Cadê o Menino Jesus?

Dia desses, vinha eu caminhando por uma rua arborizada, quando observei que próximo a uma árvore estavam reunidas umas dez pessoas. Quando cheguei perto pude constatar que elas estavam discutindo sobre uma imagem de Santo Antônio, que se encontrava ao pé da árvore. Não era uma imagem qualquer, era uma imagem faltando um pedaço, e que pedaço! Justamente faltava o Menino Jesus, que nas estátuas do santo, vem sempre em seus braços.

Haviam várias teorias sendo levantadas alí. Uma senhora idosa, baixinha e de óculos fundo de garrafa, dizia que aquilo devia ser obra de alguma solteirona encalhada. Só podia ser simpatia, vaticinava, e dizia que a tal mulher devia ter tirado o menino Jesus e dito para o santo que só o devolveria se ele lhe arranjasse um marido. Uma moça com ares de Barbie perguntou irônicamente para a senhora como ela sabia dessa simpatia, se já tinha feito alguma vez. A velhinha nem respondeu, lançou um olhar fulminante para a "Barbie oxigenada" e saiu dalí soltando faiscas. Ao mesmo tempo uma adolescente cheia de espinhas que observava o entrevero, anotava num pedaço de papel a tal simpatia, para o caso de não achar pretendente no futuro.

Um entregador de pizza que passava na hora e parara um instante, saiu rindo e dizendo: bando de malucos, isso aí caiu foi da prateleira, quebrou e o dono jogou fora na rua. Era só gesso pintado mesmo! Dava gargalhadas enquanto se dirigia ao "templo da prosperidade", que ficava na esquina. Teve gente que até concordou com essa possibilidade, mas mesmo que a explicação fosse esta, permanecia o mistério. Cadê o Menino Jesus? Haveria de ter algum caco por alí, por menor que fosse.

Meia dúzia de teorias adiante, uma moça acompanhada do filho que devia ter uns seis anos, levantou a questão objetiva: o que eles iriam fazer? Deixar a imagem de Santo Antônio alí no pé da árvore? Não seria pecado?A discussão novamente esquentou, pensaram primeiro em levar para uma Igreja e explicar para o padre a situação.  O sacerdote que desse uma solução, pois santo é competência de padre. Outros já queriam fazer uma coleta e mandar restaurar o santo, recolocar um Menino Jesus e depois batizá-lo de "Santo Antônio do Pé da Árvore". Fariam um altarzinho alí mesmo e poderiam vir fazer pedidos ao "milagreiro", diziam. Estavam até fazendo planos para uma futura quermesse.

Neste ponto já eram mais de trinta pessoas ao redor da árvore e cada um que passava, depois de saber do que se tratava, dava a sua opinião. O jornaleiro saiu da banca e disse saber a verdade. Aquilo só podia ser coisa de crente. Contou que sua mulher tinha se "convertido" e que o bispo da seita dela tinha mandado jogar fora todas as imagens de santo que tivesse em casa, porque o "pai da mentira"gosta de se esconder dentro delas. Um "engraçadinho"gritou: olha lá, a estátua está se mexendo! Teve gente que se benzeu e ficou com as pernas tremendo. Só sossegaram quando o moleque falou que era brincadeira.

Começou a chover e as pessoas foram indo embora "à francesa", caladinhas para ninguem notar. Cada uma deixando para os outros a solução do que fazer com o santo. A chuva apertava e só restaram alí a moça com o filho pequeno, a adolescente que anotara a simpatia, o jornaleiro e esta que escreve estas linhas. Abrigamo-nos debaixo da marquize da loja em frente e ficamos calados, cada um com seus próprios pensamentos. Não sei precisar quanto tempo ficamos alí, distraídos do mundo. De repente o menino de seis anos, soltou da mão da mãe e correu até à árvore. Tirou algo do bolso, e colocou nos braços de Santo Antônio. Depois pegou a imagem no colo e veio caminhando em nossa direção. A chuva já não caía mais e surgiu um arco-iris no céu, como que abençoando a pureza do gesto daquela criança.

O que nossos olhos marejados de emoção viam, era uma cena inesquecível. O menino havia colocado nos braços de Santo Antônio, no lugar do Menino Jesus que faltava, um carrinho que ele trazia no bolso. Ao chegar perto de nós falou com uma voz firme e solene, dessas que não admitem contestação: eu sei a verdade! Foi o Menino Jeus que colocou o Santo Antônio aqui, de presente para mim. Ele fez isso porque quer ser meu amigo. Vocês não estão vendo? Ele está rindo e brincando com o meu carrinho, eu emprestei para ele.

Quem ousaria contestar? Essa era a verdade de uma criança, e é delas o Reino dos Céus.
Depois disto, só restou àquela mãe, pegar na mão do filho e ir embora para casa, levando a imagem do santo com eles. E em nós, que ali ficamos vendo os dois partirem serenamente,  caminhando pela rua arborizada agora banhada de sol, restou como que uma saudade, doce saudade de quando éramos crianças e éramos sábios. Sorrimos.

Rio de Janeiro, 26 de março de 2006

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