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Com essas palavras Jesus se dirigiu a Pedro
ao confiar´lhe o mandato de governar a Sua Igreja, deixando claro que a Igreja é
´propriedade´ Dele.
Na verdade, a Igreja é, por desejo de Deus, o
próprio Corpo do Senhor. Ele a quis como o Seu Corpo Místico, constituído como o
´Sacramento universal da salvação da humanidade´ (LG,48), isto é, o meio
escolhido por Deus para salvar a todos.
Ela é o prolongamento da
Encarnação de Jesus no meio dos homens, para formar, Nele, a grande família dos
filhos de Deus. ´A Igreja é a trajetória do Cristo através dos séculos´, como
disse Denis Bourgerie. Ou ainda, ´a Igreja é o Corpo do Senhor, e o ostensório
do Seu coração´, como disse Maurice Zundel. Bossuet preferiu dizer que: ´A
Igreja é Jesus Cristo derramado e comunicado a toda a terra´.Tudo pode ser
resumido na palavra de um grande Padre do primeiro século, Santo Inácio de
Antioquia (†110), ao dizer que:
´Onde está o Cristo Jesus está a Igreja
Católica´.
Nestas páginas queremos aprofundar no Mistério da Igreja, na
sua missão e identidade.
O pecado, desde a origem, dispersou a
humanidade, quebrou a unidade e a comunhão dos homens com Deus, rompeu o belo
plano de amor que o paraíso terrestre nos mostra.
Deus Pai nos criou
para Si, para que fossemos a Sua família, destinados a participar da Sua
comunhão íntima e desfrutar da Sua vida bem´aventurada. O pecado ´ a mais triste
realidade ´ rompeu esse belo Plano de amor e ´dispersou´ os filhos de Deus,
dilacerou a Sua família e feriu o próprio Deus. Por Jesus e pela Igreja, o Pai
quis então refazer a Sua obra e trazer de volta os seus filhos para a Sua
Comunhão. É nesse sentido que o Catecismo da Igreja Católica (CIC), afirma que :
´A convocação da Igreja é por assim dizer a reação de Deus ao caos
provocado pelo pecado´(CIC,761).
O Catecismo já no seu início, nos
ensina esta grande verdade:
´Deus, infinitamente Perfeito e bem
aventurado em si mesmo, em um desígnio de pura bondade, criou livremente o homem
para fazê´lo participar de sua vida bem´aventurada.
Eis por que, desde
sempre e em todo lugar, está perto do homem. Chama´o e ajuda´o a procurá´lo, a
conhecê´lo e a amá´lo com todas as suas forças. Convoca todos os homens,
dispersos pelo pecado, para a unidade da sua família, a Igreja´ (CIC, 1).
Esse primeiro parágrafo do Catecismo contém, em síntese, a História da
salvação. Deus criou a humanidade como a ´sua família´; mas o pecado dispersou
os seus filhos; e agora Deus os reúne novamente pela Igreja, o próprio Corpo de
Jesus, enviado aos homens. É nesse contexto que sobressai toda a realidade e
importância da Igreja ´ a família de Deus.
E o Catecismo, ainda no
primeiro parágrafo, explica como Deus refaz a sua família:
´Faz isto
através do Filho, que enviou como Redentor e Salvador quando os tempos se
cumpriram. Nele e por Ele, chama os homens a se tornarem, no Espírito Santo,
seus filhos adotivos, e portanto os herdeiros da sua vida bem´aventurada´ (nº
9).
É preciso analisar essas palavras com muita atenção. É pelo Filho
que o Pai refaz a comunhão da humanidade consigo. O Filho se faz a Igreja (Corpo
Místico de Cristo). Pelo Batismo entramos nesse Corpo, e pelo Espírito Santo nos
tornamos filhos adotivos e, como conseqüência, herdeiros, de novo, da vida
bem´aventurada de Deus, que o pecado havia cancelado. Assim, voltaremos ao
Paraíso.
Esta é a gloriosa história da nossa salvação que se completará
pela Igreja, quando ela estiver plenamente glorificada em Deus. É por isso que
Santo Agostinho dizia que:
´ A Igreja é o mundo reconciliado´.
Como a Igreja gloriosa é a consumação do Plano de Deus para a
humanidade, nada mais importante do que conhecê´la, amá´la e servi´la com todas
as nossas forças.
Quando Jesus a instituiu sobre Pedro e os Apóstolos,
deixou claro que ela lhe pertence:
´Sobre esta Pedra edificarei a MINHA
Igreja´ (Mt 16,18).
Ela é a Esposa de Cristo, que ele ama com um amor
eterno. Por ela sofreu a paixão e derramou o seu sangue. Ele a ama como um
Esposo apaixonado:
´Maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo amou a
Igreja e se entregou por ela, para santificá´la, purificando´a pela água do
batismo, para apresentá´la a si mesmo toda glorificada, sem mácula, sem ruga,
sem qualquer outro defeito semelhante, mas santa e irrepreensível´ (Ef 5,25´27).
Essas palavras expressam o amor profundo de Jesus para com a ´sua´
Igreja. Esse amor é tão grande e tão fundamental, que Deus quis que cada casal
na terra, pelo amor mútuo, refletisse na realidade cotidiana do matrimônio, esse
amor. É por isso que São Paulo ao falar aos efésios, do matrimônio, diz que ´ é
grande esse mistério, quero dizer, com referência a Cristo e a Igreja´.
A vida cotidiana do casamento nos ajuda a compreender melhor o amor de
Cristo para com a sua Esposa ´ a Igreja ´ e, vice´versa.
São Paulo, que
entendeu profundamente essa maravilha, exortou os maridos a amarem as suas
esposas, ´como a seu próprio corpo´ (Ef 5,28). Com isto, quer dizer também que a
Igreja é o próprio Corpo de Cristo. ´Quem ama a sua mulher ama a si mesmo´ (28).
Quem ama a Igreja, ama a Cristo; é a mesma realidade.
O Papa Paulo VI,
cujo amor à Igreja era imenso, assim se referiu a ela:
´A Igreja! Ela é
nosso amor constante, nossa solicitude primordial, nosso pensamento fixo! ...
Não se ama a Cristo se não se ama a Igreja; e não amamos a Igreja se não
a amamos como a amou o Senhor: ´Amou a Igreja e por ela se entregou´ (Ef 5,25)´.
É preciso destacar o que disse o Papa: ´Não se ama Cristo se não se ama
a Igreja´, e podemos ir mais longe ainda e dizer: não se conhece a Cristo, se
não se conhece a Igreja; não se serve a Cristo, se não se serve a Igreja; não se
obedece a Cristo se não se obedece à Igreja; não se sujeita a Cristo, se não se
sujeita à sua Igreja, não está na verdade de Cristo quem não está na verdade da
Igreja...
O Concílio Vaticano II a chamou de ´Lumen Gentium´, isto é
´Luz das Nações´, pois a sua Luz é a mesma Luz de Cristo.
´Assim [Deus]
estabeleceu congregar na Santa Igreja os que crêem em Cristo. Desde a origem do
mundo a Igreja foi pré´figurada. Foi admiravelmente preparada na história do
povo de Israel e na antiga aliança. Foi fundada nos últimos tempos. Foi
manifestada pela efusão do Espírito Santo. E no fim dos tempos será
gloriosamente consumada quando, segundo se lê nos Santos Padres, todos os justos
desde Adão, ´do justo Abel ao último eleito´, serão congregados junto ao Pai na
Igreja universal´ (LG , 2).
É preciso termos bem claro que Deus decidiu
estabelecer o seu Reino entre nós, através da Igreja. Ensina´nos a ´Lumen
Gentium´ que a Igreja tem ´a missão de anunciar e estabelecer em todas as gentes
o Reino de Cristo e de Deus, e constitui ela própria na terra o germe e o início
deste Reino´ (LG ,5).
Sem a Igreja não há, portanto, Reino de Deus.
Santo Agostinho escreveu que:
´A Igreja recebeu as chaves do
Reino dos Céus para que se opere nela a remissão dos pecados pelo sangue de
Cristo e pela ação do Espírito Santo. É nesta Igreja que a alma revive, ela que
estava morta pelos pecados´.
O Catecismo mostra toda a realidade,
beleza, missão e identidade da Igreja, ao ensinar que ela é:
´ Um
projeto nascido no coração do Pai´ (nº 759), ´Prefigurada desde a origem do
mundo´(nº 760), ´Preparada na Antiga Aliança´ (nº761), ´Instituída por
Jesus Cristo´(nº 763), ´Manifestada pelo Espírito Santo´ (nº 767), ´A
ser consumada na glória´ (nº769), ´ Mistério da união dos homens com Deus´
(nº772), ´Sacramento universal da salvação´ (nº774), ´Comunhão com
Jesus´ (nº787), ´Corpo de Cristo´ (nº787), ´Esposa de Cristo´ (nº796),
´Templo do Espírito Santo´ (nº797), ´Povo de Deus´ (nº781). Todas
essas expressões são profundíssimas e precisam ser analisadas e conhecidas para
podermos compreender o desígnio de Deus em relação à Igreja. Sem isto não a
amaremos como é necessário e como pediu o Papa Paulo VI.
Alguns
perguntam: por que a Igreja ? Não basta a fé em Jesus Cristo?
A resposta
é, que foi o próprio Jesus quem quis a Igreja como prolongamento de sua presença
salvadora no meio dos homens. Ele nos deu a Igreja e o seu Credo, como garantia
de que não estamos seguindo apenas o nosso bom senso, ou uma religiosidade
amorfa, mas estamos seguindo o caminho de Deus.
A Igreja é conseqüência
direta do mistério da Encarnação, seu prolongamento.
Muitos querem hoje
dizer Sim à Cristo, e Não à Igreja; mas isto afeta a própria identidade do
Cristianismo. A Igreja, instituída por vontade de Cristo, com suas normas, como
prolongamento da Encarnação do Verbo de Deus, se tornou o lugar privilegiado do
encontro dos homens com Cristo e com o Pai.
Quem pergunta: ´Por que a
Igreja?´, incorre no mesmo erro de quem pergunta: ´Por que Cristo?´ Cristo veio
do Pai e deixou a Igreja. O Pai enviou Jesus para a salvação do mundo, e Cristo
enviou a Igreja.
Muitos hoje querem a Igreja na forma de uma ´democracia
moderna´, onde tudo se decida pela vontade da maioria. Ela seria então como um
grande Clube religioso, de normas ´flexíveis´, mais assimiláveis. A conseqüência
disso ´ e o grande engano ´ é que neste caso o homem seria guiado unicamente por
si mesmo, e não por Deus. Não seria mais ´a Igreja de Deus´ (1Tm3,15).
Pelo fato da Igreja ter a sua vida guiada pela Tradição que vem de
Cristo e dos Apóstolos, dá´nos a garantia de que é o próprio Jesus, presente
nela, que a conduz.
O primeiro ´Sacramento´, o fundamental, é a
santíssima humanidade de Jesus, através da qual (gestos, palavras) passava a
graça de Deus. A Igreja é a continuação desse ´Sacramento´; por isso São Paulo a
chama simplesmente de ´o Corpo de Cristo´ (Cl 1,24).
As expressões
terminais desse Sacramento ´Cristo ´ Igreja´, são os sete Sacramentos, que levam
a salvação ao homem, do nascer até o morrer. E sem a Igreja não há sacramentos;
logo, não há salvação. Daí podemos ver claramente que a Igreja é tão essencial
ao Cristianismo quanto o mistério da Encarnação do Verbo.
Num
Cristianismo sem a Igreja instituída por Cristo (Mt 16,16s) sobre Pedro e os
Apóstolos, o próprio Cristo ficaria mutilado, como que degolado...
E
essa Igreja é a única e una, católica (universal), apostólica e romana.
Os textos bíblicos, com referência à função de Pedro e dos Apóstolos,
deixam claro que Jesus quis uma Igreja estruturada e jurídica, sob o pastoreio
supremo de Pedro, e não como querem os protestantes, apenas uma comunidade
espiritual reunida só pela fé e pelo amor. Como ensina o Catecismo, ela é: ´ao
mesmo tempo visível e espiritual´(nº770), e afirma que:
´O Senhor Jesus
dotou a Sua comunidade de uma estrutura que permanecerá até a plena consumação
do Reino´(nº761).
Jesus tinha consciência de que a Sua Igreja teria uma
longa duração sobre a face da terra até cumprir a missão de trazer para Deus
toda a humanidade. As parábolas sobre a Igreja mostram isso. A do joio e do
trigo (Mt 13,1´30) nos mostra que os bons e os pecadores vão conviver na Igreja,
juntos, até o fim do mundo. Jesus, ao explicar a parábola para os discípulos,
diz´lhes que:
´A colheita é o fim do mundo´(Mt 13,40); e que só então ´o
Filho do homem enviará seus anjos que retirarão do reino todos os escândalos e
todos os que fazem o mal... Então no reino do seu Pai, os justos resplandecerão
como o sol´ (vs 41´42).
A parábola do grão de mostarda (Mt 13,31´32)
também indica a longa caminhada e edificação da Igreja na terra, de maneira
permanente e durável.
´É a menor de todas as sementes, mas quando
cresce, torna´se um arbusto maior que todas as hortaliças, de sorte que os
pássaros do céu vêm aninhar´se em seus ramos´.
O Reino de Deus [a
Igreja], comparado à rede lançada ao mar e que apanha peixes bons e ruíns (Mt
13,47´50), mostra´nos também que a Igreja veio para ficar até o fim dos tempos,
pois Jesus afirma que só então será feita a separação:
´Assim será no
fim do mundo: os anjos virào separar os maus do meio dos justos, e os arrojarão
na fornalha, onde haverá choro e ranger de dentes´.
Ainda as parábolas
do banquete (Mt 8,19s) e do fermento na massa (Mt 13,33s), indicam que a Igreja
teria uma longa e paciente missão a cumprir, até a plena consumação do Reino.
A Igreja não é portanto, apenas uma ´Sociedade dos Amigos de Jesus e do
Evangelho´, é muito mais do que isso, é uma Instituição criada pelo próprio
Jesus, integrada Nele, o Seu próprio Corpo, para desta forma ser o seu
prolongamento na história dos homens, reunindo´os Nele, para trazê´los de volta
para a Casa do Pai.
Por tudo isso, os cristãos dos primeiros tempos não
tinham dúvidas em afirmar que :
´O mundo foi criado em vista da Igreja´.
São Clemente de Alexandria (†215), por exemplo, dizia:
´Assim
como a vontade de Deus é um ato e se chama mundo, assim também sua intenção é a
salvação dos homens, e se chama Igreja´(CIC,760).
Esta é a Santa Igreja
do Pai, do Filho, e do Espírito Santo, que São Paulo gosta de chamar de ´a
Igreja de Deus´(1Tm3,15; At20,28).
Muitos e muitos filhos dessa querida
Mãe souberam ser´lhe fiel até o fim. Em 1988, Monsenhor Ignatius Ong Pin´Mei,
Bispo de Shangai, no dia seguinte de sua libertação, depois de passar 30 longos
anos nas prisões da China, por amor a Cristo e fidelidade à Igreja Católica,
declarou:
´Eu fiquei fiel à Igreja Católica Romana. Trinta anos de
prisão não me mudaram. Eu guardei a fé. Eu estou pronto amanhã a voltar
novamente à prisão para defender minha fé´(PR).
Igualmente o Cardeal da
Tchecoslováquia, Frantisek Tomasek, arcebispo de Praga, no ano de 1985, nos
tempos difíceis da perseguição comunista, perguntado por um repórter:
´Eminência, não está cansado de combater sem êxito?´, respondeu:
´Digo
sempre uma coisa: quem trabalha pelo Reino de Deus faz muito; quem reza, faz
mais; quem sofre, faz tudo. Este tudo é exatamente o pouco que se faz entre nós
na Tchecoslováquia´( IL Sabato 8,14/06/85, p.11),( PR,n.284, jan86).
É
bom recordar aqui que, alguns anos depois, em 1989, o comunismo começava a
desmoronar em toda a Cortina de Ferro...
Que o Senhor da Igreja, por
intercessão de Sua Mãe Virgem e Santíssima, e do seu glorioso pai, São José,
patrono universal da Igreja, conceda a todos aqueles que lerem piedosamente
essas páginas, um amor profundo à sua Santa Esposa, a Jerusalém celeste, na qual
viveremos toda a eternidade em Deus. Amém. ´A MINHA IGREJA´
Com essas
palavras Jesus se dirigiu a Pedro ao confiar´lhe o mandato de governar a Sua
Igreja, deixando claro que a Igreja é ´propriedade´ Dele.
Na verdade, a
Igreja é, por desejo de Deus, o próprio Corpo do Senhor. Ele a quis como o Seu
Corpo Místico, constituído como o ´Sacramento universal da salvação da
humanidade´ (LG,48), isto é, o meio escolhido por Deus para salvar a todos.
Ela é o prolongamento da Encarnação de Jesus no meio dos homens, para
formar, Nele, a grande família dos filhos de Deus. ´A Igreja é a trajetória do
Cristo através dos séculos´, como disse Denis Bourgerie. Ou ainda, ´a Igreja é o
Corpo do Senhor, e o ostensório do Seu coração´, como disse Maurice Zundel.
Bossuet preferiu dizer que: ´A Igreja é Jesus Cristo derramado e comunicado a
toda a terra´.Tudo pode ser resumido na palavra de um grande Padre do primeiro
século, Santo Inácio de Antioquia (†110), ao dizer que:
´Onde está o
Cristo Jesus está a Igreja Católica´.
Nestas páginas queremos aprofundar
no Mistério da Igreja, na sua missão e identidade.
O pecado, desde a
origem, dispersou a humanidade, quebrou a unidade e a comunhão dos homens com
Deus, rompeu o belo plano de amor que o paraíso terrestre nos mostra.
Deus Pai nos criou para Si, para que fossemos a Sua família, destinados
a participar da Sua comunhão íntima e desfrutar da Sua vida bem´aventurada. O
pecado ´ a mais triste realidade ´ rompeu esse belo Plano de amor e ´dispersou´
os filhos de Deus, dilacerou a Sua família e feriu o próprio Deus. Por Jesus e
pela Igreja, o Pai quis então refazer a Sua obra e trazer de volta os seus
filhos para a Sua Comunhão. É nesse sentido que o Catecismo da Igreja Católica
(CIC), afirma que :
´A convocação da Igreja é por assim dizer a reação
de Deus ao caos provocado pelo pecado´(CIC,761).
O Catecismo já no seu
início, nos ensina esta grande verdade:
´Deus, infinitamente Perfeito e
bem aventurado em si mesmo, em um desígnio de pura bondade, criou livremente o
homem para fazê´lo participar de sua vida bem´aventurada.
Eis por que,
desde sempre e em todo lugar, está perto do homem. Chama´o e ajuda´o a
procurá´lo, a conhecê´lo e a amá´lo com todas as suas forças. Convoca todos os
homens, dispersos pelo pecado, para a unidade da sua família, a Igreja´ (CIC,
1).
Esse primeiro parágrafo do Catecismo contém, em síntese, a História
da salvação. Deus criou a humanidade como a ´sua família´; mas o pecado
dispersou os seus filhos; e agora Deus os reúne novamente pela Igreja, o próprio
Corpo de Jesus, enviado aos homens. É nesse contexto que sobressai toda a
realidade e importância da Igreja ´ a família de Deus.
E o Catecismo,
ainda no primeiro parágrafo, explica como Deus refaz a sua família:
´Faz
isto através do Filho, que enviou como Redentor e Salvador quando os tempos se
cumpriram. Nele e por Ele, chama os homens a se tornarem, no Espírito Santo,
seus filhos adotivos, e portanto os herdeiros da sua vida bem´aventurada´ (nº
9).
É preciso analisar essas palavras com muita atenção. É pelo Filho
que o Pai refaz a comunhão da humanidade consigo. O Filho se faz a Igreja (Corpo
Místico de Cristo). Pelo Batismo entramos nesse Corpo, e pelo Espírito Santo nos
tornamos filhos adotivos e, como conseqüência, herdeiros, de novo, da vida
bem´aventurada de Deus, que o pecado havia cancelado. Assim, voltaremos ao
Paraíso.
Esta é a gloriosa história da nossa salvação que se completará
pela Igreja, quando ela estiver plenamente glorificada em Deus. É por isso que
Santo Agostinho dizia que:
´ A Igreja é o mundo reconciliado´.
Como a Igreja gloriosa é a consumação do Plano de Deus para a
humanidade, nada mais importante do que conhecê´la, amá´la e servi´la com todas
as nossas forças.
Quando Jesus a instituiu sobre Pedro e os Apóstolos,
deixou claro que ela lhe pertence:
´Sobre esta Pedra edificarei a MINHA
Igreja´ (Mt 16,18).
Ela é a Esposa de Cristo, que ele ama com um amor
eterno. Por ela sofreu a paixão e derramou o seu sangue. Ele a ama como um
Esposo apaixonado: ´Maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja
e se entregou por ela, para santificá´la, purificando´a pela água do batismo,
para apresentá´la a si mesmo toda glorificada, sem mácula, sem ruga, sem
qualquer outro defeito semelhante, mas santa e irrepreensível´ (Ef 5,25´27).
Essas palavras expressam o amor profundo de Jesus para com a ´sua´
Igreja. Esse amor é tão grande e tão fundamental, que Deus quis que cada casal
na terra, pelo amor mútuo, refletisse na realidade cotidiana do matrimônio, esse
amor. É por isso que São Paulo ao falar aos efésios, do matrimônio, diz que ´ é
grande esse mistério, quero dizer, com referência a Cristo e a Igreja´.
A vida cotidiana do casamento nos ajuda a compreender melhor o amor de
Cristo para com a sua Esposa ´ a Igreja ´ e, vice´versa.
São Paulo, que
entendeu profundamente essa maravilha, exortou os maridos a amarem as suas
esposas, ´como a seu próprio corpo´ (Ef 5,28). Com isto, quer dizer também que a
Igreja é o próprio Corpo de Cristo. ´Quem ama a sua mulher ama a si mesmo´ (28).
Quem ama a Igreja, ama a Cristo; é a mesma realidade.
O Papa Paulo VI,
cujo amor à Igreja era imenso, assim se referiu a ela:
´A Igreja! Ela é
nosso amor constante, nossa solicitude primordial, nosso pensamento fixo! ...
Não se ama a Cristo se não se ama a Igreja; e não amamos a Igreja se não
a amamos como a amou o Senhor: ´Amou a Igreja e por ela se entregou´ (Ef 5,25)´.
É preciso destacar o que disse o Papa: ´Não se ama Cristo se não se ama
a Igreja´, e podemos ir mais longe ainda e dizer: não se conhece a Cristo, se
não se conhece a Igreja; não se serve a Cristo, se não se serve a Igreja; não se
obedece a Cristo se não se obedece à Igreja; não se sujeita a Cristo, se não se
sujeita à sua Igreja, não está na verdade de Cristo quem não está na verdade da
Igreja...
O Concílio Vaticano II a chamou de ´Lumen Gentium´, isto é
´Luz das Nações´, pois a sua Luz é a mesma Luz de Cristo.
´Assim [Deus]
estabeleceu congregar na Santa Igreja os que crêem em Cristo. Desde a origem do
mundo a Igreja foi pré´figurada. Foi admiravelmente preparada na história do
povo de Israel e na antiga aliança. Foi fundada nos últimos tempos. Foi
manifestada pela efusão do Espírito Santo. E no fim dos tempos será
gloriosamente consumada quando, segundo se lê nos Santos Padres, todos os justos
desde Adão, ´do justo Abel ao último eleito´, serão congregados junto ao Pai na
Igreja universal´ (LG , 2).
É preciso termos bem claro que Deus decidiu
estabelecer o seu Reino entre nós, através da Igreja. Ensina´nos a ´Lumen
Gentium´ que a Igreja tem ´a missão de anunciar e estabelecer em todas as gentes
o Reino de Cristo e de Deus, e constitui ela própria na terra o germe e o início
deste Reino´ (LG ,5).
Sem a Igreja não há, portanto, Reino de Deus.
Santo Agostinho escreveu que:
´A Igreja recebeu as chaves do
Reino dos Céus para que se opere nela a remissão dos pecados pelo sangue de
Cristo e pela ação do Espírito Santo. É nesta Igreja que a alma revive, ela que
estava morta pelos pecados´.
O Catecismo mostra toda a realidade,
beleza, missão e identidade da Igreja, ao ensinar que ela é:
´ Um
projeto nascido no coração do Pai´ (nº 759), ´Prefigurada desde a origem do
mundo´(nº 760), ´Preparada na Antiga Aliança´ (nº761), ´Instituída por
Jesus Cristo´(nº 763), ´Manifestada pelo Espírito Santo´ (nº 767), ´A
ser consumada na glória´ (nº769), ´ Mistério da união dos homens com Deus´
(nº772), ´Sacramento universal da salvação´ (nº774), ´Comunhão com
Jesus´ (nº787), ´Corpo de Cristo´ (nº787), ´Esposa de Cristo´ (nº796),
´Templo do Espírito Santo´ (nº797), ´Povo de Deus´ (nº781). Todas
essas expressões são profundíssimas e precisam ser analisadas e conhecidas para
podermos compreender o desígnio de Deus em relação à Igreja. Sem isto não a
amaremos como é necessário e como pediu o Papa Paulo VI.
Alguns
perguntam: por que a Igreja ? Não basta a fé em Jesus Cristo?
A resposta
é, que foi o próprio Jesus quem quis a Igreja como prolongamento de sua presença
salvadora no meio dos homens. Ele nos deu a Igreja e o seu Credo, como garantia
de que não estamos seguindo apenas o nosso bom senso, ou uma religiosidade
amorfa, mas estamos seguindo o caminho de Deus.
A Igreja é conseqüência
direta do mistério da Encarnação, seu prolongamento.
Muitos querem hoje
dizer Sim à Cristo, e Não à Igreja; mas isto afeta a própria identidade do
Cristianismo. A Igreja, instituída por vontade de Cristo, com suas normas, como
prolongamento da Encarnação do Verbo de Deus, se tornou o lugar privilegiado do
encontro dos homens com Cristo e com o Pai.
Quem pergunta: ´Por que a
Igreja?´, incorre no mesmo erro de quem pergunta: ´Por que Cristo?´ Cristo veio
do Pai e deixou a Igreja. O Pai enviou Jesus para a salvação do mundo, e Cristo
enviou a Igreja.
Muitos hoje querem a Igreja na forma de uma ´democracia
moderna´, onde tudo se decida pela vontade da maioria. Ela seria então como um
grande Clube religioso, de normas ´flexíveis´, mais assimiláveis. A conseqüência
disso ´ e o grande engano ´ é que neste caso o homem seria guiado unicamente por
si mesmo, e não por Deus. Não seria mais ´a Igreja de Deus´ (1Tm3,15).
Pelo fato da Igreja ter a sua vida guiada pela Tradição que vem de
Cristo e dos Apóstolos, dá´nos a garantia de que é o próprio Jesus, presente
nela, que a conduz.
O primeiro ´Sacramento´, o fundamental, é a
santíssima humanidade de Jesus, através da qual (gestos, palavras) passava a
graça de Deus. A Igreja é a continuação desse ´Sacramento´; por isso São Paulo a
chama simplesmente de ´o Corpo de Cristo´ (Cl 1,24).
As expressões
terminais desse Sacramento ´Cristo ´ Igreja´, são os sete Sacramentos, que levam
a salvação ao homem, do nascer até o morrer. E sem a Igreja não há sacramentos;
logo, não há salvação. Daí podemos ver claramente que a Igreja é tão essencial
ao Cristianismo quanto o mistério da Encarnação do Verbo.
Num
Cristianismo sem a Igreja instituída por Cristo (Mt 16,16s) sobre Pedro e os
Apóstolos, o próprio Cristo ficaria mutilado, como que degolado...
E
essa Igreja é a única e una, católica (universal), apostólica e romana.
Os textos bíblicos, com referência à função de Pedro e dos Apóstolos,
deixam claro que Jesus quis uma Igreja estruturada e jurídica, sob o pastoreio
supremo de Pedro, e não como querem os protestantes, apenas uma comunidade
espiritual reunida só pela fé e pelo amor. Como ensina o Catecismo, ela é: ´ao
mesmo tempo visível e espiritual´(nº770), e afirma que:
´O Senhor Jesus
dotou a Sua comunidade de uma estrutura que permanecerá até a plena consumação
do Reino´(nº761).
Jesus tinha consciência de que a Sua Igreja teria uma
longa duração sobre a face da terra até cumprir a missão de trazer para Deus
toda a humanidade. As parábolas sobre a Igreja mostram isso. A do joio e do
trigo (Mt 13,1´30) nos mostra que os bons e os pecadores vão conviver na Igreja,
juntos, até o fim do mundo. Jesus, ao explicar a parábola para os discípulos,
diz´lhes que:
´A colheita é o fim do mundo´(Mt 13,40); e que só então ´o
Filho do homem enviará seus anjos que retirarão do reino todos os escândalos e
todos os que fazem o mal... Então no reino do seu Pai, os justos resplandecerão
como o sol´ (vs 41´42).
A parábola do grão de mostarda (Mt 13,31´32)
também indica a longa caminhada e edificação da Igreja na terra, de maneira
permanente e durável.
´É a menor de todas as sementes, mas quando
cresce, torna´se um arbusto maior que todas as hortaliças, de sorte que os
pássaros do céu vêm aninhar´se em seus ramos´.
O Reino de Deus [a
Igreja], comparado à rede lançada ao mar e que apanha peixes bons e ruíns (Mt
13,47´50), mostra´nos também que a Igreja veio para ficar até o fim dos tempos,
pois Jesus afirma que só então será feita a separação:
´Assim será no
fim do mundo: os anjos virào separar os maus do meio dos justos, e os arrojarão
na fornalha, onde haverá choro e ranger de dentes´.
Ainda as parábolas
do banquete (Mt 8,19s) e do fermento na massa (Mt 13,33s), indicam que a Igreja
teria uma longa e paciente missão a cumprir, até a plena consumação do Reino.
A Igreja não é portanto, apenas uma ´Sociedade dos Amigos de Jesus e do
Evangelho´, é muito mais do que isso, é uma Instituição criada pelo próprio
Jesus, integrada Nele, o Seu próprio Corpo, para desta forma ser o seu
prolongamento na história dos homens, reunindo´os Nele, para trazê´los de volta
para a Casa do Pai.
Por tudo isso, os cristãos dos primeiros tempos não
tinham dúvidas em afirmar que :
´O mundo foi criado em vista da Igreja´.
São Clemente de Alexandria (†215), por exemplo, dizia:
´Assim
como a vontade de Deus é um ato e se chama mundo, assim também sua intenção é a
salvação dos homens, e se chama Igreja´(CIC,760).
Esta é a Santa Igreja
do Pai, do Filho, e do Espírito Santo, que São Paulo gosta de chamar de ´a
Igreja de Deus´(1Tm3,15; At20,28).
Muitos e muitos filhos dessa querida
Mãe souberam ser´lhe fiel até o fim. Em 1988, Monsenhor Ignatius Ong Pin´Mei,
Bispo de Shangai, no dia seguinte de sua libertação, depois de passar 30 longos
anos nas prisões da China, por amor a Cristo e fidelidade à Igreja Católica,
declarou:
´Eu fiquei fiel à Igreja Católica Romana. Trinta anos de
prisão não me mudaram. Eu guardei a fé. Eu estou pronto amanhã a voltar
novamente à prisão para defender minha fé´(PR).
Igualmente o Cardeal da
Tchecoslováquia, Frantisek Tomasek, arcebispo de Praga, no ano de 1985, nos
tempos difíceis da perseguição comunista, perguntado por um repórter:
´Eminência, não está cansado de combater sem êxito?´, respondeu:
´Digo
sempre uma coisa: quem trabalha pelo Reino de Deus faz muito; quem reza, faz
mais; quem sofre, faz tudo. Este tudo é exatamente o pouco que se faz entre nós
na Tchecoslováquia´( IL Sabato 8,14/06/85, p.11),( PR,n.284, jan86).
É
bom recordar aqui que, alguns anos depois, em 1989, o comunismo começava a
desmoronar em toda a Cortina de Ferro...
Que o Senhor da Igreja, por
intercessão de Sua Mãe Virgem e Santíssima, e do seu glorioso pai, São José,
patrono universal da Igreja, conceda a todos aqueles que lerem piedosamente
essas páginas, um amor profundo à sua Santa Esposa, a Jerusalém celeste, na qual
viveremos toda a eternidade em Deus. Amém.
DO Livro: ´A MINHA IGREJA´ DO
Prof. Felipe de Aquino
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