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CONCÍLIO VATICANO II - DEI VERBUM,
SOBRE A REVELAÇÃO DIVINA
A santa Igreja, expressando os
votos de 2.344 (contra apenas seis) de seus mais eminentes filhos, reunidos no
Concílio Vaticano II, na Sessão Pública do dia 18 de novembro de 1965, promulgou
o seguinte documento, que reproduzimos na íntegra:
CONSTITUIÇÃO DOGMÁTICA DEI VERBUM
SOBRE A REVELAÇÃO DIVINA
Paulo Bispo, Servo dos Servos de
Deus, juntamente com os Padres do Sagrado Concílio, para perpétua memória do
acontecimento: Constituição Dogmática sobre a Revelação Divina.
INTRODUÇÃO 1 A Palavra de Deus é
religiosament auscultade com coragem proclamada pelo Concílio, que faz suas as
palavras de São João: Nós vos anunciamos a vida eterna, que estava no Pai e se
nos manifestou: nós vos anunciamos o que vimos e ouvimos - para que vós também
estejais em comunhão conosco e a nossa comunhão seja com o Pai e com seu Filho
Jesus Cristo ( I Jo 1, 2-3). Por isto, seguindo as pegadas dos Concílios
Tridentino e Vaticano I, este Santo Concílio se propõe expor a genuína doutrina
acerca da Revelação Divina e de sua transmissão a fim de que, pelo anúncio da
salvação, o mundo inteiro ouvindo creia, crendo espere, esperando
ame.1
I. A REVELAÇÃO COMO TAL Natureza
e objeto da Revelação 2 Aprouve a Deus, em sua bondade e sabedoria,
revelar-se e tomar conhecido o mistério de sua vontade (cf. Ef 1, 9), pelo qual
os homens têm, no Espírito Santo, acesso ao Pai e se tornam participantes da
natureza divina por Cristo, Verbo feito carne (cf. Ef 2, 18; II Pe 1, 4).
Mediante esta revelação, portanto, o Deus invisível (cf. Col 1, 15; I Tim 1,
17), levado por seu grande amor, fala aos homens como a amigos ( cf. Êx 33, 11;
Jo 15, 14-15), entretém-se com eles (cf. Bar 3, 38) para convidá-los à
participação de sua intimidade. Esta economia da Revelação se concretiza através
de acontecimentos e palavras intimamente conexos. Assim, as obras realizadas por
Deus na História da Salvação manifestam e corroboram os ensinamentos e as
realidades significadas pelas palavras. Estas, por sua vez, proclamam as obras e
elucidam o mistério nelas contido. No entanto, o conteúdo profundo da verdade
comunicada por esta revelação a respeito de Deus e da salvação do homem se nos
manifesta em Cristo que é ao mesmo tempo mediador e plenitude de toda a
revelação.2
Preparação da Revelação
Evangélica 3 Criando pelo Verbo o universo (cf. Jo 1, 3) e conservando-o,
Deus proporciona aos homens, nas coisas criadas, um permanente testemunho de si
mesmo (cf Rom 1, 19-20). Além disso, no intuito de abrir o caminho de uma
salvação superior, manifestou-se a si mesmo desde os primórdios a nossos
primeiros pais. E após a queda destes, havendo prometido a redenção, alentou-os
a esperar uma salvação (cf. Gên 3, 15) e velou permanentemente pelo gênero
humano, a fim de dar a vida eterna a todos aqueles que, pela perseverança na
prática do bem, procuram a salvação (cf. Rom 2, 6-7). A seu tempo, Deus chamou a
Abraão, a fim de fazer dele um grande povo (cf. Gên 12, 2-3), ao qual, após os
Patriarcas, foi educando por meio de Moisés e dos Profetas a reconhecê-lo como
único Deus vivo e verdadeiro, Pai providente e justo juiz, e a esperar o
Salvador prometido. E assim foi Deus preparando, ao longo dos séculos, o caminho
para o Evangelho.
Cristo completa a Revelação 4
Depois de ter falado em muitas ocasiões e de diversos modos pelos Profetas,
ultimamente, nesta etapa final, Deus nos falou por seu Filho (Heb 1, 1-2). Com
efeito, ele enviou seu Filho, o Verbo eterno que ilumina todos os homens, para
que habitasse entre eles e lhes expusesse os arcanos de Deus (cf. Jo 1, 1-18).
Jesus Cristo, portanto, Verbo feito carne, enviado como homem aos homens,3 fala
a linguagem de Deus (Jo 3, 34) e consuma a obra salvífica que o Pai lhe confiou
(cf Jo 5, 36; 17, 4). Eis por que ele, ao qual quem vê vê também o Pai (cf Jo
14, 9), pela plena presença e manifestação de si mesmo por palavras e obras,
sinais e milagres, e especialmente por sua morte e gloriosa ressurreição dentre
os mortos e, enfim, pelo Espírito de verdade enviado, realiza e completa a
revelação e a confirma, atestando de maneira divina que Deus está conosco para
libertar-nos das trevas da morte e do pecado e para ressuscitar-nos para a vida
eterna. A economia cristã, pois, em sua qualidade de aliança nova e
definitiva, jamais passará, e não há que esperar nenhuma nova revelação pública
antes da gloriosa manifestação de Nosso Senhor Jesus Cristo (cf. I Tim 6, 14; Tt
2, 13).
A Revelação deve ser recebida na
fé 5 Ao Deus que revela deve-se a obediência da fé (Rom 16, 26; cf. Rom 1, 5;
II Cor 10, 5-6), pela qual o homem livremente se entrega todo a Deus, prestando
ao Deus revelador um obséquio pleno do intelecto e da vontade4 e dando
voluntário assentimento à verdade por ele revelada. Para que se preste essa fé,
exigem-se a graça prévia e adjuvante de Deus e os auxílios internos do Espírito
Santo, que move o coração e converte-o a Deus, abre os olhos da mente e dá a
todos suavidade no consentir e crer na verdade.5 A fim de tornar sempre mais
profunda a compreensão da Revelação, o mesmo Espírito Santo aperfeiçoa
continuamente a fé por meio de seus dons.
As verdades reveladas 6 Pela
revelação divina quis Deus manifestar-se e comunicar-se a si mesmo e os decretos
eternos de sua vontade acerca da salvação dos homens, a saber, para fazer
participar os bens divinos, que superam inteiramente a capacidade da mente
humana.6 Este sacrossanto Concílio professa que Deus, princípio e fim de
todas as coisas, pode ser conhecido com certeza pela luz natural da razão humana
a partir das coisas criadas (cf Rom 1, 20); mas ensina que se deve atribuir à
sua revelação o fato de mesmo na presente situação do gênero humano se poderem
conhecer por todos e de modo acessível e com sólida certeza e sem mistura de
nenhum erro aquelas coisas que em matéria divina não são de per si inacessíveis
à razão humana.7
II. DIVINA REVELAÇÃO TRANSMISSÃO
DA
Os Apóstolos e seus sucessores,
pregoeiros do Evangelho 7 Em sua extrema benignidade, Deus tomou providências
a fim de que aquilo que ele revelara para a salvação de todos os povos se
conservasse inalterado para sempre e fosse transmitido a todas as gerações. Por
isto o Cristo Senhor, em quem se completa toda a revelação do Sumo Deus (cf. II
Cor 1, 20; 3, 16-4, 6), ordenou aos Apóstolos que o Evangelho, prometido antes
pelos Profetas, completado por ele e por sua própria boca promulgado, fosse por
eles pregado a todos os homens como fonte de toda verdade salvífica e de toda
disciplina de costumes, comunicando-lhes dons divinos.8 E isto foi fielmente
executado tanto pelos Apóstolos, que na pregação oral, por exemplos e
instituições, transmitiram aquelas coisas que receberam das palavras, da
convivência e das obras de Cristo ou que aprenderam das sugestões do Espírito
Santo, como também por aqueles Apóstolos e varões apostólicos que, sob
inspiração do mesmo Espírito Santo, puseram por escrito a mensagem da
salvação.9 Mas para que o Evangelho sempre se conservasse inalterado e vivo
na Igreja, os Apóstolos deixaram como sucessores os Bispos, a eles transmitindo
o seu próprio encargo de Magistério.10 Portanto, esta Sagrada Tradição e a
Sagrada Escritura de ambos os Testamentos são como o espelho em que a Igreja
peregrinante na terra contempla a Deus, de quem tudo recebe, até que chegue a
vê-lo face a face como é (I Jo 3, 2).
CONCÍLlO VATICANO II - DEI VERBUM,
SOBRE A REVELAÇÃO DIVINA
A Sagrada Tradição 8 Assim, a
pregação apostólica, expressa de modo especial nos livros inspirados, devia
conservar-se sem interrupção até a consumação dos tempos. Por isto os Apóstolos,
transmitindo aquilo que eles próprios receberam (cf. I Cor 11, 23; 15, 3),
exortam os fiéis a manter as tradições que aprenderam seja oralmente, seja por
carta (cf. II Tes 2, 15) e a combater pela fé uma vez transmitida aos santos
(cf. Jdr 3).11 Quanto à Tradição recebida dos Apóstolos ela compreende todas
aquelas coisas que contribuem para santamente conduzir a vida e fazer crescer a
fé do Povo de Deus, e assim a Igreja, em sua doutrina, vida e culto, perpetua e
transmite a todas as gerações tudo o que ela é, tudo o que crê. Esta
Tradição, oriunda dos Apóstolos, progride na Igreja sob a assistência do
Espírito Santo.12 Cresce, com efeito, a compreensão tanto das realidades como
das palavras transmitidas, seja pela contemplação e estudo dos que crêem, os
quais as meditam em seu coração (cf. Lc 2, 19.5 1), seja pela íntima compreensão
que desfrutam das coisas espirituais, seja pela pregação daqueles que com a
sucessão do episcopado receberam o carisma autêntico da verdade. É que a Igreja,
no decorrer dos séculos, tende continuamente para a plenitude da verdade divina,
até que se cumpram nelas as palavras de Deus. O ensinamento dos Santos Padres
testemunha a presença vivificante dessa Tradição, cujas riquezas se transfundem
na praxe e na vida da Igreja que crê e ora. Pela mesma Tradição toma-se
conhecido à Igreja o Cânon completo dos Livros Sagrados e as próprias Sagradas
Escrituras são nela cada vez melhor compreendidas e se fazem sem cessar
atuantes. E assim o Deus, que outrora falou, mantém um permanente diálogo com a
esposa de seu dileto Filho, e o Espírito Santo, pelo qual a voz viva do
Evangelho ressoa na Igreja e através da Igreja no mundo, leva os fiéis à verdade
toda e faz habitar neles abundantemente a palavra de Cristo (cf. Col 3,
16).
Relação entre a Tradição e a
Sagrada Escritura 9 A Sagrada Tradição e a Sagrada Escritura estão, portanto,
estreitamente conexas e interpenetradas. Ambas promanam da mesma fonte divina,
formam de certo modo um só todo e tendem para o mesmo fim. Com efeito, a Sagrada
Escritura é a fala de Deus enquanto é redigida sob a moção do Espírito Santo; a
Sagrada Tradição, por sua vez, transmite integralmente aos sucessores dos
Apóstolos a palavra de Deus confiada por Cristo Senhor e pelo Espírito Santo aos
Apóstolos para que, sob a luz do Espírito de verdade, eles em sua pregação
fielmente a conservem, exponham e difundam. Resulta, assim, que não é através da
Escritura apenas que a Igreja consegue sua certeza a respeito de tudo que foi
revelado. Por isso, ambas - Escritura e Tradição - devem ser recebidas e
veneradas com igual sentimento de piedade e reverência.13
Relação da Tradição e da Bíblia
com a Igreja e o Magistério 10 A Sagrada Tradição e a Sagrada Escritura
constituem um só sagrado depósito da palavra de Deus confiado à Igreja. Em se
lhe apegando firmemente, o povo santo todo, unido a seus Pastores, persevera
continuamente na doutrina dos Apóstolos e na comunhão, na fração do pão e nas
orações (cf. 1, 42 ), de sorte que se verifica, da parte de Antístites e de
fiéis, uma singular convergência no conservar, praticar e professar a fé
transmitida.14 O ofício de interpretar autenticamente a palavra de Deus
escrita ou transmitida15 foi confiado unicamente ao Magistério vivo da Igreja,16
cuja autoridade se exerce em nome de Jesus Cristo. Tal Magistério não está acima
da Palavra de Deus, mas a seu serviço, não ensinando senão o que foi
transmitido, no sentido de que, por mandato divino e com a assistência do
Espírito Santo religiosamente ausculta aquelas palavras, santamente a guarda e
fielmente a expõe. E deste único depósito da fé o Magistério tira tudo aquilo
que nos propõe como verdade de fé divinamente revelada. Fica, portanto, claro
que segundo o sapientíssimo plano divino a Sagrada Tradição, a Sagrada Escritura
e o Magistério da Igreja estão de tal maneira entrelaçados e unidos que um perde
sua consistência sem os outros e que, juntos, cada qual a seu modo, sob a ação
do Espírito Santo, contribuem eficazmente para a salvação das almas.
III. INSPIRAÇÃO DIVINA DA BÍBLIA E
SUA INTERPRETAÇÃO
Inspiração e verdade na Sagrada
Escritura 11 As coisas divinamente reveladas, que se encerram por escrito na
Sagrada Escritura e nesta se nos oferecem, foram consignadas sob influxo do
Espírito Santo. Pois a Santa Mãe lgreja, segundo a fé apostólica, tem como
sagrados e canônicos os livros completos tanto do Antigo como do Novo
Testamento, com todas as suas partes, porque, escritos sob a inspíração do
Espírito Santo (cf. Jo 20, 31; II Tim 3, 16; II Pe 1, 19-21; 3, 15-16), eles têm
em Deus o seu autor e nesta sua qualidade foram confiados a mesma Igreja. 17 Na
redação dos livros sagrados Deus escolheu homens, utilizou-se deles sem
tirar-lhes o uso das próprias capacidades e faculdades,18 a fim de que, agindo
ele próprio neles e por eles,19 consignassem por escrito, como verdadeiros
autores, aquilo tudo e só aquilo que ele próprio quisesse.20 Portanto, já que
tudo o que os autores inspirados ou os hagiógrafos afirmam deve ser tido como
afirmado pelo Espírito Santo, segue-se que devemos confessar que os livros da
Escritura ensinam inconcussamente, fielmente e sem erro a verdade que Deus para
nossa salvação quis fosse consignada por escrito.21 Por isso, toda a Escritura é
inspirada por Deus, e útil para ensinar, para repreender, para corrigir e para
formar na justiça. Por ela, o homem de Deus se torna perfeito, capacitado para
toda boa obra (II Tim 3, 16-17).
Como interpretar a Sagrada
Escritura 12 Entretanto, já que Deus na Sagrada Escritura falou através de
homens e de modo humano,22 deve o intérprete da Sagrada Escritura, para bem
entender o que Deus nos quis transmitir, investigar atentamente o que foi que os
hagiógrafos de fato quiseram dar a entender e por suas palavras aprouve a Deus
manifestar. Para descobrir a intenção dos hagiógrafos, deve-se levar em
conta, entre outras coisas, também os gêneros literários. Pois a verdade é
apresentada e expressa de maneiras bem diferentes nos textos de um modo ou outro
históricos, ou proféticos, ou poéticos, bem como em outras modalidades de
expressão. Ora, é preciso que o intérprete pesquise o sentido que, em
determinadas circunstâncias, o hagiógrafo, conforme a situação de seu tempo e de
sua cultura, quis exprimir e exprimiu por meio de gêneros literários então em
uso.23 Pois, para corretamente entender aquilo que o autor sacro haja
intencionado afirmar por escrito, é necessário levar devidamente em conta tanto
as nossas maneiras comuns e espontâneas de pensar, falar e contar, as quais já
eram correntes no tempo do hagiógrafo, como as que costumavam empregar-se no
intercâmbio humano daquelas eras.24 Mas como a Sagrada Escritura deve ser
também lida e interpretada naquele mesmo Espírito em que foi escrita,25 para bem
captar o sentido dos textos sagrados, deve-se atender com não menor diligência
ao conteúdo e à unidade de toda a Escritura, levada em conta a Tradição viva da
Igreja toda e a analogia da fé. Cabe aos exegetas trabalhar esforçadamente
dentro destas diretrizes para mais aprofundadamente entender e expor o sentido
da Sagrada Escritura, a fim de que, por seu trabalho de certo modo preparatório
amadureça o julgamento da Igreja. Pois tudo o que concerne à maneira de
interpretar a Escritura está sujeito em última instância ao juizo da Igreja, que
exerce o mandato e ministério divino de guardar e interpretar a palavra de
Deus.26
Condescendência de Deus 13 Na
Sagrada Escritura, portanto, manifesta-se, resguardada sempre a verdade e
santidade de Deus, a admirável condescendência da eterna Sabedoria, a firn de
que conheçamos a inefável benignidade de Deus, e de quanta acomodação de
linguagem usou, providente e cuidadoso que é de nossa natureza.27 Pois as
palavras de Deus expressas por línguas humanas se fizeram semelhantes à
linguagem humana, tal como outrora o Verbo do Pai Eterno, havendo assumido a
carne da fraqueza humana, se fez semelhante aos homens.
CONCILIO VATICANO II - DEI VERBUM, SOBRE A
REVELAÇÃO DIVINA
IV. O ANTIGO
TESTAMENTO
A história da Salvação nos livros
do Antigo Testamento 14 O amantíssimo Deus, querendo e preparando
solicitamente a salvação de todo o gênero humano, por singular disposição
escolheu para si um povo ao qual confiaria as promessas. Contraída a aliança com
Abraão (cf. Gên 15, 18) e através de Moisés com o povo de Israel (cf. Êx 24, 8),
Deus se revelou por palavras e ações como o único Deus verdadeiro e vivo. Israel
fez assim a experiência dos caminhos de Deus para com os homens e, falando o
próprio Deus pela boca dos Profetas, cada vez mais profunda e claramente os
compreendeu e deles deu testemunho diante dos povos (cf. Sal 21, 28-29; 95, 1-3;
Is 2, 1-4 ; Jer 3, 17). Mas a economia da salvação, prenunciada, narrada e
explicada pelos autores sagrados, subsiste como verdadeira palavra de Deus nos
livros do Antigo Testamento. Eis por que esses livros divinamente inspirados
conservam um valor perene: Tudo quanto outrora foi escrito, foi escrito para a
nossa instrução, a fim de que, pela perseverança e pela consolação que dão as
Escrituras, tenhamos esperança (Rom 15, 4).
Importância do Antigo
Testamento para os cristãos 15 A economia do Antigo Testamento estava
ordenada principalmente para preparar a vinda de Cristo, redentor de todos, e de
seu Reino Messiânico, para anunciá-la profeticamente (cf. Lc 24, 44; Jo 5, 39; I
Pe 1, 10) e dá-Ia a conhecer através de várias figuras (cf. I Cor 10, 11). Os
livros do Antigo Testamento, em conformidade com a condição do gênero humano dos
tempos anteriores à salvação realizada por Cristo, manifestam a todos o
conhecimento de Deus e do homem e os modos pelos quais o justo e misterioso Deus
trata com os homens. Estes livros, embora contenham também algumas coisas
imperfeitas e transitórias manifestam, contudo, a verdadeira pedagogia divina.28
Por isto, devem ser devotamente recebidos pelos cristãos esses livros que
exprimem um sentido vivo de Deus e contêm sublimes ensinamentos acerca de Deus e
uma salutar sabedoria concernente à vida do homem e admiráveis tesouros de
preces, nos quais enfim está latente o mistério de nossa salvação.
Unidade dos dois testamentos 16
Deus, pois, inspirador e autor dos livros de ambos os Testamentos, de tal modo
dispôs sabiamente, que o Novo estivesse latente no Antigo e o Antigo no Novo se
aclarasse. 29 Com efeito, embora Cristo tenha estabelecido uma Nova Aliança em
seu sangue (cf. Lc 22, 20; I Cor 11, 25), contudo, os livros todos do Antigo
Testamento, recebidos na pregação evangélica,30 obtêm e manifestam seu sentido
completo no Novo Testamento (cf. Mt 5, 17; Lc 24, 27; Rom 16, 25-26; II Cor 3,
14-16), e por sua vez o iluminam e explicam.
V. O NOVO
TESTAMENTO
Excelência do Novo
Testamento 17 A Palavra de Deus, que é a força de Deus para a salvação de
todo o que crê (cf. Rom 1, 16), é apresentada e manifesta seu vigor de modo
eminente nos escritos do Novo Testamento. Com efeito, quando chegou o tempo
estabelecido (cf. Gal 4, 4), o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de
graça e de verdade (Jo 1, 14). Cristo instaurou na terra o Reino de Deus, por
fatos e por palavras deu a conhecer o Pai e a si próprio, e completou sua obra
com a morte, ressurreição e gloriosa ascensão e com o envio do Espírito Santo.
Levantado da terra atrai todos a si (cf. Jo 12, 32). Ele é o único que tem
palavras de vida eterna (cf. Jo 6, 68). Este mistério, porém, não foi
manifestado a outras gerações como foi revelado agora aos seus santos Apóstolos
e Profetas no Espírito Santo (cf Ef 3, 46) para que pregassem o Evangelho,
suscitassem à fé em Jesus Cristo e Senhor e congregassem a Igreja. Os escritos
do Novo Testamento são testemunho perene e divino destas coisas.
Origem apostólica dos
Evangelhos 18 Ninguém desconhece que entre todas as Escrituras, mesmo as do
Novo Testamento, os Evangelhos gozam de merecida primazia, uma vez que
constituem testemunho por excelência da vida e da doutrina do Verbo Encarnado,
nosso Salvador. Que os quatro Evangelhos têm origem apostólica, a Igreja
sempre e em toda parte o ensinou e ensina. Pois, aquilo que os Apóstolos
pregaram por ordem de Cristo, eles próprios e os varões apostólicos sob a
inspiração do Espírito Santo no-lo transmitiram em escritos que são o fundamento
da fé, a saber, o quadriforme Evangelho - segundo Mateus, Marcos, Lucas e
João.31
Índole histórica dos
Evangelhos 19 A Santa Mãe Igreja firme e constantemente creu e crê que os
quatro mencionados Evangelhos, cuja historicidade afirma sem hesitação,
transmitem fielmente aquilo que Jesus, Filho de Deus, ao viver entre os homens,
realmente fez e ensinou para salvação deles, até o dia em que foi elevado (cf.
At 1, l-2). Os Apóstolos, após a ascensão do Senhor, transmitiram aos ouvintes
aquilo que ele dissera e fizera, com aquela mais plena compreensão de que
gozavam, instruídos que foram pelos gloriosos acontecimentos concernentes a
Cristo32 e esclarecidos pela luz do Espírito da verdade.33 Os autores sagrados
escreveram os quatro Evangelhos, escolhendo certas coisas das muitas
transmitidas ou oralmente ou já por escrito, fazendo síntese de outras ou
explanando-as com vistas à situação das igrejas, conservando enfim a forma de
proclamação, sempre de maneira a transmitir-nos verdades autênticas a respeito
de Jesus.34 Pois foi esta a intenção com que escreveram, seja com fundamento na
própria memória e recordações, seja baseado no testemunho daqueles que foram
desde o princípio testemunhas oculares e que se tornaram ministros da Palavra,
para que conheçamos a solidez daqueles ensinamentos que temos recebido (Lc 1,
2-4).
Os demais escritos do Novo
Testamento 20 O cânon do Novo Testamento contém, além dos quatro Evangelhos,
também as cartas de São Paulo e outros escritos apostólicos exarados sob
inspiração do Espírito Santo. É através deles que, por um sábio desígnio de
Deus, é confirmado o testemunho de Cristo Senhor, é mais e mais elucidada a sua
genuína doutrina, anuncia-se o poder salvífico da obra divina de Cristo,
narram-se os inícios e a admirável difusão da Igreja e se prenuncia a sua
gloriosa consumação. Pois o Senhor Jesus, conforme prometera, assistiu seus
Apóstolos (cf. Mt 28, 20) e lhes enviou o Espírito Paráclito que deveria
conduzi-los à plenitude da verdade (cf. Jo 16, 13).
VI. A SAGRADA ESCRITURA NA VIDA DA
IGREJA
A Igreja venera as Sagradas
Escrituras 21 A Igreja sempre venerou as divinas Escrituras, como sempre
venerou ao próprio corpo do Senhor, já que sem cessar toma da mesa da palavra de
Deus e do Corpo de Cristo o pão da vida e o serve aos filhos. Sempre as teve e
tem, juntamente com a Tradição, como suprema regra de sua fé, porque, inspiradas
por Deus e consignadas por escrito uma vez para sempre, comunicam imutavelmente
a palavra do próprio Deus e fazem ressoar através das palavras dos Profetas e
Apóstolos a voz do Espírito Santo. É necessário, portanto, que toda pregação
eclesiástica, como a própria religião cristã, seja alimentada e orientada pela
Sagrada Escritura. Nos Livros Santos, com efeito, o Pai que está nos céus vem
carinhosamente ao encontro de seus filhos e com eles fala. E é tão grande a
força poderosa que se encerra na palavra de Deus, que ela constitui sustentáculo
vigoroso para a Igreja, firmeza na fé para seus filhos, alimento da alma, perene
e pura fonte da vida espiritual. Por tudo isto, aplicam-se perfeitamente à
Sagrada Escritura estas palavras: A palavra de Deus é viva e eficaz (Heb 4, 12),
poderosa para edificar e repartir a herança entre os santificados (Ar 20, 32;
cf. I Tes 2, 13).
Traduções corretas e
adequadas 22 É preciso que o acesso à Sagrada Escritura seja amplamente
aberto aos fiéis. Por isso, desde o início a Igreja acolheu como sua e conhecida
antiquíssima versão do Antigo Testamento, chamada dos Setenta; e tem sempre em
honrosa consideração as outras versões orientais e as versões latinas,
principalmente a chamada Vulgata. Porém, como a palavra de Deus deve estar à
disposição de todas as épocas, pede a Igreja com materna solicitude se façam
versões corretas e adequadas para as diversas línguas, sobretudo a partir dos
textos originais dos livros sagrados. Se se julgar oportuno, as traduções
poderiam contar com a colaboração dos irmãos separados e, prévia anuência da
autoridade eclesiástica, poderiam ser utilizadas por todos os
cristãos.
Empenho dos estudiosos e
especialistas 23 A Esposa do Verbo Encarnado, a Igreja, instruída pelo
Espírito Santo, se esforça para conseguir cada dia uma compreensão mais profunda
da Sagrada Escritura, a fim de incessantemente nutrir seus filhos com os
ensinamentos divinos. Por esta razão, fomenta devidamente o estudo dos Santos
Padres do Oriente e do Ocidente e das Sagradas Liturgias. É preciso que os
exegetas católicos e todos aqueles que se dedicam à Sagrada Teologia, unindo
corajosamente suas forças, procurem, com meios aptos, investigar e apresentar,
sob a vigilância do Magistério, as divinas Letras, de maneira que o maior número
possível de ministros da divina Palavra possa frutuosamente fornecer ao Povo de
Deus o alimento das Escrituras que ilumine a mente, fortaleça as vontades e
inflame os corações dos homens para o amor de Deus.35 Este concilio encoraja os
filhos da Igreja que se dedicam aos assuntos bíblicos a que com todo o esforço
prossigam de acordo com o sentir da Igreja, na execução do trabalho felizmente
empreendido, com cotidiana renovação de forças.36
Importância da Sagrada Escritura
para a Teologia 24 A Sagrada Teologia tem por base, como seu perene
fundamento, a palavra escrita de Deus junto com a Sagrada Tradição, e neste
fundamento ela se fortalece firmissimamente e sempre se remoça perscrutando à
luz da fé toda a verdade encerrada no mistério de Cristo. Ora, as Sagradas
Escrituras contêm a palavra de Deus e, porque inspiradas, são verdadeiramente
palavra de Deus. Por isto, o estudo das Sagradas Páginas seja como que a alma da
Sagrada Teologia.37 Nesta mesma palavra da Sagrada Escritura também se nutre
salutarmente e santamente floresce o ministério da palavra, a saber, a pregação
pastoral, a catequese e toda a instrução cristã, na qual deve ter lugar de
destaque a homilia litúrgica.
Recomenda-se a leitura da Sagrada
Escritura 25 Eis por que é necessário que todos os clérigos, sobretudo os
sacerdotes de Cristo e os outros que, como diáconos ou catequistas,
legitimamente se consagram ao ministério da palavra, se apeguem às Escrituras
Sagradas, mediante assídua leitura e cuidadoso estudo das mesmas, para que não
venha a ser vão pregador da palavra de Deus externamente, quem a ela não presta
ouvido interiormente,38 quando, especialmente na Sagrada Liturgia, tem que
comunicar aos fiéis a si confiados as vastíssimas riquezas da palavra divina. O
Concílio exorta igualmente, com ardor e insistência, a todos os fiéis cristãos,
especialmente aos religiosos, a que, pela frequente leitura das divinas
Escrituras, alcancem esse bem supremo: o conhecimento de Jesus Cristo (Flp 3,
8). Porquanto ignorar as Escrituras é ignorar Cristo.39 De bom grado, pois, vão
ao próprio texto sagrado, quer pela Sagrada Liturgia, repleta da divina palavra,
quer pela piedosa leitura, quer por cursos apropriados e outros meios que, com a
aprovação e empenho dos Pastores da Igreja, hoje em dia louvavelmente se
difundem por toda parte. Lembremse, porém, que a leitura da Sagrada Escritura
deve ser acompanhada pela oração, a fim de que se estabeleça um colóquio entre
Deus e o homem. Pois ¨com ele falamos quando rezamos, a ele ouvimos quando lemos
os divinos oráculos. 40 Cabe aos sagrados Pastores, depositários da doutrina
apostólicas,41 educar oportunamente os fiéis que lhes foram confiados para o
correto uso dos livros divinos, sobretudo do Novo Testamento e dos Evangelhos,
por meio de versões dos textos sagrados acompanhadas das explicações necessárias
e realmente suficientes, a fim de que os filhos da Igreja, segura e utilmente,
se familiarizem com as Escrituras Sagradas e de seu espírito fiquem
imbuídos. Além disso, façam-se edições da Sagrada Escritura munidas de
apropriadas anotações, para uso também dos não-cristãos e adaptadas à situação
deles. E, tanto os Pastores de almas como os cristãos de qualquer condição,
inteligentemente procurem difundi-las de todos os modos.
Conclusão 26 Assim, pois, com a leitura
e o estudo dos Livros Sagrados, se propague e seja estimada a palavra do Senhor
(II Tes 3, I), e o tesouro da Revelação confiado à Igreja cada vez mais tome
conta dos corações dos homens. Assim como a vida da Igreja se desenvolve pela
assídua participação no mistério eucarístico, assim é lícito esperar um novo
impulso de vida espiritual de uma acrescida veneração pela palavra de Deus, que
permanece eternamente (Is 40, 8; cf. I Pe 1, 23-25). Todo o conjunto e cada
um dos pontos que foram enunciados nesta Constituição Dogmática pareceram bem
aos Padres Conciliares. E nós, em virtude do Poder Apostólico a nós confiado por
Cristo, juntamente com os Veneráveis Padres, no Espírito Santo os aprovamos,
decretamos e estatuímos. E o que foi determinado em Concílio mandamos seja
promulgado para a Glória de Deus. Roma, junto de São Pedro, no dia 18 de
novembro de 1965. Eu, Paulo, Bispo da Igreja Católica. Seguem-se as
assinaturas dos Padres Conciliares... 1Cf S. Agostinho: De Catech. rudibus,
IV, 8. 2Cf. Mt 11, 27; Jo 1, 14.17; 14, 6; 17, 1-3; II Cor 3, 16; 4, 6; Ef 1,
3-14. 3Carta a Diogneto, VII, 4. 4Conc. Vat. I: Const. dogm. de fide cath., III,
sobre a fé. 5Conc. de Orange II: Cânon 7 - Conc. Vat. I: 1
cit. 6Conc. Vat. I: Const. dogm. de fide cath., cap. II, sobre a revelação. 7lbidem.
8Cf. Mt 28, 19-20; Mc 16, 15 - Conc. Trid.: IV, sobre os livros canônicos.
9Conc. Trid.: 1, cit. - Conc. Vat. I: III. 2, sobre a revelação. 10S. Ireneu,
Adv. Haer., III, 3, 1. 11Conc. Niceno II - Conc. Constant. IV: X, 1. 12Cf. Conc.
Vat. I: Const. dogm. de fide cath., IV, sobre a fé e a razão. 13Cf. Conc. Trid.:
1, cit. 14Cf. Pio XII: Const. Munificentissimus Deus, lembrando as palavras de
S. Cipriano: A Igreja, povo reunido a seu Sacerdote, grei unida a seu Pastor
(Epist. 66, 8). 15Cf. Conc. Vat. I: Const. dogm. de fide cath., III, sobre a fé.
16Cf. Pio XII: Enc. Humani Generis. 17Cf. Conc. Vat. I: Const. dogm. de fide
cath., II, sobre a revelação - Pontifícia Comissão Bíblica, decr. 18-7-1915 -
Santo Ofício, Carta 22-12-1923. 18Cf. Pio XII: Enc. Divino Afflante Spiritu.
19Em e pelo homem: cf. Hb 1, 1 e 4,7 (em): II Sm 23, 2; Mt 1, 22 e numerosos
outros lugares (por) - Conc. Vat. I: Esquema sobre a doutrina católica, nota 9.
20Leão XIII: Enc. Providentissimus Deus. 21Cf. S. Agostinho: Gen. ad litt. 2, 9,
20; Epist. 82, 3 - S. Tomás: De Ver. q. 12, a. 2, C - Conc. Trid.: IV, sobre os
livros canônicos - Leão XIII: Enc. Providentissimus - Pio XII: Enc. Divino
afflante Spiritu. 22S. Agostinho: e Civ. Dei, XVII, 6.2.23S. Agostinho: De Doctr
Christ., III, 18, 26. 24Pio XII: I. cit. 25Cf. Bento XV: Enc. Spiritus
Paraclitus - S. Jerônirno: In Gal. 5,19-21. 26Cf. Conc.Vat. I: Const. dogm. de
fide catholica, II, sobre a revelação. 27S. João Crisóstomo: In Gen. 3,8
(hom.17,1). [Acomodação (attemperatio) em grego se diz synkatábasis.] 28Pio XI:
Enc. Mit Brennender Sorge. 29S. Agostinho: Quaest. in Hept. 2,73. 30S.Ireneu:
Adv. Haer. III, 21,3 - S. Cirilo de Jerusalém: Catech. 4,35- Teodoro de Mops.:
In Soph. l, 4-6. 31Cf. S. Ireneu: Adv. Haer III, 11,8. 32Cf. Jo 14, 26; 16, 13 .
33Jo 2, 22; 12, 16 ; cf 14, 26; 16, 12-13; 7, 39. 34Cf. Conselho Pont. para os
Estudos Bíblicos: Instrução Sancta Mater Ecclesia. 35Cf. Pio XII: Enc. Divino
afflante Spiritu - Pont. Com. Bíblica: Instrução sobre o modo de ensinar a
Sagrada Escritura nos Seminários. 36Cf. Pio XII: Ibidem. 37Cf. Leão XIII: Enc.
Providentissimus - Bento XV: Enc. Spiritus Paraclitus. 38S. Agostinho: Serm.,
179, 1. 39S. Jerônimo: Comm. in Is., Prol. - Cf. Bento XV: Enc. Spiritus
Paraclitus - Pio XII: Enc. Divino afflante Spiritu. 40S. Ambrósio: De officiis
ministrorum 1, 20, 88. 41S. Ireneu, Adv. Haer, IV, 32, 1.
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