Problema atual: Depressão

Segundo os dicionários, depressão é: abaixamento devido a pressão; baixa de terreno; fossa.

 

Por qual motivo esta palavra foi escolhida para designar um dos maiores problemas da sociedade atual? Exatamente não sei explicar, mas posso arriscar um chute. Analisemos as designações do dicionário:

 

            a) abaixamento devido a pressão: o que é o problema da depressão senão um abaixamento da pessoa, uma diminuição enquanto ser humano; um descimento de sua dignidade em virtude de uma pressão imposta por todo um sistema que põe em relevo as mazelas deste mundo e de cada pessoa, tornando cada ser humano não mais a imagem e semelhança de Deus, mas sim mais um consumidor de lixo.

 

            b) baixa de terreno: quando um terreno tem uma baixa (um buraco), tem uma depressão. A patologia que designamos com o mesmo termo apenas vem apontar as mil e uma baixas e buracos no percurso da vida de cada homem, de cada mulher, que, vivendo numa época onde Deus, empurrado para o canto da vida, não pode preencher a questão imemorial do homem: por quê vivo?

 

            c) fossa: segundo também os dicionários fossa é uma cova, uma cavidade subterrânea onde se despejam imundícies e águas servidas. Ou seja, quem tem depressão nada mais tem do que uma cova transbordante de água suja, usada. O que denuncia claramente a ausência da “água viva”(1) oferecida pelo Cristo Salvador.

 

Diante desta lamentável realidade que se torna mais intensiva a cada dia, foi realizado no Vaticano de 13 a 15 de novembro de 2003 a XVIII Conferência Internacional do Conselho Pontifício para a Pastoral da Saúde que nestes três dias tratou exclusivamente da depressão. Sob a direção do eminentíssimo presidente do Conselho Pontifício para a Pastoral da Saúde, o senhor cardeal Javier Lozano Barragán, congregaram-se cardeais, arcebispos, bispos, religiosos, religiosas, leigos e leigas procedentes de 62 países, comprometidos de diferentes maneiras no mundo do sofrimento e da saúde e/ou especializados nas distintas disciplinas das ciências humanas, sociais, biomédicas e teológicas pastorais. Participou das sessões da Conferência um amplo número de embaixadores e ministros de Saúde, numerosos estudantes das escolas de medicina, de ciências de enfermaria e de teologia pastoral da saúde.

 

Apresentaremos abaixo as conclusões desta Conferência(2).

 

Conclusões da Conferência Internacional sobre «A Depressão»:

Os participantes afirmaram:

 

a. A depressão patológica ou simplesmente existencial constitui uma experiência que acompanhou o homem desde as civilizações mais antigas. De ser um fenômeno esporádico se converteu com o passar dos anos em uma autêntica epidemia, sobretudo por causa da cultura da falta de sentido da vida e da morte, que no pensamento pós-moderno se reflete no “homem pavidus”.

 

b. A depressão não tem só um aspecto médico, mas também social enquanto se desenvolve em ausência de referências éticas claras e de uma vida espiritual alimentada pela Palavra de Deus.

 

c. O individualismo, o desemprego, o divórcio, a insegurança, a ausência de uma autêntica educação, a falta de transmissão do saber, da cultura, da moral, da vida religiosa, e da negligência das normas objetivas por parte do relativismo ético debilitam e fazem frágeis as pessoas por falta de arraigamento e de estabilidade na existência.

 

d. Os antivalores se desenvolvem em dano ao homem e rompem a harmonia de uma cultura fazendo com que as pessoas sejam frágeis; estas são os produtos das idéias depressivas que levam a semente da destruição da humanidade do homem e a desfiguram até o ponto de fazer-lhe incapaz de reconhecer-se no que vive.

 

e. Se por uma parte a presença de determinismos psíquicos involuntários não implica necessariamente a ausência de uma motivação ética, por outra parte se limita o espaço da liberdade. Isto tem particular importância para a depressão, que põe no centro de sua própria psicodinâmica o sentido de culpabilidade gerado por uma ferida narcisista: pode desencadear uma estratégia que busca meditar essa ferida, alimentando o desejo de onipotência e o fantasma do controle total.

 

f. A família sofre quando um de seus componentes está enfermo de depressão. Por outro lado, a mesma família pode ser a melhor terapia para o deprimido. Escutar, compreender, amar, valorizar sempre a pessoa, ajudá-la a participar e fazer-lhe sentir que se está bem junto a ela é o caminho que propõe a pastoral da Igreja para acompanhar as pessoas deprimidas.

 

g. O sentido transcendente da vida que as religiões propõem constitui o melhor antídoto contra a depressão e para uma harmonia física, psíquica, social e espiritual da vida.

 

Os participantes recomendaram e propuseram:

 

a. Afirma-se que a ausência de pontos de referência contribui a tornar frágeis as personalidades, induzindo-as a considerar que todos os comportamentos são iguais. Daí se deriva a importância de recordar à família, à escola, aos movimentos juvenis e às associações paroquiais seu papel insubstituível por causa da incidência que estas realidades têm na formação da pessoa.

 

b. Propõe-se aos agentes pastorais que cuidem dos enfermos deprimidos para que experimentem a ternura de Deus, integrando-os em uma comunidade de fé e vida na qual podem sentir-se acolhidos, apoiados, dignos de amar e de ser amados. Isto leva a contemplar a Cristo e a deixar-se guiar por Ele, fazendo uma experiência que lhes abre a esperança e a vida.

 

c. Pede-se às instituições públicas que assegurem condições de vida dignas das pessoas deprimidas e que elaborem políticas a favor da juventude, orientadas a oferecer aos jovens motivos de esperança, preservando-lhes do vazio existencial com suas trágicas conseqüências.

d. Para sair da depressão o homem tem necessidade de voltar a encontrar os valores e um sentido para sua existência, e a ressurreição de Cristo constitui o desemboque definitivo de vitória contra a depressão.

 

e. Voltar a encontrar a confiança em si mesmo e na vida passa através da pedagogia da esperança cristã, uma esperança que nos abre um futuro com Deus e que nos arraiga no desejo de encontrar nossa felicidade com Cristo na vida eterna, apoiando-nos na graça do Espírito Santo.

 

f. Para voltar a criar um autêntico vínculo social a partir de uma mudança completa do comportamento de cada homem, é necessário voltar a valorizar os princípios da moral, que são capazes de imprimir uma profunda mudança no espírito do homem deprimido para elevá-lo, restaurando ao mesmo tempo tanto a pessoa como a sociedade.

 

g. O homem que sofre tem sempre um posto privilegiado na antropologia bíblica e na mensagem cristã. O deprimido não foi esquecido por Deus, e mais, constitui o centro de seu amor compassivo. De fato, ao começar sua missão messiânica, Jesus afirma: “Eu vim para os enfermos”, entre os quais se encontram também os deprimidos. A vida espiritual transforma esta promessa em conteúdos concretos que oferecem ao crente um apoio espiritual para enfrentar toda enfermidade, inclusive a depressão.

 

h. Os meios de comunicação são instrumentos de civilização que ao propor modelos de vida e caminhos respeitosos dos valores da vida, da família e da sociedade, podem ser de grande ajuda para converter as atividades e tendências individualistas e de morte da cultura pós-moderna em comportamentos positivos, pessoais, altruístas e solidários a favor da vida.

 

Comentando…

 

Realmente o mundo está numa depressão. Depressão de valores, de cultura, de moral, de espiritualidade, de fé. E não digo fé só no sentido religioso não, digo também da fé num mundo melhor, da fé na capacidade humana. Falta fé até na fé.

 

Toda a criação de Deus foi feita para doar-se. O sol doa seu calor, a água doa sua vida, a vaca doa sua carne, a galinha doa seus ovos… e o homem? Quer andar na contra-mão da criação, nada doando, apenas acumulando. Ora, o homem não foi feito para o acúmulo de nada, mas para doar a sua vida em prol de alguém. Por que nos sentimos tão bem quando fazemos caridade? Porque respondemos a nossa vital vocação: doar.

 

E este egocentrismo que é pregado livremente vai fechando cada vez mais a pessoa em seu mundo, buscando a felicidade nos prazeres individuais e egoístas. Tudo isto vai afetando a raiz do ser humano. Para muitos, hoje, o maior número de amigos e de conversas é através do relacionamento frio e calado da internet: são as amizades virtuais… Muitas pessoas não sentem mais o outro, não olham no olho: fecharam-se na frente do computador. Ora é preciso relacionar-se pessoalmente, sentir o calor da vida no outro.

 

Muito interessante (e, diga-se de passagem, apavorante) uma reportagem publicada pela Super Interessante em novembro de 2000(3). Com o título “Vai ser bom pra você?” a reportagem procurou sondar qual será o impacto das novas tecnologias no sexo. E o resultado é intrigante.

 

Já existem – segundo a reportagem – tecnologias bastante sofisticadas para se realizar o sexo virtual com duas pessoas em pontos distantes. O contato que era corpo a corpo, agora é com o computador. Essas tecnologias, segundo o psicanalista Fábio Herrmann, se difundirão tanto que as pessoas podem acabar sentindo nojo das relações carnais. Mas mesmo assim, alguns ainda preferirão o sexo convencional.

 

Preferirão o sexo convencional para quê? Com as conquistas na área de reprodução assistida em laboratório aumentando rapidamente, sexo será cada vez mais sinônimo de recreação e menos de procriação. Para o antropólogo Matt Ridley, por volta de 2025 a clonagem de seres humanos será uma realidade e não haverá mais necessidade de relacionamento sexual para se ter filho: “A ligação entre reprodução e órgãos sexuais irá se quebrar. Será possível cortar um pedacinho qualquer do corpo de uma pessoa e desenvolver um ser com toda a carga genética”, diz Ridley .

 

E por fim, a reportagem fala do fim do sistema de família que conhecemos, onde a mudança de parceiro será mais intensa. E as mulheres que quiserem gerar filhos, sem companheiro, terão a sua disposição bancos de sêmen diversificadíssimos para ter filho quando quiserem, com as características genéticas e intelectuais que desejarem; isso sem falar na clonagem. Uma pesquisa da revista Time revelou que 61% das mulheres americanas estão dispostas a ter um bebê sem companheiro, ou seja, crianças sem pai.

 

Tudo em nome da modernidade e da tecnologia… Poderemos ter um futuro feliz com a destruição total da base do ser humano que é a família? É difícil afirmar…

 

Como sabiamente disse o Papa João Paulo II, o homem “vai a procura de uma ilusória liberdade fora da própria verdade”(4).

 

E neste contexto atual, não só os relacionamentos estão se tornando falsos, mas também a fama, a beleza, o talento. Para ser um artista hoje não precisa ter talento, basta ter dinheiro e pagar pela fama. A modelos e as mulheres mais bonitas são produzidas em série por cirurgiões plásticos e litros e mais litros de silicone. Tudo em nome de quê? De tudo, menos da verdade…

 

Falta para nós, principalmente para os jovens, bons modelos de ética e de talento. As celebridades de antes eram realmente tais, pois tinham um enorme talento, hoje quem são? Os BBB (Big Brother Brasil) que nada passam, nada ensinam, nenhum talento apresentam: ficam apenas trancafiados dentro de uma casa comendo, bebendo e brigando, e a mídia os transforma em estrelas. Estrelas de quê? O que eles fazem na televisão, qualquer um faz em qualquer lugar. Esses são os talentosos dos nossos tempos? Que vazio…

 

E as nossas músicas então? Nenhuma letra, nenhum sentido. Os shows hoje lotam, todos pulam, gritam e bebem. E os cantores? Ganham rios de dinheiro, mas o que adianta? Nada produziram, nada fizeram de útil para ninguém. Não responderam a Deus com seu talento.

 

E tudo isso nada mais é do que a ponta do iceberg. Cada vez mais, se continuar trilhando este caminho, a humanidade vai se enterrar na cova da depressão. Enquanto os antivalores e a falta de sentido continuarem a ser propagados em nome do lucro e do prazer será assim.

 

Muito próprias são neste momento as palavras de João Paulo II: “O fenômeno da depressão recorda à Igreja e a toda a sociedade como é importante propor às pessoas, e especialmente aos jovens, modelos e experiências que os ajudem a crescer nas dimensões humana, psicológica, moral e espiritual. Com efeito, a ausência de pontos de referência não pode senão contribuir para tornar a pessoa mais frágil, induzindo-a a considerar que todos os comportamentos se equivalham. Deste ponto de vista, o papel da família, da escola, dos movimentos jovens, das associações paroquiais é muito relevante devido à incidência que tais realidades possuem na formação da pessoa.”(5)

 

Bendigamos ao Senhor.

Demos Graças a Deus.

_______________

(1) cf. Jo 4,10.

(2) Publicado no site zenit.org em 23 de novembro de 2003.

(3) Revista Super Interessante encarte especial “Vida hi-tech”, pág. 36-39, Editora Abril.

(4) Carta Encíclica Veritatis Splendor, 1.

(5) Discurso do Papa João Paulo II aos participantes da Conferência internacional sobre a “Depressão”, dia 14 de novembro de 2003.

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