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Como a Igreja foi fundada por Jesus
para levar os homens à salvação, pelo ´conhecimento da verdade´ (1 Tm 3,15),
então, o Senhor garantiu a ela a infalibilidade naquilo, e só naquilo, que se
refere à salvação dos fiéis; isto é, nos ensinamentos doutrinários. Assim, a
mensagem do Evangelho não ficaria à mercê da manipulação dos homens, como sempre
se tentou na história da Igreja. Sem a garantia da infalibilidade para o
Magistério da Igreja, podemos dizer que teria sido inútil a Revelação Divina,
pois ela seria deteriorada ao chegar até nós, e não teria a força da
salvação.
O Papa João Paulo II ao apresentar o novo Catecismo disse :
´Guardar o depósito da fé é a missão que o Senhor confiou à Sua Igreja e que ela
cumpre em todos os tempos´ (FD, introdução). Esta é portanto ´a missão´ sagrada
que a Igreja recebeu do Senhor: ´guardar o depósito da fé´, intacto; e isto a
Igreja sempre fez e faz. É com esta finalidade que a Santa Sé possui a ´Sagrada
Congregação Para a Doutrina da Fé ´, encarregada de zelar pela pureza da
doutrina em todo o mundo católico. Infelizmente essa Sagrada Congregação, da
maior importância para a Igreja e para a nossa salvação, muitas vezes é
criticada dentro da própria Igreja, especialmente quando ela chama a atenção
daqueles teólogos que começam a caminhar fora da doutrina da Igreja, confirmada
pelo Espírito Santo em toda a caminhada de dois mil anos da Igreja. Mas é
preciso dizer que essa Congregação é de inteira confiança do Papa, assim como as
demais. Assim ele se expressou aos seus membros, no encerramento da Assembléia
Plenária dessa Congregação, no dia 24 de novembro de 1995: ´O vosso trabalho, em
muitos aspectos difícil e empenhativo, é de importância fundamental para a vida
cristã. Com efeito, ele tem por objetivo a promoção da integridade e da pureza
da fé, condições essenciais para que os homens e as mulheres do nosso tempo
possam encontrar a luz para entrar na via da salvação´ [LR, Nº 50, 16/12/95,pag
14(614)].
A Igreja tem a missão de fazer ´resplandecer a verdade do
Evangelho´, disse o Papa. ´Ao Concílio, o Papa João XXIII tinha confiado como
tarefa principal guardar e apresentar melhor o precioso depósito da doutrina
cristã ...´ (FD, Introdução). A grande preocupação da Igreja sempre foi ser fiel
ao seu Senhor, guardando intacto aquilo que dEle recebeu, o ´depositum fidei´
(depósito da fé), ou, como dizia São Paulo a Timóteo e a Tito, a ´sã doutrina´.
Podemos notar que nas Cartas pastorais que São Paulo escreveu a S.Timóteo e a
S.Tito, a quem ordenou bispos, a grande preocupação do Apóstolo é com a
doutrina, para que essa não se corrompesse com o passar do tempo e com a
transmissão oral ou escrita. Veja essas passagens: ´Torno a lembrar´te a
recomendação que te dei...para impedir que certas pessoas andassem a ensinar
doutrinas extravagantes...´(1Tm1,3).
´Recomenda esta doutrina aos irmãos,
e serás bom ministro de Jesus Cristo, alimentando com as palavras da fé e da sã
doutrina...(1Tm4,6). ´Quem ensina de outra forma... é um obcecado pelo orgulho,
um ignorante...(1Tm6,3´4). ´O´ Timóteo, guarda o bem que te foi
confiado!´(1Tm6,20). ´Guarda o precioso depósito!´ (2Tm1,14). ´Porque virá tempo
que os homens já não suportarão a sã doutrina da salvação´ (2Tm4,3). A S.Tito,
vemos as mesmas recomendações de S.Paulo. Falando das qualidades que deve ter o
bispo, ele diz: ´...firmemente apegado à doutrina da fé tal como foi ensinada,
para poder exortar segundo a sã doutrina e rebater os que a contradizem´(Tt
1,9). ´O teu ensinamento, porém, seja conforme a sã doutrina...(Tt 2,1).
´...mostra´te em tudo modelo de bom comportamento: pela integridade da
doutrina,...´(Tt 2,7). ´Certa é esta doutrina, e quero que a ensines com
constância e firmeza...(Tt 3,8). Na sua grande preocupação com a sã doutrina,
S.Paulo diz aos gálatas, com toda severidade: ´Não há dois evangelhos: há
pessoas que semeiam a confusão entre vós e querem perturbar o Evangelho de
Cristo. Mas, ainda que alguém ´ nós, ou um anjo baixado do céu ´ vos anunciasse
um evangelho diferente do que vos temos anunciado, que ele seja anátema
[maldito]. Repito aqui o que acabamos de dizer: se alguém pregar doutrina
diferente da que recebestes, seja ele excomungado!´(Gal 1,7´10).
Ao longo
da sua história a Igreja realizou 21 Concílios Ecumênicos (universais) para
manter intacta essa ´sã doutrina´. Foram muitas vezes momentos difíceis para a
Igreja, porque, por não aceitar a verdade muitos irmãos se separaram da unidade
católica; mas foram momentos de luzes para a caminhada da Igreja. Falando desses
Concílios, disse o Papa João Paulo II: ´Os grandes Concílios foram momentos de
graça para a vida da Igreja universal ... Eles representam um ponto de
referência indiscutível para a Igreja universal´. ´Esses foram momentos de
graça, através dos quais o Espírito de Deus concedeu luzes abundantes sobre os
mistérios fundamentais da fé cristã´ (LR, nº 28, 13/7/96). É sobretudo nos
Concílios que a Igreja exerce a sua infalibilidade em matéria de fé e de moral.
Não se conhece na história da Igreja (de 2000 anos!) uma verdade da fé que um
dos Concílios, legítimos, tenha ensinado e que outro tenha revogado. Essa
ocorrência doutrinária é uma prova da infalibilidade, já que o Espírito Santo, o
grande Mestre da Igreja, não se contradiz. Ele não pode revelar à Igreja uma
verdade hoje, que seja diferente, na essência, daquilo que Ele revelou
ontem.
Um dia Jesus disse aos Apóstolos : ´Em verdade vos digo: tudo o
que ligardes sobre a terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes sobre a
terra será desligado no céu´ (Mt 18,18).
Essa mesma grande promessa que
Ele já tinha feito a Pedro, como Cabeça visível da Igreja (cf Mt 16,18), estende
para todo o Colégio Apostólico unido e submisso a Pedro. E ainda mais, Jesus
disse aos Apóstolos: ´Quem vos ouve, a Mim ouve, e quem vos rejeita, a Mim
rejeita, e quem Me rejeita, rejeita Aquele que Me enviou´ (Lc 10,16). Depois
dessa promessa, como não entender a infalibilidade da Igreja? Jesus garante que
a palavra da Igreja é a Sua palavra. Quem rejeita o ensinamento dos Apóstolos,
rejeita o próprio Senhor e o Pai que o enviou. Isto é muitíssimo sério. Rejeitar
o que ensina a Igreja é rejeitar o que Jesus ensina, é rejeitar o que o Pai
ensina; é rejeitar Jesus e o Pai.
Antes de voltar ao Céu, na Ascensão,
Jesus disse aos Apóstolos (à Igreja):
´Toda autoridade me foi dada no céu
e na terra. Ide, pois, e ensinai a todas as nações ... Ensinai´as a observar
tudo o que vos prescrevi´ (Mt 28, 19´20).
Jesus envia a Igreja, que
nascia com os Apóstolos, a ´ensinar a todas as nações´ a Sua doutrina. Sabemos
que Deus sempre dá a graça necessária para se poder cumprir uma missão que Ele
ordena. A graça, neste caso, foi a assistência do Espírito Santo para que a
Igreja ensinasse sem erro. Antes de subir ao céu o Senhor garantiu:
´Eis
que estarei convosco todos os dias até o fim do mundo´ (Mt 28,20).
Esta é
a última frase do Evangelho de S. Mateus, e ela nos garante que o próprio Senhor
está no seio da sua Igreja, através do Espírito Santo, prometido e enviado em
Pentecostes, para impedi´la de errar em matéria fundamental para a salvação dos
homens. Para aceitar que a Igreja, nesses 2000 anos possa ter errado o ´caminho
da salvação´, e desvirtuado o Evangelho, como querem os protestantes, seria
preciso aceitar antes, que Jesus a abandonou, e não cumpriu a Promessa de estar
sempre com a Igreja até o fim do mundo. Mas isto jamais; Jesus é fiel e ama a
sua Igreja como Esposa, com amor indissolúvel, pela qual deu a Sua vida. Disse
São Paulo que ´Cristo amou a Igreja e se entregou por ela´ (Ef
5,25).
Como então, admitir que a Igreja errou o caminho da salvação como
quiseram os protagonistas da Reforma Protestante? É muito importante notar o que
São Paulo disse a S. Timóteo: ´Deus quer que todos se salvem, e cheguem ao
conhecimento da verdade´ (1 Tm 2,4).
Para o Apóstolo, chegar à salvação é
o mesmo que ´chegar ao conhecimento da verdade´. É essa verdade (a sã doutrina),
que Jesus confiou aos Apóstolos, e lhes incumbiu de ensinar a todas as nações,
que leva à salvação.
Em seguida S. Paulo vai dizei ao seu discípulo fiel
que: ´A Igreja do Deus vivo é a coluna e o sustentáculo da verdade´ (1 Tm 3,15).
Dizer que a Igreja é a ´coluna e o sustentáculo da verdade´, é o mesmo que dizer
que sem ela a verdade não fica de pé, não se sustenta. É o mesmo que dizer que a
Igreja é infalível, através do seu Magistério. Sem ela a doutrina de Jesus não
teria chegado intacta até nós. Como disse Teilhard de Chardin: ´Sem a Igreja, o
Cristo se evapora, se esfacela ou se anula´. São Paulo e os demais apóstolos
tiveram uma grande preocupação com a ´sã doutrina´, o sagrado depósito que
receberam diretamente de Cristo e passaram a seus sucessores. Jesus insistiu
sobre a importância da Verdade. Disse a Pilatos, que Ele veio ao mundo ´para dar
testemunho da verdade´ (Jo 18,37).
Aos judeus que nele creram ele
disse:
´Se permanecerdes na minha palavra, sereis meus verdadeiros
discípulos; conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará´ (Jo 8,32). Aos
discípulos Ele afirmou:
´Eu sou a Verdade´ (Jo 14,6). Na oração
sacerdotal Ele pede ao Pai: ´Santifica´os na verdade´ (Jo 17,17). São Paulo
alerta os tessalonicenses que aqueles que se perderem diante das tribulações que
a Igreja terá que atravessar antes da volta do Senhor, será ´por não terem
cultivado o amor à verdade que os teria podido salvar´(2Tes 2,10). ´Desse modo,
serão julgados e condenados todos os que não deram crédito à verdade, mas
consentiram no mal´ (2 Tes 2,12). São Paulo deixa claro aqui que se perderão
aqueles que diante das falsas doutrinas, preferirem os ensinamentos dos homens à
verdade de Deus, ensinada pela Igreja. ´Não deram crédito à verdade´. É preciso
relembrar aqui, mais uma vez o que disse o Apóstolo: ´A Igreja do Deus vivo é a
coluna e o sustentáculo da verdade´(1Tm3,15). Não existe portanto ninguém, e
nenhuma outra instituição, fora da Igreja católica, que detenha a verdade
infalível, em matéria de fé e de moral.
Todas essas passagens mostram a
importância da verdade, a qual vivida, liberta do mal e salva. É essa verdade
que Jesus garantiu à Igreja ensinar sem erro até o fim do mundo.} E o nosso
Catecismo, com todas as letras, confirma isso: ´Deus quer a salvação pelo
conhecimento da verdade. A salvação está na verdade. Os que obedecerem à moção
do Espírito de verdade já estão no caminho da salvação; mas a Igreja, a quem
esta verdade foi confiada, deve ir ao encontro do seu anseio levando´lhes a
mesma verdade´ (CIC, 851). Sobre onde está a verdade de Deus, nos ensina Santo
Ireneu (†202), desde o segundo século da Igreja: ´Sendo nossas provas de tal
monta, não é preciso ir procurar alhures a verdade, tão fácil de se haurir na
Igreja, pois os apóstolos, como num rico celeiro, aí depuseram a verdade, em sua
plenitude, a fim de que todo o que desejar tire dela a bebida da vida. Nela está
o acesso à vida; todos os demais são salteadores e ladrões. Por isto é
necessário evitá´los, e de outro lado amar com extremo amor tudo o que é da
Igreja, retendo fortemente a tradição da verdade´(Contra as Heresias,
liv.1.III,1,1´2; 3,1´3; 4,1).
O mesmo Santo Ireneu, no combate acirrado
contra os hereges gnósticos, falava da infelicidade dos que abandonam a verdade
e a Igreja:
´A pregação da Igreja apresenta por todos os lados firme
solidez, perseverando idêntica e beneficiando´se, como pudemos mostrar, com o
testemunho dos profetas, apóstolos e seus discípulos, testemunho este que
engloba o começo, o meio e o fim, isto é, a totalidade da ´economia´ de Deus e
de sua operação infalivelmente ordenada à salvação do homem, fundamento de nossa
fé. Eis porque esta fé, que recebemos da Igreja, guardamos com cuidado, como um
depósito de grande valor, encerrado em vaso excelente e que, sob a ação do
Espírito de Deus, se renova e faz renovar o próprio vaso que a contém. Pois como
fora entregue o divino sopro ao barro modelado, foi confiado à Igreja o ´Dom de
Deus´(Jo 4,10), afim de que todos os seus membros pudessem dele participar e ser
por ele vivificados. À Igreja foi entregue a comunhão com Cristo, isto é, o
Espírito Santo, penhor da incorruptibilidade, confirmação de nossa fé e escada
de nossa ascensão para Deus: ´na Igreja´, foi dito, ´Deus colocou apóstolos,
profetas, doutores´ (1Cor12,1) e tudo o mais que pertence à operação do
Espírito. Deste Espírito se excluem os que, recusando´se a aderir à Igreja, se
privam a si mesmos da vida, por suas falsas doutrinas e depravadas ações. Porque
onde está a Igreja está o Espirito de Deus, e onde está o Espírito de Deus está
a Igreja e toda graça. Ora, o Espírito é Verdade. Assim, os que dele não
participam são também os que não estão sendo nutridos e vivificados pelos peitos
da Mãe, os que não têm parte na fonte límpida que brota do Corpo de Cristo, os
que ´escavam cisternas dessecadas´(Jr2,13), buracos na terra, os que bebem a
água poluída do pantanal. Eles fogem da Igreja para não serem desmascarados e
rejeitam o Espírito para não serem instruídos. Tornando´se estranhos à verdade,
é fatal que se precipitem em todo erro e pelo erro sejam sacudidos; fatal que
pensem a cada momento diversamente sobre as mesmas coisas, nunca tendo doutrina
estável, sendo sofistas de palavras mais que discípulos da verdade. Porque não
estão fundados sobre a única Rocha, mas sobre a areia, a areia dos muitos
saibros´ (Contra as Heresias, liv.III,24,1). Na mesma linha de pensamento de
Santo Ireneu, afirmava também o grande Santo Epifânio (†403), grande batalhador
contra as heresias:
´ ´Há um caminho real´, que é a Igreja católica, e
uma só senda da verdade. Toda heresia, pelo contrário, tendo deixado uma vez o
caminho real, desviando´se para a direita ou para a esquerda, e abandonada a si
mesma por algum tempo, cada vez mais se afunda em erros. Eia, pois, servos de
Deus e filhos da Igreja santa de Deus, que conheceis a regra segura da fé, não
deixeis que vozes estranhas vos apartem dela nem que vos confundam as pretensões
das erroneamente chamadas ciências´ (Haer.59,c. 12s). Também São Vicente de
Lerins (†450) da mesma época dos anteriores citados, também ele combatente da
heresia pelagiana, afirma:
´Perguntando eu com toda atenção e diligência
a numerosos varões, eminentes em santidade e doutrina, que norma poderia achar,
segura, enquanto possível genérica e regular, para distinguir a verdade da fé
católica da falsidade da heresia, eis a resposta constante de todos eles: quem
quiser descobrir as fraudes dos hereges nascentes, evitar seus laços e
permanecer sadio e íntegro na sadia fé, há de resguardá´la, sob o auxílio
divino, duplamente: primeiro com a utoridade da Lei divina, e segundo, com a
tradição da Igreja Católica´ (Commonitorium). Santo Agostinho (†430), também
deixa o seu testemunho: ´Parece´me salutar fazer essas recomendações aos jovens
estudiosos, inteligentes e tementes a Deus, que procuram a vida bem´aventurada:
que não se arrisquem sob o pretexto de tender à vida feliz e que não se dediquem
temerariamente a seguir doutrina alguma das que se praticam fora da Igreja de
Cristo´. Na última vez que Jesus esteve com os seus Apóstolos, na última Ceia,
na hora do adeus, antes de sofrer a sua paixão, garantiu´lhes a infalibilidade
para conhecer e ensinar a verdade que salva. Desde o capítulo 13 até o 17 São
João narra no seu Evangelho tudo o que aconteceu naquela Ceia memorável onde o
Senhor instituiu o Sacerdócio e a Eucaristia. Esses cinco capítulos (13 a 17)
revestem´se de uma importância especial, já que são as ´últimas palavras e
recomendações´ de Jesus à Igreja. É fácil compreender a sublimidade desta hora.
Pois bem, nesta noite sagrada o Senhor lhes garante a infalibilidade por três
vezes, segundo narra São João, testemunha ocular daqueles acontecimentos. Jesus
começa dizendo aos Apóstolos: ´Eu rogarei ao Pai e Ele vos dará um outro
Advogado, para que fique eternamente convosco. É o Espírito da verdade, que o
mundo não pode receber, porque não o vê, nem o conhece; mas vós o conhecereis,
porque permanecerá convosco e estará em vós´(Jo 14,16´17).
Que garantia
maior de infalibilidade Jesus poderia ter dado à Sua Igreja, do que deixando
nela o seu próprio Espírito, que Ele chama de Espírito da Verdade? Se Ele
permanecerá com a Igreja, como ela poderia errar em matérias essenciais `a
salvação? É preciso notar que Jesus disse que o Espírito Santo seria dado ´para
que fique eternamente convosco´. E garantiu ainda que Ele ficaria com a Igreja e
estaria na Igreja. ´Permanecerá convosco e estará em vós´. Para aceitarmos que a
Igreja tenha errado o caminho da verdade, como quiseram Lutero e seus
seguidores, depois de 1517 anos, seria preciso antes concordar que o Espírito
Santo, ´o Espírito da Verdade´, tenha abandonado a Igreja. Mas isto jamais
poderia ter acontecido, pois Ele foi dado para ficar ´eternamente convosco´. As
promessas de Jesus para a Sua Igreja são infalíveis, porque Jesus não é um
farsante e nem um mentiroso. Naquela hora memorável que antecedia a Sua paixão,
Ele não estava brincando com os seus Apóstolos e com a Sua Igreja. Ele se
despedia dela com as suas últimas e mais importantes promessas, para em seguida
sofrer, por amor a ela, a sua dolorosa paixão. Infelizmente o orgulho e a
soberba espiritual cegam os olhos da alma e não deixam que suas vítimas
enxerguem essa verdade. Em que pese os pecados dos seus filhos, mesmo assim, a
Igreja jamais perdeu o domínio da verdade. Infalibilidade, é preciso repetir
mais uma vez, não quer dizer impecabilidade. Naquela mesma noite memorável Jesus
diz mais uma vez aos Apóstolos:
´Disse´vos estas coisas enquanto estou
convosco. Mas o Advogado, o Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome,
ensinar´vos´á TODAS as coisas, e vos recordará TUDO o que vos tenho dito´ (Jo
14,25´26). Que garantia maior de infabilidade Jesus poderia ter dado à Igreja do
que essa Promessa de que o Espírito Santo ´ensinar´vos´à todas as coisas, e vos
recordará tudo o que vos tenho dito´? Como, então, a Igreja poderia se enganar?
Para aceitar a Reforma Protestante, que negou ´quinze séculos´ de caminhada da
Igreja, guiada dia a dia pelo Espírito Santo, seria preciso aceitar antes, que
Jesus enganou a Sua Igreja, mentiu para ela e não cumpriu a promessa de
assistí´la sempre com a Verdade. Mas isto nunca! Jesus é o Esposo da Igreja; Ele
deu a sua vida por ela (Ef 5,25), e jamais a abandonou nem a abandonará até o
fim dos tempos. ´Eis que estou convosco todos os dias até o fim do mundo!´ (Mt
28,18).
A Reforma protestante negou os dogmas, os sacramentos, a Igreja
como instituição divina, a Sagrada Tradição, o Sagrado Magistério, a Sagrada
Hierarquia, as sagradas devoções católicas, enfim, toda a Tradição apostólica
(de quinze séculos !), testemunhada pelo sangue dos Mártires e dos Confessores e
confirmada pelos Papas. Será que os Apóstolos se enganaram? Será que os
mártires, testemunhas de Cristo com o próprio sangue, se enganaram? Será que os
Santos Padres nos mentiram? Será que os santos doutores erraram o caminho da
fé?... É interessante notar que hoje muitos pastores protestantes estão se
convertendo ao Catolicismo. A Revista americana ´Sursum Corda!´ Special Edition
1996 informa que nos últimos dez anos cerca de cincoenta pastores americanos se
converteram, sendo que muitos outros estão a caminho da Igreja Católica. As três
causas mais frequentes apontadas por eles são: 1 ´ o subjetivismo doutrinário
que reina entre as várias denominações protestantes, em consequência do
princípio ´a Bíblia como única fonte da fé´, e do seu ´livre exame´ por cada
crente, o que dá margem a muitas interpretações diferentes para uma mesma
questão de fé e de moral; 2 ´ o re´estudo dos escritos dos Santos Padres,
aqueles que contribuíram decididamente para a formulação correta da doutrina
católica: a Santíssima Trindade, Jesus Cristo, a Igreja, os Sacramentos, a
graça, etc..., e que vão desde os apóstolos até S. Gregório Magno (†604) no
Ocidente, e até S. João Damasceno (†749) no Oriente; 3 ´ a definição do Cânon da
Bíblia, isto é dos seus livros, que não é deduzida da própria Bíblia, mas da
Tradição oral da Igreja. É a Igreja que abona a Bíblia e não o contrário. A
análise profunda desses pontos têm mostrado a muitos pastores os enganos do
protestantismo (PR, n.419,abril de 97, pp.146 a 160). Aí está a garantia de tudo
que a Igreja ensina e que o Espírito Santo, o Seu Mestre, lhe ensinou nestes 20
séculos: os dogmas do Credo, as verdades sobre a Virgem Maria, os Sacramentos, a
Moral católica, etc. Repito mais uma vez, com toda a convicção: negar que os
ensinamentos do Magistério da Igreja são verdadeiros, é o mesmo que negar as
promessas de Jesus aos Apóstolos na última Ceia.
Enfim, pela terceira
vez, naquela Ceia inesquecível, o Senhor afirma mais uma vez à sua Igreja, de
maneira mais forte ainda: ´Muitas coisas ainda tenho a dizer´vos, mas não as
podeis suportar agora. Quando vier o Advogado, o Espírito da Verdade,
ensinar´vos´á TODA a verdade...´(Jo 16,12). Que promessa maravilhosa de Jesus
para a Igreja! ´O Espírito da Verdade ensinar´vos´á TODA a verdade´. Naquela
hora Jesus sabia que os Apóstolos já não tinham mais condições psicológicas para
aprenderem novos ensinamentos. ´Muitas coisas ainda tenho a dizer´vos´. Isso
mostra claro que Jesus não ensinou tudo para os Apóstolos, mas deixou o Espírito
Santo para conduzi´los ´a toda a verdade´. Com o passar dos anos e dos séculos,
com muita oração, meditação, Concílios e provações, o Espírito Santo foi
guiando, e vai guiando hoje, a Igreja, a descobrir, lentamente, ´toda a
verdade´. Não apenas uma parte da verdade, mas ´TODA a verdade´. São Vicente de
Lerins (†450), afirmava: ´É necessário que cresçam e vigorosamente progridam a
compreensão, a ciência e a sabedoria da parte de cada um e de todos, seja de um
só homem como de toda a Igreja, à medida que passam as idades e os séculos´
(Communitorium). Vemos assim que, de maneira muito marcante, na última noite, na
hora solene do Adeus, Jesus garantiu à Igreja a assistência infalível do
´Espírito da Verdade´ para conduzi´la sempre à verdade que liberta e salva. ´Eu
rogarei ao Pai e Ele vos dará um outro Advogado, para que fique eternamente
convosco´( Jo 14,16). O grande Santo Ireneu (†202), que combateu com zelo as
heresias do seu tempo, nos assegura: ´É realmente verdadeira e firme a pregação
da Igreja, onde aparece a única via de salvação em todo o mundo. Com efeito à
Igreja foi confiada a luz de Deus, e portanto a ´sabedoria´ de Deus, pela qual
Ele salva os homens.... Por toda a parte a Igreja anuncia a verdade: ela é o
candelabro de sete luzes ( Ap 2,1) que transporta a luz de Cristo...convém
refugiar´se na Igreja e ser educado em seu grêmio, nutrido com as santas
Escrituras do Senhor. Pois a Igreja está plantada neste mundo como o Paraíso.´ (
Contra as Heresias, liv. V, cap. 20). Meu irmão católico, saiba que Jesus não
poderia ter deixado um tesouro maior para a Igreja do que a sua doutrina, o
´depósito da fé´, com a garantia de que jamais ele seria corrompido, por causa
da assistência do Espírito Santo. É por isso que podemos garantir, em Nome do
Espírito Santo, que o Catecismo da Igreja, os documentos dos Concílios, os
ensinamentos dos Papas, são a mais pura verdade de Deus. É por isso que o
Apóstolo garante:
´A Igreja é a coluna e o sustentáculo da verdade´ (1Tm
3,15). O bom católico, o católico fiel e convicto, não pode duvidar de nada que
a Santa Igreja Católica ensina. São maus filhos da Igreja aqueles que discordam
dos seus ensinamentos oficiais. Discordar da Igreja nesses pontos é o mesmo que
discordar de Jesus e desconfiar da assistência infalível que o Espírito Santo
presta à Igreja, por promessa de Jesus. Longe, muito longe de nós esta terrível
tentação. Quando a Igreja nos ensina qualquer verdade de fé ou de Moral, é
porque ela estudou muito a fundo a questão, orou muito sobre isto, perscrutou o
que o Espírito Santo lhe tinha a dizer, antes de nos ensinar. As verdades
reveladas, muitas vezes incompreensíveis para quem não estudou teologia, não
devem ser para nós motivo de discordância ou de desconfiança, por se tratarem de
dogmas. Pelo contrário, todo e qualquer ensinamento do Magistério da Igreja deve
ser recebido com gratidão e alegria, e imediatamente colocado em prática, como
algo vindo a nós do próprio Jesus. É lamentável que muitos católicos se deixem
abalar quando pessoas de outras religiões neguem as verdades de nossa fé,
solidamente consolidadas. Eis aí uma questão que nos deve fazer estudar e
aprofundar a nossa fé. São Pedro já dizia aos cristãos do seu tempo: ´Estai
preparados para apresentar aos outros a razão da vossa esperança´ (1Pe3,15).
Gostaria de insistir neste ponto: mesmo que eu não compreenda bem aquilo que a
Igreja nos ensina, devo acatar de imediato, e buscar compreender o que significa
o que nos foi ensinado. Certa vez o Cardeal Ratzinguer disse que os dogmas de
nossa fé não são cadeias, ao contrário, são ´janelas que se abrem para o
infinito´. É lamentável que vez ou outra surja um teólogo moderno (mais moderno
do que verdadeiramente teólogo!), ousando desafiar a perenidade do dogma ou
contestando a sua verdade. É preciso compreender que infalibilidade não quer
dizer impecabilidade. Sabemos que há pecados entre os membros da Igreja, contra
a sua vontade, mas isto não impede que ela seja infalível quando conduz os seus
filhos no caminho da verdade que salva. Mediante o Espírito Santo, enviado por
Jesus à Igreja, de maneira permanente, Ele garante ao Papa não cometer erros de
doutrina, quando ensina ´ex´cátedra´, isto é, em caráter decisivo e definitivo,
alguma matéria de fé ou moral. Sobre os pecados dos filhos da Igreja, de todos
os tempos, Santo Agostinho nos ensina a não nos deixarmos abater por causa
deles: ´Não vos enganeis irmãos. Se não quereis sofrer uma decepção e desejais
amar vossos irmãos com sinceridade, sabeis que todos os estados e profissões da
Igreja têm sua porcentagem de farsantes... Há cristãos falsos, mas há também os
irrepreensíveis´. A infalibilidade não se estende aos assuntos científicos:
física, química, matemática, astronomia, etc. Somente nos assuntos de fé e de
moral, propostos aos fiéis como obrigatórios, é a que Igreja goza da assistência
infalível do Espírito Santo. Exemplos disso são os dogmas proclamados pelos
Papas ou por algum Concílio. Por exemplo, em 1854, o Papa Pio IX proclamou o
dogma da Imaculada Conceição de Nossa Senhora; em 1950, o Papa Pio XII proclamou
o dogma da Assunção de Nossa Senhora ao Céu, de corpo e de alma; em 22/05/94, o
Papa João Paulo II pronunciou em caráter definitivo e irrevogável, através da
Carta Apostólica ´Ordinatio Sacerdotalis´, a proibição de ordenação sacerdotal
de mulheres: Assim se expressou o Papa, nesse caso: ´Para que seja excluída
qualquer dúvida em assunto de máxima importância, que pertence à própria
constituição da Igreja divina, em virtude do meu ministério de confirmar os
irmãos (Lc 22,32), declaro que a Igreja não tem absolutamente a faculdade de
conferir a ordenação sacerdotal às mulheres, e que esta sentença deve ser
considerada como definitiva por todos os fiéis da Igreja´. Esta, por exemplo, é
uma matéria cuja discussão na Igreja está encerrada, para sempre, já que temos
uma declaração ´definitiva´ do Papa sobre o assunto. Infelizmente, logo após
esta declaração do Papa, muitos dentro da Igreja mostraram a sua discordância.
Foi necessário, inclusive, que a ´Sagrada Congregação da Fé´, se pronunciasse
dizendo que se tratava de uma definição ´ex´cáthedra´ do Sumo Pontífice, e que,
como tal, não admite contestação ou recorrência. A infalibilidade do Papa foi
definida no Concílio Vaticano I, em 1870, embora a Igreja, desde os seus
primórdios já acreditasse nisso:
´Aderindo fielmente à tradição recebida
desde o princípio da fé cristã..., declaramos e definimos, como dogma de fé
divinamente revelado, que o Pontífice Romano, quando fala ´ex´cáthedra´, isto é
quando, no desempenho do seu múnus de pastor e doutor de todos os cristãos,
define, com a sua suprema autoridade Apostólica, doutrina respeitante à fé e à
moral, que deva ser crida pela Igreja universal, pois possui, em virtude da
assistência divina, que lhe foi prometida na pessoa do Bem´aventurado Pedro, a
infalibilidade de que o Divino Redentor revestiu a sua Igreja, ao definir
doutrina atinente à fé e à moral; e que, portanto, as definições do Romano
Pontífice são irrefragáveis por si mesmas, e não em virtude do consenso da
Igreja´( De Ecclesia Christi, c.IV). O Concílio Vaticano II, quase 100 anos
depois, reafirmou este mesmo dogma, dizendo que: ´O Romano pontífice, cabeça do
Colégio Episcopal, goza desta infalibilidade em virtude do seu ofício, quando
define uma doutrina de fé ou de costumes, como Supremo Pastor e Doutor de todos
os cristãos, confirmando na fé os irmãos (cf Lc 22,32). Por isso, as suas
definições são irreformáveis só por si, sem necessidade do consentimento da
Igreja, uma vez que são pronunciadas sob a assistência do Espírito Santo,
prometida ao Papa na pessoa de Pedro; não precisam da aprovação de ninguém, nem
admitem qualquer apelo a outro juízo. É que nestes casos, o Romano Pontífice não
dá uma opinião como qualquer pessoa privada, mas propõe ou defende a doutrina da
fé como Mestre Supremo da Igreja Universal, dotado pessoalmente do carisma da
infalibilidade que pertence à própria Igreja (LG 25). É preciso ter em mente que
uma definição papal nunca é uma decisão rápida, pouco pensada, ou que dispense
longos anos de estudo e oração. Essas definições são a conclusão de um processo
lento, durante o qual uma verdade contida no depósito da Revelação vai se
tornando ´visível´ à hierarquia e ao povo de Deus. É apenas a proclamação
explícita de uma verdade que ainda não era conhecida mas que já pertencia ao
depósito da fé. O que leva algumas vezes o Magistério da Igreja a fazer a
proclamação de uma verdade de fé, é o surgimento de alguma heresia ou
contestação a essa verdade já aceita pela Igreja. Portanto, as definições
´ex´cathedra´, pronunciadas pelo Papa, são raras. O Magistério ordinário da
Igreja, exercido pelos bispos quando ensinam em comunhão com o Papa é o caminho
normal pelo qual a Igreja nos ensina. Não é necessário que uma verdade seja
solenemente definida pelo sucessor de Pedro, para que pertença ao depósito da
fé; basta que esta verdade tenha sido sempre e em toda parte professada pelos
cristãos. São Vicente de Lerins (†450), dizia que: ´O que todos em toda parte e
sempre acreditaram, isso é verdadeira e propriamente católico´(Communitorium).
Três condições são necessárias para que uma definição do Papa tenha caráter de
dogma, sentença infalível:
1. É necessário que ele fale ´ex´cathedra´,
isto é, de maneira decisiva, como Pastor e Mestre dos cristãos, e não apenas de
modo particular. Ele não é obrigado a consultar algum Concílio e ninguém, embora
possa fazê´lo, e quase sempre o faz.
2. A matéria a ser definida se
refira apenas à fé e à moral; isto é, se relacione com a crença e o
comportamento dos cristãos.
3. Que o Sumo Pontífice queira proferir uma
sentença definitória e definitiva, irrevogável, imutável, sobre o assunto em
questão. Somente a sentença final é objeto da infalibilidade, e não os
argumentos e as conclusões derivadas da sentença proclamada. E não há uma
fórmula única de redação para a definição dogmática. Os termos normalmente
usados pelos Papas são:´pronunciamos´, ´definimos´, ´decretamos´, ´declaramos´,
etc. Em 8/12/1854, ao proclamar o dogma da Imaculada Conceição de Maria, o Papa
Pio IX, na Bula ´Inefabilis Deus´ disse: ´Nós declaramos, decretamos e definimos
que a doutrina segundo a qual, por uma graça e um privilégio especial de Deus
Todo Poderoso e em virtude dos méritos de Jesus Cristo, salvador do mundo, a
bem´aventurada Virgem Maria foi preservada de toda mancha do pecado original no
primeiro instante de sua Conceição, foi revelada por Deus e deve, por
conseguinte, ser crida firmemente e constantemente por todos os fiéis´. Note que
o Papa afirma que essa verdade ´foi revelada por Deus´; isto é, sempre esteve no
depósito da fé, embora não apareça de maneira explícita na Bíblia. Na
proclamação do dogma da Assunção de Maria ao céu, o Papa Pio XII na Constituição
Apostólica ´Munificientíssimus Deus´, proclamou diante de 36 Cardeais, 555
Patriarcas, Bispos, Arcebispos, e perante cerca de um milhão de fiéis, no dia
1/11/1950: ´Depois de haver mais uma vez elevado a Deus nossas súplicas e
invocado as luzes do Espírito Santo ... pronunciamos, declaramos e definimos ser
dogma de fé revelado por Deus que: a Imaculada Mãe de Deus, sempre Virgem Maria,
terminado o curso de sua vida terrena, foi elevada à glória celeste em corpo e
alma´. Também aqui o Papa repete a expressão ´foi revelado por Deus´. Alguém
poderia perguntar como foi revelado por Deus, se isto não está explicitamente na
Bíblia? Pode não estar na Revelação da Palavra de Deus escrita, mas está na
Revelação oral como nos mostra a vida da Igreja. Aqueles que rejeitaram a
Tradição oral não conseguem entender isto. Quando um documento do Papa não
permite aos teólogos saber se nele consta uma definição ´ex´cathedra´, neste
caso se julga que não se trata de sentença obrigatoriamente imposta à fé dos
cristãos, embora possa haver grave obrigação de se crer na proposição feita, em
vista da autoridade do Pastor. Poucas vezes na história da Igreja os Papas
tiveram a necessidade de se pronunciar ´ex´cathedra´. Podemos relatar, em ordem
cronológica a lista das definições pontifícias. Resumiremos a seguir o que foi
apresentado por D. Estevão Bettencourt, na revista ´Pergunte e Responderemos´
(nº 381, pp. 67 a 72, 1994).
1 ´ Em 449, a carta do Papa São Leão Magno a
Flaviano, bispo de Constantinopla, expunha a sã doutrina sobre o mistério da
Encarnação ´em Cristo há uma só Pessoa (a Divina) e duas naturezas´ (divina e
humana). Esta carta foi enviada pelo Papa ao Concílio Ecumênico de Calcedônia,
no ano 451 e os Padres conciliares a consideraram como um documento definitivo e
obrigatório para todos os fiéis. O Papa reprimia assim a heresia chamada
monofisitismo ou monofisismo.
2 ´ Em 680, a carta do Papa S. Agatão ´aos
imperadores´ afirmava, em termos definitivos, haver em Cristo duas vontades
distintas, a Divina e a humana, sendo porém que a vontade humana ficava em tudo
moralmente submissa à vontade divina. Assim o Papa reprimia a heresia do
monotelitismo, que afirmava haver em Cristo apenas uma vontade, a divina. O
documento foi enviado pelo Papa à assembléia do Concílio de Constantinopla III
(680/681), a qual a aceitou com aplausos.
3 ´ Em 1302, o Papa Bonifácio
VIII, através da Bula ´Unam Sanctam´, ´declara, afirma, define e pronuncia que
toda criatura humana está sujeita ao Romano Pontífice´. Esta sentença deve ser
entendida no quadro histórico da época, e quer dizer que o Papa tem jurisdição
sobre toda e qualquer criatura humana ´ratione peccati´, isto é, na medida em
que as atividades de determinada pessoa dizem respeito à vida eterna, e não nas
atividades administrativas dos governos civis.
4 ´ Em 1336, através da
Constituição ´Benedictus Deus´, o Papa Bento XII definiu que, logo após a morte
corporal, as almas totalmente puras são admitidas à contemplação da essência de
Deus face à face.
5 ´ Em 1520, através da Bula ´Exsurge Domine´, o Papa
Leão X condenou 41 proposições de Lutero como heréticas.
6 ´ Em 1653,
através da Constituição Apostólica ´Cum Occasione´ o Papa Inocêncio X reprovava
as cinco proposições extraídas da obra ´Augustinus´ de Cornélio Jansenius,
definindo´as como heréticas.
O jansenismo (de Cornelius Jansenius),
influenciado pelas idéias de Lutero sobre o pecado original, ensinava um
conceito pessimista sobre a natureza, julgando´a escravizada à concupiscência e
ao pecado; em conseqüência, admitiam que o homem só pode praticar o bem em
virtude de irresistível influxo da graça de Deus. O pessimismo Jansenista ainda
era acentuado pela tese de que Cristo não remiu todos os homens, mas apenas os
predestinados. Essas heresias foram condenadas por Inocêncio X.
7 ´ Em
1687, através da Constituição ´Caelestis Pastor´, o Papa Inocêncio XI condenou
como heréticas 68 proposições de Miguel de Molinos (†1696), sobre o Quietismo,
que era uma tendência mística que coincidia a perfeição espiritual com
tranqüilidade e passividade da alma, de modo que o cristão não desejava mais a
sua bem aventurança eterna, nem a aquisição da virtude; qualquer tendência nele
estaria extinta. A alma colocada neste estado de aniquilamento não pecaria mais,
e não seriam mais necessárias as orações vocais, as práticas de piedade e a luta
contra as tentações.
8 ´ Em 1699, através da Constituição ´Cumm alias´, o
Papa Inocêncio XII condenou 23 proposições de François de Salignac Fènelon, da
obra ´Explications des máximes des Saints sur la vie intérieure´, que pretendiam
renovar o Quietismo, apresentando´o como modalidade de puríssimo amor a
Deus.
9 ´ Em 1713, através da Constituição ´Unigenitus´, o Papa Clemente
XI condenou 101 afirmações do livro ´Reflexions Moralis´ de Pascássio Quesnel
(†1719). Era de novo o Jansenismo, com suas concepções pessimistas. É relevante
lembrar aqui que foi na crise jansenista que se deram as aparições do Sagrado
Coração de Jesus (1673´1675) à Santa Margarida Maria Alocoque, que sobretudo
lembrava ao mundo a misericórdia de Deus e o Amor de Cristo que se fez homem, em
oposição às teses do jansenismo pessimista.
10 ´ Em 1794, através da
Constituição ´Auctorem Fidei´, o Papa Pio VI condenava 85 teses heréticas
promulgadas em 1786 pelo Sínodo de Pistoria (Toscana), que eram a expressão
radical do nacionalismo e do despotismo de Estado que haviam começado a crescer
nos tempos de Felipe IV, o Belo, da França. Essa mentalidade levava os soberanos
católicos a pretender criar Igrejas regionais, independentes do Papa,
subordinando a Igreja ao Estado. Entre outras coisas pretendia a abolição da
devoção ao Sagrado Coração de Jesus, das procissões, das imagens, das
indulgências, das espórtulas da Missa e outros serviços religiosos, redução das
Ordens e Congregações Religiosas a um tipo só, jansenista.
11 ´ Em 1854,
pela bula ´Inefabilis Deus´, o Papa Pio XI definiu o dogma da Imaculada
Conceição de Maria.
12 ´ Em 1950, pela Constituição ´Munificientíssimus
Deus´, o Papa Pio XII definiu o dogma da Assunção de Nossa Senhora ao Céu, de
corpo e alma. É preciso dizer aqui que os demais documentos do Magistério da
Igreja e, de modo especial do Papa, mesmo que não sejam pronunciamentos
´ex´cáthedra´, pertencem ao magistério ordinário da Igreja, ao qual os fiéis
católicos devem o devido respeito, como ensina o Concílio Vaticano II:
´Religiosa submissão da vontade e da inteligência devem de modo particular, ser
prestada ao autêntico Magistério do Romano Pontífice, mesmo quando não fala
´ex´cathedra´. E isto de tal modo que seu magistério supremo seja reverentemente
reconhecido, suas sentenças sinceramente acolhidas, sempre de acordo com a sua
mente e vontade´ (LG, 25). São Tomás de Aquino afirma, por exemplo, que: ´Ao
canonizar os santos, o Sumo Pontífice é de modo particular guiado pela
inspiração do Espírito Santo´. As verdades da fé ensinadas pela Igreja, são
pronunciadas pelo seu Magistério, que pode ser classificado em duas dimensões: ´
Magistério Ordinário: que é o ensinamento dos Bispos do mundo inteiro concordes
entre si sobre os artigos da fé e de moral, em perfeita comunhão com o Papa.
Magistério Extraordinário: que é exercido em casos especiais, e que tem duas
expressões: as definições dos Concílios Ecumênicos (universais), e as definições
o Sumo Pontífice quando fala ´ex´cathedra´. É empregado normalmente quando há
dúvidas, contestações, sobre algum artigo da fé. É preciso lembrar, no entanto,
que não é preciso que haja sempre uma definição solene do Papa para que exista
um dogma de fé. Todo o Credo é dogmático. O último Concílio deixou claro que: ´A
infalibilidade da qual quis o Divino Redentor estivesse sua Igreja dotada ao
definir doutrina de Fé e de Moral, tem a mesma extensão do depósito da Revelação
Divina, que deve ser santamente guardado e fielmente exposto´(LG,25). Essas
palavras da ´Lumen Gentium´ ensinam´nos que a validade dos ensinamentos do
Magistério da Igreja tem o mesmo peso que o da Tradição Apostólica e da Bíblia,
devidamente interpretada pelo Magistério. Enfim, a Igreja sabe que a sua missão
é continuar a obra de Cristo e ensinar a sua Verdade. É o que disse o Concílio
último: ´Nenhuma ambição terrestre move a Igreja. Com efeito, guiada pelo
Espírito Santo ela pretende somente uma coisa: continuar a obra do próprio
Cristo que veio ao mundo para dar testemunho da verdade (Jo 18,37), para salvar
e não para condenar, para servir e não para ser servido ´ (Mt 20,28), (GS,3).
Santo Ambrósio (†397) , o grande bispo que batizou Santo Agostinho, expressou
muito bem toda a importância da verdade de fé ensinada pela Igreja: ´No início
se davam sinais aos não crentes. A nós, porém, na plenitude da Igreja, importa
compreender a verdade. Já não por sinais, mas pela fé´. Mais do que nunca hoje a
Igreja precisa dar este testemunho da verdade, pois parece que chegaram aqueles
tempos que São Paulo anunciou: ´Porque virá tempo em que os homens já não
suportarão a sã doutrina da salvação. Levados pelas próprias paixões, ajuntarão
para si mestres. Apartarão os ouvidos da verdade e se atirarão às fábulas´ (2Tm
4,1´4). São Paulo chama esses falsos ensinamentos de ´doutrinas estranhas´ (1Tm
1,3), ´diabólicas´ (1Tm 4,1). São Pedro, já no seu tempo alertava as comunidades
primitivas da Igreja para o perigo das ´seitas´ e falsos doutores, e que
novamente hoje se multiplicam. ´Assim como houve entre o povo falsos profetas,
assim também haverá entre vós falsos doutores, que introduzirão disfarçadamente
seitas perniciosas´ (1Pe 2,1). Para enfrentar o perigo das seitas, que segundo o
nosso Papa, se ´espalham como uma mancha de óleo pela América Latina´, só mesmo
levando o povo católico a conhecer a verdade de Cristo confiada à Igreja. É
urgente levar o povo ao ´conhecimento da verdade´ (1Tm 2,4), para que seja
protegido dos ´falsos profetas´ (Mt 7,15) e dos ´lobos cruéis´ (At 20,28).
Somente ´apegados à doutrina da fé´ (Tt1,9), ´na integridade dessa doutrina´ (Tt
2,7), e ´perseverando no ensinamento dos Apóstolos´ ( At 2,4), o nosso bom povo
católico, muitas vezes ignorante dos fundamentos da fé que professa, poderá
deixar de ser ´como crianças ao sabor das ondas, agitadas por qualquer sopro de
doutrina, ao capricho da malignidade dos homens e de seus artífices enganadores´
(Ef 4,14). Urge levar a este povo ´alimento sólido´ (Hb 5,11s) que sutenta a fé
adulta preparada para o ´bom combate´ (2Tm4,7). O grande místico São João da
Cruz (1542´1591), companheiro de lutas de Santa Teresa, nos tempos da Reforma
protestante, nos deixou uma palavra muito forte sobre a importância de se ter a
Igreja como norma da verdade revelada por Deus: ´Além das verdades reveladas
pela Igreja quanto `a substância de nossa fé, não há mais o que revelar. Por
isso é necessário não só rejeitar qualquer novidade, mas também acautelar´se
para não admitir as que aparecem sutilmente misturadas às substâncias dos
dogmas.´
DO Livro: ´A MINHA IGREJA´ DO Prof. Felipe de Aquino
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