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O santo Concílio Vaticano II disse
que:
´A Igreja... é, aos olhos da fé, indefectivelmente santa. Pois
Cristo, Filho de Deus, que com o Pai e o Espírito Santo é proclamado o único
Santo, amou a Igreja como Esposa. Por ela se entregou com o fim de santificá´la.
Uniu´a a si como seu corpo e cumulou´a com o dom do Espírito Santo, para a
glória de Deus´ (LG 39). É por isso que ela é chamada de ´o Povo santo de Deus´
(LG 12 ). No início da vida da Igreja os cristãos eram chamados ordinariamente
de ´santos´. Vejamos alguns exemplos disso: ´Ananias respondeu: Senhor, ouvi de
muitos, a respeito desse homem [Saulo], quanto mal fez a teus santos em
Jerusalém ´(At 9,15).
´Quando alguém de vós tem rixa com outro, como ousa
levá´la aos injustos para ser julgada, e não aos santos? Então, não sabeis que
os santos julgarão o mundo?´ (1 Cor 6,1´2).
´Pedro, que percorria todas
essas regiões, foi ter com os santos que habitavam em Lida´(At
9,32).
´Pedro estendeu´lhe a mão e levantou´a. Chamou os santos e a
viúva, e a apresentou a eles viva´ (At 9,41).
Essas e muitas outras
passagens da Escritura (Rom 15,26.31; 1Cor 16,1.15; 2 Cor 8,4; 9,1.12; Rom 8,27;
12,13; 16,2.15; 1Cor 6,1s; 14,33; 2 Cor 13,12; Ef 1,15; 3,18; 4,12; 6,18; Fl
4,21s; Cl 1,4; 1 Tm 5,10; Fm 5,7; Hb 6,10; 13,24; Jd 3, 2; 1Cor 1,1) mostram que
na primitiva comunidade cristã os cristãos eram chamados comumente de santos,
tanto na Palestina quanto em todas as Igrejas locais.
A Igreja é o corpo
de Cristo e é santificada por Ele mesmo; e, por Ele e n’Ele torna´se
santificante. O Concílio nos ensina que todas as obras da Igreja tendem para a
´santificação dos homens em Cristo e a glorificação de Deus´ (SC,10), porque na
Igreja está depositada ´a plenitude dos meios da salvação´ (UR,3). É portanto na
Igreja, que ´adquirimos a santidade pela graça de Deus´ (LG,48). Foi à Igreja
que o Senhor confiou todos os meios de santificação, que de modo especial se
encontram nos sacramentos. O Concílio afirma:
´De fato, a Igreja possui
já na terra uma santidade verdadeira, embora imperfeita´ (LG,48).
Mesmo
que os membros da Igreja sejam pecadores, ela é santa, pois é o Corpo de Cristo,
animado pelo Espírito Santo. Os seus membros ainda lutam para adquirir a
santidade perfeita, que é a vocação de todos. São Cipriano (†258), bispo de
Cartago, já dizia no seu tempo:
´ O fato de brotarem no seio da Igreja
cardos e espinhos não deve abalar a nossa fé, nem arrefecer a nossa caridade,
afastando´nos também da Igreja. O que devemos é esforçar´nos mais e mais para
sermos trigos e para nos tornarmos mais e mais fecundos com o nosso trabalho´(
Ad Cornelium, Ep.51). Na profissão de fé solene, ´O Credo do Povo de Deus´, o
Papa Paulo V diz:
´A Igreja é santa, mesmo compreendendo pecadores no
seu seio, pois não possui outra vida senão a da graça: é vivendo da sua vida que
seus membros se santificam; é subtraindo´se à vida dela que caem nos pecados e
nas desordens que impedem a irradiação da santidade dela. É por isso que ela
sofre e faz penitência por essas faltas, das quais tem o poder de curar seus
filhos, pelo sangue de Cristo e pelo dom do Espírito Santo´ (Nº 19). Nesta mesma
linha de pensamento, o Catecismo da Igreja afirma que:
´Todos os membros
da Igreja, inclusive os ministros, devem reconhecer´se pecadores´ (Nº 827). Isto
por causa da palavra de Deus que nos diz : ´Se dizemos que não temos pecado,
enganamo´nos a nós mesmos, e a verdade não está em nós. Se reconhecemos os
nossos pecados, (Deus aí está) fiel e justo para nos perdoar os pecados e para
nos purificar de toda iniquidade, se pensamos não ter pecado, nós o declaramos
mentiroso e a sua palavra não está em nós´ (1 Jo 1,8´10).
Em quase todos
nós, o joio do pecado ainda se mistura ao bom trigo das virtudes, até o fim da
nossa vida.
Quando a Igreja canoniza certas pessoas que viveram uma vida
conformada à de Cristo ´ os santos e santas ´ que viveram na graça de Deus e
praticaram as virtudes de maneira heróica, ela confirma e reconhece o poder do
espírito de santidade que está nela. Esses são aqueles, como viu São João no
Apocalipse, ´os sobreviventes da grande tribulação; que lavaram as suas vestes e
as alvejaram no sangue do Cordeiro´ (Ap 7,14). A Igreja os propõe a nós como
modelos a serem imitados.
´Diante de Deus, eles intercedem por nós sem
cessar´ (Oração Eucarística).
A pujança dos santos, presentes em toda a
longa história da Igreja, é a grande prova da sua santidade intrínseca. Eles
sempre foram a fonte de renovação da Igreja nas horas mais difíceis. Foi assim
com Santa Teresa de Ávila e São João da Cruz, que percorreram boa parte da
Europa reformando o Carmelo masculino e feminino; foi assim com São Bernardo e
São Domingos, que enfrentaram as heresias dos cátaros e albigenses do seu tempo;
foi assim com São Francisco de Assis, que abraçando a ´irmã Pobreza´ restaurou a
Igreja do seu tempo; foi assim também com Santo Inácio de Loyola, que fundou a
Companhia de Jesus, com total submissão ao Papa, para edificar a Igreja; e foi
assim, com tantos outros grandes santos, mártires, confessores, virgens, viúvas,
jovens e até crianças, que testemunharam Jesus até o derramamento do
sangue.
O brilho dos santos é um reflexo inequívoco da santidade
intrínseca da Igreja. Diz a ´Chirstifidelis Laici´ que:
´A santidade é a
fonte secreta e a medida infalível da sua atividade apostólica e do seu elã
missionário´ (CL, 17,3).
Certa vez o Papa João Paulo II disse
que:
´A santidade é a força mais poderosa para levar o Cristo, aos
corações dos homens´ (LR Nº 24, 14/06/92, pg 22 [ 338]).
Os santos
arrastaram multidões para Deus pela força imensa da sua santidade. Em outra
ocasião o Papa disse:
´Ser santo, ser apóstolo, ser evangelizador: eis,
caros fiéis, seja este também o vosso constante desejo e a vossa aspiração...
Desde as suas origens apostólicas a Igreja escreveu e continua a escrever uma
história de santidade... Aqueles que seguem fielmente a chamada à santidade,
escrevem a história da Igreja na sua dimensão mais essencial, isto é, aquela da
intimidade com Deus´ (LR Nº 8, 24/2/96, pg 10 [903]).
Porque a Igreja é
santa, na sua própria natureza, a santidade é, então, a vocação de todos os seus
membros.
A ´Lumen Gentium´ afirma que:
´Todos os fiéis cristãos
são, pois, convidados e obrigados a procurar a santidade e a perfeição do
próprio estado´ (LG, 41).
É a vocação universal da Igreja, como disse o
Concílio:
´O Senhor Jesus, Mestre e Modelo divino de toda perfeição, a
todos e a cada um dos discípulos de qualquer condição prega a santidade de vida
da qual ele mesmo é o autor e o consumador, dizendo: ´Sede, portanto, perfeitos,
assim como também vosso Pai celeste é perfeito (Mt 5,48)´ (LG,40)
´.
Todos os batizados, sem exceção, são chamados portanto, à
santidade.
´Eles são justificados ´ disse o Concílio ´ porquanto pelo
batismo da fé se tornam verdadeiramente filhos de Deus e participantes da
natureza divina, e portanto realmente santos. É pois, necessário que eles, pela
graça de Deus, guardem e aperfeiçoem em sua vida a santidade que receberam´
(LG,40).
São Paulo exortava os fiéis de Efeso a viver ´como convém a
santos´ (Ef 5,3); aos de Colossos, que vivessem ´como escolhidos de Deus, santos
e amados´ (Col 3,12), de modo a que ´leveis uma vida digna da vocação a qual
fostes chamados´ (Ef 4,1). O Apóstolo afirma aos cristãos de Tessalônica, com
toda a convicção que:
´Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação´
(1Tess 4,3).
São Paulo começa quase sempre as suas cartas, relembrando
aos cristãos o chamado à santidade:
´A todos os que estão em Roma,
queridos de Deus, chamados a serem santos...´ (Rom 1,7).
´À Igreja de
Deus que está em Corinto, aos fiéis santificados em Cristo Jesus, chamados à
santidade com todos...´(1 Cor 1,2). ´Bendito seja Deus... que nos escolheu n’Ele
antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis, diante de seus
olhos´(Ef 1,3´4).
´Deus nos salvou e chamou para a santidade...´ (2Tm
1,9). Desde o Antigo Testamento Deus já tinha chamado Israel, que prefigurava a
Igreja, para a santidade Dele mesmo. Ele disse a Moisés:
´Eu sou o Senhor
que vos tirou do Egito para ser o vosso Deus. Sereis santo porque Eu Sou Santo´
(Lv 11,44´45). São Pedro relembra isso aos fiéis em sua primeira Carta; ´A
exemplo da santidade d’Aquele que vos chamou, sede também vós santos, em todas
as vossas ações, pois está escrito: ´Sede santos, porque Eu sou Santo´ (1Pe
1,15´16)´. Na verdade, o chamado de Israel à santidade se confunde com a Aliança
que Deus quis fazer com o povo escolhido. Pela boca do profeta Oséias, Ele
diz:
´Sou Deus e não um homem, sou Santo no meio de ti´ (Os 11,9). A
Moisés Ele diz:
´Vós sereis para Mim um reino de sacerdotes e uma nação
santa´ (Ex. 19,6).
Podemos dizer, portanto, que a Igreja é uma ´Comunhão
na santidade´ de Deus e, por isso, é uma ´comunhão de santos´. Certa vez o Papa
João Paulo II disse em Roma, citando Bernanos: ´A Igreja não precisa de
reformadores, mas de santos´. Os reformadores tantas vezes agitaram e dividiram
o rebanho de Cristo; os santos, ao contrário, trataram as feridas das ovelhas e
as reuniram no aprisco do Senhor. Quando o Papa esteve no Brasil, ao beatificar
Madre Paulina, em Florianópolis, no dia 18/10/91, ele disse: ´A Igreja existe
para a santificação dos homens em Cristo´. E deu um grito, que atravessou todo o
nosso país, e ainda está a ecoar em nossos ouvidos:
´O Brasil precisa de
santos, de muitos santos !´
E completou:
´A santidade é a prova
mais clara, mais convincente da vitalidade da Igreja, em todos os tempos e em
todos os lugares´ (LR, nº 44, 3/11/91).
Enfim, podemos dizer que a Igreja
é Santa; e esta santidade não provém dos homens, mas do próprio Cristo que nela
está, de modo permanente, como Cabeça. E todo cristão, pelo batismo, é inserido
pelo Espírito Santo em Cristo, fazendo´o participar dessa santidade ontológica;
isto é, do próprio Ser de Cristo.
Todo cristão é chamado portanto a
deixar desabrochar em si esta santidade de Cristo. Uma compreensão errada dessa
verdade, com rigorismos radicais, chegou a provocar tensões na Igreja nos
primeiros séculos, por parte de alguns que só queriam na Igreja as pessoas sem
pecados. Assim foram os novacianos no século III e os donatistas no século IV e
V, para os quais os pecadores não deviam pertencer à Igreja. Os doutores da
Igreja reagiram contra essa tendência radical e perigosa, e ensinaram que a
pertença à Igreja não depende da vida moral da pessoa, mas está no caráter
indelével do batismo.
Desta forma a Igreja sempre será formada de santos
e pecadores, como Jesus deixa claro na parábola do joio e do trigo (Mt
13,24´30.36´43). Por causa da fraqueza dos cristãos, o pecado existe na Igreja,
mas podemos dizer que não é da Igreja. O pecado que está em nós não pertence à
Igreja. Neste sentido, afirma D.Estevão Bettencourt que ´as fronteiras da Igreja
passam por cada cristão´ (Curso de Iniciação Teológica, Mod. 21, pág. 85). O
agente do pecado não pode ser a Igreja, porque ela é uma Instituição, mas as
pessoas que a formam. Por sua natureza a Igreja é sem mancha, já que Cristo a
purificou com o seu sangue (Ef 5,25´27). Contudo ela carrega os pecados de seus
filhos; mas estes não são seus propriamente dito.Como disse Karl Rahner:
´Igreja Santa de homens pecadores´. Embora os pecados sejam pessoais, é
lógico que prejudicam a saúde do Corpo todo. Isto aconteceu muito na história da
Igreja. Por exemplo, a simonia (comércio com as coisas sagradas), as
investiduras leigas dos séculos IX e X, prejudicaram a disciplina da Igreja,
depois restaurada pelo grande Papa São Gregório VII, falecido em 1085.
No século XVI houve o forte espírito renascentista, que também abalou a
vida da Igreja, trazendo para dentro dela uma tendência liberal e relativista
que promoveu de certa forma a reforma protestante. É por isso que os
protestantes afirmam que ´a Igreja há de ser sempre reformada´, e então, cada
reformador protestante começa uma ´nova Igreja´ independente das demais. Foram
milhares, de reformadores em quase cinco séculos de protestantismo,
esfacelando´o cada vez mais e diluindo a doutrina da fé.
O catolicismo,
ao contrário, fala de reformas ´na´ Igreja, mas não reformas ´da´ Igreja. Ela
deve se manter intacta na sua estrutura essencial, como Cristo a quis (cf Mt
16,18). As autoridades legítimas da Igreja podem e devem promover as reformas
necessárias, por exemplo, na Liturgia, na disciplina, na catequese, etc. Há
inclusive alguns critérios que norteiam a hierarquia nesta questão: 1º) Guardar
a caridade é mais importante do que ´belas idéias´, que algumas vezes podem
promover divisão e escândalos; 2º) Permanecer na comunhão com a Igreja. Por
exemplo, São Francisco de Assis (1226) e São Domingos de Gusmão (1221),
autênticos reformadores, afastaram´se das falhas dos homens sem romper com a
Igreja. 3º) Ter paciência e saber aguardar os momentos oportunos, respeitando o
processo de cada pessoa.
DO Livro: ´A MINHA IGREJA´ DO Prof. Felipe de
Aquino
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