O MANÁ E O COENTRO

Quem de nós nunca saboreou um figo, uma uva ou uma azeitona? Ao lermos a Bíblia, nos deparamos com menções feitas à várias espécies de plantas. Algumas delas, como a figueira (Ficus carica), a videira (Vitis vinifera) e a oliveira (Olea europaea), são bem familiares a todos nós. Na antiga Palestina era comum se encontrar figueiras margeando as estradas, entre os vinhedos e próximo às casas. Jesus em suas parábolas, refere-se a esta frutífera inúmeras vezes. A videira, por sua vez tornou-se o símbolo do povo hebreu, devido ao fato de seus cachos serem abundantes e característicos da Terra Prometida ocupada por Israel. Da oliveira temos citações do uso de seu óleo como ünguento, e esse mesmo óleo tornou-se o símbolo da unção do Espírito Santo. É ainda junto ao Monte das Oliveiras que Jesus envia dois de seus discípulos em busca dos jumentinhos.

E no Antigo Testamento, no Êxodo, o Senhor diz a Moisés:“ Dize aos israelitas que me façam uma oferta. Aceitareis essa oferenda de todo homem que a fizer de bom coração. Eis o que aceitareis à guisa de oferta: ouro, prata, cobre, púrpura violeta e escarlate, carmesim, linho fino, peles de cabra, peles de carneiro tintas de vermelho, peles de golfinho, madeira de acácia, azeite para candeeiro, aromas para o óleo de unção e para os incensos odoríferos, pedras de ônix e outras pedras para os cabochões do efod e do peitoral. Far-me-ão um santuário e habitarei no meio deles. Construireis o tabernáculo e todo o seu mobiliário exatamente segundo o modelo que vou mostrar-vos”.
O linho (Linum usitatíssimum) de que fala o Senhor a Moisés era usado naquele tempo, não só para a confecção de roupas, como também no fabrico de cordas e de pavios. E o incenso odorífero (Boswellia) era obtido por incisão no tronco da árvore, o que permitia que a resina escorresse e pudesse ser recolhida. Na civilização hebréia ela era vendida e queimada no culto. É esse mesmo incenso que os Reis Magos levam a Jesus, como presente, junto ao ouro e a mirra, que também é uma resina.
Nas passagens bíblicas que nos falam do Tabernáculo, podemos identificar mais algumas espécies vegetais, nem sempre provenientes do local da construção. Muitos dos materiais alí usados eram trazidos do Egito, sendo que a madeira da acásia citada acima, é uma das poucas árvores que crescem no deserto do Sinai, onde a madeira é escassa. O famoso cedro do Líbano (Cedrus libani) é uma conífera gigantesca das montanhas , e na época do Antigo Testamento os operários arrastavam seus troncos em direção ao mar, de onde eram transportados por via marítima até a costa da Palestina e depois dalí seguiam para Jerusalém para serem usados na construção do Templo de Salomão. No Templo o cedro foi usado tanto no revestimento interno quanto nas colunas que sustentavam o teto. É de cedro também a Cruz onde Jesus foi sacrificado.
A bela romã (Punica granatum) é lembrada na Bíblia, como ornamento das colunas do Templo e podemos também encontrá-la em Êxodo (28.33), enfeitando a orla da veste do sumo sacerdote.
Uma curiosa diferença existia entre o pão que era consumido pela classe abastada e pelo que consumiam os camponeses pobres. O trigo produzia a farinha e o pão melhores, ao passo que a cevada era usada na fabricação do pão dos menos favorecidos economicamente. Vale aqui ressaltar que o pão que era oferecido ao Senhor era de farinha de frumento.
A referência às plantas na Bíblia não param por aqui, temos ainda: a tamareira ( Phoenix dactylifera) cujas folhas foram agitadas na recepção que o povo fez a Jesus, em sua entrada triunfante em Jerusalém; a murta (Myrtus communis) de odoríferas flores brancas, que os hebreus por tradição usavam para enfeitar as tendas nas festas dos tabernáculos (Neemias 8.15); a bela flor da amendoeira (Prumus amygdalus) da vara de Aarão que floriu e deu fruto em uma única noite (Números 17.23); o papiro (Cyperus papyrus) que é o papel do mundo antigo; os espinhos e cardos que arrancados e queimados pelos agricultores serviram como imagem bíblica representativa da sorte dos maus; a arruda de que nos fala Jesus quando censura os fariseus por pagarem o dízimo da arruda e negligenciarem coisas espirituais de maior importância (Lucas 11.42) e tantas outras que deixo à curiosidade sadia do leitor, ir descobrindo à cada leitura feita, o riquíssimo universo da flora bíblica.
Ao terminar esse breve estudo, não poderia deixar de fazer menção a uma pequenina planta, mas de grande importância simbólica. Planta esta que freqüenta, tanto as mesas dos mais sofisticados restaurantes da atualidade, quanto às mais simples mesas dos casebres. Estou falando do coentro, um tempero que é facilmente vendido em qualquer feira e mercado, plantado no fundo de qualquer quintal, mas que o povo bíblico de Israel demonstrava conhecê-lo bem, desde a época em que estiveram no Egito, pois afirmavam ser o maná do deserto, semelhante à semente do coentro ( Êxodo16.31).
Dedicado à Nossa Senhora.
Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, 12 de fevereiro de 2004

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