Observe-se inicialmente que as grandes festas da cristandade não foram estabelecidas como comemorações de datas históricas de tal ou qual episódio da História Sagrada, mas foram instituídas para exprimir grandes realidades religiosas. Estas são revividas para os fiéis através da Liturgia.
Assim, a data de 25 de dezembro não é uma data histórica, mas a comemoração do fato histórico do nascimento de Jesus. É uma das grandes festas da cristandade que, a partir do século V da era cristã, passou a ser comemorada a 25 de dezembro, em todas as Igrejas do Ocidente e do Oriente.
Essa decisão foi tomada pela Sé Romana entre os anos 243 e 336. Trata-se de uma substituição da festa pagã do "Sol Invicto". Como se sabe, naquela época de cultos pagãos, grande era a influência do "Mistério de Mitra". Em conseqüência, o culto do astro rei gozava de tanta popularidade que, segundo conta São Leão Magno, até os próprios fiéis que freqüentavam a Basílica do Vaticano, prativacam, ali mesmo, o rito supersticioso de saudar antes de mais nada, o disco solar, tão logo pisavam o átrio dos Apóstolos. A intenção da data do Natal foi, portanto, opor ao "Sol Invictus", o verdadeiro Sol da Justiça. Deste modo, a Igreja transformou a festa pagã, cristianizou-a; procurando subtrair os cristãos do perigo da idolatria dos cultos profanos.
O mais antigo documento autêntico conhecido, que menciona a festa natalina, isolada e comemorada em Roma a 25 de dezembro, é a Depositio Martyrum filocalina, esboço de calendário litúrgico que remonta ao ano de 335. Este calendário constitui uma homenagem ao seu editor, Furius Philocalus. De Roma, a festa natalina passou à Milão, Turim, Ravena e às Igrejas do Oriente, onde, de início, houve compreensível resistência à sua celebração. Compreensível, porquanto nos dois primeiros séculos, a Natividade não constava do grupo das grandes festas: Epifania, Páscoa e Pentecostes, mencionadas pelo terceiro Papa, São Clemente, e estudadas pelo pesquisador Duschenes. Isto faculta admitir que as primeiras referências remontam ao IV século nas Igrejas Ortodoxas do Oriente, mesmo assim englobadas na tríplice comemoração da natureza humana de Jesus Cristo, a saber, seu nascimento, adoração dos Reis Magos e o seu batismo no rio Jordão.
Quanto à data, a tradição fazia recair para pouco depois do solstício de inverno, isto é nos primeiros dias de janeiro, precisamente no décimo terceiro dia após o solstício de inverno. Este, nas Igrejas da Mesopotâmia, era chamado de denho, de acôrdo com o texto de São Lucas oriens ex alto ( Lc 1,78) É o que se pode verificar pelos escritos e hinos deixados por Efrém, o sírio, que nasceu no ano 306.
Em se tratando de uma tradição arraigada, torna-se mais expressivo o acatamento que se deu à celebração da festa natalina a 25 de dezembro, data promulgada pela Sé Romana. Sabemos que São João Crisóstomo, em dezembro de 386, anunciava aos fiéis de Constantinopla a celebração da festa do Natal e, posteriormente, teve oportunidade de louvar o povo pelo comparecimento, maciço, às solenidades, desde então celebradas a 25 de dezembro.
Quanto a Jerusalém houve uma tentativa, efêmera, do bispo Juvenal, de introduzí-la na mesma data, hoje universalmente comemorada. Entretanto, após o Concílio da Calcedônia, continuou sendo celebrada a 6 de janeiro, mas a partir do ano de 431 já se celebrava aí, também, o Natal a 25 de dezembro. Em 430 também em Alexandria se comemorava o Natal no dia 25 de dezembro. Superadas as dificuldades iniciais, ficou estabelecido, universalmente, a partir do século V, que a comemoração do nascimento temporal de Jesus Cristo, far-se-ia a 25 de dezembro; a Epifania, no dia 6 de janeiro; o Batismo, na sua oitava e o milagre das Bodas de Caná, no segundo domingo da Epifania.
De todas estas festividades, a que parece falar mais às almas e aos corações é a da Natividade do Senhor. Programada para o dia 25 de dezembro, passou, portanto, do Ocidente ao Oriente, de onde retornou a Roma enriquecida de tal modo que deu origem aos textos litúrgicos das Missas celebradas na grande festa do Nascimento de Jesus. Uma delas é a chamada vulgarmente de "Missa do Galo". O nome adveio do fato de que as rubricas falavam na Missa da meia noite a ser celebrada ad galli cantum - ao canto do galo, e rezada à noite, devido provavelmente ao texto de Lucas: "Na mesma região havia uns pastores que estavam nos campos e que durante as vigílias da noite montavam guarda ao seu rebanho" (2,8).
Estes são pormenores da grande festa. O essencial, entretanto, não é a data histórica em si, ou outros detalhes, mas o fato histórico comemorado. Cada mistério que se celebra através do Ano Litúrgico é uma nova visita de Jesus Cristo. Nesta incessante comemoração, o seu divino Fundador renova a Igreja e os fiéis, comunicando-lhes sua juventude, enriquecendo-os com novos tesouros, iluminando-os, robustecendo-os e os lançando confiantes a novas lutas, garantindo-lhes novas faustosas vitórias. |