Em busca da ”Aliança Perdida”.

Cidade grande, ônibus lotado. Assalto! E lá se foi a aliança de casamento. Como diz a sabedoria popular, vão-se os anéis, ficam os dedos. Cecília Meirelles teria sido um pouco mais sutil e dito, " ou se calça a luva e não se põe o anel, ou se põe o anel e não se calça a luva". Parafraseando a saudosa poetisa, não há dúvida, ou se toma o ônibus e não se põe o anel, ou se põe o anel e se fica sem ele.

Foi essa a história de um casal amigo, a qual muito me emocionou. Mas vamos a ela, evidentemente com nomes fictícios, como é de praxe.

Maria Solange, casada com José Heber, toma o ônibus na volta do trabalho, como o fazia todos os dias. Sentou-se distraída pensando no que iria fazer para o jantar e não percebeu que ao seu lado estava um homem, que iria mudar o rumo de sua visão romântica de mundo, para sempre. Lembra que o sujeito falou alguma coisa, mas abstraída que estava, cansada por antecedência da dupla jornada de trabalho que a grande maioria das mulheres tem, repassava mentalmente o cardápio da noite e sonhava com suas férias no interior de Minas Gerais, onde podia dar uma descansada, todos os anos, por ocasião do Natal.

O homem cutucou-a despertando-a do sonho que sonhava acordada e só então percebeu que se tratava de um assalto. Conformada com a situação, muito mais que amedrontada, entregou todo o dinheiro que tinha para o meliante que estava sentado ao seu lado. Conformada sim, mas só até um certo ponto, pois quando ele falou com voz de quem não admite contestação, "passa a aliança", ela ainda tentou argumentar " a minha aliança não, por favor"( era uma daquelas alianças antigas, largas, pesadas ), e foi nesse instante que o insensível lhe apontou uma arma, fazendo-a desistir de todo romantismo e apego que pudesse ter em relação aquele pedaço de sua vida, sua história de um casamento feliz. Entregou a aliança como quem comete um ato extremo, estava definitivamente enterrado seu mundo adolescente, representado por aquele objeto de metal dourado, sua aliança de ouro, seu tesouro maior.

Chegando em casa, exitou muito em contar para o marido o sucedido, e ao colocar os pratos na mesa para o jantar, escondeu como pode a mão, para que ele não percebesse que estava sem aliança. Mas não resistiu muito tempo e caiu num pranto sentido. O marido, ao ser informado do que havia acontecido, também entristeceu, mas tentou confortá-la: "querida, vão-se os aneis, ficam os dedos", vaticinou. Desviou o olhar da amada, para que ela não percebesse a extenção de sua tristeza, fruto do imenso amor que nutria por aquela mulher, companheira de uma vida inteira.

O resto do jantar, passaram em silêncio, só entrecortado por um : querida me passe o sal por favor, ou querido quer um pedaço de pudim de leite ( que aliás era sua especialidade).

No dia seguinte, quando o marido voltou do trabalho, Solange percebeu que ele estava sem aliança e foi logo perguntando, roubaram a sua também? Não é possível. Ao que ele respondeu, sem muito entusiasmo: " não, já que você está sem a sua, fico sem a minha também". Nenhum argumento fez com que ele desistisse, e aquelas mãos "nuas", se entrelaçaram silenciosamente, como se fosse a primeira vez.

A vida retornou seu rítmo frenético e entre refeições à preparar, louça para lavar, roupa para passar, filhos para cuidar, casa para varrer e aula para dar, Maria Solange quase esqueceu de sofrer a dor que o furto de sua aliança representou.

Passada uma semana, José Heber lhe telefona e a convida para jantar num restaurante, o mesmo em que haviam jantado, no dia em que ficaram noivos. Foi com alegria que aceitou, pois para alguém acostumado com a dupla jornada diária de trabalho, uma folguinha da cozinha é uma benção.

Achou José Heber estranho, mas ficou calada. Durante o jantar caiu em sí e pensou: ele me trouxe aqui para me dizer que tem outra mulher, que está apaixonado e deve ser por isso que o cínico aproveitou para ficar sem aliança, bela desculpa a de solidariedade para comigo, ele é igualzinho a todos os homens, um dissimulado. Já ia começar a fechar o tempo quando ele , retira do bolso uma caixinha de jóias. Maria Solange queria enfiar a cara no chão e sumir, pensando mal do marido e o coitado havia comprado um par de novas alianças, pelo que ela pode deduzir. Pensou: nós mulherers é que somos todas iguais, sempre julgando os homens, e julgando errôneamente.

Ensaiou um pedido de desculpas mental, quando o marido abre a caixinha e ela pode ver duas alianças finas, não como as que possuia antes, mas algo assim como a metade da largura da antiga. Disfarçou sua decepção e mais uma vez julgou, " agora que já estamos casados faz tempo, eu merecia pelo menos uma igual a que tinha.

José Heber percebeu algo no ar, mas emocionado que estava, falou solene, com a voz embargada: querida, mandei dividir a minha aliança em dois pedaços e o joalheiro fez de cada pedaço uma aliança nova. Agora nós dois voltamos a usar, a mesma aliança de nosso casamento, mais fininha, mas a mesma. Eu quero que você saiba que agora, eu te amo mais ainda, porque temos dois filhos maravilhosos, e eles sim, é que são nossas verdadeiras joias, nosso tesouro maior.

O resto da história não conto, que fim levou este casal também não. Deixo em aberto o término da mesma, para que cada leitor possa tirar a sua própria conclusão, dentro do grau de romantismo que escolher. Só vou dar uma dica, na "restauração da antiga aliança" ficou uma grande lição, soube que o filho mais velho deles, que se casou recentemente, usa uma bem larga. Afinal de contas um homem prevenido vale por dois, não é mesmo João Daniel?

Rio de Janeiro, 11 de Dezembro de 2003
Dedicada a Júlia Roberta, a segunda filha, que com sua alegria, é capaz de iluminar sozinha, toda uma casa.

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