Busca no Site

Interativos

Receba nossas novidades



Receber em HTML?

Enquete

Pessoas divorciadas devem ter acesso à Eucaristia?
 

Compartilhe este site

Faça um pedido de oração





  
Informe o código de segurança para confirmar:
 

A Igreja que está no Japão PDF Imprimir E-mail
A diocese de Hiroshima tem aproximadamente 21.600 católicos, atendidos em 41 paróquias, por cerca de 50 sacerdotes. A imponente catedral, construída por um jesuíta alemão logo após a 2a guerra mundial, é um monumento à esperança, à paz e ao entendimento entre os povos. Possui vitrais esplêndidos e um grande mosaico da ressurreição de Jesus na abside, doado pelo chanceler Konrad Adenauer. Os concertos ao órgão de tubos são muito apreciados por cristãos e não-cristãos. Ao lado da catedral, os jesuítas mantêm uma universidade de música desde a época da reconstrução da cidade. A  música devia animar a esperança e cultivar a beleza e a harmonia, tão presentes na alma nipônica.
Dom José Misue, bispo de Hiroshima, é um homem acolhedor e jovial. No encontro com ele estiveram presentes vários padres e religiosas que trabalham com brasileiros na diocese. Ir. Olga Yagihashi, japonesa que atuou longamente no Brasil e retornou à sua terra natal para ajudar na pastoral dos imigrados; Ir. Consolação, brasileira de Minas Gerais, fluente em japonês, foi a intérprete; Pe. Arnaldo, italiano do PIME, aprendeu português no Japão para assistir aos brasileiros; Pe. Sawano, do clero local, passou uma temporada em Santo André (SP) e Imperatriz (MA), para aprender nossa língua; Márcia, nissei brasileira, leiga consagrada de São Paulo.
Esse pequeno grupo missionário trabalha muito para dar assistência pastoral a tantos brasileiros na área da diocese. Dom José fala das dificuldades enfrentadas constantemente: adultos que chegam sem saber a língua japonesa e não conseguem se comunicar; trabalham muito e não lhes sobra tempo para a Igreja, nem para o contato social e nem mesmo para a família. Quase todos pensam em retornar ao Brasil mas acabam lançando raízes no Japão e ficando por lá. As crianças nascidas no Brasil têm dificuldades na escola e a tendência é abandoná-la; tão logo atingem 16 anos de idade, começam a trabalhar para ganhar dinheiro. As nascidas no Japão aprendem logo a língua; mas por causa do escasso contato com os pais, já não aprendem o português, ficando difícil a comunicação entre pais e filhos. Foi citado o caso extremo de uma jovem mãe, que teve que chamar uma intérprete para se comunicar com o próprio filho.
Em Nagoya foi interessante a visita à universidade de Nanzan, dos missionários do Verbo Divino (SVD), dirigida por Pe. Domingos, um português da cidade de Guimarães. A universidade é especializada em humanidades e no estudo comparado das religiões. Ensina-se a antropologia cristã e há também o departamento de filosofia e teologia. Também a língua portuguesa é ensinada. Sua característica principal é a internacionalidade e muitos estudantes são estrangeiros; a maioria deles não é cristã. No Centro LOGOS”, anexo à universidade, há o atendimento pastoral aos estudantes. Na época do Natal e da Páscoa, fazem-se encenações bíblicas, muito apreciadas pela comunidade local.
Na paróquia Nossa Senhora do Carmo, em Hibino, periferia de Nagoya, reúne-se para a celebração uma numerosa comunidade brasileira. Pe. Zeca celebra em português diversas vezes por mês. Lá celebrei no dia 15 de julho. Gente de todos os Estados do Brasil, sobretudo de São Paulo e do Paraná. Muita alegria e animação na liturgia, que tinha a tônica da Renovação Carismática. Casais jovens, crianças e adolescentes em grande número. O cônsul geral do Brasil em Nagoya e o vice-cônsul também participaram, com suas famílias. Um grupo de diocese de Kyoto pediu com insistência a presença de um padre brasileiro para atendê-los.
No domingo, 16 de julho, celebrei na cidade de Tohiohashi, a cerca de 60 km de Nagoya. Durante o dia, houve uma animada festa junina no parque da cidade, com a participação de milhares de brasileiros; a festa só foi autorizada para ser feita de dia, para terminar antes da noite. Sol e calor, que lembravam o Brasil tropical! No centro da praça, o mastro com as flâmulas de S.Antônio, S. João e S. Pedro.  Bandeirolas verde-amerelas, até os peixinhos da pescaria tinham as cores do Brasil. Não faltaram os trajes caipiras, o chapéu de palha, a dança da quadrilha, o churrasquinho na brasa e outras comidas típicas do Brasil. Um grupo peruano montou uma barraca com suas comidas típicas. Forró e samba misturados com música peruana; “el condor” passou, ao som de flautinhas andinas a uns 10 metros acima do nível do mar em pleno verão japonês...
Pe. Genivaldo, um jovem padre paraense, dos Oblatos de Maria Imaculada (OMI), foi um dos animadores da festa. Trabalha na paróquia São Pedro, em Toyohashi, enquanto prepara seu doutorado no estudo comparado de religiões, em Nagoya; com ele está Pe.Eduard Williams, um norte-americano, e Eduardo, um seminarista brasileiro que se prepara para sua ordenação sacerdotal. A arrecadação da festa foi para fazer melhorias na igreja paroquial, que ficou pequena para tantos novos membros da comunidade, cerca de 20 mil brasileiros, além de muitos filipinos e peruanos. Há celebrações da missa em japonês, português, espanhol e tagalog.
Celebrei à tarde, depois da festa junina. A igreja estava repleta de brasileiros. Muita animação, como nas comunidades do Brasil: os folhetos litúrgicos bem conhecidos, a longa relação das intenções antes do início e não faltou o som de uma banda para acompanhar os cantos... Mas na entrada da igreja, todos tiraram os sapatos e puseram chinelos nos pés para entrar, como fazem os japoneses. Após a Missa, os pais pediram a bênção ao bispo para os filhos. “Seu Roberto”, nissei do interior de São Paulo, líder da comunidade brasileira, agradeceu emocionado a visita e falou do sentido missionário da presença dos brasileiros no Japão: “Aqui viemos, não apenas para trabalhar e ganhar dinheiro, mas também para testemunhar e comunicar nossa fé neste país que nos acolheu”.
Pe. Williams fala com entusiasmo da nova experiência missionária encontrada na paróquia, depois de várias décadas em outras partes do Japão, e entrevê em Toyohashi a imagem da Igreja do futuro no Japão: inculturada, multi-étnica e pluri-cultural e fortemente marcada pela presença atuante dos leigos. Os “gaijin”(estrangeiros) vão deixando marcas na Igreja do Japão. É uma situação missionária nova e bonita; é o povo católico missionário, que ama sua fé e continua a expressá-la onde quer que se encontre. Os padres missionários chegaram depois dos leigos e suas famílias.
A comunidade católica japonesa reage com um misto de estranheza e de alegria. De um lado, os disciplinados nipônicos sentem-se um pouco incomodados com as manifestações espontâneas e exuberantes dos brasileiros; de outro, vêem com alegria que sua igreja ficou pequena em pouco tempo para abrigar tantos católicos, com crianças e jovens que participam animadamente das celebrações. Pe. Williams apresenta-me durante a festa junina uma senhora idosa, católica “da gema”, descendente das antigas famílias de Nagasaki que resistiram à perseguição religiosa e perseveraram na fé, mesmo às escondidas e com risco constante de vida, e sem a presença de missionários. E também duas jovens senhoras, professoras universitárias em Tokyo, por ele catequizadas e batizadas na Igreja católica. Estavam lá, no meio dos brasileiros.
No final da Missa “brasileira”, no salão da confraternização, apresentam-se dois jovens senhores japoneses para saudar o bispo, arriscando algumas palavras em português. Eram do Conselho paroquial e fizeram questão de estar com a comunidade brasileira. Enquanto isso, na sacristia, a coroinha brasileira faz de intérprete para uma senhora que veio tomar instruções para encaminhar o casamento da filha: ao Pe. Williams, norte-americano de Boston, a adolescente explicou tudo em japonês... O entrosamento entre as duas comunidades da única Igreja católica vai acontecendo, felizmente, mesmo que as dificuldades da barreira cultural e lingüística não sejam indiferentes.
Ao voltar a Tokyo com o velocíssimo “shinkansen” (trem-bala), para embarcar  no movimentado aeroporto de Narita, fiquei pensando nas palavras do “seu Roberto”, em Toyohashi: os brasileiros não foram ao Japão apenas para trabalhar, ganhar dinheiro e melhorar a vida. Justamente quando lemos no domingo o evangelho do envio missionário dos apóstolos (cf Mc 6,7-13). Um misterioso desígnio da Providência está confiando a esse povo de migrantes e  lutadores um papel missionário de altíssimo significado. É um povo que semeia o Evangelho onde vive e lança as raízes da presença da Igreja em terras onde não ela existia ainda. A organização e as estruturas da vida eclesial vêm depois, para dar suporte e alimentação a essa Igreja laical. Graças a Deus!
*
*
*Dom Odilo Pedro Scherer - Bispo Auxiliar de S.Paulo
Secretário Geral da CNBB
*
Fonte: CNBB
18/07/06