O divórcio – solução ou direito?

O divórcio foi considerado durante muito tempo como o último recurso para a “extinção do casamento, entendido como vínculo – a união ou comunidade conjugal – em vida de ambos os cônjuges” (Cf Verbo – Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura, vol.6).

As coisas actualmente estão em mudança e o divórcio deixou de ser o «último» recurso para passar a ser visto como um direito individual sem qualquer tipo de oposição, considerando sem valor os compromissos assumidos e onde impera, sobre as necessidades dos filhos, os caprichos e os desejos dos pais.

Barbara Whitehead no seu livro The Divorce Culture analisa os efeitos do divórcio e o seu livro encontrou bom acolhimento na opinião pública , o que parecia impensável, dado que muitos vêem no divórcio uma resposta psicologicamente saudável à insatisfação, em vez de ser o «ultimo» recurso para uma situação insustentável.

Nos Estados Unidos entre 1970 e 1990 a percentagem de divórcio cresceu de 16% para 23% . Isto quer dizer que, por ano, mais de um milhão de crianças sofrem as consequências da ruptura familiar.

Ora muitos dos que entre 1970 / 90 sofreram os traumas da separação dos pais, estão agora em idade de constituir família e não querem que os seus filhos venham a sofrer o que eles sofreram. A autora referida, não se opõem ao divórcio, como tal, mas sim ao divórcio procurado como uma solução egoísta para os problemas pessoais. O debate aberto por este livro, mais que recuperar os «valores familiares», ultrapassando qualquer crença religiosa, apela ao bom senso, focando as consequências que acarreta para os filhos, numa altura em que tanto se fala dos “Direitos das Crianças”. Defende, e com razão, que eles devem ter um papel não só moral, mas legal na situação de divórcio dos pais.

A autora apoia a sua mensagem em tudo o que nos rodeia: novelas, manuais de boas maneiras, filmes ou séries televisivas. Eu permito-me acrescentar: a publicidade também. Ouvi há tempos esta mensagem publicitária: “de namorado ou marido podes trocar quando quiseres, mas de …. só agora durante esta campanha de promoção!!!”.

O divórcio vem dominando a visão que temos da família, do casamento e até da sociedade. Após os anos 60, defender a estabilidade do matrimónio é considerado como culpabilizar os que se divorciam, é defender a submissão da mulher ou impor convicções religiosas. O divórcio passou de solução extrema, para «sagrado» direito… E não só. À volta do divórcio cresce uma indústria que rende: a dos advogados, dos psicólogos, dos consultores matrimoniais, etc. E depois a favor lá vem a frase: “se muitos fazem assim, por que não eu?”.

Nos Estados Unidos, o matrimónio foi visto sempre como uma relação livremente feita e desligada de interesses de terceiros. Após os anos 60 o divórcio adquire um insólito protagonismo, abafando os direitos da família.

A busca da felicidade a qualquer preço – questão, por demais eminentemente subjectiva – leva a considerar o matrimónio como fonte de problemas e o divórcio como solução «salutar» para acabar com esses problemas.

Quem nos garante que se não resultou à primeira, vai resultar à segunda? Nada, nem ninguém, tirando aqueles que vivem à custa do negócio de (mal)aconselhar os que passam por crises no seu casamento e que consideram o divórcio como uma «experiência» (uma ou várias), uma «libertação» ou até mesmo uma «batalha». Não ajudam o casal a superar a sua crise, mas vão direitos ao fim – divórcio. É caso para dizer que: “é fácil e dá milhões” (a uns, mas não é barato para outros).

E os filhos dos divorciados? Até aqui há manipulações grosseiras, com frases como esta – é mais saudável os pais separarem-se do que discutirem constantemente diante dos filhos. Perguntem às crianças – da boca delas sai a verdade. Responderão que sofrem quando os pais brigam, mas preferem isso a vê-los separados (falo com um pouco de experiência recolhida em desabafos de adolescentes nessas situações).

Nos últimos vinte anos os americanos têm tentado explicar às crianças a razão da separação dos pais, mas mais não conseguem do que elas aceitem o facto, como as crianças de antigamente aceitavam a explicação da morte.

A literatura infantil mudou as regras: não são os pais que ditam as normas, mas os que as violam; não são os pais que solucionam os problemas, mas são eles que os criam. Quer dizer: os adultos (neste caso os pais) deixam de ser pontos de referência ou de apoio, para passarem a ser “ajudados e compreendidos” pelos filhos pequenos.

Neste contexto as crianças são educadas com a ideia que o amor é algo de transitório – tipo kleenex, onde os aspectos emocionais são os de maior peso.

Um dos maiores méritos deste livro, a meu ver, é fazer pensar ao leitor que até defende a estabilidade matrimonial, que a cultura do divórcio pode começar a entrar-lhe por osmose.

Os americanos estão a acordar e pondo de lado ingenuidades ou frases feitas como «família feliz», captaram a mensagem de Barbara Whitehead e os casais sente-se animados a lutar pela manutenção do seu matrimónio, crentes que as crises se podem, na maioria dos casos superar e sobretudo, que no fim isso vale a pena.

E entre nós, que andamos sempre atrasados? Parece que queremos aceitar e até impor a ideia de que se pode amenizar o impacto altamente negativo que a separação dos pais causa nos filhos. Há quem fale em “divórcios bem conseguidos”, coisa que eu não sei o que é. Mas deixo uma pergunta: Bastará aos filhos que os Pais se entendam «burocraticamente» acerca das suas vidas, como dois sócios de uma firma comercial acerca da melhor estratégia a adoptar para obter bons resultados?

Não. É muito pouco. Os filhos não são mercadorias que devam ser rentabilizados em termos de educação; são pessoas; são seres humanos que amam e desejam ser amados.

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