Visão Católica

 

Conta-se que certa vez quatro cegos estavam caminhando quando de repente se depararam com um elefante. O primeiro cego passou suas mãos no lado do elefante e exclamou: “Que parede grande!” O segundo cego, que estava mais à direita, passou a mão na cauda do elefante, analisou-a até o fim e disse: “Nada de parede! Isso é um espanador”. O terceiro cego agachou e encontrou uma das pernas do elefante que o fez pensar: “Esta deve ser uma bela árvore”. Já o quarto cego, com a mão na tromba do elefante gritou: “Cuidado gente, isto é uma cobra!”

 

Qual cego estava com a razão? Logicamente que nenhum deles.

 

Apesar de estarem ali, com o elefante ao alcance das mãos, não conseguiram perceber do que se tratava. E por quê? Porque cada um analisou apenas uma parte do animal e não todo o seu conjunto. Embora estivessem cara a cara com o elefante não atingiram o conhecimento deste.

 

No nosso dia a dia nos deparamos com muitos cegos que com o elefante nas mãos não conseguem saber do que se trata. Estou falando daqueles que, com a analise diária da Bíblia, não conseguem perceber o valor e a necessidade imprescindível da Igreja. Não percebem que estão analisando apenas uma parte do elefante e que assim não chegarão ao conhecimento de nada.

 

E o que a Igreja tem com isso? Tudo. Ela é, digamos assim, os olhos que faltam nos cegos para que eles vislumbrem a totalidade do “elefante”. Hoje em dia, muitas pessoas estão convencidas de que podem ler, analisar e interpretar a Bíblia sem àquela que a preparou, a montou e conferiu sua autoridade: a Igreja. E não só isso, mas também querem ensinar à Igreja ler a sua obra. Isso é o mesmo que eu dizer ao Monteiro Lobato que ele não entende o que escreveu e eu vou interpretar corretamente para que ele entenda.

 

Isso será possível? Será correto de minha parte? Certamente não.

 

Contudo, apesar de todos perceberem que eu não posso ler e entender as obras de Monteiro Lobato sem concordar e me apoiar nele, muitos querem ler e interpretar a obra da Igreja sem concordar com ela. Não é curioso? Mas isso acontece… e como acontece…

 

A Bíblia, formada por Antigo e Novo Testamentos, foi assim constituída e confirmada há mais de mil e seiscentos anos pelo Papa Dâmaso em um decreto chamado Decretum Damasi datado de 382, em que diz o Papa: “Devemos agora tratar das divinas Escrituras: o que toda a Igreja Católica aceita e o que ela deve recusar”(1), e então discorre apontando o nome dos setenta e três livros aceitos pelos cristãos como inspirados por Deus.

 

Como se vê, a Bíblia é obra da Igreja Católica(2) e não deve (e nem pode) ser entendida sem os seus “olhos”, sem a sua visão.

 

Interpretação, cada um tem a sua. Para um fato que aconteceu hoje vai haver inúmeras opiniões e interpretações, cada qual de acordo com a visão de cada expectador. É como o caso do bêbado que no fundo da sala do A.A. (Alcoólicos Anônimos) observava o pregador que demonstrava os malefícios do álcool. Este pegou um copo com água e um verme. Colocou o verme na água e este atravessou o copo até chegar do outro lado intocável. Pegou um outro copo, agora com álcool, e colocou o mesmo verme que na mesma hora desintegrou-se. “Que conclusão tiramos disso?”, perguntou o palestrante. O bêbado lá do fundo não titubeou e disse: “A conclusão é a seguinte: quem bebe álcool não tem verme!”

 

Poderemos dizer que a interpretação do bêbado está errada? Ele falou aquilo que convinha para ele sem levar em conta a intenção do palestrante. E quantos querem retirar da Bíblia uma interpretação partindo do ponto que melhor lhe convém sem levar em consideração a intenção da Autora? Não querem observar aquilo que orienta a “coluna e o sustentáculo da Verdade.”(3)

 

Por isso, a existência, a partir de hoje, desta coluna: VISÃO CATÓLICA. Ela procurará ser, não a detentora oficial e absoluta da interpretação da Bíblia (nem há condições para isso), mas um humilde reflexo daquilo que a Autora da Bíblia vê e ensina.

 

Procurarei aqui refletir a religião católica, única em sua constituição e história, singular entre todas as outras religiões, ímpar em seu conhecimento e seriedade no tratamento das coisas do Alto.

 

De modo algum procurarei aqui desfazer ou ridicularizar qualquer outra religião. Todos merecem o nosso respeito e o nosso testemunho de cristão que significa: ser outro Cristo; apesar da recíproca nem sempre ser verdadeira. Porém esse respeito não pode ser confundido com “palavras adocicadas”. Isso não. Muitas vezes o respeito é mais bem demonstrado pela dura palavra da verdade do que por doces palavras sem responsabilidade.

 

Assim, está inaugurado o espaço da Visão Católica que contará sempre com a sua participação, através de sua pergunta, sua crítica e sua opinião. Visão Católica será, como já dito, um reflexo da visão da Igreja, orientado para iluminar as nossas dúvidas e nossas questões mais particulares e íntimas.

 

Somos seres humanos e devemos lembrar de nossa dignidade de Imagem e Semelhança de Deus; seres inteligentes, dotados de vontade e liberdade para que com o coração e a mente possamos procurar o conhecimento da verdade que nos liberta(4).

 

Por fim, acrescento um texto de Santo Agostinho, padroeiro dos editores, muito próprio para a ocasião: “Todo aquele que ler estas explanações, quando tiver certeza do que afirmo, caminhe lado a lado comigo; quando duvidar como eu, investigue comigo; se o erro for meu, chame minha atenção. Assim, haveremos de palmilhar juntos o caminho da caridade em direção àquele de que está dito: ‘Buscai sempre a sua face’ (Sl 104,4). Aquele, portanto, que ao ler, disser: ‘Isto não está bem explicado, pois não entendo’, culpe o meu modo de expressar, não, porém, a minha fé. Poder-se-ia, com efeito, dizer algumas coisas com mais clareza; contudo, ninguém jamais falou a ponto de todos o compreenderem em tudo o que diz. Quem não estiver de acordo com o que digo, procure examinar outros autores mais versados nesses assuntos, já que não compreende a minha explicação. Se isso acontecer, feche meu livro ou, se achar melhor, ponha-o de lado, e dedique seu tempo e seu esforço na leitura daqueles escritores que lhe são mais compreensíveis”(5). Faço destas as minhas palavras.

 

Bendigamos ao Senhor.

Demos Graças a Deus.

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(1) A Fé Católica, Documentos do Magistério da Igreja, p. 141. Justo Collantes. Edições Lumen Christi.

(2) O Antigo Testamento foi escrito e catalogado pela tradição judaica antes da vinda de Nosso Senhor. Já o Novo Testamento, escrito pelos Apóstolos e seus discípulos, foi organizado pela tradição cristã e confirmada em muitos Concílios e documentos papais como o supra citado do Papa Dâmaso. Neste ínterim, podemos dizer que a Igreja Católica é a Autora da Bíblia, pois a sua composição final e a sua autoridade como Palavra de Deus para os cristãos nos foi ensinada e corroborada pela Igreja. Se não houvesse, desde o início do cristianismo, a confirmação insistente da Igreja de que a Bíblia é a Palavra de Deus, com certeza hoje nós não a teríamos como tal, como aconteceu com os chamados “escritos apócrifos” que, apesar de serem escritos na mesma época e por discípulos dos apóstolos, senão por algum apóstolo, não tiveram o apoio da Igreja e não são considerados sagrados.

(3) cf. 1Tm 3,15

(4) cf. Jo 8,32

(5) A Trindade, cap. 3. Editora Paulus, 2ª edição.

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