinamente indicado
do autêntico ensinamento cristão. Esta atitude parece representar um impasse. A
solução para para esta dificuldade, para ser efetiva, deve vir do que é comum à
compreensão católica e protestante da verdade do Evangelho.
Examinemos
duas características do Protestantismo: a responsabilidade do indivíduo de
aceitar e agir segundo a Palavra de Deus; e a necessidade de reformar à luz da
Palavra de Deus o que está errado ou desatualizado. Com relação à primeira
coisa, individualismo, notamos que pode algumas vezes significar nada mais do
que o truísmo de que somente eu posso decidir por mim mesmo: seja a evidência
para o Evangelho, seja a conclusão que tiro dele, obviamente somente eu posso
dizer sim ou não para Deus. O escândalo do Protestantismo não é, portanto, em
salvaguardar a necessidade de um comprometimento individual com Cristo; o
escândalo reside nas radicais discordâncias religiosas que surgiram e continuam
a surgir entre esses indivíduos, cada um declarando ser guiado pelo único e
mesmo Espírito Santo. O que é necessário é uma prova pela qual o indivíduo possa
evidar iludir-se pensando que ele é o único juiz da verdade do Evangelho:
"Provai os espíritos para ver se são de Deus" (1 Jo 4,1).
Os
Protestantes reconhecem pela metade esta necessidade de se agruparem em
denominações. O diálogo ecumênico também, por lutar pela unidade externa, veio a
reconhecer a necessidade de um centro dessa unidade, mesmo que relutantemente
garantindo um papel de algum tipo ao papado para atingi-la. É nesta busca pela
unidade cristã que entra a prova dos espíritos mencionada por São João. O
indivíduo deve provar suas idéias contra a fé que vem a nós dos Apóstolos, que
foi expressa nas Escrituras, e que foi e continua sendo articulada pelo
ensinamento da Igreja. O papel dos bispos e do Papa, portanto, pode ser expresso
em termos que preservam a supremacia das Escrituras e honram a fidelidade do
indivíduo a elas mas, ao mesmo tempo, evitam o escândalo da discordância.
O
segundo elemento do Protestantismo, a necessidade de reforma contínua, pode ser
tratada brevemente. Que o episcopado e o papado podem funcionar como
instrumentos de reforma e renovação da Igreja já foi recentemente demonstrado
pelo Concílio Vaticano II. O ponto é que o importante trabalho de renovação
requer não simplesmente a voz profética do reformador mas também a orientação do
magistério, para provar o espírito de renovação, certamente, mas também para
assegurar a continuidade com o passado e colocar o selo apostólico nos novos
caminhos. Assim é evitada a anarquia do Protestantismo, e preservada a unidade
visível da Igreja.
Uma
declaração excelente do papel ecumênico do papado é a encíclica Ut unum
sint (1995), a encíclica de João Paulo II sobre a Igreja, na qual ele
distingue cuidadosamente o necessário papel de Pedr e seus sucessores na Igreja,
expressando ao mesmo tempo um desejo de remover de seu exercício as
características secundárias que suscitaram suspeitas entre não-católicos.
Pe.
Daniel Callam, sacerdote da Congregação de São Basílio (C.S.B.), é diretor do
Departamento de Teologia da Universidade de São Tomé, Houston,
Texas.
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