O Angeluz Meditado

Proêmio

Tradicionalíssima oração é a Saudação à Santíssima
Virgem, que, na maior parte do ano litúrgico,
traduz-se pela recitação de frases relacionadas com o
evento da Encarnação do Filho de Deus, no que chamamos
ordinariamente o Angelus. Do latim, significando
"anjo", esse termo designa São Gabriel, o ser
espiritual mandado por Deus à residência de Nossa
Senhora para anunciar-lhe a maravilhosa notícia de que
seria Mãe do Redentor.

Composto de três diálogos – estes, por sua vez, com um
versículo e seu responso, conforme iremos logo
observar -, retirados todos das páginas da Sagrada
Escritura, e seguidos cada um da reza da Ave Maria,
uma invocação à Santíssima Virgem, rogando-lhe sua
proteção e intercessão, uma oração final, e o Glória
repetido três vezes, o Angelus foi, outrora, um
costume bastante arraigado entre os simples fiéis, que
o utilizavam como prece habitual, incorporada a seu
método de espiritualidade diário. Segundo a tradição,
é rezado durante todo o ano, exceto no Tempo Pascal –
em que se utiliza o Regina Coeli -, por volta do
meio-dia e também às seis horas da tarde.

Essa oração, que pertence, como vemos, à devoção
popular, carrega em si, contudo, uma profunda teologia
e um convite à santificação pessoal e ao empenho
apostólico de todos que a rezam. Não se trata de mera
repetição de expressões piedosas, de método cego de
pôr-se em contato com Deus e a Virgem, senão de uma
sentida e grave reflexão de como Nossa Senhora soube,
corajosamente, responder aos apelos divinos com a
disposição de sua vontade, restando a realização
eficaz do plano do Criador entre nós. E assim,
meditando sobre esse episódio em que Maria Santíssima
dá sua anuência à voz de Deus transmitida pelo
arcanjo, somos impelidos proceder de semelhante
maneira por força da mesma graça pela qual Nossa
Senhora foi preservada de todo pecado no exato momento
de sua concepção por São Joaquim e Sant’Ana.

No decorrer destes humildes comentários iremos
refletir sobre cada elemento de tão pia, doce, embora
comprometedora e vigorosa oração. Tiraremos,
outrossim, dados para nos fortalecer os votos feitos
no Batismo, mormente os santos deveres de santidade e
apostolado.

Para isso, transcreveremos a seguir o texto do
Angelus, no intuito de familiarizarmo-nos com as belas
linhas que o compõe:

V:/ O anjo do Senhor anunciou a Maria.

R:/ E ela concebeu do Espírito Santo.

Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco,
bendita sois vós entre as mulheres e bendito é o fruto
do vosso ventre, Jesus. Santa Maria, Mãe de Deus,
rogai por nós, pecadores, agora e na hora de nossa
morte. Amém.

V:/ Eis aqui a escrava do Senhor.

R:/ Faça-se em mim conforme a vossa palavra.

Ave Maria…

V:/ E o Verbo Se fez carne.

R:/ E habitou entre nós.

Ave Maria…

V:/ Rogai por nós, Santa Mãe de Deus.

R:/ Para que sejamos dignos das promessas de Cristo.

Oremos:

Derramai, ó Deus, a Vossa graça em nossos corações,
para que, conhecendo pela mensagem do anjo, o mistério
da Encarnação do Vosso Filho, cheguemos, por Sua
Paixão e Cruz, à glória da Ressurreição. Pelo mesmo
Cristo, Senhor nosso. Amém.

Glória ao Pai, ao Filho, e ao Espírito Santo. Como era
no princípio, agora e sempre. Amém. (3x)

Também os membros do Movimento Regnum Christi, sejam
legionários sejam incorporados às seções de leigos ou
de clérigos diocesanos, têm a oração do Angelus como
prescrição dentre seus compromissos espirituais. Não
se trata, porém, de uma tradição específica do
Movimento, senão de uma prece pertencente ao
patrimônio comum do cristianismo, cuja promoção é
importantíssima para todos, ainda mais nestes tempos
de tanta apostasia e infidelidade à Santa Igreja, à
Sagrada Tradição e ao Romano Pontífice. Possa Nossa
Senhora, a Mãe de Deus, favorecer-nos sempre com as
copiosas graças que consegue por sua intercessão, a
fim de revigorar a espiritualidade e o espírito
apostólico de todos os cristãos.

A Anunciação do anjo a Maria

Pelo pecado do homem, quis Deus mostrar-Se
misericordioso enviando Seu Filho para morrer em nosso
lugar, saldando as dívidas que tínhamos para com o
Criador mediante o derramamento de Seu Preciosíssimo
Sangue na Cruz do Calvário. Dessa maneira, o Verbo de
Deus tornou-Se homem, igual a nós em tudo, exceto no
pecado, com o qual não Se manchou.

Sem deixar Sua divindade, o Verbo assumiu nossa
humanidade, unindo as duas naturezas, conforme ensinam
os sacrossantos Concílios Ecumênicos de Éfeso e
Calcedônia, em Sua única e divina Pessoa, nascida "do
Pai antes de todos os séculos" (Símbolo
Niceno-constantinopolitano), i.e., gerado desde
sempre, eternamente existindo. Deus tornou-Se homem,
como ensinam muitos santos e doutos mestres, para que
os homens nos tornássemos semelhantes a Deus. “Pelo
mistério da encarnação, Jesus conduziu à luz da fé a
humanidade que caminhava nas trevas. E elevou à
dignidade de filhos e filhas os escravos do pecado,
fazendo-os renascer das águas do Batismo.” (Missal
Romano; Prefácio do IV Domingo da Quaresma)

Com o fim de nos salvar, tomou nossa humanidade, em
corpo e alma, vivendo como nós. Nasceu, portanto,
também como nós, de uma mãe, Maria, ainda que também
esse acontecimento, à semelhança de todos os que se
seguiriam, fosse eivado de características
excepcionais, como a apontar profeticamente que o
filho da Virgem era, de fato, o Messias ansiado por
Israel, o Salvador de toda a humanidade, o Cordeiro de
Deus que iria tirar o pecado do mundo.

"Com efeito, de tal modo Deus amou o mundo, que lhe
deu seu Filho único, para que todo o que nele crer não
pereça, mas tenha a vida eterna. Pois Deus não enviou
o Filho ao mundo para condená-lo, mas para que o mundo
seja salvo por ele." (Jo 3,16-17)

Para realizar esse plano de salvação, Deus escolheu
uma Virgem, israelita devota. Sabia o Senhor que ela
responderia "sim" à Sua soberana vontade, e, desse
modo, a elegeu e predestinou, e, por causa e em função
de sua missão, a preservou de todo o pecado desde sua
concepção. A essa Bem-aventurada Virgem, Maria
Santíssima, foi enviado São Gabriel Arcanjo,
mensageiro do Criador, portador da boa notícia de que
o Filho de Deus, que deveria Encarnar-Se para o perdão
dos pecados da humanidade, reconciliando o céu e a
terra, unidos, enfim, por Sua Cruz, seria concebido,
pelo Espírito Santo, em seu ventre imaculado, e dela
nasceria.

Essa a razão da embaixada do anjo: saudar Nossa
Senhora como eleita de Deus para ser a Mãe de Seu
Filho.

"No sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a
uma cidade da Galiléia, chamada Nazaré, a uma virgem
desposada com um homem que se chamava José, da casa de
Davi; e o nome da virgem era Maria. Entrando, o anjo
disse-lhe: ‘Ave, cheia de graça, o Senhor é contigo.’
Perturbou-se ela com estas palavras e pôs-se a pensar
no que significaria semelhante saudação. O anjo
disse-lhe: ‘Não temas, Maria, pois encontraste graça
diante de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um
filho, e lhe porás o nome de Jesus. Ele será grande e
chamar-se-á Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe
dará o trono de seu pai Davi; e reinará eternamente na
casa de Jacó, e o seu reino não terá fim.’ Maria
perguntou ao anjo: ‘Como se fará isso, pois não
conheço homem?’ Respondeu-lhe o anjo: ‘O Espírito
Santo descerá sobre ti, e a força do Altíssimo te
envolverá com a sua sombra. Por isso o ente santo que
nascer de ti será chamado Filho de Deus.’" (Lc
1,26-35)

O Filho de Deus será, por desígnio do mesmo Deus,
também filho de Nossa Senhora. Por Sua natureza
divina, Jesus Cristo, "gerado, não criado" (Símbolo
Niceno-constantinopolitano), é Filho de Deus; por Sua
natureza humana, filho de Maria, eis que dela foi
concebido, por obra do Espírito Santo. "Confessamos,
por conseguinte, a Nosso Senhor Jesus Cristo Filho de
Deus unigênito, Deus perfeito e homem perfeito, com
alma racional e corpo, antes dos séculos engendrado do
Pai segundo a divindade, e o mesmo nos últimos dias,
por nós e por nossa salvação nascido da Virgem Maria
segundo a humanidade, o mesmo consubstancial com o Pai
quanto à divindade e consubstancial conosco segundo a
humanidade." (Sua Santidade, o Papa São Sixto III.
Fórmula de União entre São Cirilo de Alexandria e a
Igreja de Antioquia, em 433, trad. da versão grega)

É essa visita de São Gabriel à Santíssima Virgem que
contemplamos no primeiro diálogo: "V:/ O anjo do
Senhor anunciou a Maria. R:/ E ela concebeu do
Espírito Santo." Deus tinha um plano para a humanidade
e precisava do consórcio de Nossa Senhora. Mais do que
isso, tinha um plano para Maria mesmo. E por isso, lhe
revela Sua vontade, esperando que ela responda
positivamente – em verdade, como sabemos, Deus já
sabia, de antemão, que ela lhe responderia dessa
maneira, o que não anula a liberdade da Virgem, antes
pelo contrário a confirma, eis que a escolhe
justamente pela presciência de sua livre entrega ao
plano divino. Também a nós, Deus manifesta, a cada
instante, Sua vontade – para nós mesmos, e para a
humanidade toda através de nós -, aguardando que
manifestemo-nos com o "sim" de Maria.

"Hoje é o início de nossa salvação, a manifestação do
mistério eterno! O Filho de Deus tornou-se Filho da
Virgem, e Gabriel anuncia a graça! Com ele, aclamemos,
portanto, à Mãe de Deus: Ave, cheia de graça, o Senhor
é contigo!" (Liturgia Bizantina; Tropário para a Festa
da Anunciação da Santíssima Mãe de Deus e Sempre
Virgem Maria)

A saudação angélica

A partir da saudação que o anjo fez à Santíssima
Virgem – "Ave, cheia de graça, o Senhor é contigo."
(Lc 1,28) -, o povo cristão, devoto à sua Mãe, compôs
uma oração, hoje conhecida universalmente, ainda que
popular o seja apenas na Igreja Latina – muito embora
isso, a Igreja Oriental tem sua equivalente, que é
ligeiramente diversa de nossa Ave Maria. Também a
expressão de Santa Isabel, ao receber a visita de
Nossa Senhora, uniu-se àquela angélica saudação, e,
com um pedido final para que a Mãezinha do céu rogasse
por nós, sobretudo nos momentos mais aflitivos – dos
quais o exemplo mais claro é a morte, citada no texto
da prece -, estava pronta a oração.

É com essa tradicional saudação, a mesma feita por São
Gabriel Arcanjo, que o cristão demonstra seu amor a
Maria em sua vida ordinária. Ao levantar, invoca a
proteção da Virgem, e ao dormir encomenda-se à sua
intercessão. Também durante o dia, ao desfiar as
contas do rosário, repete, inúmeras vezes, a Ave
Maria, como a dizer à Beatíssima Mãe o quanto é grande
o seu amor por ela.

Também na oração do Angelus tem seu lugar a saudação
angélica da Ave Maria. Entre os versículos e seus
responsos, recita-se a prece, reconhecendo que, se a
Nossa Senhora Deus manifestou Sua vontade, irá agir de
maneira semelhante a nós. Por outro lado, com as
palavras da referida oração, pede-se que a Virgem, que
aceitou em sua vida o desígnio divino, ajude-nos, com
as setas poderosas e certeiras de sua intercessão,
miradas no Coração de Deus, a imitar seu santo
exemplo. A Deus que nos revela Sua vontade, digamos
também nosso "sim".

Ao recitar as primeiras expressões da Ave Maria, o
fiel reconhece a dignidade da Bem-aventurada Virgem,
como cheia de graça, como a que tem consigo o Senhor,
como a que é bendita entre as mulheres, e que porta em
seu ventre um fruto bendito, o Filho de Deus. Depois,
implora-se àquela que é saudada, pelas próprias
palavras da oração, como Santa Maria, Mãe de Deus, que
rogue por nós – os quais, ao rezar, admitimo-nos
pecadores carentes da graça divina -, agora e na hora
de nossa morte. "Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é
convosco, bendita sois vós entre as mulheres e bendito
é o fruto do vosso ventre, Jesus. Santa Maria, Mãe de
Deus, rogai por nós, pecadores, agora e na hora de
nossa morte. Amém." Pois é agora que devemos fazer a
vontade de Deus; a cada instante, devemos responder ao
que Deus espera de nós; sempre precisamos nos
santificar e realizar apostolado – que é, em suma, o
que o Criador pede que façamos, em virtude de nossa
consagração batismal. E também na morte, precisamos
fazer a vontade divina, porque de nada adianta uma
vida santa sem a perseverança final, ocasião em que
informaremos nossa continuação na graça de Deus ou a
queda no pecado do qual fomos salvos pelo Sangue de
Cristo.

Quando alguém passa por uma experiência, torna-se mais
autorizado para instruir os outros a como reagir
àquela ou a semelhantes. Nada mais apropriado,
concluímos, do que suplicar à Mãe de Deus que nos
ensine a fazer a vontade do Senhor, e reze por nós
para que procedamos sempre da mesma forma que ela ao
apelo celeste. É o que fazemos na Ave Maria, repetindo
as palavras do mesmo anjo que lhe revelou a soberana
vontade divina.

A resposta da Santíssima Virgem

"A Encarnação não foi somente obra do Pai, de Sua
potência e de Seu Espírito", disse Nicolau Cabasilas,
famoso teólogo bizantino da Idade Média, "mas também
uma obra da vontade e da fé da Virgem."

Que verdade salutar é saber que Deus, podendo fazer
tudo sem nós, optou, por um decreto de Sua soberana e
sapientíssima vontade, em não deixar sem função nossa
liberdade! Pode simplesmente decretar nossa salvação
ou nossa perda – e realmente os hereges calvinistas
imaginam ser assim -, mas desejou, inflamado de
infinito amor por Suas criaturas, que tivéssemos nossa
participação no processo de redenção e mesmo de
realizar, a cada instante, os Seus desígnios. Pois se,
por uma graça atual, somos convidados à manifestação
da vontade divina, pelo concurso livre de nossa
inteligência, movida pela vontade – e iluminada por
outra graça atual -, tornamos operante aquele plano do
Senhor, nosso Deus.

Isso foi verdade, igualmente, por ocasião da
Anunciação do anjo São Gabriel à Santíssima Virgem.
Revelada a vontade de Deus, esperava-se que ela
respondesse para que só aí acontecesse a Encarnação.
Cabasilas diz bem claro que o fabuloso evento só
ocorreu por obra da vontade divina do Criador unida à
vontade humana de Maria. E tal vontade manifestou-se
pela fé, a qual, por sua vez, foi posta em prática
quando Bendita Virgem respondeu de forma positiva ao
convite do céu. "V:/ Eis aqui a escrava do Senhor. R:/
Faça-se em mim conforme a vossa palavra."

Com nossa livre vontade podemos aderir ao plano de
Deus. Assim procedeu o Senhor com Nossa Senhora:
convidou, respeitando sempre sua liberdade. E ela
utilizou de maneira correta. Sim, pois sabemos pela
filosofia, que a liberdade não consiste em fazer o que
se quer, e sim em fazer o que é correto, em vista do
bem absoluto. Livre não é o que faz o que seus
apetites e desejos lhe sugerem, mas o que faz o que
deve ser feito. Por isso, mais do que todos, Maria
Santíssima foi livre, pois usou sua liberdade para
fazer o que devia: anuir, por sua vontade livre,
isenta de coações externas ou internas, à revelação
que o anjo lhe fizera.

Se Cristo não Se tivesse Encarnado, não seríamos
salvos. Nos explica, a esse respeito, o pensador
máximo da Cristandade, cognominado, por sua doutrina,
Doutor Comum ou Doutor Angélico:

"(…) nem por Adão, nem por algum outro puro homem,
poderia ser reparada a natureza humana, já porque
nenhum indivíduo humano era superior a toda a
natureza, já porque nenhum outro homem pode causar a
graça. Pela mesma razão, não poderia ser reparada a
natureza humana por um Anjo, porque também o Anjo não
pode ser causa da graça, nem ser para o homem o prêmio
da beatitude perfeita, para a qual o homem devia ser
novamente chamado, porque nela são semelhantes.
Conseqüentemente, tal reparação só podia ser realizada
por Deus. Mas se Deus reparasse a natureza humana por
sua vontade apenas ou apenas por sua força, a ordem a
justiça divina não estaria observada, porque esta
ordem exige satisfação pelo pecado cometido. Ora, é
impossível Deus ser sujeito de satisfação ou de
mérito, porque um ser sujeito de algo está submetido a
outra coisa. Por essas razões, não cabia nem a Deus
satisfazer pelo pecado de toda a natureza humana, nem
a um puro homem, como se viu acima. Foi conveniente,
portanto, que Deus se fizesse homem, de modo que um e
o mesmo ser pudesse reparar e satisfazer. Tal motivo
da Encarnação divina é declarado por São Paulo, quando
escreve: ‘Cristo veio a este mundo para salvar os
pecadores’ (I Tim 1,15)." (Santo Tomás de Aquino.
Comp. Th., CXCV, 1-2)

A importância da Encarnação está explicada pelo
Aquinate. Tendo diante de nós tal demonstração,
podemos perceber quão grandiosa era a responsabilidade
de Maria, de cuja resposta à vontade de Deus exposta
por São Gabriel, dependeria a sorte de nossa salvação.
A Santíssima Virgem disse "sim", e pudemos ter Deus
Encarnado. Seu "sim" tornou oportuna a Encarnação do
Verbo. Seu "sim" permitiu o nascimento, a vida, a
obras, os milagres, a pregação de Nosso Senhor Jesus
Cristo. Seu "sim" importou em Jesus morrer na Cruz
para o perdão de nossos pecados, e ressuscitar ao
terceiro dia para nossa justificação. Seu "sim" fez
com que fosse fundada uma Igreja, a una, santa,
católica, apostólica e romana, sob São Pedro e seu
sucessor, o Bispo de Roma, o Papa. Seu "sim", em suma,
nos deu a salvação conquistada por Cristo.

Esse é o resultado da cooperação entre Deus e o homem,
da livre resposta da humanidade aos sábios convites do
Senhor. Sempre que fazemos Sua vontade, vemos,
maravilhas são operadas. Mas para isso Deus não nos
força a nada, esperando, pacientemente – até quando? –
que nos decidamos em tornar visíveis Seus planos.
“(…) nós sustentamos que a vontade humana é de tal
modo auxiliada por Deus para praticar a justiça, que,
além de o homem ser criado com o dom da liberdade, e
apesar da doutrina que o orienta sobre seu modo de
viver, receba o Espírito Santo, aquele que infunde na
sua alma a misericórdia e o amor do bem incomunicável
que é Deus, mesmo agora quando caminha não pela visão,
mas pela fé.” (Santo Agostinho. De Spiritu et littera,
III)

A Encarnação do Verbo

O Verbo de Deus tornou-Se carne, habitando no meio de
nós, ou, como diz outra tradução, armando tenda entre
nós. "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto
de Deus e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio
junto de Deus. Tudo foi feito por ele, e sem ele nada
foi feito. Nele havia vida, e a vida era a luz dos
homens. (…) E o Verbo se fez carne e habitou entre
nós, e vimos sua glória, a glória que o Filho único
recebe do seu Pai, cheio de graça e de verdade." (Jo
1,1-4.14)

Deus vem morar no meio do Seu povo, não mais apenas
espiritualmente, senão em Corpo, Sangue, Alma e
Divindade. As predições dos profetas do Antigo
Testamento são confirmadas, e Deus, ainda que somente
visto em forma humana, é quem anda conosco em Jesus
Cristo – Segunda Pessoa da Santíssima Trindade -,
"(p)ois nele habita corporalmente toda a plenitude da
divindade." (Cl 2,9)

São Paulo é bastante direto ao descrever o que os
teólogos orientais, sobretudo bizantinos, denominaram
"aniquilação", i.e., o despojamento de Deus ao
fazer-Se igual a nós, assumindo nossa humanidade,
tornando-Se Ele próprio homem: "Sendo ele de condição
divina, não se prevaleceu de sua igualdade com Deus,
mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de
escravo e assemelhando-se aos homens." (Fl 2,6-7) A
Encarnação é um acontecimento maravilhoso! Profetas e
homens santos foram enviados por Deus, mas agora é o
próprio Criador que vem até nós. E não em uma
aparência gloriosa, como convém naturalmente à
divindade, senão humildemente, assumindo a natureza do
homem. O Criador, por amor à criatura, faz-Se ele
mesmo criatura.

Salutar o pensamento acerca do evento fantástico da
Encarnação, em que Deus toma a forma humana – um homem
de verdade, e não como queriam os hereges docetistas
dos primeiros séculos, imaginando que Cristo não fosse
realmente humano, mas que tinha uma aparência de corpo
apenas. Igualmente salutar é considerar como tudo isso
se deu por causa da resposta de uma jovem israelita à
vontade de Deus, transmitida por um anjo! Colaborando
Maria Santíssima com a graça divina, Cristo pôde
fazer-Se carne! Dizendo "sim" ao plano de Deus, o
mesmo Deus Encarnou-Se! E por essa Encarnação, "pelo
seu sangue, temos a Redenção, a remissão dos pecados,
segundo as riquezas da sua graça que derramou
profusamente sobre nós, em torrentes de sabedoria e de
prudência." (Ef 1,7-8)

"V:/ E o Verbo Se fez carne. R:/ E habitou entre nós."
É o que dizemos no Angelus. Num primeiro momento, Deus
revela Sua vontade: o anjo anuncia a Maria que foi
escolhida para ser a Mãe do Salvador. Em seguida, a
Virgem responde ser a escrava do Senhor: aceita, com o
concurso de sua livre vontade, que se faça segundo a
palavra da anjo. A conclusão é quase silogística: Deus
realiza Sua vontade, da qual convidou Nossa Senhora
para livremente participar, e o Verbo Se faz carne.

O que pedimos quando rezamos o Angelus? Aplicação
prática em nossa vida cotidiana

Meditando nessa cena evangélica, tão sucintamente
descrita quanto fundamental para a realização do plano
divino da salvação da humanidade, podemos perceber
como se dá o processo de manifestação da vontade de
Deus no mundo. Primeiro mostra o que quer, convidando
o homem a decidir-se. Depois o homem dá sua anuência –
ou não. Positiva a resposta da vontade do homem à
vontade de Deus, torna-se fato o desígnio do Senhor.
Pela conjugação das duas vontades – divina e humana -,
a terra contempla o espetáculo da  realização do plano
de Deus.

Não podemos esquecer, entretanto, que mesmo a vontade
humana – que impele o intelecto à responder
positivamente ao chamado de Deus -, é iluminada pela
graça. "Porque é Deus quem, segundo o seu beneplácito,
realiza em vós o querer e o executar." (Fl 2,13) Deus,
portanto, participa, num primeiro momento, propondo a
Sua vontade, convidando o homem a aceitar Sua graça.
Num segundo momento, participa ainda Deus iluminando,
novamente com a graça, a nossa vontade, para que
livremente correspondamos à primeira.

Portanto, duas coisas tiramos como fruto dessa
meditação sobre o Angelus: a) a primeira é que
devemos, aos convites de Deus, responder com a nossa
vontade livre para que a Sua se realize, e que desse
modo é que procede o Senhor para manifestar Seus
planos neste mundo; b) em seguida, que por essa nossa
vontade, ainda que livre, ser iluminada pela graça,
temos de dispor nossas almas aos influxos do amor
divino, pois só responderemos ao anúncio de Deus de
acordo com o Seu querer. Assim, precisamos, repetimos,
adequar nossa vontade à de Deus para que esta última
se realize plenamente, e desse consórcio magnífico
entre o céu e a terra brotará o plano de Deus em ato,
não somente em potência. E, como até sobre nossa
vontade brilha a luz da graça do Senhor, devemos rogar
a Ele que Se digne derramá-la sempre em nossos
corações.

Esse é o teor da oração final, iniciada pela clássica
invocação de que rogue a Santíssima Virgem por nós que
nos aventuramos a rezar e meditar o Angelus: "V:/
Rogai por nós, Santa Mãe de Deus. R:/ Para que sejamos
dignos das promessas de Cristo. Oremos: Derramai, ó
Deus, a Vossa graça em nossos corações, para que,
conhecendo pela mensagem do anjo, o mistério da
Encarnação do Vosso Filho, cheguemos, por Sua Paixão e
Cruz, à glória da Ressurreição. Pelo mesmo Cristo,
Senhor nosso. Amém."

Belo resumo de tudo quanto expusemos até aqui. Pela
reflexão do que houve no evento da Anunciação do anjo
a Maria, tomamos conhecimento de que, agindo de
maneira semelhante à Mãe de Deus, que correspondeu à
vontade divina com a livre resposta da sua, e
contemplando que, por causa da atitude da Virgem, Deus
Se fez carne, podemos também nós proporcionar que os
planos do Criador se concretizem, bastando, para isso,
que imitemos a atitude de Nossa Senhora. Contribuindo
para que o desígnio divino seja fato – como a vontade
do Pai de que o Verbo Se Encarnasse contou com a
correspondência da Virgem em seu "sim" -, o homem
responde à graça, e, dessa sorte, se salva. Eis aí o
que diz a oração, traduzida em palavras talvez mais
simples. Não esquece a prece, todavia, que quem
ilumina a nossa vontade para que corresponda à
revelação de Deus, e assim seja nossa alma salva pela
contribuição na realização do plano divino na terra, é
a graça, pelo que, por isso mesmo, imploramos que seja
ela derramada em nossos corações. “Portanto, para que
corra ao encontro do Senhor, deseje ser dirigido por
ele, submeta à dele a sua vontade e se torne com ele
um só espírito, conforme o Apóstolo, pela adesão
constante, Deus infunde piedade em que ele quer, e
somente o homem piedoso é capaz de realizar toda essa
obra." (Santo Agostinho. De gratia Christi et peccato
originali, I, XLVI)

E o que é corresponder com nossa vontade à vontade de
Deus? Um bom resumo está nas obrigações derivadas do
Batismo: esforçar-se por ser santo e por fazer
apostolado. Santificação pessoal e empenho apostólico,
portanto, devem ser a regra de vida mais comum de todo
que, dizendo-se cristão, quer imitar Nossa Senhora, e
dizer "sim" ao plano de Deus. Na sua vida cotidiana,
diante das situações colocadas por Deus, precisa o
crente indagar-se sobre a Sua vontade e, então,
corajosamente, levado pela graça, mas sempre
respeitada sua liberdade, dar uma resposta à chamada
divina.

Desse modo, ao lado da grande vontade de Deus, que
deve reger nossa vida sempre – santificar-se, fazer
apostolado -, o fiel irá, nas situações concretas, com
seus atos, seus pensamentos, suas palavras, responder
"sim" ou "não" ao que o Senhor propõe. Não basta
aceitar colaborar com a graça uma vez, de modo geral.
Não bastam bons propósitos de santidade e apostolado.
É preciso que sejam essas duas resoluções renovadas no
dia a dia, com profissões de fé, claro, mas também com
atitudes práticas. Até disso nos dá exemplo,
novamente, a Santa Mãe do Salvador: "A vida de Maria
foi o cumprimento até às últimas conseqüências daquele
primeiro fiat (faça-se) pronunciado no momento da
Anunciação" (Sua Santidade, o Papa João Paulo II.
Exortação Apostólica Redemptoris Custos, 17)

Temos de ser santos! É uma ordem de Deus! Para isso,
não nos resta alternativa senão obedecer. E o faremos
se soubermos, como nos ensina essa oração do Angelus,
dizer, como Maria, ecce ancilla Domini, eis a escrava
do Senhor. Temos, outrossim, de fazer apostolado. E a
receita é a mesma: fiat mihi secundum verbum tuum,
faça-se em mim segundo a vossa palavra.

O texto da oração do Angelus, sobre o qual meditamos
com estas linhas, é uma explanação da obra feita por
Deus a partir da resposta da Virgem ao convite
transmitido pelo anjo. Por essa razão, a finalidade de
rezarmos o Angelus consiste em refletir sobre a obra
da Encarnação – essencial na História da Salvação, e,
portanto, na teologia e piedade católicas! -, sobre as
disposições da Mãe do Céu à revelação de São Gabriel,
sobre o "sim" firme e corajoso de Maria Santíssima, e
sobre nossa obrigação de imitá-la em sua atitude
decidida de submeter-se ao Senhor, colaborando com a
graça; rezar o Angelus é evocar as maravilhas nascidas
da união da vontade do homem à vontade de Deus,
mediante a entrega de nossas potências a Ele pela fé
sobrenatural; enfim, rezar o Angelus é pedir que o
Salvador nos ajude a agir da mesma maneira que agiu a
Beatíssima Virgem.

Disposto para ser recitado duas vezes por dia,
criam-se condições de sua mensagem estar sempre à
nossa lembrança. Pois não somente em momentos
especiais é que devemos dizer "sim" a Deus, porém a
cada instante de nossa curta existência na terra.

Tenhamos certeza de que, à semelhança do que houve na
Encarnação, o fruto de nossa livre associação à
vontade de Deus, santificando-nos e fazendo
apostolado, será maravilhosamente belo!

Uma última recomendação a dar é que, sendo uma oração
com uma marca acentuadamente mariana, o Angelus deve
ser recitado com um coração cheio de confiança em que
Nossa Senhora irá nos auxiliar, pondo-se entre Cristo
e nós, para rogar do Senhor, seu filho, que, por Seus
méritos, Se digne infundir a graça em nós,
predispondo-nos para respondermos sempre ao convite
celeste de acordo com a vontade divina, fazendo bom
uso de nossa liberdade para a execução dos planos do
Criador na terra. "A Igreja sabe e ensina que ‘todo o
influxo salutar da Santíssima Virgem em favor dos
homens se deve ao beneplácito divino e … dimana da
superabundância dos méritos de Cristo, funda-se na sua
mediação, dela depende absolutamente, haurindo aí toda
a sua eficácia; de modo que não impede o contato
imediato dos fiéis com Cristo, antes o facilita.’ Este
influxo salutar é apoiado pelo Espírito Santo, que,
assim como estendeu a sua sombra sobre a Virgem Maria,
dando na sua pessoa início à maternidade divina, assim
também continuamente sustenta a sua solicitude para
com os irmãos do seu Filho." (Sua Santidade, o Papa
João Paulo II. Encíclica Redemptoris Mater, 38)

A reza do Glória, por fim, demonstra a esperança do
cristão de que o que foi pedido será alcançado, e que
por isso deve ser bendito o nome do Senhor. "Àquele
que se assenta no trono e ao Cordeiro, louvor, honra,
glória e poder pelos séculos dos séculos." (Ap 5,13)

PER REGNUM CHRISTI AD GLORIAM DEI!

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