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Responder à carência doutrinal e à ignorância
religiosa para deter o proselitismo das seitas entre o povo
De l a 10 de
setembro, João Paulo II encontrou´se com cada um dos Bispos brasileiros dos
Regionais Nordeste l e 4, vindos a Roma para a qüinqüenal visita ´ad limina
Apostolorum´.
O Regional Nordeste l corresponde ao Estado do Ceará e é
formado por uma Província Eclesiástica, assim subdividida: Arquidiocese de
Fortaleza e 8 Dioceses sufragâneas: Crateús, Sobral, lguatu, Limoeiro do Norte,
Crato, ltapipoca, Quixadá e Tianguá. O Nordeste 4, por sua vez, abrange o Estado
do Piauí, e é formado por uma Província Eclesiástica, com sede metropolitana em
Teresina, capital do Estado, e por 6 Dioceses sufragâneas: São Raimundo Nonato,
Parnaíba, Campo Maior, Picos, Bom Jesus de Gurguéia e Oeiras´Floriano.
Na manhã de terça´feira, 5 de setembro, os Prelados brasileiros
concelebraram a Eucaristia com o Papa na sua Capela particular, na residência
pontifícia de Castelgandolfo, e em seguida todos foram recebidos em audiência
coletiva. No início deste encontro, o Sumo Pontífice foi saudado pelo Cardeal
Aloísio Lorschelder.
Publicamos o texto do discurso do Papa.
Prezados Irmãos no Episcopado
1. Aguardei com viva esperança
este encontro convosco, Bispos dos Regionais Nordeste l e 4, por ocasião da
vossa visita ad Limina, e vos saúdo com palavras de São Paulo: ´A graça do
Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam com
todos vós´(2 Cor 13, 13)! A vos dar as boas´vindas, incluo o clero, os
religiosos, as religiosas e os fiéis leigos das Províncias Eclesiásticas de
Fortaleza e de Teresina. Agradeço de coração as delicadas palavras do Senhor
Cardeal Arcebispo D. Aloísio Lorscheider que, em vossa representação, traçou com
competência o quadro sereno e cheio de esperanças da vida das vossas Dioceses.
O nosso encontro manifesta a profunda comunhão espiritual e visível que
existe entre as vossas Igrejas particulares e a Igreja universal, uma comunhão
que deriva do fato de termos sido ´enxertados´ em Cristo (cf. Rom 11, 17 ss).
Nós devemos dirigir´nos constantemente para Aquele que é o Supremo Pastor (cf. l
Pd 5, 4), a fim de tomarmos conhecimento da ´insondável riqueza´ (Ef 3, 8), com
que Ele nos investiu para a edificação da Esposa Imaculada (cf. Ap 19, 7). É a
ela que Ele se une mediante uma aliança inquebrantável, e é dela que Ele cuida e
nutre (cf. Ef 5, 29; cf. Cons. dog. Lumen gentium, 6). A nossa segurança e
esperança reside n\'Ele e no poder salvífico do seu Evangelho (cf. Rm 1, 16).
Ao dardes prosseguimento às visitas ad Limina dos vossos irmãos do
Episcopado Brasileiro, a vossa presença aqui traz ao vivo a lembrança não só da
vastidão das vossas Dioceses, mas também os inúmeros desafios para o anúncio do
Evangelho, que foram ressaltados pelas ´Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora
no Brasil´, na reunião deste ano da vossa Conferência episcopal. Precisamente,
nos encontros anteriores com os representantes das Províncias Eclesiásticas do
Paraná e de São Paulo, tive a oportunidade de refletir acerca de alguns aspectos
do seu cuidado pastoral pela Igreja, e encorajei´os a serem sentinelas
vigilantes da verdade, pastores que proclamam a verdade de Cristo e da Igreja,
promotores da renovação espiritual que se faz sentir necessária em todos os
âmbitos das vossas Igrejas particulares (cf. Discurso, 17 de fevereiro de 1995;
21 de março de 1995). Hoje, o nosso pensamento dirige´se para alguns dos outros
aspectos do vosso ministério.
A tarefa ecumênica
2. ´Que todos
sejam um (...) como Nós somos um´ (Jo 17, 21´22). Com estas palavras do Apóstolo
e Evangelista São João, desejo reunir´me convosco com o fim principal de
encorajar a fé dos nossos irmãos das Comunidades diocesanas, de que sois
pastores, para que se tornem sempre mais realidade aquelas solenes palavras ´que
todos sejam um, assim como Tu, ó Pai, estás em Mim e Eu em Ti, para que também
eles estejam em Nós e o mundo creia que Tu Me enviaste´ (Jo 17, 21).
Em
diversas ocasiões a Providência permitiu´me insistir naquela conclusão básica do
Concílio Vaticano II, segundo a qual é ´decisão da Igreja assumir a tarefa
ecumênica em prol da unidade dos cristãos e de a propor convicta e
vigorosamente´ (cf. Decr. sobre o Ecumenismo Unitatis redintegratio, 1). Tem
sido, por sinal, marco indelével do meu Pontificado que, como recordarão, quis
deixar patente na minha última viagem ao Brasil (cf. Discurso, 18.X.199 1).
Já tive ocasião de comentar, mesmo recentemente, que ´não se trata de
modificar o depósito da fé, de mudar o significado dos dogmas, de banir deles
palavras essenciais, de adaptar a verdade aos gostos de uma época, de eliminar
certos artigos do Credo com o falso pretexto de que hoje já não se compreendem.
A unidade querida por Deus só se pode realizar na adesão comum ao conteúdo
integral da fé revelada´ (Carta enc. Ut unum sint, 18). Falando aos
representantes do mundo da cultura em Salvador na Bahia, eu lembrava que ´a
inculturação do Evangelho não é uma adaptação mais ou menos oportuna aos valores
da cultura ambiente, mas uma verdadeira encarnação nesta cultura para
purificá´la e remi´la´ (Discurso, 20.X.1991, 4).
O mesmo vale no campo
ecumênico. Com efeito, no campo da inculturação como do ecumenismo, nota´se uma
certa facilidade com que a busca do entendimento, do acolhimento ou da simpatia
com outros grupos ou confissões religiosas tem levado a sérias mutilações na
expressão clara do mistério da fé católica, na oração litúrgica, ou a concessões
indevidas quanto às exigências objetivas da moral católica. Ecumenismo não é
irenismo (cf. UR, 4 e l 1). Não se trata de buscar a unidade a qualquer preço. O
diálogo ecumênico deve ser alimentado pela oração ´ definida pelo Concílio
Vaticano II ´, como a alma de todo movimento ecumênico. Este diálogo, que
somente tem sentido se for uma busca sincera da verdade, poderá nos pedir que
deixemos de lado elementos secundários que poderiam constituir um obstáculo de
ordem psicológica para nossos irmãos de distintas denominações religiosas. Mas
nunca será verdadeiro, autêntico, se implicar na mais mínima mutilação duma
verdade da fé, no abandono da legítima expressão da piedade tradicional do povo
cristão ou no enfraquecimento das exigências de séculos da disciplina
eclesiástica ou das veneráveis tradições litúrgicas do Oriente, da Igreja Romana
e outras Igrejas do Ocidente. De resto, ´hoje sabemos que a unidade pode ser
realizada pelo amor de Deus, somente se as Igrejas o quiserem juntas, no pleno
respeito das várias tradições e da necessária autonomia´ (Carta ap. Orientale
lumen, 20).
Em contrapartida, para um exercício fecundo de um autêntico
ecumenismo, faz´se necessária uma adequada formação ecumênica e estruturas
pastorais ´ como as comissões ecumênicas ´ que colaborem para a promoção da
plena unidade. O ´Diretório para a aplicação dos princípios e das normas sobre o
ecumenismo´, publicado em 1993, dá indicações precisas aplicáveis às distintas
situações.
O desafio perante as seitas
3. Na área
latino´americana esta necessidade do diálogo ecumênico tem´se tornado urgente,
ao deparar´nos com o grave problema das seitas que se expandem, como uma mancha
de óleo, ameaçando fazer ruir a estrutura de fé de tantas nações.
Como é
lógico, não me refiro neste momento àquelas outras Igrejas e Comunidades cristãs
detentoras de uma base objetiva, mesmo que imperfeita, de comunhão com a Igreja
católica; estas, como declarou o Concilio Vaticano II, possuem ´elementos de
santificação e de verdade, os quais, por serem dons pertencentes à Igreja de
Cristo, impelem para a unidade católica´ (Cons. dog. Lumen gentium, 8). Mais
ainda: precisamente porque ´a ´fraternidade universal´ dos cristãos tornou´se
uma firme convicção ecumênica´ (Carta enc. Ut unum sint, 42), devemos viver,
estimular e confirmar nossa fé em busca da unidade de todos os cristãos
Certamente a expansão das seitas ´constitui uma ameaça para a Igreja
Católica e para todas as Comunidades eclesiais com quem ela mantém diálogo´
(Carta enc. Redemptoris missio, 50).
Com toda razão o Episcopado
latino´americano, reunido em Santo Domingo, apresentou em cores vivas o desafio
pastoral que hoje são as seitas em toda a América Latina. O Documento Final
descreveu com clareza e precisão estas seitas e movimentos, mostrou suas
características e modos de atuar, deixou claro os interesses políticos e
econômicos envolvidos na sua expansão em todo o Continente e apontou os desafios
pastorais e os caminhos possíveis para a vossa atuação neste campo (cf.
Conclusões da IV Conferência Geral do Episcopado Latino´Americano, nn. 139´152).
Não é agora minha intenção repetir o que todos conheceis tão bem. É
notória a intenção, por vezes virulenta, destas seitas de minar as bases da fé
do povo, de modo especial no que diz respeito ao culto do Mistério Eucarístico e
da Santíssima Virgem, à estrutura hierárquica da Igreja e ao primado de Pedro,
que perdura no pastoreio universal do Bispo de Roma, e às expressões da piedade
popular. Está claro, também, que o êxito de seu trabalho pode ser explicado pela
carência de conhecimentos religiosos do povo, devida, em boa parte, à perda da
vivência religiosa que cultivava nas pequenas cidades do interior, mas que
enfraqueceu quando migrou para a periferia das grandes cidades, num processo
quase sempre doloroso de desenraizamento cultural.
Carências doutrinais
e ignorância religiosa
4. Não se trata de uma atitude pessimista face à
situação reinante: a Igreja católica, a Esposa Imaculada de Cristo, leva em si a
garantia da perenidade que O próprio Senhor lhe assegurou (cf. Mt 28, 19);
porém, mesmo sabendo possuir, por vontade expressa de Deus, a ´plenitude dos
meios de salvação´, ou seja, ´todos os instrumentos da graça, os seus membros
não vivem com todo aquele fervor que seria conveniente´ (UR, nn. 3 e 4). Estou
certo de que esta afirmação conciliar não lhes soará como um simples eufemismo à
hora de se encararem com a realidade quotidiana do vosso povo, tão afeto para a
transcendência e para os valores cristãos da piedade e da fraternidade. Mais que
pela fria estatística levada pelo movimento pendular de um vai´e´vem de dados,
muitas vezes contraditórios entre si, sobre o número dos fiéis praticantes,
deveríamos apropriar´nos daquela questão feita na Redação Final do Sínodo
Extraordinário dos Bispos de 1985: ´A difusão das seitas não nos interroga se
tem sido manifestado suficientemente o senso do sagrado?´ (II, A.1).
Preocupa´vos, e não sem razão, o panorama de carência doutrinária e de
ignorância religiosa que deixa o vosso povo à mercê das influências perniciosas
de um ambiente onde reina o permissivismo moral, que o torna extremamente
vulnerável à sedução das seitas e dos novos grupos religiosos, especialmente
quando estes adotam normas exigentes de marcada rigidez disciplinar. O mesmo
clima de relativismo moral, que com extrema facilidade é divulgado através dos
meios de comunicação social, põe ´o homem contemporâneo sob a ameaça de um
eclipse da consciência´ de graves proporções (Angelus, 14.III.1982), haja visto
o clima rarefeito que o divórcio, as uniões ilícitas e outras deformações,
acarretam na vida familiar (cf. Const. past. Gaudium et spes, 47). Por isso,
volto a insistir que ´urge recuperar e repropor o verdadeiro rosto da fé cristã,
que não é simplesmente um conjunto de proposições a serem acolhidas e
ratificadas com a mente. Trata´se, antes, de um conhecimento existencial de
Cristo, uma memória viva dos seus mandamentos, uma verdade a ser vivida´ (Carta
enc. Veritatis splendor, 88). Nesta tarefa, vos cabe um empenho insubstituível:
a grande responsabilidade que vos incumbe de serdes ´Mestres na fé´. O
ensinamento e a mesma divulgação do Catecismo da Igreja Católica, mais não
pretende senão conservar cuidadosamente a unidade da fé e a fidelidade à
doutrina católica.
A crendice popular
5. Porém, algumas camadas
sociais são mais vulneráveis. Por um lado, existe a tendência a fazer crer em
soluções fáceis aos problemas existenciais, bastando um pensamento positivo para
apaziguar os conflitos gerados pela dor e pela morte, esquecendo´se que o
sofrimento humano não pode ser separado do pecado original, nem do ´pano de
fundo pecaminoso das ações pessoais e dos processos sociais na história do
homem´ (Carta ap. Salvifici doloris, 15). Por outro, há os que esperam uma
resposta imediata e simples às suas necessidades inclusive materiais. A busca da
saúde a qualquer preço, sem uma garantia de validade dos métodos, é um incentivo
à adesão a algumas denominações pseudo´religiosas.
Preocupa, neste
sentido, o fácil aliciamento de novos adeptos, que mesmo submetidos à pressão
psicológica de sustentar sua seita com obrigações financeiras que vão além das
próprias possibilidades, aceitam´nas passivamente com a condição de conseguir um
alívio para os seus males, recebendo promessas tão descabidas quanto temerárias,
de cura, ou mesmo de salvação, contrárias aos planos de Deus. As seitas causam
sérios prejuízos religiosos aos seus seguidores. Não se trata somente de
abandonar as suas crenças. Passado o entusiasmo das curas fictícias, verifica´se
que nem sempre retornam à fé e abraçam o indiferentismo. Mais ainda, o
indiferentismo religioso gera a incoerência nos princípios, a ponto de fazer
acreditar, falsamente, que é possível manter o nexo íntimo e vivo com a Igreja,
com o seu mistério, a sua vida e missão, conservando intacta a sua própria fé ´
nela incluída a piedade litúrgica e sacramental, o dogma e a moral cristã ´ e
freqüentar outros cultos e denominações religiosas. Deste modo, pretende´se
receber os sacramentos mesmo participando e até contribuindo financeiramente à
sustentação de ´igrejas´, cultos ou instituições filantrópicas, que pregam, por
exemplo, a reencarnação.
Mas donde provém, em última análise, esta cisão
interior do homem? Dito de outro modo, o que falta na evangelização para
assegurar a fidelidade do Povo de Deus, a caminho da Pátria definitiva?
Rever o processo evangelizador
6. Estou certo que concordareis
comigo quanto à existência de algumas lacunas no processo evangelizador das
vossas Igrejas, de resto enfatizadas este ano em Itaici pelo Episcopado
brasileiro com a chancela de urgência, ao propor dar nova vida às diversas
formas de celebração litúrgica e de comunicação da Palavra, incentivando a
conservação da qualidade pastoral das celebrações dos sacramentos (cf.
Diretrizes Gerais, 257).
E precisamente na esteira destas linhas de ação
que convém remarcar, por um lado, a perda da visibilidade de vossas comunidades
e agentes; por outro, a existência de falhas no relacionamento humano, e no
acolhimento das pessoas; enfim, como não acentuar uma certa timidez e inércia no
processo de evangelização do povo?
Em que poderia consistir a falta de
visibilidade de vossas comunidades e ministros?
Todos sabemos que
vivemos hoje num mundo onde é tão importante a comunicação pela imagem. Os
sinais externos da vida cristã, sobretudo os mais tradicionais, possuem, hoje
como ontem, um grande apelo para o vosso povo, gente simples cuja base cultural
foi tão profundamente marcada pela fé católica nestes quatro séculos de
evangelização do Brasil.
Numa das minhas Viagens Pastorais à vossa terra
´ dentre as quais não posso deixar de recordar o amado povo piauiense e cearense
´ lembro ainda que quis agradecer ao Todo´Poderoso ter enraizado tão
profundamente no coração do Povo de Deus deste País, a cruz, a Eucaristia e a
´Aparecida´ (cf. X Congresso Eucarístico Nacional de Fortaleza, 9 de julho
1980).
Compreende´se, então como o brasileiro gosta dos sinais
exteriores da fé! Ele quer ver as Igrejas com as suas características
religiosas, com as expressões autênticas da arte sacra que despertam a piedade e
levam à oração, ao recolhimento e à contemplação do mistério de Deus. Ele quer
ouvir com alegria bater os sinos de vossas Igrejas convocando´o para as
celebrações litúrgicas ou convidando´o para as orações do dia ou da tarde em
louvor da Virgem Maria! Um sino que toca ´ e tantos o emudeceram! ´ leva a
muitos ouvidos um sinal de vitalidade eclesial. Ele quer sentir nas músicas de
vossas Igrejas o apelo ao louvor de Deus, à ação de graças, à prece humilde e
confiante e se sente desconfortável quando esses cantos em sua letra envolvem
uma mensagem política ou puramente terrena, e em sua expressão musical não
apresentam a característica de música religiosa, mas são marcadamente profanos
no ritmo, na linha melódica e nos instrumentos musicais de acompanhamento. Vosso
povo se sente feliz com a beleza e a dignidade do culto litúrgico, sem pompa e
ostentação, mas digno, piedoso, que esteja realmente unido à ação litúrgica, em
sintonia com quanto definiu o Concílio Vaticano II: ´quer como expressão
delicada de oração, quer como fator de comunhão, quer como elemento de maior
solenidade nas funções sagradas´ (Cons. ap. Sacrosanctum concilium, 112).
Procurai dar um clima de piedade e dignidade às celebrações litúrgicas,
sabendo fazê´las alegres nos momentos devidos e sempre espiritualmente
confortadoras. O ministério da Palavra, que está intimamente ligado à Liturgia
Eucarística (cf. SC, 56), contenha sempre, do início ao fim, uma mensagem
espiritual. É certo que há tanta gente que não possui o suficiente para acalmar
a própria fome, mas, ordinariamente, o povo tem mais fome de Deus que do pão
material, pois entende que ´não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que
sai da boca de Deus´ (Mt 4, 4). Ver a Igreja como Igreja, e não simples
promotora da reforma social. Este é um dever que promana da Fé e não prévia
exigência para uma posterior pregação do Evangelho. Assim, e não distintamente,
pode´se entender aquelas palavras do Concílio Vaticano II: ´É tão grande a força
e a virtude da palavra de Deus que se toma o apoio vigoroso da Igreja, solidez
da fé para os filhos da Igreja, alimento da alma, fonte pura e perene de vida
espiritual´ (Cons. dog. Dei Verbum, 21).
Vosso povo, caríssimos irmãos
no episcopado, quer ver os padres como verdadeiros Ministros de Deus, inclusive
na sua veste e no seu modo externo de proceder. Ele quer ver o homem de Deus nos
ministros de sua Igreja, uma presença que lhes inspire amor, respeito,
confiança. O povo tem direito e isso pode exigi´lo de seus pastores. O que os
homens querem, o que esperam é que o sacerdote com o seu testemunho de vida e
com sua palavra, lhes fale de Deus. O caráter conferido pelo sacramento da
Ordem, permite que o sacerdote atue ´em nome de Cristo cabeça´ (Presbyterorum
ordinis, 2), participando da autoridade com que Cristo governa a sua Igreja; por
outro lado, o ministro sagrado é chamado a exercer o ´poder da Ordem para
oferecer o Sacrifício, perdoar os pecados e exercer publicamente o oficio
sacerdotal em nome de Cristo a favor dos homens´ (ibid., 3). Por isso, convém
que ambas as notas do sacerdócio ministerial conservem sempre seu justo apreço,
tendo em vista que ´numa sociedade secularizada e de tendência materialista
(...) sente´se particularmente a necessidade de que o presbítero ´ homem de Deus
dispensador dos Seus mistérios ´ seja reconhecível pela comunidade, também pelo
hábito que traz, como sinal inequívoco da sua dedicação e da sua identidade de
detentor de um ministério público´ (Diretório para o ministério e a vida dos
presbíteros, 66).
O testemunho da união e da caridade
7. Cabe
agora considerar um outro aspecto, de não menor importância. Trata´se do
relacionamento das pessoas e do modo de acolhimento no seio de vossas
comunidades. A Igreja é a casa do Pai. O vínculo maior de união dos membros da
Igreja é o amor, o amor de Deus que se desdobra no amor ao próximo. Foi
precisamente este amor fraterno que deu uma enorme capacidade evangelizadora às
comunidades primitivas da Igreja através de seu testemunho de vida em comum.
O que vale para todos os povos, tem uma importância fundamental para
vosso povo. Ele é antes de tudo cordial. Ele, na sua carência afetiva, necessita
sentir´se querido e acolhido. O povo é muito sensível ao ambiente em que se
encontra. Ele espera ver alegria, simplicidade e calor humano. O ser católico,
por maior razão, diante do surgimento das seitas, requer uma atitude de
caridade: ´caridade para com o interlocutor, humildade para com a verdade que se
descobre e que poderia exigir revisão de afirmações e de atitudes´ (Carta enc.
Ut unum sint, 36). Não se trata de recorrer a ataques pessoais, ou assumir
posições contrárias ao espírito do Evangelho. Poderia servir de experiência o
que foi proposto como lema pastoral numa das vossas Dioceses: ´acolher para
evangelizar´. Importa dar atenção pessoal a quem procura a Igreja, manter´se
disponíveis, como sinal de consideração, escuta e abrigo a necessitados de
amparo espiritual. Sem dúvida, vosso trabalho evangelizador teria um grande
crescimento, se em vossas comunidades fosse incentivado aquilo que oportunamente
definis como ´ministério da acolhida´ das pessoas, facilitando o atendimento, e
exigindo dos padres e de seus colaboradores uma atitude serena e cordial.
Ir ao encontro do Povo
8. Finalmente, onde encontraríamos a
falta de ardor e de iniciativa no anúncio evangélico?
A evangelização a
que a Igreja está sendo chamada neste final de milênio deve ser, como tantas
vezes tenho repetido, nova em seu ardor, seus métodos e sua expressão. Este
ardor, como falei em Santo Domingo, ´supõe uma fé sólida, uma intensa caridade
pastoral e uma fidelidade robusta que, sob a ação do Espírito, gerem uma
mística, um entusiasmo incontido no trabalho de anunciar o Evangelho. Na
expressão do Novo Testamento, é a ´parresia´ que inflama o coração do apóstolo´
(Discurso inaugural, 10).
Chama a atenção o proselitismo a qualquer
custo, o entusiasmo dos agentes das seitas e de alguns movimentos
pseudo´espirituais. Não estaria havendo uma certa acomodação deixando de ir em
busca das ovelhas que estão afastadas? Ao contrário da parábola evangélica, não
é uma e outra que está tresmalhada, mas é uma parte do rebanho.
Por
isso, quis salientar no 25 aniversário do Decreto conciliar Ad gentes, que o
´anúncio tem a prioridade permanente na missão (...). Na realidade complexa da
missão, o primeiro anúncio tem um papel central e insubstituível, porque
introduz ´no mistério do amor de Deus, que, em Cristo, nos chama a uma estreita
relação pessoal com Ele´ e predispõe a vida para a conversão´ (Carta enc.
Redemptoris missio, 44). Precisamente porque ´o amor de Cristo nos constrange´
(2 Cor 5, 14), a ´missão é um problema de fé, é a medida exata da nossa fé em
Cristo e no Seu amor por nós´ (RM, 11).
Isso mostra, caríssimos irmãos,
que não basta chamar, convocar e esperar que as pessoas venham. Como diz outro
lema da ação pastoral de uma das vossas Dioceses, deveis ser ´uma Igreja que vai
ao encontro do Povo´! Deveis ser uma Igreja que procure as pessoas, que as
convide não somente no chamado geral dos meios de comunicação, mas no convite
pessoal, de casa em casa, de rua em rua, num trabalho permanente, respeitoso mas
presente em todos os lugares e ambientes.
Para isso é importante contar
com a generosidade dos fiéis leigos. Refiro´me, de modo especial, àqueles que
procuram viver de modo mais intenso a sua consagração batismal quer
pessoalmente, quer nas tradicionais associações religiosas ou nos novos
movimentos leigos que, sob a ação do Espírito Santo, vão surgindo na Igreja.
Contai, respeitai o seu caminho espiritual mas não deixeis de convocá´los para o
trabalho evangelizador.
A nova evangelização
9. A vossa tarefa é
um desafio missionário: preparar a Igreja do terceiro milênio, retomando a
iniciativa da nova evangelização mediante esforços redobrados. A luz do
mandamento do amor, venerados irmãos no episcopado, sede apóstolos intrépidos da
verdade e construtores de uma comunidade fraterna, permanecendo na escuta
d\'Aquele que vos consagrou (cf. Is 61, 1), a fim de testemunhardes com
misericórdia a benevolência divina para convosco.
O Espírito do
Redentor, que vos guiou até agora, não vos deixará sozinhos perante estes
desafios. A vossa visita ad Limina felizmente salienta a vossa união com o Bispo
de Roma e a vossa pertença ao Colégio episcopal: oxalá isto vos sirva de apoio!
Queria pedir´vos que transmitísseis os meus encorajamentos afetuosos a
todos os servidores do Evangelho das vossas Dioceses: aos sacerdotes, aos
religiosos e às religiosas, aos leigos que assumem responsabilidades e
desempenham muitas tarefas em benefício da Comunidade, assim como a todos os
fiéis.
Confio à Virgem Mãe, Nossa Senhora Aparecida, os projetos, as
esperanças e as dificuldades da hora atual da Nação. Nesta perspectiva, invoco a
Bênção do Senhor sobre vós, sobre os sacerdotes, os religiosos, as religiosas e
os leigos desta Terra da Santa Cruz, que me é muito querida.
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