REZAR É TRANSGREDIR

Há alguns meses, bagunçando a burocrática lista dos livros mais vendidos no país, apareceu um sucesso estrondoso fruto das confidências de uma escritora gaúcha de 65 anos, até então desconhecida do público em geral. Esta escritora é Lya Luft e seu pequeno mimo é Perdas e Ganhos, livro no qual ela, embalada pelo que os críticos chamam de “ensaísmo moral”, fala da busca pelo equilíbrio nas nossas vidas, impulsionado pelo ritmo das nossas escolhas e a fruição das coisas simples do nosso cotidiano, nosso trabalho e família. Seus confidentes (diga-se leitores) são chamados a encarar com coragem os seus medos e a sua desorientação frente aos desafios da vida, buscando no cerne de cada um desses obstáculos o segredo para serem pessoas mais felizes. Tal literatura não se confunde com a auto-ajuda, não se propondo a dar soluções a problemas tão caros do ser humano, mas a instigar as pessoas a resolvê-los de acordo com seus pensamentos e atitudes. Isso é inovador, ainda mais se levarmos em conta que tais conselhos vêm embalados por um verniz literário de quem já estava acostumada a escrever romances e poesias.

 A intimidade para discutir tais temas que, velhos e ainda sim atualíssimos, perturbam tanto a rotina das pessoas fez com que Lya Luft angariasse inúmeros leitores, dando safanões quando preciso (principalmente quando a matéria se volta para o envelhecimento e seus traumas) e celebrando o que há de melhor nas nossas vidas, combatendo a “horrenda banalidade do cotidiano”, nas palavras da escritora. Constata-se mais o seu sucesso entre as mulheres maduras, que, nos dias de hoje, têm de carregar a cruz pesada de serem sempre modernas no vestir e no pensar, envolvidas entre tantas escolhas e frágeis o suficiente para vacilarem entre elas. São essas, principlamente, que recebem os ensinamentos de quem já passou por dois casamentos, tem três filhos e sete netos, e até bem pouco tempo atrás sofria com dinheiro curto. Como num espelho, todas as frustrações somadas de uma vida vão se esfacelando diante da possibilidade de encarar a realidade com paixão, vivendo cada momento com uma dose extra de maturidade e felicidade. Esse tempero é o que dá a liga da popularidade ascendente de Lya Luft.

Destilando sua sabedoria em pontos-chave na vida das pessoas, Lya Luft parece ser o tratamento certo para a doença errada. Num período em que as mulheres gozam de plena liberdade para satisfazerem seus desejos muitas vezes recônditos e reprimidos, e que lutam para se firmarem numa fragilidade não percebida, esse ideal de feminilidade parece deslocado e um tanto quanto irregular na resolução dessas pendências. A liberdade nas escolhas e paixão com que elas são efetivadas parece ser o cerne dessa questão delicada que envolve o desenvolvimento da mulher como ser humano dotado de dúvidas e alegrias. Há algo de mais profundo na essência do ser humano que parece ser inexplorado nos escritos de Lya, e que, no entanto, são fundamentais para se compreender a chave dessa química sensível que permeia a vida das mulheres. São elas seres que crescem à cata de virtudes e ideais de perfeição inadequados e que, na soma de tantos erros, oriundos de uma aquisição de valores falsos e perigosos, se agarram à perspectiva de um acerto mesmo que ele não caiba nos limites de sua personalidade.

O Catecismo da Igreja Católica nos ensina que “‘ser mulher’ é uma realidade boa e querida por Deus: o homem e a mulher têm uma dignidade inamissível que lhes vem diretamente de Deus, seu criador” (CIC 369). Lya Luft, ao encordoar uma receita de bem-viver, elencando o amor e a sensibilidade para dar o ponto certo a ela, esquece-se que a vivência e não só a ciência da prática da caridade, sutil denominação dada não só ao amor-próprio mas ao amor ao próximo, é que cimenta o perfeito equilíbrio feminino. A sucessão de frustrações não pode e nem deve ser resolvida pela simples fustigação de virtudes operada pelo ser humano, mas sim pela descoberta de que estas mesmas têm sua origem numa raiz única, a imagem e semelhança de Deus, que habita em nós e por isso mesmo provoca o anseio à Sua Graça. É essa vontade de partilhar com o Senhor de nossas vidas a cumulação de dons que nos são úteis ao nosso pleno desenvolvimento e à nossa santificação, e que nos foram dados pela Sua Misericórdia.

Assevero que as intenções de Lya são as melhores, pois se vislumbra em seus textos essa necessidade ardente de escapar às armadilhas da vida atual, que nos sujeita a renegar as nossas essências (e em última análise, a Deus que habita em nós) e nos transforma em caricaturas de nós mesmos, frágeis e estéreis diante da cegueira espiritual que nos ronda. No entanto, não traduziu ela ainda aquilo que nos é mais caro e que é imprescindível para a reconstrução do que somos: a vida em Deus e resposta que Ele (e só Ele) consegue dar aos nossos anseios mais urgentes. Evoca-se aqui o exemplo daquela Mulher, que sendo só amor e obediência, soube atrair a si todo o ideal de feminilidade e delicadeza, sem buscar outras revoluções senão aquela que, silenciosa e transbordante de graças, opera a valorização da caridade eterna. Quando diz “Fazei o que Ele vos disser” (Jo 2, 6), Nossa Senhora não só valoriza a sua missão como mulher e mãe, como também ilustra aquele que sabe totalmente de nós e que nos conforta com a profundidade de Seu amor.

Em seu novo livro, “Pensar É Transgredir”, outro sucesso de público, Lya diz que “o desperdício de nossa vida, talentos e oportunidades é o único débito que no final não se poderá saldar: estaremos no arquivo morto”. Por arquivo morto se entende a profunda desilusão que se abaterá sobre nós na sucessão de más escolhas e valores imperfeitos, acabando por nos minar a auto-estima e o amor por nós mesmos e pelos outros. Mas há o desperdício maior, que nos joga no abismo da suprema solidão, habitada pelo nosso vazio, que é o da ausência de Deus e da falta de diálogo que temos com ele. Rezando e acumulando em nós a graça santificante de Deus, pelo auxílio supremo e necessário do Espírito Santo, aliando a isso a busca pela Eucaristia, teremos o preenchimento das zonas cinzentas de nosso espírito, a fim de que em nós seja plasmada essa vida nova, pela intimidade divina e pela esperança da vida eterna com Jesus. Com Ele, nossa vida só terá ganhos e teremos a chance de promover uma sincera e lícita transgressão.

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