JOÃO EVANGELISTA: A OUSADIA DO JOVEM

 

“E o amor consiste no seguinte: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele que nos amou, e nos enviou o seu Filho como vítima expiatória por nossos pecados” (I Jo 4,10)

 

João Evangelista, pela descrição dos evangelhos, era filho de Zebedeu e Maria Salomé. Como o pai, era pescador e exercia sua função no lago Genezaré, com seu irmão Tiago. Desde sempre, cultivava o amor profundo a Deus e, discípulo de João Batista que era, desde cedo alimentara com o batismo a esperança de um messias prometido. Após o anúncio do Precursor de que já era chegada a hora da redenção, na pessoa de Jesus Cristo e após o batismo deste último, João ver inflamar em si o ardor missionário e a certeza da obra de salvação sendo revelada para si. “Farei de vós pescadores de homens”, tal era o chamado imperioso dado pelo Mestre que viria a ecoar em seu simples coração juvenil, de apenas quinze anos.

Desde a inauguração do Colegiado dos Apóstolos, João se destacara por sua ingenuidade e perspicácia, acatando com pureza os grandes mistérios de vida que lhe eram soprados pelo Salvador. Viram em sua figura os estudiosos que sobre ele se debruçaram um toque de feminilidade e sentimentalismo, atingindo o coração da comunidade cristã que nascia e de seu Mestre e tornando-se um baluarte de caridade e mansidão, que viriam a marcar toda a sua obra e o seu exemplo de vida.

Tais revelações permitem-nos concordar com a Tradição, que nos apresenta João como o primeiro devoto do Coração de Jesus, demonstrado no aconchego que Jesus deu a seu discípulo amado por ocasião da Santa Ceia, na qual, segundo nos ensina Santo Agostinho, teria ele absorvido os mais altos segredos e mistérios que depois seriam derramados sobre a Igreja.

Conhecido como o “Apóstolo Virgem”, João nos é lembrado também como custódia da Virgem Mãe de Deus. A missão, dada a si por Jesus no ápice de Sua Paixão, nos revela a sensibilidade inata deste discípulo de acolher a verdade plena de Maria e de pô-la em prática, nas virtudes do silêncio e da compreensão. A coragem e o ferrenho amor de João o leva a percorrer com o Mestre todos os passos da paixão, sem fraquezas ou covardia, e a presenciar seu martírio e dar testemunho da clarividência deste episódio.

O “Teólogo” , como assim a Igreja o denomina, percorreu um imenso caminho em sua valorosa busca pelo conhecimento das coisas de Deus. Esteve em Jerusalém, no ano 37, e depois por ocasião do Concílio dos Apóstolos. Transferiu-se com Pedro para Samaria, onde realizaram grandiosa evangelização. Depois, mudou-se para Éfeso, onde viveu até o fim da vida e foi sepultado. A partir desta cidade, prestou assistência a muitas Igrejas da província da Ásia, escreveu o quarto evangelho (o último deles) e sua três epístolas, dedicadas  aos cristãos em geral. Por meio de sua obra, João operou uma transformação intensa na comunidade cristã que nascia, impregnando-as com seu vigor piedoso e com sua coragem em revelar as maravilhas divinas.

Durante o governo de Domiciano (81-96), foi exilado na ilha de Patmos, na qual escreveu o último livro de Bíblia, o Apocalipse, predizendo todo o calvário a ser sofrido pela Igreja em sua peregrinação terrestre até a sua vitória final, subjugando a morte e o pecado. Este mesmo imperador o levou ao martírio, na cidade de Roma, colocando-o num caldeirão de água fervente, de onde saiu rejuvenescido e sem dano algum. Tal episódio é comemorado pela Igreja no dia 6 de maio.

 

Numa atitude de extremo amor a Jesus e à obra de salvação, João pede, junto de seu irmão Tiago, ao Mestre que sejam eles colocados lado a lado de Jesus na implantação de Seu Reino. Neste hora, Jesus os proclama e nos faz refletir que para alcançar a glória plena em seu nome, é necessário beber o cálice do fel, a que prontamente o discípulo aquiesce. Tendo ganho o cognome de “Boanerges”, que significa “filhos do trovão”, por seu zelo e compaixão pela herança deixada nas palavras e ensinamentos do Salvador, tornaram-se, juntamente com Pedro, os principais dentre os apóstolos, a liderar o movimento de evangelização e implementação das graças abundantes da pessoa do Cristo e na instauração de Seu Reino de amor.

Calcado em profunda teologia, oriunda da extrema intimidade com Jesus, João apresenta-nos, em seu Evangelho, Jesus “à luz da transcendência do ressuscitado, do pré-existente”, nas palavras do padre jesuíta João Batista Libânio. Difere-se dos outros três evangelhos por enfocar mais o aspecto espiritual de Jesus, ou seja, Sua vida e obra baseadas no mistério da Encarnação: o Verbo que se faz Carne e dá vida aos homens. Além disso, ele concentra o foco da narrativa em sete milagres, ou sete sinais, por meio dos quais ele tece uma espécie de meditação, na qual procura desenvolver e divulgar o conteúdo da catequese difundida no seio de sua comunidade. Lembra-nos, a todo o momento, o caminho seguro da fé e do amor para se ter a vida eterna (Jo 20, 30-31).

O amor é tema recorrente em sua obra, principalmente na sua Primeira Carta, escrita em Éfeso, na qual se desenvolve uma verdadeira doutrina de amor, baseada na perseverança nos caminhos da luz e na obediência para se alcançar a Graça de Deus. Como aprofundando a mensagem cristã, João nos prova definitivamente que Deus é Amor, profundo e radical, experiência pela qual ele mesmo passou. “Porque esta é a mensagem que vocês ouviram desde o princípio: que nos amemos uns aos outros” (I Jo 3, 11), resta-nos o saldo da graça que ele nos deixou gravado no coração como exemplo a ser explorado em nosso cotidiano”.

Num tempo de tamanha descartabilidade nos relacionamentos, de tanta indiferença à afetuosidade, João nos convida a olhar o mundo e o próximo na radicalidade e na profundeza do amor de Deus, doando-se e recebendo amor numa troca infinita. Ele nos ensina que a prática da justiça é amar o irmão (I Jo 3, 3-10), rompendo com tudo aquilo que nos separa de Deus e de nossos semelhantes.

É de capital relevância falar de João para os jovens, tendo ele mesmo sido um jovem a descobrir a Graça divina na eterna descoberta da Verdade e na prática e na vivência da Castidade. João parece travestir em sua vida a vida da Virgem Maria, sua pureza e silencio, que numa atitude de temor, respeito e contagiante fé, revela-nos a importância de guardar as coisas de Deus em nossos corações e revelá-las à luz da oração.

A juventude, para ver revelada diante de si a obra divina da caridade, há de se espelhar na ousadia de João em se lançar plenamente nos santos mistérios, a descobrir a vida em Deus nos recantos recônditos de nossa alma, incluindo-se aí nossos medos, angústia e decepções. Em João vemos a obediência, sua atitude de criança ávida de amor à qual Jesus tanto apreciava, e a plena abertura para a Graça e o Amor de Deus.

Auscultando o pulsar do coração divino nas belas palavras do Evangelho joanino, o jovem tem a oportunidade de perceber o quão valorosa é a amizade de Deus em sua vida, tomando por base a intensa intimidade e o prestimoso afeto que João dedicou, não só a Jesus e à sua herança, mas a todos os homens, como forma de ilustrar a grandeza da Misericórdia de Deus na nossa vida. Os mais grandiosos mistérios de Deus nos são revelados de forma extremamente simples, para que nós, assim como João, percebamos a mensagem de Deus com a pequenez e anulação total de uma criança que se deixa embalar suavemente.

Aquele que passa incólume pela provação tem muito a ensinar a nós, que passamos por um sem número de experiências que nos afastam do Amor de Deus e de Sua Graça. Diante de tantos desafios a suplantar, dos falsos prazeres e das falsas afirmações, João se mostra na coragem de filho de Deus, que soube, assim como o Mestre, dar testemunho do Pai a todos os seus companheiros e a toda a humanidade e alcançar de Jesus a beleza e a magnificência de Sua Benevolência. Os jovens, assim como João, devem gravar em seu coração a certeza da redenção na pessoa de Jesus, e assim como o apóstolo aceitar o convite do salvador: “Eu vos farei pescadores de homens” (Mc 1, 17).

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