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Messias Esperado PDF Imprimir E-mail
Escrito por Dom Demétrio Valentini   
19-Dez-2003

No meio da próxima semana teremos a festa do Natal. Ela celebra o nascimento de Jesus Cristo, acontecido em Belém da Judéia, como testemunham os evangelhos. Suas narrativas são comoventes, e nos fornecem os dados que a tradição foi recolhendo, para compor o bonito cenário que tenta reproduzir o acontecimento que na cultura ocidental deu origem ao novo calendário, pelo qual agora contamos os anos e os séculos.

O nascimento de Jesus Cristo se tornou, assim, uma referência histórica central. Os evangelhos não fornecem a data exata, que precisou ser calculada posteriormente, alguns séculos mais tarde, quando um monge teve a idéia de iniciar a contagem de um calendário que partisse do nascimento de Jesus.

Pelas referências fornecidas por Lucas, sabemos que era no tempo de Herodes, rei da Judéia, e por ocasião do recenseamento decretado pelo imperador Augusto, quando Quirino era governador da Síria.

Estas referências nos permitem agora constatar um erro de cálculo, que indica um equívoco de aproximadamente seis anos. Pois a história comprova que Herodes morreu no ano quatro antes de nossa era. E as circunstâncias atestadas pelos evangelhos sugerem que se passaram no mínimo dois anos entre o nascimento de Jesus e a morte de Herodes. Portanto, na verdade, Jesus nasceu seis anos antes da data assinalada pelo calendário atual. De modo que, desta maneira, já estaríamos no ano 2010. É claro que ninguém agora vai propor que se mude o calendário, o que implicaria deslocar todas as datas históricas oficialmente estabelecidas.

Se o ano não está indicado com precisão pelo evangelho, muito menos o dia. Aliás, é provável que não tenha sido em dezembro, época de chuvas na Palestina. O bom senso da administração romana não iria decretar um recenseamento em tempos de chuvas. O dia 25 de dezembro foi escolhido, provavelmente, no contexto da cultura européia, que assinalava o início da recuperação do sol, em pleno inverno, quando lentamente os dias começavam a recuperar o seu esplendor.

Também quanto ao dia, é evidente a força da tradição, e o bom senso de aceitarmos agora o consenso que se estabeleceu em torno de uma data que se tornou aceita universalmente. O dia para celebrar o nascimento de Jesus é 25 de dezembro, e fim de história!

Mas a questão mais importante, certamente, não é nem a data nem o ano preciso do nascimento de Jesus, “filho de Davi, filho de Abraão”, como observa S. Mateus, e “filho de Adão”, como Lucas se esforça em demonstrar.

O desafio permanente é dar-nos conta da importância de Jesus Cristo. Não só para professar, ou não, que ele é o Salvador do mundo. Mas também para entender de que maneira o mundo é salvo por Cristo.

Esta questão não se equaciona com respostas superficiais. Já se passaram dois mil anos do seu nascimento. A humanidade ainda continua com seus problemas. Com base nesta constatação evidente, alguns concluem, de maneira precipitada, que Jesus Cristo não resolveu nada, e que o mundo ainda precisa de um salvador. Esta parece ser a linha de raciocínio de alguns judeus, que insistem em aguardar a chegada de um “messias” solucionador de todos os problemas.

A mensagem contida na singela narrativa do nascimento de um menino é muito mais profunda do que à primeira vista pode parecer. O mistério da “encarnação”, na verdade, revela que Deus se inseriu na história humana, não para negar a validade de sua dinâmica interna, nem para suprimir nossas responsabilidades. Mas, ao contrário, para mostrar que a humanidade conta com a solidariedade de Deus, e na medida em que aceita e assimila esta solidariedade, a história humana pode continuamente retomar o rumo de sua realização verdadeira.

O nascimento de Jesus é tema permanente, não só de um dia de festa, mas de toda a trajetória da humanidade.

 

 
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