A Encíclica do Papa Bento

 A primeira Encíclica de um novo Papa é sempre esperada com curiosidade, porque dela é possível entender a linha condutora que dará à Igreja.

Bento XVI começa assim: “Deus é Amor, e quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele”. E explica “Estas palavras da Iª carta de João exprimem, com singular clareza, o centro da fé cristã: a imagem cristã de Deus e também a conseqüente imagem do homem e do seu caminho. Além disso, no mesmo versículo, João oferece-nos, por assim dizer, uma fórmula sintética da existência cristã: “Nos conhecemos e cremos no amor que Deus tem por nós”.

“Nós cremos no amor de Deus”, continua o Papa; desta fé, sai o preceito cristão fundamental: ”Amarás e teu próximo como a ti mesmo”. Afirma então: ”Na minha primeira encíclica desejo falar do amor com que Deus nos cumula e que deve ser comunicado aos outros”.

Em seguida, trata da “Unidade do amor na criação e na história da salvação”. Começa com uma dissertação cultural sobre a significação dos vocábulos usados pela literatura antiga e moderna. Analisa as palavras gregas usadas para indicar os diversos aspectos do amor: eros, ágape, philía, e cita poetas e filósofos famosos como Nietzche, Virgilio, Gassendi, Descartes; fala dos diversos tipos de amor, desde a amizade ao amor conjugal, acena aos desvios, para depois explicar melhor o verdadeiro amor cristã a Deus (n. 9-15) e ao próximo (n.16-18).

Esta parte suscitou maravilha nos ambientes seculares. Talvez era o que o Papa desejava: Abrir o diálogo com as culturas, mostrar que a Igreja as conhece, respeita e faz uma serena comparação, sem condenar ninguém. É um belo exemplo de diálogo entre a culturas, feito com o melhor estilo do diálogo ecumênico. De reflexo aparece quanto são superficiais os preconceitos que alguns veiculam contra ele, temendo seja “o grande inquisidor.”

Na secunda parte da encíclica fala da “Pratica do amor pela Igreja”. O amor a Deus se prova no amor ao próximo. Lembra que, desde a primeira comunidade cristã de Jerusalém, a pratica da caridade foi sempre presente em toda a história do cristianismo, tanto no Oriente, como no Ocidente. Este amor é “manifestação do amor trinitário”(n 19), é um “dever da Igreja “(n 20-25).

Um ponto delicado é representado pela harmonia entre justiça e caridade. Com a costumeira delicadeza lembra a polemica entre trabalho pela justiça e serviço de caridade (n26-29). Na teoria marxista-leninista, o Estado socialista, suprimido o capitalismo, declarava supérflua a caridade, porque “o Estado pensava a todos”. Alguns chegaram até a condenar os serviços da caridade, dizendo que, com isto, atrasavam a instauração da “justiça socialista”.

O Papa, por um lado cita as inúmeras intervenções da Igreja em favor da justiça social (n27), e depois declara (n 28) que estabelecer a justiça é função fundamental do Estado e não da igreja: ”A igreja não pode e não deve colocar-se no lugar do Estado. Mas também não pode nem deve ficar à margem na luta pela justiça… A sociedade justa não pode ser obra da Igreja, deve ser realizada pelo Estado”.

Mas acrescenta que, mesmo a melhor justiça, integrada pela assistência social, nunca conseguirá atender a todas as necessidades humanas.  A caridade será sempre necessária. E aqui também o Papa se apresenta ecumênico, recomendando a colaboração com todos os organismos não governamentais, filantrópicos, culturais, assistenciais, promocionais. Sem, contudo, diminuir suas próprias obras específicas, animadas de autêntico espírito cristão.

A encíclica merece uma leitura, atenta e aprofundada. Deve ser um programa de ação.  

Pe. Pio Milpacher
Congregação de Jesus Sacerdote
Osasco – SP

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