A tolerância e a intransigência

S. Tomás de Aquino a respeito da tolerância escreve: “no regime humano a autoridade tolera com acerto alguns males para não impedir alguns bens ou para que não se incorra em males piores”. Estas palavras levam-nos a uma inequívoca existência e oposição entre o bem e o mal e ao mesmo tempo à irrecusável tolerância que em determinadas situações se deve ter para com quem faz o mal. O mal tolera-se e sofre-se, mas o bem defende-se e difunde-se. É bom não perder de vista que tolerar o mal não significa que este se converta em bem – continua sendo mal.

A definição de S. Tomás inclui o verbo permitir, mas a tolerância, actualmente, não distingue entre cometer, autorizar e permitir. Assim autorizar significa dar autoridade a alguém para fazer qualquer coisa e permitir tem sentido se não acarretar castigo.  O moderno conceito de tolerância baseia-se no indiferentismo e no relativismo, ou seja, na convicção de que não há bens absolutos que devam ser defendidos, nem verdades objectivas perante as quais não se pode ceder. A tolerância que se apoia no relativismo é herança de Voltaire, que considerava que ninguém possui a verdade.

O relativismo é assim um modo subjectivo de encarar os factos: é bom ou mau, verdadeiro ou falso o que eu considero como tal. Octávio Paz, Prémio Nobel de Literatura em 1990, no seu livro Itinerários, admite o relativismo com grande benevolência, escrevendo: “deu-nos muitas coisas boas e a melhor entre elas foi a tolerância, o reconhecimento do outro”. Apesar desta afirmação, acaba por reconhecer que o relativismo qual felix culpa, que nos trouxe a tolerância, arrastou uma lista de males que não se podem ocultar.  

Ficamos assim frente-a-frente com a tolerância tomista que distingue o bem do mal, o verdadeiro do falso, e a tolerância volteriana para quem tudo é relativo e portanto objecto de tolerância. Octávio Paz chega porém, a um conceito de tolerância, que como o tomista, distingue o bem do mal. Na obra citada diz: “A tolerância implica que, ao menos na esfera pública, as nossas convicções religiosas e morais não sejam obrigatórias para todos, mas só para aqueles que connosco as partilham”. Coisa idêntica nos aparece no Concílio Vaticano II: “Os homens de hoje tornam-se cada vez mais conscientes da dignidade de agir segundo a própria convicção e com liberdade responsável, não forçados por coacção mas levados pela consciência do dever”. (Dignitatis humanae, nº 1).

O relativismo é uma forma velada de niilismo. Em nome da tolerância, nalguns países, é proibido o ensino de qualquer religião nas escolas estatais. Apoiando-se no princípio de que não se deve impor uma religião determinada, acaba-se por impor que não se ensine nenhuma. Todo aquele que sustenta convicções firmes hoje em dia é chamado fundamentalista. Mas é intolerância ter convicções firmes? Não. O fundamentalista, sim, é intolerante pois é inflexível e pode mesmo recorrer à força física para impor as suas convicções aos outros. Pelo contrário o cristianismo tem mantido ao longo dos tempos uma atitude de dinâmica interna em que não deseja que o mundo seja como é, ainda que se tenha feito cristão, mas que deseja que se mantenha cristão com o decorrer dos tempos.

E que dizer da intransigência? Pela tolerância qualquer pessoa está autorizada a difundir o que considera verdadeiro; pela intransigência não pode impor a verdade, ainda que seja a verdade absoluta. A tolerância não vai nunca contra os fundamentos da verdade, mas torna amável a convivência. Podemos fazer concessões sem atraiçoar a verdade, como podemos ser intransigentes sem faltar à caridade e à cordialidade.  A intransigência tem o seu campo no que pertence à verdade absoluta; no opinável, podemos com a ajuda de um diálogo franco e construtivo, trocar pontos de vista e ser tolerantes. Aquele com quem tratamos pode estar em campo oposto, mas o respeito pela pessoa deve levar-nos a entender as suas razões. O respeito é compreensão e não concordância.  Não se pode fazer confusão: uma coisa é o respeito pela pessoa, como pessoa; outra é a aceitação de que tudo pode ser verdadeiro, bastando que alguém o afirme – isso é comodismo, oportunismo ou espírito acomodatício, para evitar complicações – no fundo é uma manifestação de covardia.

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